Notas iniciais
Oi gente, espero que não me matem muito por esse capítulo haha :s
Beijos.

Mykhaela acordou com três batidas na porta de madeira. A princípio ficou confusa ao olhar para o quarto, mas logo lembrou-se da noite passada. Abriu a porta com os olhos apertados pela luminosidade e inchados pelo choro da noite anterior. Viu Arthur com um olhar preocupado, um vinco em sua testa, ao lado de Robb.


"Pelos Deuses, Mykhaela, você nos assustou" Arthur despejou de forma sincera, sem os usuais 'princesa' ou 'vossa graça'.


"Me desculpe" Ela disse com a voz rouca e falha. "Eu me perdi"


"Estava explicando para ele, mas estava nervoso demais quando bateu em nossos portões aos gritos" Robb observou com certo repreendimento em sua voz.


"Peço desculpas, Vossa Graça" Mykhaela reverenciou o Rei e Arthur fez o mesmo, desculpando-se em seguida.


"Não há problemas, é seu papel defender sua princesa. Ela é uma convidada em Winterfell e você e seus homens ficarão bem instalados nos abrigos dos soldados"


"É muito bondoso de sua parte, Vossa Graça" Mais calmo, Arthur voltara a ser o bajulador de sempre.


"Sor Rodrik o acompanhará" Robb olhou para um terceiro homem que Mykhaela não havia notado até aquele momento. "Princesa, posso acompanhá-la no seu desjejum?"


"Sim, Vossa Graça" Sor Rodrik apontou o caminho para Arthur e ambos partiram.


Mykhaela sorriu e pediu um minuto a Robb, que prontamente lhe concedeu. Entrou no quarto e fez sua higiene matinal com um jarro de água quente que fora deixado ali mais cedo. Penteou os cabelos e colocou um vestido novo de lã cinza e prateado, as cores da casa Stark. Pensava ser um gesto de agradecimento ao jovem rei que a serviu tão bem. Finalmente saiu do quarto e Robb elogiou sua aparência, acompanhando-a até uma sala privada de refeições. Lá havia uma mulher de cabelos ruivos e dois garotos. Andaram até a mesa e os três levantaram-se.


"Mykhaela, está é minha mãe Lady Catelyn Stark e meus irmãos Bran e Rickon Stark"


As reverências foram feitas e Lady Catelyn sorriu para Mykhaela.


"Esta é Mykhaela de Orleans, Princesa do Reino de Iberia"


Mykha olhou para ele com indagação, mas Robb logo esclareceu que havia conversado com Arthur. Puxou uma cadeira na mesa cordialmente para ela e pediu que se servisse do que quisesse. Mykhaela estava faminta e serviu-se de tudo que seus braços pudessem alcançar, ainda que com a educação de uma lady. Após comerem Robb chamou Mykhaela para conhecer o Bosque Sagrado e ela aceitou prontamente. Andaram em silêncio por algum tempo até que Robb criou coragem para falar. Limpou a garganta enquanto ladeavam o lago.


"Mykhaela, posso parecer atrevido ou até apressado com isso, então peço desculpas" Ele procurou nos olhos dela um incentivo para continuar e logo encontrou. A jovem estava curiosa e sorriu para ele. "Não pude parar de pensar durante a noite sobre o que me disse. Sei que meu irmão é um homem bom e que não lhe tiraria a honra e abandonaria em seguida. Também sei que deve amá-la muito para quebrar o juramento da Patrulha"


Mykhaela assentiu com a cabeça e ficou em silêncio por um tempo.


"Jon é um homem bom. E acredite, ele carrega essa culpa consigo todos os dias"


"Não duvido. Mas infelizmente meu irmão não pode ser justo com você sem perder a própria vida. Sei que ele, apesar de justo, não tem o melhor bom senso e viria a seu encontro caso soubesse de sua condição"


"Não se preocupe, ele não sabe de nada. Ao menos desconfia"


"Ótimo" Robb sorriu compreensivo e mais aliviado. "Você sabe, princesa, um rei não se estabelece muito tempo sem uma rainha. Minha primeira esposa morreu da febre semanas depois de se juntar a mim no trono"


"Eu sinto muito" Mykhaela sentiu um estranho aperto no peito com aquela conversa, mas resolveu ignorar. Robb segurou no braço dela e parou em sua frente, encarando-a com os olhos claros.


"Sei que pode soar repentino, Mykhaela, mas não pude chegar a conclusão mais lógica. Você carrega uma criança Stark, uma criança que tem a vida ameaçada, assim como meu irmão. E eu necessito de uma rainha ao meu lado"


"O que quer dizer com isso?" Mykhaela temia as palavras dele e a combinação que faziam em sua cabeça.


