Theres No Winter Without Summer

26 Capítulo Vinte e Cinco


Notas iniciais
Oi gente, tudo bem com vocês?
Agora que ta todo mundo contente com a morte do Theon me sinto mais segura haha com vocês não querendo me matar pelos reviews com as maldades que fiz com Mykhaela. Nesse capítulo ela vai ter um momento feliz e um momento triste. Espero que gostem!
Boa leitura.

Mykhaela gastou um bom tempo no caminho, mas valera a pena. Desceu pela enorme escadaria de pedra branca dos fundos do castelo até chegar à costa de areia branca e águas azuis. Aquela parte do litoral era particular do rei e da corte e Mykhaela passou muitas tardes quentes de sua infância e juventude naquelas areias. Os olhos doíam um pouco com a claridade, mas não se importava. Olhar para o céu azul de Iberia era como olhar para os olhos azuis de Robb e ela só conseguia pensar nele. O cabelo estava cheio de areia, mas não se importava. Era gostoso senti-la morna em seu corpo e era aconchegante deitar-se ali novamente, ouvir o mar e sentir a brisa úmida. Naquela manhã acordou animada para começar os preparativos de volta para Westeros, mas ninguém parecia muito determinado a deixar uma mulher no fim da gravidez atirar-se ao mar. Decidiu, com certa relutância, que esperaria o nascimento de seu filho para partir, o que demoraria um mês mais ou menos, pelas contas do galei do castelo. As contas batiam as do Meistre Luwin, como Mykhaela esperou. Os galei eram como os meistres de Westeros, porém cuidavam apenas das doenças das pessoas e dos animais. Era uma ordem antiga e muito respeitada em Iberia.

Apesar da sensação familiar não se sentia bem ali. Não mais. Sua casa agora era outra, ela era outra. A jovem irresponsável e aventureira evoluiu no meio do caminho. Sentia falta do filho acima de todos. Queria muito saber como estava Eddard, se ele estava bem e se sentia sua falta também. Mas pelo menos não estava mais naquele navio e Greyjoy não podia mais aterrorizá-la. Sabia de seu destino desde que prometeu a ele casamento e um reino. Sabia que tudo terminaria ali, com a espada dela no pescoço dele. Perguntava-se se Robb viu a verdade por trás dos planos dela, se ele percebeu que ela mentira pra salvá-lo e que voltaria. Esperava que sim. Tudo que ela mais queria era voltar para Winterfell, abraçar o filho, o marido, a irmã. E Jon, sentia muita falta de Jon. Ele gostaria de uma mudança de clima para variar, do sol, do mar, da areia. Achava que Jon, acima de todos, gostaria de conhecer Lumiar.

“Mykha”

Ela virou o olhar na direção da sombra que se aproximava e viu Rickard sentar ao seu lado em silêncio. Ele a observou por um tempo e suspirou, voltando os olhos para encarar o mar.

“Você está bem?”

Mykhaela não conseguia esconder muita coisa de Rickard e assim que a pergunta dele preencheu seus ouvidos, lágrimas encheram os olhos dela e deslizaram pelas bochechas vermelhas do sol, caindo na areia morna. A rainha balançou a cabeça negativamente e Rickard estendeu a mão para acariciar sua barriga inchada.

“Nem me lembro mais de você sem essa barriga gigante. Toda vez que te vejo, desde que foi embora, você está grávida”

Ela sorriu pequeno e continuou a olhar nos olhos azuis esverdeados do amigo.

“Eu senti sua falta”

“Eu também sinto sua falta, Mykha. Todos os dias”

“Eu também sinto falta dele”

“De Jon ou de Robb?”

“Dos dois”

“Logo você estará de volta”

“Não tão logo quanto eu quero”

“Como eles deixaram as coisas sair tão fora do controle?” Rickard acariciou a bochecha de Mykhaela logo acima de um corte quase cicatrizado perto do olho esquerdo dela.

“Eu tive que fazer. Pra salvá-lo”

“E se machucar tanto no meio do caminho?”

“Eu não podia deixá-lo morrer sem fazer nada”

Rickard suspirou meio contrariado, voltando a olhar o mar. Limpou a garganta e mordeu o canto interno do lábio, decidindo as palavras que deveria usar.

