The warmth of Winter
54 Avanço ou retrocesso?
Notas iniciais
Acordei desesperada, olhei a minha volta e meu coração afundou ainda mais. Eu tremia terrivelmente, e nem ao menos conseguia me obrigar a ficar de pé, eu estava sozinha, completamente sozinha no meio de uma floresta.
Um barulho a minha direita fez com que meu sangue congelasse, encolhi-me apavorada, a imagem do sonho ainda muito nítida em minha mente, os Noahs acabando com meus amigos um por um, tinha tanto sangue, escondi o rosto em meus joelhos, abraçando-os e ficando em formato de bola.
– Fuyuki. Meu coração pulou uma batida, levantei os olhos, e meu alívio foi tamanho que não pensei duas vezes antes de me atirar contra o moreno. — Eu estou bem.
Ele me assegurou, provavelmente vira o pesadelo, ainda assim, não fui capaz de conter a torrente de lágrimas que se seguiu, saber que Kanda estava aqui, de fato me dava forças para levantar, contudo, eu não conseguia deixar de pensar no que acontecera aos outros, e para piorar, eu não conseguia encontra-los de maneira alguma.
– Akihiko dissera que havia diversas barreiras na mansão, não é de se surpreender que você não consiga contata-los.
O moreno deixou que eu chorasse o quanto quisesse agarrada a ele, aos poucos fui me acalmando, porém os soluços demoraram a passar, as imagens eram demasiado vívidas, o que as tornava difíceis de esquecer.
– Fuyuki. Murmurei um sim, para que ele soubesse que eu estava ouvindo, ainda não estava a fim de voltar a seguir para longe da mansão, longe de onde meus amigos batalhavam em meu lugar. — Você sabe meditar?
Aquela pergunta me pegou tão desprevenida que desenterrei o rosto de seu ombro e o encarei, ao reparar no quanto havia molhado sua camisa me senti culpada, e minhas bochechas esquentaram, eu estava agindo como uma criança.
– Seria uma boa ideia, aprender. Percebi que não o respondera, porém ele havia recebido a resposta de qualquer jeito. — Te ajudará a adquirir controle sobre suas emoções.
Sinto minhas bochechas corarem ainda mais forte, eu realmente tinha pena de Kanda, ele devia estar sofrendo bastante com todas estas emoções confusas, ele tem razão, eu preciso aprender a controlar meus sentimentos.
– Parece uma boa. Confirmo com a cabeça e finalmente solto-o.
Decidimos seguir para a cidade, uma vez que não temos mais nada a fazer, continuo tentando alcançar meus amigos, mas é completamente inútil. Tento manter minha mente o mais longe possível daquele pesadelo, não posso me deixar abater, a única coisa que posso fazer por eles agora, é continuar em frente.
Andamos por mais algumas horas, sei que estamos demorando por minha causa, mas não consigo andar mais rápido que isto com saltos e no meio da floresta, porém o general não comenta nada, então decido por seguir sua deixa e me manter em silêncio. Meu estômago começa a incomodar, no entanto me mantenho quieta, ele já deve saber de qualquer jeito, me pergunto a onde iremos parar, eu não reparara no caminho que fizemos para chegar a mansão, até por que o fizemos no lombo de um dragão e eu estava ocupada tentando manter Kanda vivo, só de lembrar, sinto um arrepio correr minha espinha, e isto me leva de volta a meu pesadelo e os outros que ainda estão na casa.
– Cuidado! O moreno me segura antes que eu escorregue, sorrio sem graça, o terreno havia se tornado lamacento e meu pé prendia a cada passo. — Venha.
– Não, Kanda, eu não... Sem me dar chance de discutir, o moreno me coloca em suas costas, suspiro me sentindo completamente tola.
De alguma maneira ele conseguia afundar menos que eu, mesmo com o dobro do peso, me sinto dividida entre a admiração por sua habilidade e o constrangimento pela minha falta. Mesmo depois de sairmos daquela parte da floresta o moreno ignora meus protestos e continua me carregando, novamente fico dividida, não sei se me sinto grata ou humilhada.
– Oe. Pisco, e um bocejo sai involuntariamente, noto que ainda estou nas costas do general e me obrigo a acordar de vez. — Nós chegamos.
