The warmth of Winter
37 Neve
Notas iniciais
Cinza…
Para todo lado que eu olhava, tudo era cinza…
O chão, o céu, tudo era escuro e indistinto, sempre a mesma coloração cinza…
Continuei andando, minha respiração saía em nuvenzinhas, também cinza. Suspirei desanimada, quanto tempo eu continuaria caminhando.
A neve abafava o som de meus passos, fazendo com que o único ruído fosse o da minha respiração. Eu não sei por que as pessoas reclamam tanto do silêncio, é acolhedor.
Depois de longos minutos, encontro um banco sob um poste, sento-me e observo a neve caindo lentamente. O chão está completamente coberto, já deve ter no mínimo uns dez centímetros de neve, quinze, quem sabe…
Levanto-me assustada, uma sensação desconfortável me acomete, engulo em seco, sentindo um arrepio percorrer minha coluna, olho de um lado para o outro, viro-me e não encontro nada. A sensação, porém, não passa. O que poderia ser, não consigo imaginar, quer dizer, estou sozinha aqui, e é sempre tão calmo e silencioso.
Ouço um som, como se algo estivesse rachando, novamente um calafrio faz seu caminho por minhas costas, abraço-me, tentando me acalmar, não tem o que temer aqui. Esse lugar é como uma fortaleza, estou completamente bem e segura, não haveria como eu estar em perigo.
CRACK!
O som me faz olhar de um lado para o outro, desesperada, o que quer que seja, está perto, minha respiração fica densa e meu coração dispara. Dessa vez soa mais forte que nunca, fecho meus olhos com força, mas ainda consigo notar a enorme claridade que acompanha o último ruído.
– Finalmente nos encontramos, Fuyuki. Abro lentamente os olhos.
A minha frente se encontra uma belíssima mulher, longos cabelos castanhos, olhos azuis profundos, pele branca e estranhas roupas, que a caem perfeitamente. Ela parece ter em torno da idade de Bea, e se seu cabelo não fosse cacheado, se pareceria a ela, em compensação, seu cabelo me lembra um pouco do meu.
– Você perdeu a habilidade de falar? Seu modo de falar é um pouco ríspido, como se estivesse brava.
– Me desculpe. Digo, olhando a minha volta, agora estamos em um ambiente completamente branco. — Como sabe meu nome?
– Eu sou responsável por você, mas isso não vem ao caso. Minha cabeça se inclina para o lado, o que ela quer dizer por responsável por mim. — Agora vamos ao que importa!
Seu tom me surpreende, ela começa a se aproximar, com uma expressão nada amigável, prendo a respiração em antecipação, assim que ela para a minha frente, ela me encara por um longo minuto e então solta um suspiro, sua expressão mudando, para uma de cansaço.
– O que você pensa que está fazendo, hein? Pisco diversas vezes, incapaz de compreender o que ela pretende. — Estou falando do Apocrypho.
Continuo a fitando, será que é outra língua? Sua expressão volta a de irritação e ela estala a língua.
– ACORDE FUYUKI! Ela agarra meus ombros, me chacoalhando. — Você não pode se render por medo, eu sei que você está assustada, mas este é o caminho que você escolheu, você sabia de todos os riscos e ainda assim você escolheu sincronizar…
Meus olhos se arregalam, eu escolhi sincronizar? Será possível, será que eu realmente escolhi me tornar compatível, mas, por quê?
– Você não pode recuar agora, se aquele maldito Apocrypho conseguir por as mãos na inocência, todos estaremos perdidos. A morena para de me chacoalhar e me olha nos olhos por um instante, me puxando então para seus braços. — Eu sei que você está confusa agora, porém, esta é a sua missão, você mesma escolheu isso. No momento em que decidiu se juntar a inocência, você abandonou qualquer chance de viver uma vida tranquila.
Ela me soltara, baixando os olhos, ela parece verdadeiramente triste por mim, o que me faz sentir uma enorme culpa.
– Não é o destino que desejávamos para você, mas agora que você já chegou tão longe, não há mais volta… Ela levanta seus olhos, me fazendo sentir o peso de suas palavras, seu tom agora se torna solene. — Se você parar, será completamente suprimida. É isto que deseja, Fuyu?
Sinto meu coração acelerar, conforme suas palavras se repetem em minha cabeça, como um eco infinito. Não quero isso, eu não quero ser suprimida, penso, balançando minha cabeça, dou alguns passos para trás, eu não quero lidar com nada disso, não quero pensar sobre coisas tão dolorosas e difíceis, por que não posso voltar para aquele lugar onde havia apenas neve?
– Lute. Ela toca gentilmente meu rosto, sinto meu coração se acalmar, enquanto fito seus belos olhos azuis, porque eles me parecem tão familiares? — Mesmo que doa, mesmo que você se machuque, mesmo que os outros se machuquem, continue lutando.
– Por quê? Sinto meu coração afundar, não quero lutar, não quero que ninguém tenha que se machucar, nunca gostei de sofrimento e dor, não suporto guerra e violência, por que tenho de lutar?
– Eu sei que é difícil. Ela solta um suspiro e deposita a mão em meu ombro, dando um aperto amigável. — Mas só você é capaz de acabar com esta guerra, você nasceu para isto.
Novamente meus olhos se arregalam, o que ela quer dizer com isto, eu não só escolhi ser compatível a inocência, como nasci para acabar com a guerra? Isso não faz sentido.
– Nós não temos muito mais tempo. Diz ela olhando para o lado, sigo seu olhar, mas não vejo nada, ela volta a me encarar. — Ouça Fuyuki!
Ela começa a ficar translúcida e seu toque parece se tornar a cada momento mais suave.
– Você precisa se recuperar, precisa tomar o controle do seu corpo e lutar contra a inocência, mas para isso, primeiro, você precisa se decidir. Até onde você é capaz de ir? O quanto está disposta a sacrificar por esta guerra? Mas, acima de tudo, pelo que está lutando…
Fuyu.
Algo atinge minha cabeça, levanto os olhos, neve. Estico minha mão, assim que os flocos a atingem, eles derretem, fecho os olhos, respirando fundo.
Já está na hora de eu me decidir…
O som de algo sendo derrubado no chão é seguido pelo cheiro de sangue, todos parecem chocados com a reviravolta, o Apocrypho coloca a mão sobre o corte, parecendo surpreso.
– Eu não vou mais hesitar! Na próxima não será de raspão.
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