Notas iniciais
Boa leitura = )

E quanto a mim, o que pode me dizer sobre o meu passado? Pergunto, já tendo eu mesma, algumas suspeitas.

Acho que não sou a melhor pessoa para lhe contar sobre isto. Ela se levanta e me oferece a mão.

Aceito-a, ainda de mãos dadas seguimos para fora do templo e de volta para a mansão.

Uau, você realmente é bom! Ouço a voz de Layla, que parece eufórica. - Eu tenho medo de ir muito rápido.

Seguimos na direção das vozes, assim que nos aproximamos, percebo se tratar de um estábulo, próximo a ele se encontram, Layla, Beatrice, Lenalee, Johnny, Daniel e Akihiko.

Aki! Chama Natsumi, quando chegamos mais perto, todos se viram em nossa direção.

UAU! Bea corre em minha direção e começa a me rodar, me olhando de cima a baixo, sinto minhas bochechas ficarem vermelhas, mas termino rindo. — É você mesma Fuyu?

Aham. Digo, acenando com a cabeça.

Você está estonteante. Fala Aki, se aproximando e colocando um fio que havia caído de meu coque, para trás da orelha.

Puxa saco. Ouço Lala resmungar, também se aproximando. — Você está lindíssima Fuyu-chan, combina perfeitamente.

Realmente ficou muito bonita. Rio e agradeço Lena, me sentindo mais encabulada a cada momento.

Daniel também cora ao me dizer que fiquei bem com a roupa, e Johnny não para de encarar, parecendo incapaz de falar qualquer coisa.

Agora que todos já apreciaram a visão, vocês dois precisam conversar. Fala Natsumi-san, me empurrando em direção a Aki-kun. — Ele irá responder suas perguntas.

Nos despedimos dos outros e seguimos para dentro da mansão, meu coração bate acelerando em antecipação, o que eles sabem sobre meu passado, o que isto irá mudar quem eu sou hoje, será que…

Você está bem? Pergunta Akihiko alarmado, me ajudando a levantar, subir escadas sem prestar atenção e ainda por cima em um quimono extremamente comprido, só podia resultar em um belo tombo. — Esta roupa não ajuda muito, não é mesmo? Venha, irei lhe ajudar. Tente segurá-la com a outra mão.

O moreno passa a me guiar pela mão, enquanto tento segurar o máximo de tecido possível com a outra mão, após alguns minutos de caminhada, finalmente chegamos a nosso destino.

Quando Aki abre a porta, me surpreendo ao me deparar com um quarto de criança, na parede esquerda há uma enorme cama de casal, dos dois lados tem criado mudo, na parede de frente a porta há uma enorme janela, com um sofá logo em baixo da mesma, na parede oposta à cama, se encontra um enorme armário de madeira e no centro uma mesa com duas cadeiras, todo ele decorado em tons pastel, com bichinhos de pelúcia, bonecas e bibelôs. Por algum motivo desconhecido até mesmo para mim, começo a chorar, um choro compulsivo, aquele quarto é tão absurdamente familiar, e ao mesmo tempo nunca o vi antes.

Está tudo bem. Diz o moreno, afagando amavelmente meu cabelo, conforme enterro a cabeça em seu peito. — Bem vinda de volta, Fuyu-chan.

Aquilo faz com que o choro só piore, o Ichinose, passa os braços sob minhas pernas e me pega no colo, me colocando sentada na beirada da cama, e se ajoelhando a minha frente, enquanto gentilmente aperta minha mão.

Por que eu sinto que já morei aqui? Pergunto entre soluços. — Como posso, já ter vivido aqui e não me lembrar de nada?

Aki se levanta e segue até uma das cômodas, voltando com um porta-retratos em mãos, ele me entrega e segue para a outra cômoda. Na foto há duas crianças extremamente parecidas, uma garotinha e um garotinho de aparentemente cinco ou seis anos, o garoto está sentado na grama com um livro no colo e a garota o abraça por trás, parecendo ter o pego de surpresa. Aquela garota sou eu, e aquele garoto é o Aki.

Aqui tem mais fotos. Diz Akihiko, se sentando ao meu lado e me entregando um álbum.

Ao abri-lo me deparo com uma foto de família, na foto, uma elegante mulher de cabelos castanhos e olhos azuis se encontra sentada em uma cadeira de espaldar alto, em pé atrás dela, se encontra um homem de cabelos e olhos castanhos, com a mão em seus ombros ao seu lado direito se encontra uma garota de olhos azuis iguais aos dela e cabelos castanhos, que aparente ter em torno de doze anos, no esquerdo, novamente está Aki, ele parece apenas um pouco mais velho, e no centro, no colo da bela mulher, reconheço minha própria figura.

Estes são os nossos pais, Ichinose Louise e Matsumoto Takehiko. Levantei meus olhos para o moreno. — Sinto muito não ter lhe dito nada antes, eu…

Obrigada! Digo agarrando sua cintura. — Muito obrigada, eu achei… Eu achei que não tivesse ninguém.

Novamente o moreno passou a acariciar meus cabelos de uma forma calmante, mesmo não conseguindo me lembrar, eu sei que isto era algo muito comum entre nós.

A Natsu achou que você preferiria ouvir de mim, já que de acordo com ela, nós dois éramos uma mesma entidade. Eu ri, me ajeitando melhor, mas sem soltá-lo. — Mas você sabe o que dizem, certo? Gêmeos dividem o mesmo coração.

