Theres No Winter Without Summer

38 Capítulo Trinta e Sete


Notas iniciais
Oi gente, como foram de festas? Espero que bem. Que 2013 seja um ano ótimo pra todos.
Antes de tudo preciso me desculpar pelo erro do capítulo passado. Postei como trinta e oito, mas era trinta e seis.
Estou escrevendo o capítulo final e a história está bem próxima do fim. Vou sentir falta de vocês :(( Mas sem choro antecipado. Vamos ao capítulo.
Boa leitura.

O balanço do mar a fez reviver lembranças passadas, mas os fantasmas não a assustavam mais como antes. Ela tinha preocupações maiores naquele momento. Mesmo com o inverno e a umidade salgada do mar, a testa de Mykhaela possuía uma fina camada de suor. Seu peito doía onde o cristal estava descansado. Ou será que era seu coração que doía? Não sabia. Remexeu-se, incômoda, no pequeno beliche da embarcação. Queria acordar. Sabia que era um sonho. Ou não era? Robb parecia muito mais novo do que se lembrava, e seus olhos possuíam mais raiva do que ela imaginou. Por dentro ele parecia gritar por ajuda, mas por fora mantinha sua máscara real. Uma máscara que lhe pesava muito mais no rosto do que ela já havia visto. Ele a pegou pela mão e a guiou até ele. Beijou seus lábios, tocou seu corpo, tirou suas vestes. Estavam nus, no chão, suados, extasiados e entrelaçados. Mais tarde Robb brigava com a mãe, e nas profundezas da noite proferia palavras em frente a um represeiro. A imagem ficou desfocada, nevoenta, até fundir-se com o vermelho. Robb jazia morto, Talisa também. No lugar da cabeça dele estava a cabeça coroada de Vento Cinzento. No rio, nua, estava Lady Catelyn. Em algum lugar, muito longe, Sansa chorava. Quando se deu por si estava na Mata dos Lobos, sentada sobre uma pedra, abraçando os joelhos. Soluçava sem saber por que, até escorregar as mãos pelo ventre e se lembrar do motivo. Estava grávida e sozinha. E com medo. Com frio, com fome e perdida. Ela sabia tentou controlar o choro, certa do que viria em seguida. Apertou os olhos e tentou ouvir com mais atenção. Logo o som de cascos de cavalo ecoaria em seus ouvidos e Robb apareceria com seu manto quente e sua proteção. Esperou. Esperou muito tempo, mas ele nunca veio. Como haveria de vir? Havia morrido há muito tempo. Seu fantasma não podia salvá-la. Uma matilha de lobos a rodeou. Ela não era mais familiarizada com eles. Sentiu medo, soluçou alto, encolheu-se mais. Quando Arthur a achou na manhã seguinte, as lágrimas invadiram os olhos do cavaleiro. O ventre rasgado, parte do maxilar arrancado e pedaços da coxa e dos braços faltando, as vísceras jogadas de lado. Os lobos deixaram apenas o bastante para que ela fosse reconhecida. Incitou os homens, viajou de volta para o Norte. Entregou o corpo enegrecido e moribundo em Castelo Negro, aos pés de Jon Snow. O Patrulheiro ficou sem palavras. Arthur gritou a deserção dele para todos ouvirem. Gritou que ele colocara sua semente de bastardo em Mykhaela e por causa dele ela estava morta. Morta por lobos. Morta por ele. Jon mal reagiu quando Arthur tirou a espada da bainha. Ele só conseguia focalizar o rosto mordido dela, os olhos perdidos em algum lugar do céu, acima da cabeça dele. O aço entrou no peito de Jon com muita facilidade e ele caiu sobre o corpo dela num baque surdo. Os homens da Patrulha desembainharam suas espadas também. Os iberianos não tiveram a mínima chance. Logo o corpo de Arthur jazia no chão, a cabeça virada para sua adorável e morta princesa, envolvida pelo bastardo do Norte que tanto amou. Um corvo voou do alto para bicar os seus olhos. Mykhaela gritou, implorou que se afastasse. A nevoa voltara e dela surgiu uma figura que conhecia muito bem, mas com uma voz de que não se lembrava mais. A mão tocou o rosto dela com ternura e Mykhaela percebeu que tinha a parte do maxilar perdida de volta.

