The system of factions
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Acordo com o barulho de metais se chocando. Abro os olhos, a luz invade minha visão e eu envergo minhas costas para me livrar da luz.
Olho para a porta do dormitório e Quatro está batendo uma caneca de metal na porta, com uma expressão entediada.
Após um tempo, ele diz:
— Cinco minutos e quero todos no refeitório.
Eu, sentada na cama, olho para Tris que se espreguiça e digo:
— Bom dia! Dolorida?
— Uhum... — ela resmunga. — Um pouco.
— Levanta preguiçosa! — eu digo, depois aponto para Christina e acrescento: — Você também!
— Claro... — Christina resmunga também.
Me levanto e começo a me trocar. Christina e Tris fazem o mesmo. Logo após nos trocarmos e chamamos Will e Al para nos acompanhar, eu digo no corredor em meio a bocejos:
— Então, Tris, está melhor na luta?
— É, não sei se consigo vencer de Peter, mas acho que machucá-lo eu consigo. Uriah luta extremamente bem. — ela diz.
— Eu nunca o vi lutar antes, mas ele parece que é bem hábil.
— Não estou entendendo nada. — diz Christina. — Dá pra explicar quem é Uriah?
Eu explico a elas quem é Uriah e digo da minha tatuagem, que por acaso, só Tris conhecia. Acabo contando sobre Zeke, que é irmão dele.
— Zeke... O garoto nascido da Audácia que fez algumas piadas na nossa mesa? — pergunta Will.
— Ele mesmo. — eu digo.
— Ele é hilário. — diz Christina. — Quer dizer, será que dá para levar a sério aquele garoto?
Ela não pareceu falar sério como se falasse mal dele. Parecia falar apenas por brincadeira, mas conversei com Zeke e ele tem hora de parar as piadas, basta conhecê-lo melhor.
— Não, ele é legal. Engraçado... Até certo ponto. — eu digo.
Devo ter sido fria, mas não me importo em concertar por que ela nem reparou.
Chegamos no refeitório e conversamos muito, por um longo tempo.
Eric se levanta de sua mesa, e sobe em uma no centro do refeitório, vazia.
— Iniciandos! — Eric chama a tenção de todos e paramos de conversar. O refeitório entra em silêncio. — Passarei o cronograma de vocês oralmente, portanto prestem atenção. Nascidos da Audácia lutarão primeiro que os transferidos, portanto eles assistirão a luta de vocês. Após as lutas teremos uma hora de descanso em que todos assistirão as lutas dos transferidos. Depois de tudo isso, todos teremos o almoço, e lá, direi o resto do cronograma. Por enquanto é isso. Em dez minutos iremos todos para a sala de treinamento. Boa sorte.
Ele sai de cima da mesa e se senta novamente.
— Quer dizer que podemos aprender com os mestres? — diz Al.
— Pois é... — eu digo.
Nós conversamos e conversamos cada vez mais sobre lutas e até piadas surgiram. Houve um momento em que olhei para a mesa de Zeke e ele estava absorto em pensamentos, mas sorria quando todos gargalhavam. Talvez estivesse sério. O observei e só reparei no que fazia quando ele me encarou, acenou e sorriu.
Pedi licença aos meus amigos e fui até ele.
— Oi. — eu digo.
— Oi, Sam. — diz Uriah. Ele passa para a cadeira do lado, vazia, e bate com a mão em uma vazia entre ele e Zeke. — Senta aí.
Eu sento-me, um pouco hesitante.
— O que houve? Está... Sério. — eu digo baixo para que só Zeke me ouça.
— Não sei... — ele diz. — Juro que não sei.
— Talvez seja a luta?
— Pode ser, eu lutarei contra Uriah.
— E o que há de errado? Só por que são irmãos? — eu pergunto erguendo as sobrancelhas e o encarando.
— Só? — ele diz sarcástico. — Ele é meu irmão. — ele repete.