"Case-se comigo, Mykhaela. É uma princesa, merece um reino. Eu assumirei a criança que carrega como minha e lhe protegerei como uma verdadeira Stark"


Mykhaela arfou e esqueceu de respirar por alguns segundos. Fechou os olhos e tentou organizar os pensamentos. O irmão de Jon queria desposá-la, o que aquilo significava?


"Sei que assusto-a com essas palavras, mas temo pela vida de meu irmão e pela sua. Pense, princesa, é o melhor a se fazer"


"Você tem certeza?"


"Eu lhe disse ontem que te ajudaria, Mykhaela. E assim o farei, cumprirei minha palavra. Minha posição pede que uma rainha bem nascida me acompanhe e não vejo mulher melhor que você"


"E em troca?"


"Não estou fazendo negócios com casamento, Mykhaela. Apesar de que os navios de seu pai podem me ajudar a segurar meu reino"


Ela acenou que sim com a cabeça. Era um preço baixo para o que ele lhe dava. Robb assumiria um bastardo como seu, filho de seu irmão. Salvaria a honra de Mykhaela, a vida de sua criança e de Jon, ignorando a deserção dele. Não havia o que pensar, o confortável não era uma opção agora. Tinha que aceitar o pedido.


"Eu sou sua, Vossa Graça"


Robb sorriu e tocou o rosto dela com compaixão. Sabia que não seria fácil, mas era sua melhor opção. Robb precisava de uma esposa tanto quanto Mykhaela precisava de um marido e ele esperava que seu irmão o perdoasse um dia, ou ao menos compreendesse sua atitude.


"Devemos marcar a cerimônia para logo, antes que os sinais apareçam em seu corpo"


"Sim, nós devemos" Mykhaela suspirou aliviada e sorriu para o seu futuro senhor, entendendo finalmente os sorrisos de Lady Catelyn para ela durante o desjejum. Robb deveria ter dividido com a mãe os desejos de desposar a recém chegada princesa. "Sua mãe, ela sabe?"


"Não. Ninguém sabe e ninguém deve saber. Esse segredo só estará salvo se permanecer entre nós"


"Jon?"


"Apenas se achar que ele não fará nada impensado que possa prejudicá-la ou a ele mesmo"


Mykhaela concordou com ele com um aceno de cabeça e pensou como Robb era um homem perspicaz. Olhou para o Jardim Sagrado de onde seria senhora em breve. Em seus mais delirantes sonhos nunca acreditou que se tornaria rainha de algum lugar ao sair de seu castelo em Iberia meses atrás. Desde que pisara em Westeros tudo era tão rápido e nauseante como o centro de um furacão deveria ser. Borboletas batiam asas sem parar em seu estômago e ela sabia que precisava de tempo para pensar naquilo tudo. Era muita coisa em pouco tempo.


–x-


Jon evitava passar por aquele corredor nas ultimas semanas. Ainda doía saber que não a veria mais por um longo tempo, quem sabe para sempre. Arrependia-se com todas as forças de seu ser por ter ficado com raiva tão cedo, por não ter sentido o gosto dela mais uma vez, o corpo dela no seu até o último momento. Clareou a mente quando ouviu a voz de Lord Mormont perguntando-lhe sobre o teor da carta de Robb.


"Ele disse que ficará contente em enviar mais homens assim que houverem mais. Também lhe pediu permissão para que eu fosse até Winterfell"


"Vossa Graça mencionou o por que?"


"Não, ele apenas disse que tinha assuntos a tratar comigo"


Jon parecia apático o tempo todo e mal ouviu quando Lord Mormont disse que não haveria problema e que colocaria Sam para assumir seu posto enquanto estivesse fora. Ele pensou que, se tivesse sorte o bastante, talvez encontraria Mykha no caminho, acampada em algum lugar, mas duvidava bastante. Até onde sabia, ela queria conhecer todos os sete reinos e provavelmente não se demoraria mais no norte. Ele arrumou a viagem e partiu uma semana exata após receber a carta do irmão com seu cavalo, sua espada e Fantasma, nada mais. Foi uma viajem demorada, mas Winterfell apareceu a seus olhos antes do que imaginava. Talvez porque seus pensamentos estavam cheios demais para perceber o tempo, o frio ou a fome. Fez poucas paradas, por isso, ao chegar aos portões da cidade estava cansado demais. Entregou o cavalo para um criado e observou Fantasma correr livre pelo local familiar antes de entrar no castelo e entender o que realmente acontecia. Havia música alta e um barulho de banquete, muitas pessoas conversando. Abriu a porta do grande salão e viu uma multidão que ria, bebia e comemorava. Havia flores de verão enfeitando o salão e Jon já não entendia mais nada. Um dos soldados de seu pai — agora de seu irmão — o reconheceu e cumprimentou.


