"The taste of sin- O Sabor do Pecado"
2 A Proximidade
Notas iniciais
“Eu amei te ver”
“PLIMMMM” era o barulho do meu celular, logo as 6:00 da manhã. Que raiva acordar bem nesse horário.
“Rita, bom dia, nova filosofa J”
Era Matheus me mandando mensagem, pensei em muitas respostas para dar... Não muito educadas, afinal que Santa Alma acorda bem humorada antes do meio dia?
“Ahh Matheus, me deixaeu dormir”
“Ui, eu lhe acordei... Desculpa mulher do PADRE”
“QUE PADRE?”
“Ahh Rita, sua mãe já contou a todos. O Fabio né”
ARG! QUE RAIVA, MINHA MÃE JÁ SAIU ESPALHANDO, ELA PODERIA ESPERAR EU CONTAR NÉ?
Eu tirei meu celular do carregador, fui atualizar meu Snapchat (postei uma foto deitada, meu cabelo estava bagunçado e minha cara de zumbi amassada, mas... Quem iria ver meu Snap logo as seis da manhã?)
Me levantei, abri a janela. O clima estava diferente de ontem. Estava um sol brilhando e forte. Logo às seis da manhã.
Como eu já estava acordada, peguei uma roupa bonita dessa vez no meu guarda roupa. Um vestido rosa claro até o joelho, com um casaco azul marinho e nos pés uma sapatilha que ganhei do meu padrasto mês passado.
Fui tomar banho.
Peguei minha mochila e desci as escadas pra ver se alguém já tinha acordado.
— Nossa acordou cedo por quê? As aulas não começam as 10:00?- Meu padrasto disse.
— Acordei com meu celular, e perdi o sono.
— Ah sei... Você esta ansiosa. Mas saiba que ele é PADRE!
— Hã? Não tem nada a ver...
Eu subi minhas escadas, pois ter falado aquilo com meu padrasto já era tortura. Eu não o suportava, e não importava o quanto isso parecesse infantil. Mas é que às vezes eu sentia falta do meu pai. Por mais que meu pai não sentisse o mínimo de falta da sua filha que não vê desde os 15 anos.
Subi para meu quarto.
Fiquei ansiosa, confesso, para ver o Padre Fabio novamente. Então por que não pesquisar sobre ele? Peguei meu celular, e aproveitei que me Wi-fi estava ótimo.
No Google: “Padre Fabio de melo biografia”
Percebi que a vida dele não tinha nada demais, ele só era mais um Padre que fez sucesso por causa da voz (ou no caso dele da beleza, com todo o respeito). Mas pra falar a verdade, ele nem era tão bonito assim, ele ficou bonito. Antes, ele não era esse “Deus grego” que as mulheres dizem. Tudo exagero.
Já era 8:00.
— Rita, acorda- Disse meu irmão
—Já estou descendo.
Desci, coloquei meu celular no bolso do casaco.
— Nossa, vai tão bonita assim pra Igreja?- Disse minha mãe comendo bolachas.
Eu dei um sorriso meio tímido. Porque eu odeio elogios. Não sei lidar com eles pra falar a verdade.
— Mãe.. Não é pra a senhora ficar contando coisas sobre minhas aulas. Não quero que ninguém saiba.
—Por que Rita? Para de frescura! O que é que tem?
— QUE EU NÃO QUERO!
— Nossa, sua adolescência nunca passou. Continua chata.
— HAHAHA A MAMÃE TE CHAMOU DE CHATA- Disse meu irmão.
— Ta na hora de você ir pra sala né? Vai assistir desenho.
Minha mãe se levantou e pegou as chaves do carro.
— Filho, quando seu pai sair do banho, peça pra ele te dar dinheiro para comprar lanche na escola, tchau meu pequeno. – Minha mãe deu um beijo no meu irmão
— Tchau seu chatinho- Eu disse
— Mamãe olha a Rita me chamando de chato.
A gente foi pra garagem, eu abri o portão e seguimos mais uma vez pra Taubaté. Só que antes voltei pra cozinha para pegar minha mochila.
Mais 40 minutos, e chegamos à igreja, dessa vez tinha umas meninas me encarando.
— Oi meu nome é Patrícia. — Disse uma delas vindo na minha direção.
— Oi, o meu é Rita.
— Ah, eu tenho uma prima com esse nome, e ela é bem chata- Ela disse num tom esnobe. — Eai Esse é seu primeiro semestre em filosofia né? Te vi na sala ontem.
— É.
— Ah coitada, boa sorte- Disse rindo.
— Obrigada, mas por quê?
— E ainda pergunta? Olha quem é seu professor. Minha vida virou um inferno depois que ele veio, já pensei até em virar freira. Filosofia virou um pesadelo. Só não paro com esse curso, porque fiz uma promessa.
— Como?- Eu realmente não tinha entendido nada. Por que a vida dela tinha virado um pesadelo? Pra mim parecia ser ótimo! O que o padre Fabio fez? Será que ela estava louca?
— É simples, olha a sua idade. Não seja ingênua. O Padre é lindo, eu peco sempre que ele vem dar aula.
— ah sim, mas qual o problema dele ser lindo?
— O problema É QUE não presto mais atenção nas aulas, não consigo tirar os olhos dele, nenhuma menina consegue, ninguém consegue. Ele é um gato, rico e faz academia.
O sinal bateu, e um seminarista mandava a gente entrar pra sala.
