Notas iniciais
Oi gente, tudo bem? Estou quase de férias, isso significa que terei mais tempo para escrever e, quem sabe, postar com mais frequência.
Obrigada por lerem e espero reviews ♥
Espero que gostem.

Havia quatro meses desde que seu pai partira de volta para Iberia, após selar alguns laços políticos com Robb e ser convencido a deixar Alyssa ficar. Mykhaela estava satisfeita com a notícia. A garota havia ficado amiga de Sansa, o que deixou Beth Cassel um pouco enciumada, mas as três apreciavam a companhia uma da outra. Jon partira antes de seu pai e Mykhaela ou ninguém mais em Winterfell ouvira outra notícia sobre ele. O tempo passava depressa demais, achava ela, enquanto Osha a ajudava a sair da banheira e lhe entregava uma toalha. A barriga estava muito crescida e Mykhaela tinha dificuldades para se locomover por aí. Por isso, ficava em seu quarto na maior parte do tempo, confortável e quente. Nem sempre por sua vontade, mas Robb sempre inventava algo para que ela permanecesse ali e não arriscasse-se pelas escadas estreias de pedra do castelo. Escolheu um vestido vermelho de lã e escorregou para debaixo das peles para se proteger do frio que só parecia aumentar. As duas aias se retiraram do quarto e Mykhaela adormeceu sem perceber, pois quando abriu os olhos de novo, seu estômago roncava de fome e o sol parecia estar no meio do céu. Levantou-se e colocou sandálias de veludo, os únicos calçados que ainda entravam em seus pés inchados, e caminhou até a porta. Ouviu duas mulheres conversando e parou com a mão na fechadura para escutar direito.


"Fico pensando na pobre rainha, que está a descansar tranquila enquanto isso acontece bem debaixo de seu nariz"


"Pobre moça. Carrega o filho dele enquanto ele dorme com a criadagem"
"Que os deuses tenham piedade da alma do rei. O que Lord Stark diria se estivesse vivo ainda?"


Os olhos de Mykhaela arderam em lágrimas, mas ela as conteve, abrindo a porta num gesto brusco. As duas criadas pularam de susto, olhando para a rainha com expressões chocadas, temendo que ela tivesse as ouvido.


"Do que estão falando?"


"Vossa Graça" Ambas fizeram uma reverência e ficaram em silêncio.


"Vamos lá, me digam, do que falavam?"


"Vossa Graça não deveria ter ouvido"


"Pois Vossa Graça ouviu. E quero que me contem"


As mulheres abaixaram os olhos e a mais velha delas falou após um segundo ou dois de silêncio.


"Vossa Graça o rei-" Ela hesitou por um tempo e voltou a falar em seguida, quando Mykhaela a olhou com certa ameaça. "Possui uma amante, minha senhora"


"Você tem o nome?"


"Não sei, Vossa Graça. É uma cozinheira nova, não faz muito tempo que começou a trabalhar no castelo. Substitui a sua nova aia, a garota selvagem"


"Ela está na cozinha?" Mykhaela podia sentir o sangue borbulhar em suas veias. As duas se calaram. "Exijo que me falem onde ela está. E pela boa vontade ganham a discrição sobre onde descobri tudo isso"
"Ela sempre o espera esse horário no coração do bosque sagrado, Vossa Graça"


"Distraiam o rei"


Mykhaela respirou fundo, segurando as lágrimas que ardiam em seus olhos. Não queria acreditar naquela história, mas morreria corroída pela dúvida se não procurasse saber que fundamento tinha aquilo. É claro que sentira Robb distante nos últimos meses, mas achou que seu corpo, agora redondo como um melão de verão, não lhe era mais atraente aos olhos. E que assim que sua criança nascesse, Robb voltaria a desejá-la como antes. Entrou no quarto novamente, colocou sua capa e saiu a passos pesados, descendo as escadas da torre.