"Snow! Achei que não chegaria a tempo"


Jon se limitou a forçar um meio sorriso ainda sem entender a comemoração exagerada que se passava ali. Andou até o elevado que continha uma mesa, onde se sentava Lady Catelyn, Rickon e Bran. Assim que se aproximou ouviu a risada sonora de Robb e sentiu tapas em seu ombro.


"Robb"


"Jon"


Abraçou o irmão que há tempo não via. Ele parecia mais velho, como um senhor deveria parecer, pensou Jon.


"O que está acontecendo?" Snow sorria sinceramente pela primeira vez em muito tempo. Sentia saudades da cidade natal e do irmão de um jeito que só conseguia medir agora, na presença deles.


"Jon!" Ouviu vozes de crianças gritando logo atrás dele e virou-se a tempo de ver Bran sendo levado até ele por Hodor e Rickon se jogar em seus braços. Riu e ajoelhou-se na altura dos meninos abraçando ambos com um sorriso grande demais no rosto.


"Você já conheceu a noiva, Jon?" Rickon perguntou extasiado.


"Noiva?"


"Sim, a noiva de Robb" Bran falou antes que o irmão mais novo pudesse responder.


"Não, eu ainda não a conheci" Jon sorriu e se levantou, encarando Robb com um olhar de dúvida.


Robb tinha os olhos azuis nevoados, com um ar de receio. Jon estranhou, mas nada disse enquanto Robb puxava pela mão uma jovem que estava de costas, com o vestido mais bonito do salão e uma coroa na cabeça. Esperava ver qualquer pessoa ali. Qualquer uma menos ela. Foi um golpe duro em seu coração e Jon ao menos conseguiu fingir uma expressão mais agradável.


"Eu não acredito" Jon disse ultrajado, encarando Mykhaela com ódio.


"Me deixe explicar, Jon" Ela disse com cautela na voz e Robb se posicionou protetoramente entre os dois.


"Acalme-se, Jon. Você deve estar cansado da viagem, porque não vai até seu quarto por alguns minutos?" Robb tentou parecer razoável, mas a reação de Jon já chamava atenção de quem estava por perto.


"Não será preciso, Vossa Graça. A sua noiva" Jon levantou um copo com vinho que pegou numa mesa próxima, brindando a união com dor na voz e virando o conteúdo do copo de uma só vez, dando as costas aos dois e indo em direção a uma mesa de soldados, onde se serviu de mais vinho.


"Eu falarei com ele, não se preocupe" Robb disse, beijando a mão de Mykhaela com um olhar compreensivo. Ela acenou afirmativamente com a cabeça e observou Robb se distanciar para falar com o irmão.


"Algum problema, minha querida?" Lady Catelyn parou ao lado de Mykhaela com curiosidade no olhar.


"Não, nenhum, minha senhora. Acho que Jon está cansado da viagem, apenas" Colocou seu melhor sorriso no rosto e acompanhou Lady Stark de volta até a mesa.


O salão grande do castelo de Winterfell estava em silêncio completo. Todos os olhos estavam voltados para o casal em frente a meistre Luwin, que terminava suas palavras e atava as mãos dos dois juntas. Jon observava tudo dos fundos, de pé, ao lado da porta, acompanhado apenas por uma jarra de vinho. Os olhos o traíam, embaçados, mas a embriaguez não tornava aquilo mais fácil. Viu quando sua adorável Mykhaela virou-se de frente para seu amado irmão, olhando nos olhos dele. Passou a mão pelo rosto, limpou a visão. Viu por um milésimo de segundo o olhar dela encontrar o dele e então ele sabia que aquele havia sido o último momento que ela o pertencia. Então ela olha para ele. E ele a possuía.