— Ok, ok. — eu digo. — Ele é seu irmão, entendo, mas esta luta não é como se brigassem pra valer.
— É, Sam. — ele diz sério. — É sim. Estamos brigando por um lugar no ranking. Estamos brigando por quem ficará na Audácia e isso é errado. Deveríamos ficar eu e ele aqui.
— Zeke... — eu digo, mas as palavras morrem.
Ele tem razão e como posso tentar tirá-la? Minha maneira é reconfortá-lo.
— Zeke. — repito seu nome sem querer e continuo: — É verdade isso tudo que disse, mas vocês dois ficarão na Audácia. Aposto que se recuperará rapidamente no segundo estágio, e no primeiro, não é apenas luta. Tem os tiros, as facas, e você não lutará apenas com Uriah, poderá massacrar outras pessoas.
Tento descontrair e até consigo um sorriso dele.
— Obrigada, Sam. — ele diz sorrindo e me encarando. — Eu estou melhor, não completamente, mas melhor.
Sorrio de volta para ele e então começamos a participar da conversa dos nascidos da Audácia. Eles são bem mais loucos, entretidos e risonhos. Claro, tirando Quatro que conversa com os membros adultos, mas ele ri e sorri do mesmo jeito. Mas não é assim que eu classifico meus amigos; se eles são ou não animados. Eu admito seus valores internos e seu caráter. Quem realmente são e não o seu ânimo. Mas também não por isso que acho os membros da Audácia uns animados imbecis cínicos, pelo contrário, eles são animados de modo engraçado, mas assim como Zeke, eles são humanos que têm problemas, coração e algum senso de acolhimento. E os admiro por isso.
Em meio a gargalhadas e conversas, Marlene diz:
— Pessoal, vamos para a sala de treinamento antes que o Eric comece a gritar conosco.
— Vamos lá! — diz Uriah, se levantando.
Todos nós nos levantamos e caminhamos conversando para a sala de treinamento.
— Então, está melhor pela pancada de ontem? — pergunta Marlene.
— Não foi nada. — eu digo sorrindo. — Eu estou bem. Talvez eu lute bem hoje.
— Você "talvez" não vá lutar bem hoje. Você vai lutar bem hoje. Não duvide disso. — diz Zeke.
— E o que te faz pensar isto? — eu pergunto sorrindo.
— Por que, como eu disse, você é rápida. E se fizer bom proveito disto, irá ganhar com toda certeza.
Eu dou risada e o abraço de lado amigavelmente. Mas parece até que ele levou um susto, só que corresponde depois. Me desvencilho de seus braços e continuo caminhando e voltando a conversar com o pessoal.
+++
Chegando na sala de treinamento, a primeira coisa que vejo é o quadro negro:
• Uriah e Zeke
• Lynn e Marlene.
Não me preocupo em ver o resto, afinal não reconheço os outros.
— Vamos, pessoal. — grita Eric para todos os iniciandos nascidos da Audácia. — Primeira luta, April e Yann.
Então dois garotos sobrem no ringue e começam a lutar. Não presto muita atenção nesta luta, por que reparo que Zeke ainda está mal. Acho que vou tentar animá-lo do jeito Sam.
Aproximo-me dele e digo bem animada:
— Zeke!
Ele dá uma gargalhada, lembrando do meu primeiro dia aqui.
— Sam! — ele diz animadamente, igual ao primeiro dia.
Suspiro aliviada e nostálgica, por mais que faça tão pouco tempo. Nossa. Faz tão pouco tempo que o conheço e sei até quando ele está mal ou não. E tenho uma intimidade com ele, Uriah e Marlene. Mas ainda mais com Zeke.
— Oi gente! — diz Marlene, animada e sorridente, se aproximando de nós.
— Marlene! — eu digo no mesmo tom que chamei Zeke. Ele ri mais e já começa a ficar vermelho de rir.