“Seu pai está doente”

“Eu sei”

“Como? Não falou com ele desde aquele dia no salão do trono”

“Vi nos olhos dele. Não têm mais brilho nem força, só cansaço. E ele perdeu um bom tanto de cabelo desde que o vi em Winterfell. Eles sabem o que ele tem?”

“Não, ninguém sabe. Só que está tomando conta dele rápido demais”

“Meu pai é forte”

Mas não é imortal, Rickard quis dizer. “Sim, ele é. Que bom que veio, ele ficou bem mais disposto quando soube que você havia retornado”

“Gostaria que a viagem tivesse sido um pouco menos torturante”

“O importante é que ela já acabou”

-x-

Os gritos eram tão altos que ecoavam por toda a torre. Nas últimas 40 horas Mykhaela tinha contrações e dores a cada vez crescentes. Não achava que era possível sobreviver àquilo por mais tempo. Duas noites sem dormir, a única companheira era a dor. O galei, um senhor de meia idade com uma extensa barba grisalha e cabelos negros, chamado Leone, repetia as instruções, mas a voz não fazia muito sentido e as palavras se embaralhavam na cabeça de Mykhaela. Duas aias seguravam os joelhos dela separados enquanto outra limpava o suor de sua testa. Queria ter a mão de alguém pra apertar, a mão de Robb, mas o máximo que tinha naquele ponto eram as criadas. Rickard ficou dois minutos no quarto com ela até se sentir mal e inventar uma desculpa para sair. Fechou os olhos e fez força novamente até que um choro agudo deu lugar aos gritos de Mykhaela. Ela sorriu enquanto chorava, tentando ver o filho, mas o galei ainda o estava limpando com a ajuda de uma das aias. Não teve a oportunidade de perguntar se era um menino ou menina, a dor fez com que gritasse novamente enquanto o ventre se contraía com força. Mykhaela respirou forte, tentando focalizar a visão. Não estava preparada para aquilo realmente. Leone voltou-se para ela, examinando e olhando por cima do inchaço da barriga da rainha.

“Você tem outro bebê, Vossa Graça”

“O que?” Mykhaela disse um pouco confusa, tentando descobrir se ela tinha ouvido coisas ou se ele estava realmente falando com ela.

“Gêmeos. Vossa Graça tem gêmeos”

-x-

Mykhaela entrou no quarto do pai assim que um dos guardas pessoais dele abriu a porta para ela. Tinha os filhos um em cada braço e quando olhou o pai, ele sorriu. Estava sentado na cama, coberto até o peito e comendo um ensopado de algas e pequenos peixes. Ela sentou-se na poltrona ao lado do rei Moryn e observou enquanto ele depositava a tigela na mesinha ao seu lado.

“Eu não conseguir ir até você, filha. Me desculpe”

“Não precisa se desculpar, pai” Ela sorriu, mas sentiu no olhar dele que estava meio envergonhado por admitir que não conseguia levantar-se para ver os netos recém nascidos. Esticou os braços e Mykhaela colocou sobre as coxas dele na cama as duas crianças.

“Então esses são meus pequenos netos” Ele sorriu com algumas lágrimas fazendo seus olhos brilharem, apesar de ser orgulhoso demais para derrubá-las. “É tão estranho. Pra mim ainda é aquela menina de joelhos ralados e vestido sujo de barro”

“Eu queria tanto que pudesse conhecer Eddard, pai”

“Eu também, minha filha. Estes aqui são a cara do seu marido” Abaixou-se e beijou a testa deles. “Bryan e Marissa Stark. São bons nomes”

“Obrigada” Mykhaela permitiu que lágrimas deixassem seus olhos. Sentia a fraqueza na voz do pai e via em seu olhar o esforço que fazia para não expressar dor. Mas no mês que ficou em Iberia pode ver que a situação dele não era boa. Era frequente ouvi-lo gemer de dor durante a noite, ou os dias em que ele passava dormindo. Desde o dia da morte de Theon ela não o viu fora da cama, seus ossos estavam doloridos demais para mantê-lo em pé. Até ali ela via esforço dele em manter-se levemente sentado.