"Pai, Ferreiro, Guerreiro, Mãe, Donzela, Senhora, Estranho"


E então as palavras ensurdeceram os ouvidos de Jon. Ele era dela e ela era dele. E Jon permanecia ali, espectador de sua própria desfortuna. Testemunha da traição que tirou a vida de seu coração. Fechous os olhos, suspirou, abriu-os de novo. Até o fim dos dias, dos seus, dos dele, dos dela. Até o fim dos dias eles estariam juntos e ele sozinho. Assistiu enquanto Robb beijava os lábios que um dia foram dele e apenas dele. Queria fazer um escândalo, dizer a todos que aquilo não era certo. Queria gritar que já a havia comido e que o irmão apenas recolhia os restos que eram seus. Não era sempre o contrário? Jon não fora sempre destinado aos restos de Robb? Queria que todo o reino, do Norte ao Sul, soubesse que Robb Stark foderia os restos de Jon Snow, o bastardo. Mas limitou-se a beber mais um copo de vinho. Estava sonolento demais para um escândalo. Ouviu os votos de felicidade como se estivesse em cada canto do salão ao mesmo tempo. 'Viva a Rainha', eles diziam. Mas mal sabiam que a rainha era uma puta interesseira, que se livrou do bastardo após a diversão para se agarrar ao Rei. Tentou levantar, andar até eles e gritar; mas apenas conseguiu cambalear até uma mesa que o segurou da queda.


"Seu irmão não está bem" Mykhaela sussurrou ao pé do ouvido de Robb.


"Vou pedir para alguém colocá-lo no seu quarto"


"Não, Robb. Deixe que eu falo com ele"


"Você tem certeza?"


"Sim"


"Tenha cuidado, ele está machucado e bêbado"


"Eu terei" Ela sorriu para seu senhor e se afastou, caminhando lentamente até Jon. Não sabia o que dizer, mas sabia que se não falasse nada ele poderia cometer alguma irresponsabilidade.


"Jon" Parou ao lado dele, que se equilibrava ridiculamente ao lado da mesa, agarrado a uma jarra de vinho.


"Vossa Graça" Ele tentou fazer uma reverência, mas desequilibrou-se e segurou no braço dela para não cair, fazendo-a se desequilibrar também. Com sorte Mykhaela segurou-se na mesa e conseguiu deixar os dois de pé. Um dos soldados se aproximou.


"Está tudo bem, Vossa Graça?"


"Sim, obrigada. Você poderia me ajudar a levar Lord Snow até seu quarto?"


"Sim, Vossa Graça" O soldado pegou Jon pelo braço, que reclamou um pouco mas acompanhou-o.


Mykhaela procurou Robb com o olhar, mas ele estava distraindo sua mãe e ela se sentiu aliviada, saindo do salão e seguindo os dois. O soldado jogou Jon na cama, que caiu pesado, os olhos querendo se fechar, apesar dele lutar contra.


"Obrigada, meu senhor" Mykhaela agradeceu o homem que saiu do quarto enquanto ela caminhava até uma mesa no canto do quarto, despejando água morna de um jarro na bacia de metal ao lado dela. Umedeceu um tecido na água e andou até Jon, descansando-o em sua testa.


"Se sente melhor?"


Jon tocou a mão dela que segurava o tecido e abriu bem os olhos, lutando com a sonolência que o vinho causava. Sentou-se na cama, ainda segurando a mão dela e tentou beijá-la, mas Mykhaela virou o rosto. Cada parte daquele dia machucava Jon cada vez mais e ele desejava apagar tudo de sua memória.


"Por que?" Perguntou com a voz rouca e baixa, olhando-a nos olhos. Mykhaela segurou a mão dele, tranzendo-a para perto de si até tocar seu ventre. Jon demorou um longo tempo até conseguir entender o gesto dela. "Não!" Exclamou consternado.


"Sim" Ela disse de forma suave.


"Por que não me disse?"


"Porque suas atitudes o matariam"


"Você já sabia? Quando me deixou?"


Mykhaela fechou os olhos, acenando que sim com a cabeça.


"Mykhaela, pelos deuses, por que não me disse?"


"Pra que, Jon? Você nunca quis filhos e eu não o faria morrer por isso"


"Eu morreria por você, pela sua honra"


"E no que isso difere de agora? De nenhuma maneira eu te teria"


"Robb?"


"Ele sabe. Ele o fez para nosso bem, não tenha raiva dele, Jon"


"Como o achou?"


"Ele me achou na verdade. Estava acampada não muito longe daqui quando recebi a carta que você me mandou. A carta de meu pai. Ele está vindo para cá, Jon. Esperava me encontrar casada e tudo que eu esperava era uma criança sem pai"


"Esse é meu filho" Jon puxou o corpo de Mykhaela para perto do dele, colando sua testa na dela.


"Esse é o filho de Robb Stark"


Jon soltou um soluço. Sentia-se ainda mais fraco chorando na frente dela, embriagado e machucado.


"Não! Esse é meu filho e você é minha, Mykhaela"


"Eu sou dele"


"Você é minha" Ele gritava, apertava os braços dela, numa urgência violenta de proteger o que era dele.