“Nunca se pergunte se é boa o bastante para ele, minha filha. Sem você Robb não seria feliz. Sem você Robb não estaria vivo. Nem você. Nem Jon. Nem o seu pequeno Eddard. Ele precisa de você, filha. Seja forte, Mykhaela. Seja forte. Forte.”

A voz se distanciou enquanto a luz branca a cegou. Abriu os olhos e percebeu que estava no escuro. Sua respiração falhava, ofegante, e ela puxava o ar para os pulmões como se nunca tivesse respirado antes. O jovem Sor Beren sacudiu Mykhaela gentilmente enquanto ela focalizava os olhos e se situava. Foi apenas um sonho. Um sonho muito ruim. Estava viva. Todos estavam. O jovem membro da Guarda Real limpou o suor da testa da rainha com gentileza e sorriu para ela.

“Que horas são, Sor Beren?”

“Meio dia, minha rainha. Devemos chegar dentro de mais algumas horas. Provavelmente à primeira luz da alvorada”

“Isso é bom” Mykhaela exibiu um sorriso pequeno pelos lábios brancos.

“Está se sentindo bem?”

“Sim, só um pouco zonza. Pode me trazer um pouco de pão e queijo, meu bom sor?”

“Claro, Vossa Graça” Ele levantou-se desajeitadamente e fez uma meia reverência antes de partir pela pequena porta de madeira.

Mykhaela levantou-se e vestiu-se. As pernas falharam e ela precisava constantemente se segurar para não cair. As imagens que vira em sonho trouxeram lágrimas aos seus olhos. Fechou-os e sentiu o suave toque da mãe. O peito apertou e sentiu saudades imensas do pai. Ele saberia o que fazer. Ele saberia o que dizer a ela. As imagens permaneceram em sua cabeça, atordoando-a e o resto da viagem pareceu durar apenas alguns minutos. Quando atracaram o navio na costa de Pedra do Dragão, Mykhaela pagou o capitão e foi de encontro a Jorah Mormont, que se aproximava com alguns homens ao seu encalço. Seus olhos relampejaram algum reconhecimento quando a viu de perto, subindo pela rampa do navio.

“Sor Jorah”

“Lady Stark”

“Você quer dizer Vossa Graça”

“A única e verdadeira rainha que reconheço não está nesse navio” A voz dele mostrava seu desprezo e Mykhaela resolveu ignorar. Estava cansada demais.

“Eu sinto muito pelo seu pai”

“O que tem o meu pai?” Ele juntou as sobrancelhas.

“Oh, me perdoe, Sor. Achei que sabia” Ela se sentiu mal por usar a morte de Jeor Mormont para tentar amaciar o filho, mas tinha coisas mais importantes em jogo. Em algum lugar um dragão gritou, fazendo os tripulantes se olharem com medo.

“Ele morreu em paz?”

“Ele morreu em sua cama” Mykhaela engoliu a saliva e apoiou a mão na espada embainhada. “Quero falar com Daenerys”

“Rainha Daenerys”

“Tenho algo que ela quer” Mykhaela tinha desafio nos olhos, não que isso afastasse de alguma forma a coragem de Sor Jorah.

“Seus homens podem ficar aqui. Eu a levarei”

“Ela não irá sozinha” Sor Beren disse, dando um passo a frente e Jorah o encarou com desprezo. Era apenas um rapaz verde, mesmo com suas habilidades em luta. Mykhaela o olhou docemente.

“Está tudo bem, Sor Beren. Sor Jorah manterá sua palavra de cavaleiro de me levar e me trazer de volta em segurança, não é mesmo Sor?”

Jorah analisou-a com desconfiança e fungou. “Sim. Trarei sua senhora em segurança”

“Muito bem. Fiquem aqui, por favor”

Mykhaela seguiu Jorah e seus homens até o castelo, onde entraram por um portão lateral e ela conseguiu dar uma olhada na quantidade absurdamente grande de pessoas que seguiram Daenerys até Pedra do Dragão. Diziam que havia muito mais, crianças, mulheres e idosos, mas ali Mykhaela apenas via guerreiros treinando outros guerreiros. Era um número não muito menor do que o do exército de Robb e isso a assustou. Onde ela havia conseguido tantas pessoas para lutar por sua causa? Quando foi introduzida no salão onde Dany se encontrava, Mykhaela pode sentir Jorah endireitar-se e se portar de maneira diferente. Achou engraçado, mas não demonstrou. Quando Daenerys olhou para ela, juntou as sobrancelhas e os olhos lilases ficaram curiosos.