Quando chegou até a árvore coração do bosque sagrado de Winterfell, Mykhaela esperava estar sozinha. Esperava que fosse mentira aquilo que lhe falaram, mas ao invés disso encontrou uma mulher mais alta que ela, os cabelos castanhos como os troncos das árvores e esbelta sobre o vestido esverdeado, sujo de gordura. Mykhaela limpou a garganta e a mulher virou para ela assustada, fazendo uma breve reverência.


"Vossa Graça"


A jovem rainha sorriu e olhou em volta, encarando o lago de águas negras a sua frente. As águas estavam tão estáticas como sempre, mas pareciam mais sombrias naquele dia. Não sabia o que fazer, ou como fazer. Era uma mulher linda. Muito mais linda do que esperava e foi um golpe duro em seu coração. Arrumou a coroa incômoda em sua cabeça e voltou a encarar a mulher, que parecia nervosa.


"Estava rezando, senhora?" Mykhaela perguntou com um tom despreocupado, tentando esconder o nervosismo em sua voz.


"Sim" Talisa mentiu, evitando olhar nos olhos da rainha. Era a primeira vez que vira a rainha e só a reconheceu pela coroa. Era tão bonita quanto Robb dizia.


"O rei te deixou esperando?"


"Como?" O coração da morena disparou e ela podia sentir suas bochechas queimando.


"Desculpe-me, qual o seu nome mesmo?"


"Talisa, Vossa Graça"


"Possui um sotaque em sua voz, assim como eu. É de onde?"


"Volantis"


"Veio de muito longe para ser prostituta do rei"


"Não me importa se é rainha, não irá se referir a mim desse jeito"


"Bom, você sabe que o rei é casado, não sabe?"


Silêncio.


"Me responda, Talisa"


"Sim"


"E dorme com ele mesmo assim, não dorme?"


"Sim" Dessa vez a morena respondeu decidida.


"Não permitirei que me desrespeite em minha própria casa, entendeu?" Mykhaela se aproximou da mulher, desafiadora.


"Ele é meu muito antes de ser seu, criança"


"E é você que carrega essa coroa na cabeça? É você que dorme ao lado dele? Você é a sua senhora?"


"Não, eu não sou"


Ambas tinham os olhos cheios de lágrimas, que escorriam como torrentes por seus rostos. Eram como duas lobas, desafiando-se pelo mesmo homem.


"Ao menos respeita o filho dele!" Mykhaela se agarrou à barriga, o peito subindo e descendo enquanto respirava rápido sob a lã rubra.


"Filho dele, você diz?" A mulher destilou, aproveitando cada palavra enquanto saía de sua boca. Observou enquanto a expressão da jovem rainha caía em choque. A boca avermelhada de Mykhaela estava aberta e Talisa sustentou o olhar enquanto desaparecia entre as árvores. Quando sentiu que estava longe o bastante caiu em um choro dolorido.


-x-


Robb andava em direção à saída do castelo a passos largos, já atrasado, em direção ao bosque sagrado. Estava um pouco irritado com o falatório de duas criadas sobre a necessidade de cuidar melhor das batatas da plantação, aquilo não era tarefa para o rei. Passava perto da cozinha quando ouviu gritos meio desesperados. Assustou-se e virou-se na direção dos gritos, correndo para dentro, quando viu algumas mulheres correndo de um lado para o outro com bacias de água quente e toalhas de linho limpas, gritando ordens umas para as outras.


"O que está acontecendo?" Robb seguia uma das mulheres enquanto ouvia mais gritos, dessa vez mais distantes e de uma voz só.


"A rainha está dando a luz, Vossa Graça"


Robb olhou assustado para a mulher, que não lhe dava muita atenção enquanto caminhava a passos rápidos até a escadaria que levava à torre. Conseguiu ultrapassá-la rapidamente e seguiu até um cômodo onde se aglomeravam algumas criadas, a porta aberta. Meistre Luwin segurava os joelhos de Mykhaela bem separados enquanto ela estava suada, os cabelos bagunçados e uma expressão de dor no rosto de olhos fechados. Caminhou até ela, segurando-lhe as mãos.


