Havia um garoto que despertava a atenção de Zoro. Ele costumava estar junto no grupo dos alunos encrenqueiros, fumando um cigarro e com o olhar longe, como as névoas numa floresta escura e gelada dando a sensação onírica num cenário real. Se chamava Sanji e tinha cabelos loiros, uma franja escorregava sobre o olho esquerdo, as sobrancelhas estupidamente enroladas. Os nós das mãos acentuados, corpo esguio, pálido como o inverno que se apoderou da cidade. E se seu espírito tivesse cor, seria cinza e nada flamejante.

Costumava fumar na praia gelada, com as mãos nos bolsos do casaco, olhando o mar cintilante e sentindo a luz solar fraca em seu rosto quase verde. Zoro observava de longe, também molhando suas galochas no mar e ouvindo a gaivota bater asas.

Queria tingi-lo de uma cor mais forte, torná-lo mais saturado, com mais contraste, brilhante. Acreditava que se tomasse os lábios rachados pelo vento frio, os tornariam vermelhos, além de inchados, podia haver até mesmo sangue. E não seria ruim sentir o sabor de ferro sair de um corpo quase morto, também não seria ruim cobri-lo com o mesmo cobertor que usava para se esquentar, dormindo ao seu lado ou fazendo sexo usando meias, deixando o corpo marcado com mais vermelhos feitos por sua boca. O rosto ficando corado por subir o sangue na cabeça, a respiração ficando descompassada e a pele quente, além de suada.

Tal visão faria Zoro ter um orgasmo e depois sentiria o corpo de Sanji tremer e veria os seus olhos marejarem, dizer algo triste como se o que fizeram fosse errado, que eram dois homens, que apanhava do pai. Estava preso num amor platônico e não pretendia chegar até Sanji, se contentaria só com a imaginação e com suas observações de longe. A graça toda estava em Sanji ser um desconhecido, e ele não ia estragar tudo indo até o rapaz loiro e dizer um “oi”.

O bloqueio na mente era como uma parede de gelo inquebrável, onde Sanji estaria ali congelado e imaculado. Hibernado.

Mas Zoro não sabia que naquela tarde na praia, Sanji sairia de onde estava e se aproximaria dele somente para dizer um “oi”.

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