Ele ri, fazendo com que eu risse junto.

Nossa mãe sempre dizia isso, principalmente a Natsu, que ficava brava por não querermos ela em nossas brincadeiras. Ele dá de ombros. — Mas fazer o que, ela jamais entenderia. Nós nem mesmo precisávamos perguntar um ao outro, para saber do que iríamos brincar, e mesmo sem nos falar, decidíamos sempre a mesma coisa.

Devia ser muito divertido. Comento rindo.

Era sim, muito. Você não se lembra de nada, certo? Confirmo com a cabeça. — Ainda assim, você “sabia” quem eu era, não é mesmo?

Eu realmente não conseguia entender, mas, eu queria muito estar ao seu lado. Eu sentia como se, hum, como se você fosse parte de mim. Ele voltou a rir.

Bom, somos apenas duas metades de um mesmo ser humano. Concordo com a cabeça. — Fuyu-chan.

Sua expressão se torna séria, o moreno me afasta um pouco de si e põe a mão em minha bochecha, me dando um sorriso, porém sua expressão é conturbada.

Sem dúvida nós tivéramos uma infância bem abastada, tínhamos pais carinhosos, uma irmã geralmente legal e um ao outro. Contudo, nossa infância não foi tão brilhante quanto aparenta.

O semblante de Aki se torna sombrio à lembrança de algo, estico minha mão e a ponho sobre a sua que está em meu rosto, ele a segura e tenta me dar um sorriso reconfortante.

Na família Ichinose, é necessário que haja ao menos dois filhos, um para acomodar a inocência e um para se tornar o sacerdote, para isso, são chamadas todas as crianças, e testam qual está mais propensa a suportar a inocência, esta é automaticamente escolhida como a compatível, e seu irmão ou irmã, mais velho ou mais novo, em resumo, o que tiver melhor habilidade, é escolhido como sacerdote. Akihiko baixa os olhos, para nossas mãos entrelaçadas.

Eu fui o escolhido, era o que tinha melhor capacidade de sincronizar com a inocência na nossa geração, isto é claro, por que você foi excluída do teste. Meus olhos se arregalaram, será que fiz algo errado? — Sua saúde era muito frágil, você nasceu com uma doença rara, ninguém sabia o que era, e nem mesmo os curandeiros da família eram capazes de fazer algo. Sendo assim, você foi desclassificada imediatamente, afinal, não iria aguentar.

Senti minha cabeça girar, como assim doença grave, e eu não iria aguentar, nada disso faz sentido. Se Aki foi o escolhido e não eu, por que estou aqui agora, sendo a compatível da inocência.

Eu aceite prontamente a posição, afinal, desde criança, todo Ichinose ouve sobre as proezas da inocência coração, então eu acreditava que se me tornasse seu compatível eu poderia cura-la. Sinto um sorriso se formar em meus lábios, é tão bom ter uma família que se preocupa comigo.

Natsu começou a ser treinada para se tornar a próxima sacerdotisa e eu o próximo acomodador. O treinamento era por vezes árduo, mas era uma precaução, uma vez que as chances de que a pessoa sucumba a inocência são grandes.

Inconscientemente aperto a mão do moreno, que retribui o gesto, tentando me acalmar.

Nem um mês após completarmos oito, você piorou drasticamente, nossos pais não queriam nem mesmo me deixar dormir na mesma cama que você. Em uma sexta feira, eles nos disseram que você não passaria daquele final de semana, de algum modo, aquilo não era surpresa para ninguém, mas eu não podia simplesmente aceitar. Os olhos de Aki-kun se encontram marejados, sinto que os meus o refletem.

Todos se juntaram em volta de sua cama, nossos pais pretendiam se despedir, mesmo que você não fosse ouvir, já que estava há muito, desmaiada. Foi então que me irritei, eu gritei dizendo que não iria permitir que você morresse, eu exigi que nossos pais me permitissem sincronizar. Lembro-me claramente de mamãe dizendo que não podia perder nós dois, ao que rebati dizendo que ela não precisava perder nenhum, eu estava confiante de que iria lhe salvar.

Começaram os preparativos, tudo estava sendo arrumado, eu seria “oferecido” a inocência no domingo, infelizmente não tinha como ser antes, cada minuto, era uma angustia torturante, eu precisava salvar você de qualquer jeito, era como se uma parte minha estivesse morrendo.

A esta altura, ambos estamos fungando, consigo imaginar esta sensação, e me faz sentir sufocada, contar os minutos, enquanto alguém importante para você está sofrendo, isto é uma verdadeira tortura.

Na madrugada de sábado para domingo você acordou, dizem que é normal que as pessoas se recuperem, antes de… Ele deixa a frase inacabada. — O problema é que você ouvira o que eu pretendia fazer, ou talvez tenha apenas sentido, não sei, mas seus planos eram diferentes.

Você sempre me disse que não queria que eu me juntasse a inocência, uma vez que sabia o quanto eu sofreria, você sabia das consequências, todos sabíamos. Muitas pessoas morreram, outras enlouqueceram, outras pereceram lentamente, se perdendo aos poucos.

Para evitar que eu fizesse isso, você saiu escondida, afinal, ninguém ficaria de olho em uma garota em coma, quando se aproximava o maior evento do clã Ichinose. E nas primeiras horas daquele domingo, Natsu invadiu o quarto em que eu me preparava, dizendo que você estava sincronizando.

Notas finais
E então, alguém esperava que esta fosse a ligação deles?