"Por que ninguém me chamou?" Disse, um pouco irritado, beijando a testa da esposa. "Como está se sentindo?"


Mykhaela o encarou com certa repulsa, tirando sua mão da dele.


"Não me toca!" Gritou as palavras em meio a um urro de dor.


"Fique calma, Vossa Graça, ele está quase pronto"


"O que quer que eu faça?" Robb olhou para ela meio perdido, e então para a mãe, que segurava a mão dela.


"Sai daqui!" Mykhaela disse com olhos de ódio para Robb, que se sentiu um pouco machucado, mas saiu do quarto após um olhar compreensivo de Meistre Luwin.


-x-


Mykhaela embalava a pequena criança em seus braços. Havia acabado de abrir os olhinhos, esverdeados como os seus. Já os cabelos e as feições herdara do pai. Lady Catelyn, inocente sobre a coisa toda, disse apenas que a criança parecia-se demais com o avô, e ganhara assim seu nome. O pequeno Eddard Stark. A criança estava enrolada em peles, que a protegiam do frio. Usava uma roupinha de lã que Alyssa havia feito há algumas semanas. Seus dedinhos miúdos agarravam-se à pele de lobo que lhe cobria e Mykhaela não cansava de o admirar. Meu pequeno floco de neve*. Apelido que Robb não apreciou muito quando ouviu, mas resolveu se calar. Mykhaela não falava com ele nos últimos dias e Meistre Luwin disse que uma mulher fica melancólica logo após o parto. O pequeno Ned já tinha duas semanas de vida, cada vez mais crescido.


Robb parou ao lado da esposa, admirando a pequena criança. Era mesmo uma pequena cópia de Jon com os olhos de Mykhaela. Passou o braço pela cintura da rainha e ela se afastou delicadamente.


"O que posso fazer para olhar em meus olhos de novo, minha senhora?" Robb sussurrou perto do ouvido de Mykhaela.


"Pode começar por não dormir mais com a cozinheira" Mykhaela o encarou pela primeira vez em semanas e Robb devolveu o olhar acusatório tão surpreso quando Talisa lhe olhou naquele dia, no bosque sagrado.


"Como você-"


Robb foi interrompido assim que a esposa colocou a criança no berço.


"Não importa como eu sei" Mykhaela se afastou da criança para não acordá-la e andou até a janela, olhando para a imensidão escura de Winterfell. "Sei o que fez por mim, Robb. Também sei que não tenho direito de te cobrar nada. Mas eu tenho me esforçado, você sabe? Esse tempo todo venho tentando construir um amor entre nós. E você tem dormido com outra mulher, sabe o quanto isso me machucou? Não deve saber, pois não sabia que me machucaria tanto, mas o fez. Esse tempo todo achei que construíamos uma família e que você também estava esforçado com isso; mas vejo que não estava"


"Minha senhora, eu sei que não há justificativa para o que fiz. Mas Talisa... eu a conheci há algum tempo, na guerra. Nos apaixonamos, mas não pudemos ficar juntos, pois eu estava prometido a outra. E quando ela soube que minha primeira esposa havia morrido, veio para cá, para ficarmos juntos. Mas já estávamos casados, minha senhora. Foi mais forte que eu, quando a reecontrei"


"E a colocou dentro de nossa casa"


"Entende do que eu falo, Mykhaela. Afinal, o que sente quando vê Jon?"


"O que eu sinto não importa, pois estou casada com você e nunca, Robb, nunca traí nosso casamento"


"Estou tão preso a vocês duas como está presa a mim e Jon"


"Eu quero gritar com você, quero te esmurrar a cara, Robb, mas não posso. Não posso porque tudo o que você fez foi me ajudar e estou em dívida com você para toda a minha vida. Se desistiu de alguém que ama por mim, então não posso lhe cobrar nada. Mas não é só isso"


"O que é então?"