Eu virei às costas pra Patrícia.
Entrando na sala, fui para o mesmo lugar que sentei ontem. Lá no fundo. Quando a sala encheu, ele entrou. O padre entrou.
— Bom dia minha gente. — Disse ele com aquele sotaque maravilhoso. — Abram as apostilas na pagina 03. Vocês sabem quem foi Santo Agostinho?
E ele começou a explicar, mandou a gente anotar algumas coisas na lousa. Era evidente que Patrícia estava certa. As meninas estavam loucas e fissuradas. Como eu sempre fui Católica, eu estava me sentindo mal. Como ter uma paixão por um padre? Dane-se como fosse o rosto dele. Ele é um P-A-D-R-E. Não um menino da sua rua. Ele é um sacerdote, e tem que ser respeitado.
“TRIMMMMM” Bateu o sinal das aulas. A aula já tinha acabado, mas que tempo injusto né? Eu estava tão ansiosa, pra aula passar tão rápido.
Todo mundo saiu da sala, e eu como estava por ultimo, fui a ultima.
— Ah Rita... Ficou pra trás?- O Padre Fabio de Melo disse. E eu como sempre fiquei com vergonha de responder. Virei para trás e dei um sorriso enorme, porque era evidente que eu estava morrendo de felicidade.
— Eu não pensava que você era tímida minha filha. – Ele disse se levantando da mesa e vindo na minha direção, minhas pernas começaram a tremer.
— Eu sou um pouco. – Eu respondi dessa vez com coragem.
— Estranho, você tem uma cara de atriz, já fez teatro alguma vez?
— Já, quando era pequena, 14 anos eu acho.
— Que interessante. E agora? Você faz o que da vida?
— Olha, não faço nada.
— Como assim nada? Não trabalha?
— Eu trabalhava de assistente com a minha mãe, ela é fotógrafa. Mas tirar fotos não é muito minha praia.
— Eu também não gosto muito não sabia? Eu seria um péssimo fotógrafo. — Ele deu risada. Ele passou a mão no meu cabelo, dava pra sentir o seu perfume, tinha um cheiro suave e cítrico. Sua pele era macia. Dava pra ver alguns cabelos brancos na barba.
— Então Rita, tenho que ir celebrar uma missa agora. Você gostaria de ficar pra assistir?
— Claro que eu poderia.
Nós dois então saímos da sala, ele foi pra um corredor, onde deveria ficar a coordenação. E eu segui para o outro lado. E o pior é que eu tinha que ficar para missa. Eu queria era voltar pra casa logo. Porem, eu já tinha dito a ele que ficaria.
Fui para a Igreja. E lá estava Patrícia com mais quatro meninas.
— Rita. Vai ficar pra missa também é? Eu falei que ele era gato.
— Sim eu resolvi ficar- E fui procurar um bando vazio, avistei um lá na frente, quase na frente do Altar. Vi que Patrícia estava me seguindo, mas o que essa menina queria tanto puxar assunto comigo?
— Ta indo ai pra frente é? Não cansou de ver ele hoje não?
— Patrícia, eu não estou aqui por desejos, eu estou aqui porque sou Católica, e não me importo como seja o rosto dele.
— Ah, por favor, não venha com essa história, todas as meninas estão aqui porque ele é bonito. Inclusive eu, inclusive você. Ninguém liga se ele é padre ou não. Ligamos pra aquele rosto.
— Eu não ligo
— Não? Ah ok, finjo que eu acredito. Mas uma hora ou outra você ira ver que eu estou certa.
Eu dei as costas. Fingi que eu não tinha escutado. Sentei no banco, e já fui pedindo perdão a Jesus. Não era minha intenção estar ali pela beleza do padre, não era minha intenção nem estar na missa. Eu só estava porque ele me pediu.
O sino da igreja bateu. E ela estava lotada, ele entrou. Eu segui seus olhos, e acho que ele percebeu quando seus olhos se cruzaram com os meus. Eu fiquei corada.
O sermão da missa foi sobre “A Proximidade”, a proximidade humana, proximidade da alma. Fez muito sentido pra mim. Até que chegou à hora da Eucaristia, eu entrei na fila, quando chegou minha vez, a expressão do rosto dele mudou, ele ficou querendo dar um sorriso. Eu fiquei feliz também.
Quando a missa acabou, eu dei de cara com aquele seminarista, que vi ontem na porta da Igreja. O Rafael.
—Rita né?
— Sim.
— A paz de Cristo- E fez o sinal da cruz a minha testa.
— A paz de Cristo- Eu respondi.
E fui embora, pegar o ônibus.
— Rita?- Escutei alguém gritando. Me virei. E surpresa: ERA O FÁBIO DE MELO
— Você esta indo embora? Vai de ônibus?
— Vou sim padre.
— Onde você mora?
— Em São Paulo, no Centro.
— Eu tenho um evento agora lá. Quer uma carona?- Eu não acredito que ele tinha dito aquilo, eu não sabia o que responder, eu não queria aceitar. Eu não podia aceitar. Não ia ficar legal um padre com uma menina de 20 anos.
— Ah não precisa não. – Na verdade precisava. Mas eu fingi que não.
— Eu faço questão, espera só 15 minutos pra eu organizar tudo. Você espera né?
— Imagina. Não precisa não, vou de... — Ele me interrompeu
— Você vai comigo sim, me espere.
Ele se virou e foi em direção a porta da Secretaria da Igreja.
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