As crianças se aconchegaram no conforto da cama do avô e dormiram. Tinham a pele bem branca, os cabelos ruivos e os olhos azuis, assim como o pai. Bryan nasceu primeiro, um quilo mais forte que Marissa, que era um pouco menor do que ele. Eram a visão mais bela que teve em meses e ela queria tanto que Robb pudesse segurá-los nos braços logo e chamá-los de seus. De ser um bom pai como ele era para Eddard.

O pai também fechou os olhos cansados por alguns minutos, deixando o cômodo morrer em completo silêncio, mas logo as orbes esverdeadas a encararam de volta. Ele tinha vincos na testa, preocupação passando por seus olhos. Ele tentou escolher as palavras, sabendo que ela as rebateria logo em seguida.

“Não volte, minha Mykha”

Ela esperou alguns segundos. “Como assim, pai?”

“Ainda pode ser senhora de uma grande casa aqui. Sei que não é nada comparado com ser rainha, mas estará protegida”

“Pai-“ Ela começou, mas ele a interrompeu.

“Por favor. Você sabe como foi pra mim? Ver você chegar naquele estado, minha princesa? De te ver tão magra, com os olhos tão sem brilho, com o corpo machucado, violentado. Eu não te entreguei ao Stark pra que o mar te trouxesse de volta daquela forma. Ele me prometeu que te protegeria”

“Não foi culpa dele”

“Aquelas pessoas são diferentes demais de nós. Você tem um reino muito maior aqui e Phillip sempre terá um lugar pra você neste castelo, meu amor. Por favor, não volte”

“Meu filho está lá, pai”

“Você é mãe, você sabe o que é ter um filho. Mas não sabe o que é não poder fazer nada quando um filho é machucado. Você é minha menininha, Mykha”

“Eu sou uma mulher agora, pai”

“Não aos meus olhos. E menina ou mulher, aqui ninguém nunca a trataria daquele jeito”

“Eu fiz o que fiz porque o amo. Você sabe o que é isso, pai. Eu sei que sim”

Os cabelos castanhos balançavam-se como ondas ao redor dela enquanto saltitava até os aposentos da mãe. Seu vestido era verde claro, a cor preferida da Rainha Elyse. A seda suave rodopiava em volta do corpo pequeno quando ela abriu a porta e pulou junto da cama. A mulher permaneceu imóvel, os olhos fechados e as mãos descansadas ao lado do corpo. Mykhaela pegou a escova de cabelos e penteou os fios que estavam soltos, arrumando-os.

“Hoje Arthur me prometeu que levaria eu e Rickard para ver os navios chegarem no porto. Ele me disse que vem gente de um monte de lugares, lá das pontas de Iberia, de Athone e das Ilhas Médias também” Ela despejou as palavras enquanto trocava as flores do vaso ao lado da cama, sem olhar para mãe, já sabendo que não obteria resposta. Uma criada entrou no quarto e sorriu para a criança, que a ajudou a desfazer os laços da camisola da mãe e observou-a limpar o corpo dela com um pano úmido.

“A Rainha Elyse parece muito bem esta manhã, princesa Mykhaela”

“Sim, as bochechas dela têm cor de pêssego”

A menina sorriu e foi até a varanda espiar o mar. O sol brilhava no céu e a brisa do mar já era quente e úmida. Ela desviou a atenção da vista quando ouviu vozes do outro lado da porta do quarto e entrou no cômodo novamente para entender o que falavam. Um dos conselheiros de seu pai falava sobre a Rainha.

“Está morta, praticamente. Moryn, tem que se casar de novo. Elyse não é mais uma rainha, tem que substituí-la logo”

“Ela é mãe de meus filhos, Trant”

“E a copeira também é mãe de sua bastarda, isso não faz dela rainha”

“Cuidado com suas palavras, Trant”

“O que quero dizer, Vossa Graça, é que precisa de uma mulher ao seu lado para governar”

“Acha que não sei fazer meu trabalho sozinho?”

“Não é por você, é pelo povo. Eles querem uma rainha, uma que fale, que ande, que esteja nos bailes”

“O povo precisa de segurança, de comida e de trabalho. A minha mulher é Elyse e será assim até seu último suspiro”

Mykhaela olhou da porta para sua mãe, inerte na cama, os olhos agora abertos, mas sem focalizar nada. Seus olhos encheram-se de lágrimas e a vontade de ir ao porto ver os navios chegar morreu ali.