"Como ousou contar a ela sobre meu filho? Como ousou trair minha confiança? Trair a confiança de seu irmão! Sabe o que ela pode fazer com essa informação?"


"Ela não fará nada"


"Ela é uma mulher apaixonada, Robb. E mulheres apaixonadas não medem esforços. Se ela quiser ter você ela pode usar isso contra mim, contra Jon, contra nosso filho"


Robb segurou Mykhaela pelos braços, olhando intensamente nos olhos dela.


"Eu lhe prometo, minha senhora, que ela não fará mal nenhum a vocês"


"Não era seu segredo para partilhar, Robb. Não era" Mykhaela limpou as lágrimas que lhe desciam dos olhos e voltou o olhar para a neve que caía sem parar. Estava assim por dias.


"Eu vou mandá-la embora"


"Para ela ficar com ódio de mim e espalhar pelos sete reinos que Jon é desertor? Não! Ela fica. Só espero que você faça a coisa certa, Robb"


-x-


Jon segurava a carta nas mãos, amassando o papel enquanto encarava o lobo branco de cera que selava a carta. Sentou-se na escadaria da Torre Real do Castelo Negro e ficou batendo o papel na palma de sua mão, sem saber se queria abrir ou não. De alguma forma, tinha medo das notícias, e não sabia porque. Na verdade, sabia, mas não queria admitir. Violou o selo e passou, enfim, os olhos pela caligrafia de Robb.


Querido irmão, como está? Tenho alegria em lhe informar que nasceu meu primeiro filho, seu sobrinho. Um menino saudável, um pouco pequeno demais, mas que cresce a cada dia. Minha senhora o nomeou Eddard, como nosso pai. Parece-se mesmo com ele. Os cabelos e as feições. A não ser pelos olhos, que são tão esverdeados quando os de Mykhaela. Convido-o para que venha ao Sul visitá-lo quando lhe parecer adequado.
Robb Stark. Winterfell — Westeros do Norte.

Jon leu a carta várias vezes, num misto de emoções. A princípio as lágrimas molhavam a carta. E viu que seu medo era infundado. Não precisava sentir medo de ser pai. Era o melhor sentimento do mundo. Ele estava saudável, crescia a cada dia. Daria o mundo para poder ver o filho naquele momento. Parece-se mesmo com ele. Os cabelos e as feições. Robb fora discreto, mas Jon sabia que com aquelas palavras quis dizer que seu pequeno filho se parecia com ele. Sim, com Jon Snow. Jon Snow, que agora era pai de um menino saudável que crescia mais a cada dia. Sentiu suas mãos suarem e pareceu querer desmaiar. Ainda bem que estou sozinho, pensou, ou estranhariam minha reação. Tentou se recompor e leu a carta novamente. Tinha os olhos da mãe e nisso Jon sabia que seria sua característica mais bonita. Mykhaela tinha olhos muito bonitos, misteriosos e que não entregavam com facilidade seus sentimentos como ela dizia que os seus entregavam. Quando estava mais calmo, recuperado das primeiras emoções de saber que era, finalmente, pai de alguém, Jon ressentiu-se pelas últimas palavras do irmão. Por que diabos Robb não arranjou uma desculpa e o convocou a Winterfell para que ele pudesse ver o filho? Um convite, para o Lord Comandante, era o mesmo que nada. O que Jon não sabia era que Robb temia a presença do irmão no castelo naquele momento. Temia que suas atitudes passadas fizessem com que perdesse, de uma vez por todas, Mykhaela para Jon. Mas quem disse que se pode perder o que nunca teve?

Notas finais
*Meu pequeno floco de neve, em inglês, my little snowflake. Uma referência ao sobrenome do Jon.