"Jon, me solta"


"Não! Você é minha, você não é dele. Ele pode levar-me tudo, mas não levará você de mim"


"Jon, por favor" Lágrima saíam dos olhos de Mykhaela, aquilo a machucava tanto quanto Jon. As mãos dele ainda apertavam com força os braços dela, que já estava doloridos.


"De ninguém mais, você é minha" Jon a deitou na cama sob os protestos de Mykhaela. Ele não percebia a violência de seus gestos enquanto tentava beijar-lhe a boca.


"Jon, solte-a" Ouviram uma voz ecoar como trovão no quarto e Jon virou-se para encarar os olhos azuis do irmão.


"Como ousa?" Levantou-se, andando até o irmão em tom ameaçador. "Como ousa tomar minha mulher? Meu filho?"


"Acalme-se, Jon" Robb segurou os braços do irmão e fechou a porta do quarto. Olhou para Mykhaela que levantava da cama e se afastava. "Você está bem?"


Mykhaela respondeu com um soluço e afirmou que sim com um aceno.


"Vamos conversar? Calmamente como dois irmãos?"


Jon fungou, limpou uma ou outra lágrima que saiu de seus olhos e concordou com a cabeça.


"Não fiz isso para te desrespeitar, Jon. Você compreende porque fiz isso? Eu a encontrei perdida na Mata dos Lobos, desesperada por esperar uma criança sua e não poder te dizer. Sei que não pode cumprir o que sua honra pede por vestir o negro, meu irmão. Então tomei de você esse dever. Cuidarei de Mykhaela como você cuidaria, e criarei seu filho como meu. E vendarei meus olhos para sua deserção, Jon"


Jon ouviu as palavras com cuidado e tomou longos minutos antes de responder. Olhou para Mykhaela envergonhado pela atitude de mais cedo.


"Desculpe-me"


Mykhaela aceitou as desculpas com um sorriso triste e tímido.


"Queria que tudo fosse diferente, mas não posso cuidar de você ou de nossa criança"


"Eu sei, Jon. Não é sua culpa"


"Eu não a confiaria a ninguém melhor que você, Robb"


"Eu prometo que a farei feliz, Jon"


"Eu sei que fará"


"Sua criança é um Stark e será criada como um Stark"


"E não como um bastardo" Jon disse com certa mágoa.


"Você precisa descansar, Jon. Conversaremos melhor amanhã, mas fico tranquilo que já sabia da verdade"


"Claro. Vocês devem ter suas coisas de casal para fazer" Foi ácido e corroeu pelo peito de Mykhaela ouvir a dor nas palavras dele.


"Descanse, Jon" Robb disse finalmente e levantou-se, indo até a porta com Mykhaela o acompanhando. Deixaram o quarto de Jon, que em sua solidão não suportava imaginar as mãos de seu irmão em sua princesa naquela noite.


–x-


Mykhaela vestiu uma camisola de linho, soltou os cabelos e andou até a cama. Robb estava deitado encarando o teto com o braço apoiando a cabeça e uma expressão indecifrável. Sentou-se ao seu lado e suspirou, melancólica. Tinha sorte, pensou. Ele era um homem bom e a estava salvando. Mas não podia evitar pensar que ao se deitar ao lado dele traía Jon. Escorregou o corpo para baixo das peles e imitou Robb, encarando o teto. Constrangimento formava uma parede entre os dois. Ela não sabia como agir ou o que fazer. Com Jon era tão natural e fácil. Sentiu a mão de Robb escorregar por baixo das peles e encontrar a sua, fazendo um carinho gostoso e compreensivo. Tomou coragem e olhou para ele, encontrando o azul oceano dos olhos do marido.


"Não se preocupe, Mykhaela. Nada precisa acontecer essa noite"


Ele estava sério, apesar das palavras saírem doces de sua boca. Ela não sabia direito como responder aquilo. É claro que não se sentia no humor para consumar seu casamento com Robb com a discussão que teve com Jon mais cedo. E também não se prendia às falsas tradições que sairiam dali. Não havia honra para Robb tomar para si. Ela entrelaçou os dedos aos dele, tirando a mão de ambos debaixo das peles e trazendo a dele até sua boca, onde depositou um beijo tímido. Era sua forma de agradecer, de tentar construir uma intimidade. Sabia que Robb não esperaria para sempre. Ele sorriu para ela e a observou tremer de frio. Puxou as peles e cobriu a si mesmo, segurando a mão dela sobre o peito dele e fechando os olhos.


"Boa noite, minha senhora"


"Boa noite, meu senhor"