“Vejo que voltou para Westeros”

“Vossa Graça” Mykhaela fez uma rígida reverência e Daenerys sorriu. “Vejo que também voltou”

“Acho que estamos ambas em casa” Atrás de uma jaula grande de aço resistente, um dos dragões de Daenerys soltou uma nuvem de fogo e fumaça, irritado.

“Ele está bem?”

“Não” Daenerys fez uma expressão claramente preocupada. “Ele está...” Ela parou, procurando palavras para descrever aquilo.

“Desobediente” Mykhaela completou e Dany concordou. Ela olhou para a iberiana com curiosidade e então apontou uma porta nos fundos do salão.

“Venha, Rainha Mykhaela. Quer conversar comigo, veio de tão longe”

Mykhaela acompanhou Daenerys e quando ficaram sozinhas, havia vinho em suas taças e comida na mesa. Mykhaela não estava com fome, mas bebericou o vinho e pegou um pedaço de pão de aveia e queijo duro.

“Como sabe que eles estão desobedientes?” Daenerys não fez rodeios e Mykhaela suspirou.

“Eu li isso. Num pergaminho antigo que encontrei”

“O que quer dizer?”

“Quando era princesa de Iberia era também guardiã dos segredos do reino, que estão uma caixa de madeira velha. Era uma ordem antiga, a das guardiãs e existe há muitos séculos desde a Grande Conquista. Eu nunca dei importância pra ela, mas fui guiada pelos deuses do meu marido a acha-la e abri-la. Eu achei isso” Mykhaela puxou a corrente e tirou o cristal para fora do vestido, revelando o brilho intenso. Estava mais intenso do que nunca.

“Continue” Os olhos lilases se perderam no cristal.

“Meu marido partiu para a guerra. Ele marcha contra Stannis, isso você deve saber”

“Temos um inimigo em comum, sim” Daenerys temia o que a iberiana proporia ali.

“Esses escritos falam da guerra. São antigos, mas falam da guerra sim. E da mulher vermelha de Stannis. Quando os seus dragões nasceram, Daenerys, muitas forças do mundo ganharam mais poder. Ela usa esse poder para dominar Stannis Baratheon. R’hllor. É ele quem está controlando seus dragões agora. Com você tão perto assim dela, ela conseguiu lançar feitiços para controla-los.”

“Você quer dizer que uma sacerdotisa qualquer controla meus dragões?”

“O deus dela tem poder sobre a luz e o fogo. Os seus dragões são a fonte mais poderosa de fogo que existe. Ela os está usando contra você mesma”

Dany fechou os olhos, absorvendo as palavras dela. Mykhaela esperava que ela entendesse. Se Stannis conseguisse realmente controlar os dragões de Daenerys, Robb estava perdido. Mas se ajudasse Daenerys ela poderia retribuir o favor e poupar o Norte.

“Por que está me dizendo isso?”

“Você quer o Trono de Ferro. Nós queremos o Norte. Se Stannis e a mulher vermelha dele controlarem seus dragões, ambos perdemos. Se nos juntarmos, destronamos Stannis”

“Eu atravessei meio mundo para estar aqui. Eu sou a Mãe de Dragões. Eu não preciso da sua ajuda”

“Uma mãe que não controla os filhos”

Daenerys levantou-se ao ouvir a ousadia que saía da boca de Mykhaela. Ficou em parte chocada e em parte ofendida.

“Se eu quiser que meus dragões te queimem basta-me dizer uma palavra”

“Se eles ainda te obedecessem, sim. Mas não é o caso, certo, Daenerys?”

Dany bufou com raiva. Ela não gostava de ser desafiada. Desde que os seus filhos nasceram ninguém ousava falar com ela naquele tom insolente sem sofrer as consequências. Mas Dany sabia sim que seus dragões não a obedeceriam agora. Isso a fez sentir-se fraca.

“O que você quer?”

“Eu posso te ajudar a ter seus dragões de volta”

“Suponho que queira manter o Norte em troca”

“Vejo que nos entendemos bem, Daenerys”

“Você está pedindo muito”

“Não, eu não estou. Eu estou salvando os seus filhos pra você. O mínimo que pode fazer é salvar os meus”

“Guerra significa morte, Mykhaela”

“Se minha família morrer, a sua também morrerá, Daenerys. Você tem três filhos. Eu tenho três filhos. Eles podem sobreviver e nós podemos ser felizes. Isso só depende de você aceitar”

“E se Stannis oferecer algo melhor e você me trair?”