Olho a minha volta e me sinto momentaneamente atordoada, será que ainda estou dormindo, Kanda me deixa descer, porém não consigo desviar o olhar. Não pode ser, eu conheço esta cidade, especialmente esta parte da cidade, isto, isto não faz sentido. Não me lembro de ter decidido andar, mas percebo que estou marchando, e conheço exatamente para onde estou indo, sem perceber começo a correr, não pode ser verdade.
Viro a direita na primeira rua, desço duas e viro a direita novamente, sigo a principal e viro a esquerda, no final da rua...
– Fuyuki?! Viro-me para trás, parando bruscamente, é verdade.
– Uau, realmente é a Fuyuki-chan. Jenna, uma das garotas com as quais cresci no orfanato está parada na esquina.
– Minha nossa, o que te aconteceu? Clair,uma das garotas mais velhas, que havia saído do orfanato faz alguns anos, diz se aproximando. — Você está coberta de terra.
Sinto-me tonta, não é possível, esta é a cidade mais próxima da mansão Ichinose, eu estive tão perto da minha família a minha vida inteira e jamais desconfiei, mas se eu estava tão perto, então por que eles nunca vieram me ver, uma pressão começou a se formar em meu cérebro, havia algo muito errado, eu sabia, porém não conseguia juntar as informações, quanto mais eu lutava, mais tonta me sentia, parecia que minha cabeça ia explodir.
– Pare. Olhei para o moreno, nada fazia sentido. — Você vai acabar desmaiando.
Percebo que ele tem razão e paro de lutar contra a barreira invisível que parece recobrir minha mente, o ar volta rápido demais e sinto tudo girar a minha volta, apoio-me no moreno, não havia reparado que ele me segurava até então.
– Fuyuki-chan? Ouço as meninas, mas minha cabeça dói demais para que abra os olhos agora. — Ela está bem?
– Sim, há um lugar onde ela possa descansar?
– Claro, vamos leva-la para minha casa. Kanda volta a me pegar, desta vez contudo, ele me carrega no colo, tento acalmar minha respiração, que sensação horrorosa fora aquela, parecia que eu estava presa dentro de minha própria mente.
– Fuyuki? Sinto-me sendo colocada no chão e percebo que falavam comigo.
– Sim?
– Você continua irremediavelmente distraída. Comenta Clair rindo. — Eu lhe perguntei se precisará de ajuda com o vestido.
Olho para o vestido e volto a encara-la, sem dúvida ele está coberto de barro e rasgado, nem consigo imaginar meu estado completo, porém não entendo o que ela poderia fazer por ele. A loira desata a rir, o que me faz encarar o general, que também parece achar graça da situação, será que eu perdi algo importante?
– Ela lhe ofereceu uma muda de roupas e um banho, e perguntou se vai precisar de ajuda para tirar o vestido. Explica Kanda, ao que aceno com a cabeça, lhe dando um sorriso grato.
– Acho que precisarei, foi necessário duas garotas para coloca-lo.
Clair me acompanha até seu quarto, depois de preparar o banho, ela me entrega um vestido rosa claro, e me ajuda a retirar o outro, dou uma olhada no espelho e percebo o quão estranha está minha aparência, o vestido, a maquiagem, o penteado, tudo isto parece tão elegante e distante, enquanto a lama, o cabelo bagunçado e os arranhões causados pelos galhos, parecem muitos mais reais e adequados.
– Prontinho. A loira me dá um sorriso gentil. — Se precisar de qualquer coisa estarei na cozinha, basta chamar.
Aquiesço, afundo na banheira e volto a pensar, não consigo entender, esta cidade é a mais próxima da casa onde nasci, isto sem dúvida significa alguma coisa, mas meu cérebro insiste em não me permitir ir mais longe que isso. Mergulho completamente na água, conto até dez e volto, a sensação da água morna é maravilhosa, contudo, não consigo relaxar. Alguma coisa em minha própria mente me impede de pensar, e justamente sobre minha família e meu passado, suspiro, aposto que tem muitas coisas que ainda preciso saber sobre eles e algo me diz que não vou gostar nada do que vou descobrir.
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