“Não deveria ouvir isso, princesa” A criada disse, impedindo Mykhaela de ouvir o que quer que Trant havia respondido. A porta abriu-se e revelou o rei e seu conselheiro entrando no cômodo. Mykhaela encarou com olhos de ódio o homem de barba amarelada e com lágrimas nos olhos, empurrou com sua força de criança a barriga mole e volumosa de Trant.

“Minha mãe não está morta, não está não. Seu idiota imbecil, minha mãe está viva, ta bom?”

Antes que alguém pudesse responder qualquer coisa a pequena saiu correndo pelos corredores até chegar em seu quarto. Arthur a esperava na porta do cômodo, a armadura de aprendiz e uma sombra de barba de um garoto de quinze anos. Ele juntou as sobrancelhas quando a viu chorando.

“O que foi, pequena?” Ajoelhou-se na altura dela e Mykhaela se jogou nos braços dele, chorando contra seu peito.

“Trant disse coisas feias sobre minha mãe” Ela fungou, a testa colada no metal frio era de alguma forma confortante.

“Não escute àquele velho barrigudo, ele não sabe de nada” Arthur beliscou o queixo dela e a pegou no colo, abrindo a porta do quarto da garotinha e entrando no cômodo com ela. Brincou de bonecas de pano com ela a manhã toda, apenas para ver brotar em seu rosto o sorriso sonhador que tanto adorava.

“No que pensa, minha princesa?”

“Na mamãe” Mykhaela sorriu pequeno para a lembrança. Não importava que no meio do caminho, após tantos anos de sua mãe estar acamada, seu pai por um instante deitou-se com outra mulher e gerou Alyssa. Não importava, porque até o fim, até o último suspiro dela, ele manteve sua promessa.

“Estou indo encontrá-la, filha”

“Não diga isso, pai” As lágrimas voltaram aos olhos de Mykhaela.

“Mas eu estou feliz. Phillip será um bom rei, eu sei. Demorará a aprender, mas será bom e justo. Fique do lado dele, filha. Mesmo longe, deixe que ele saiba que tem a você”

“Pai, por favor, não se despeça de mim”

“Diga a Eddard que eu gostaria muito de ter o conhecido”

“Você vai conhecê-lo, pai” Ela soltou um soluço e desviou os olhos do pai para olhar o irmão entrando no quarto. Phillip olhou para o pai com os olhos graves e Mykhaela logo o imitou. Mas quando voltou a encarar o esverdeado que herdara, não viu mais foco nem vida. “Pai! Papai, fale comigo” Mykhaela saltou da cadeira e segurou a mão inerte do pai. “Por favor, pai. Eu preciso de você” Ela disse entre soluços, sacodindo o corpo sem vida do Rei Moryn, tentando obter uma resposta. Phillip a abraçou, ajoelhado no chão ao lado dela e Mykhaela chorou por longos minutos nos braços dele. Agora estavam sozinhos no mundo. Sem mais ninguém.

Notas finais
Tem muitas coisas que eu gosto nesse capítulo. O momento de amizade da Mykha com o Rickard; o nascimento dos gêmeos (vocês perceberam os sinais que eu vim dando durante os capítulos anteriores?); o flashback da Mykha, mostrando a infância dela e um pouco do que aconteceu com a mãe dela, fato que eu não tinha colocado pra vocês até agora; no flashback também o momento em que mostra Arthur protegendo a Mykhaela, quando ela era uma criancinha e ele - obviamente - ainda não a via como uma mulher que ele queria; a morte do pai da Mykha também, que será um marco importante pro resto da história (que já está caminhando pro fim).
Uma coisa curiosa: quando eu mandei esse capítulo pra minha amiga ela riu muito do nome dos gemeos e eu fiquei sem entender porque. Só com ela falando que eu me toquei que foi super referência a The O.C. hahaha ok, coloquei Bryan no lugar de Ryan, mas ficou muito óbvio e eu nem tinha reparado. Saudades de The OC. E eu falo demais, eu sei.
Espero os reviews de vocês meninas!
Beijos.