“Stannis senta há alguns anos no Trono de Ferro e nunca reconheceu o Norte. Não acredito que ele reconhecerá agora”

“Se você propuser a ele o mesmo que propõe a mim, talvez”

“Não. Seja como for, estarei ao seu lado este tempo todo. Se jurar me proteger, se jurar manter o Norte sob o domínio Stark, se jurar que meus filhos continuarão protegidos de seus dragões como estão agora, eu te ajudo a conquistar o Trono de Ferro de uma vez por todas, Daenerys. Eu sou sua melhor chance”

“Assim como eu sou a sua”

Mykhaela concordou com a cabeça, suspirando. “Nós somos rainhas. Mas antes disso, nós somos mães. Pense nisso, Daenerys”

Quando se levantou para partir, Dany segurou sua mão e Mykhaela a olhou com esperança.

“Prove”

“O que quer dizer?”

“Se libertar um de meus dragões, o Norte é seu”

“E se você usá-lo para me matar?”

“Você terá que correr o risco”

“Você não confia em mim, não é?”

“Eu já fui enganada por uma maegi”

“Eu não sou uma maegi!” Mykhaela disse em tom ofendido. Mesmo em Iberia as artes negras de Asshai não eram bem reconhecidas.

“Então prove”

“Muito bem. Eu vou precisar de água do mar. Muita água do mar”

-x-

Robb estava sentado em sua tenda, uma de suas pernas se mexia repetidamente em nervosismo enquanto brincava com os próprios dedos, o rosto em fúria vermelha.

“Pode pular essa parte logo?”

“Quer que eu leia a carta ou não?” Rickon disse de forma emburrada. Estava farto do mau humor do irmão. Robb não respondeu e bufou irritado. “Tudo bem, vou pular a parte sobre os estoques de inverno” O Stark mais novo limpou a garganta e continuou. “Infelizmente a rainha ainda não chegou a Winterfell. Mandamos alguns homens bater o terreno até as Terras Acidentadas, mas eles não obtiveram sucesso. Talvez a rainha tenha desviado seu caminho até algum lugar. Correrrio também não obteve notícias dela. Os pequenos príncipes e a pequena princesa estão bem. O pequeno Cedrik também. Assim que tivermos notícias de Mykhaela enviaremos corvos para Vossa Graça”

Rickon terminou e observou Robb levantar, frustrado. Pelas costas do irmão podia ver o movimento rápido que fazia ao respirar e o som que saía de seus pulmões, como se ele estivesse sufocado com algo. Quando virou-se para Rickon, tinha lágrimas nos olhos. Se sentia estúpido. Um rei não deveria chorar.

“E se ela estiver morta?” Robb falou de forma meio engasgada. “Eu não posso ficar sem ela, Rickon”

“Ela não está, Robb. Tenho certeza que ela está bem. Talvez ela apenas tenha se atrasado um pouco”

“Faz meses que ela partiu, Rickon. Estamos quase em Porto Real e não há sinal dela”

“A viagem de volta demora, Robb. Você tem que se concentrar na batalha”

“Eu aposto que ela está fazendo de propósito. Ela não queria que eu lutasse de jeito nenhum”

“Mykhaela não te quer distraído das lutas, Robb. Você tem que se concentrar nisso”

“Se eu perder ela de novo nada disso faz sentido”

“Não fale assim! Você tem um reino, você tem filhos. E Mykhaela está bem”

“Pare de tentar amenizar as coisas, Rickon! Com a guerra as estradas estão mais e mais perigosas. Ela viajava com poucos homens. Stannis pode muito bem ter raptado ela. Ou qualquer grupo de vinte e tantas pessoas poderiam captura-la. Pelo que sabemos ela pode muito bem estar morta em uma vala qualquer”

“Ou ela pode estar seguindo você. Mykhaela desistiu fácil demais de conversar com você aqui. Sabe algum lugar que ela poderia estar? Podemos mandar alguns homens baterem o terreno em volta do acampamento”

“Eu não quero mais falar disso, Rickon. Deixe-me sozinho” Robb limpou a umidade dos olhos com as mãos e agarrou com força os cabelos, chutando um baú de madeira que jazia perto da cama. Não se atreva a estar morta, Mykhaela. Pelos deuses, não se atreva.

Notas finais
E aí, Mykhaela deve confiar na Dany ou não?
Deixem suas opiniões.
Beijos.