Coloco a mão sobre o ombro dele e digo:
— Calma, passou.
Ele ri mais ainda e eu sou contagiada.
Começo a rir descontrola, e agora rimos de nossa própria risada. Marlene nos encara como se dissesse em silêncio que somos loucos. Mas ela acaba sem querer entrando na gargalhada e estamos todos rindo descontrolados e sem motivo. Me apoio em Marlene e ela em mim e agora estamos quase caindo.
— Ai, socorro gente. — eu digo tentando parar de rir, mas não dá. — Por que não... Dá... Pra parar?
— Ai, minha barriga. — diz Marlene entre gargalhadas. — Ajuda... Ajuda...
Minhas pernas estão começando a ceder e não sei se vou aguentar.
Eu tento respirar fundo. Enterro o rosto nas mãos para não olhar para eles e começar a rir novamente. Respiro fundo. Respiro fundo.
Eles param de rir aos poucos.
— Não façam isso de novo. — diz Marlene sorridente.
Nós todos respiramos fundo e então eu digo:
— Mas não fizemos nada!
— Desculpa Mar, nós não rimos mais. — Zeke diz brincalhão.
— Segunda luta. — grita Eric novamente chamando atenção de todos na sala. — Zeke e Uriah.
Ele dá um sorriso... Sádico. A que ponto chega a maldade desse cara?
Olho para Zeke, e eu dou um olhar de "Boa sorte e sinto muito" e ele me devolve com algo de "Tudo bem, fazer o que?".
Olho para Marlene, mas ela apenas me olha com indiferença pois talvez não saiba o quanto isso é importante para Zeke. Por que ele não a disse? Será que não são tão amigos? Não sei. Só quero me concentrar na luta.
Zeke sobe temeroso no ringue de um lado e Uriah sobe ansioso no lado oposto. Talvez Uriah não pense do jeito que Zeke pensa sobre essa luta e por isso só pense em vencer.
Eles começam a andar em círculos na mesma distância, até que Uriah faz uma tentativa de desferir um soco no rosto de Zeke, mas ele protege. Zeke finge um soco na barriga e dá um soco no rosto e depois segura a cabeça de Uriah e leva até o joelho. Uriah cambaleia e Zeke solta um grunhido de frustração e faz um som como se o golpe fosse nele próprio.
Agora Uriah está lerdo, mas ainda consegue dar um gancho de direita e um chute nas costelas de Zeke. Mas Zeke dá um chute perfeito girando o corpo e colocando um dos pés acima da cabeça e fazendo Uriah cair no chão. Ele ainda pode se levantar, mas Zeke dá um soco com muita força em sua cabeça e Uriah apaga.
Zeke sai frustrado do ringue, esfregando seus braços de vergonha.
— Muito bem. Alguém leve Uriah daqui. — grita Eric. — Próxima luta, Pesley e Rick.
Quando Eric diz meu antigo nome eu dou um pulo de susto. Só minha família, nos dias de hoje, me chamaria assim. Ignoro isto, para não pensar sobre e começar a me deprimir e me viro para Zeke, que está sentado no canto da sala, encolhido.
— Talvez isto esteja na sua paisagem do medo. — eu digo sorrindo para ele e me sentando ao seu lado.
Ele assente com a cabeça e eu reparo que ele quer um tempo sozinho. O encaro e ele me encara de volta. Seu olhar não mente, ele precisa pensar sobre isso sozinho. Eu assinto com a cabeça e me levanto. Ele murmura algum pedido de desculpas quase inaudível.
Chego perto de Marlene e fico ao lado dela e Lynn.
— O Zeke é um frango. — diz Lynn. — Não consegue bater nem no seu irmão. Brigar com irmãos é normal.
— Lynn, isso não foi uma briga. — eu digo séria.
— Ela tem razão, Lynn. — diz Marlene. — Isso não foi algo que Zeke parece ter gostado de fazer. Tente se imaginar sendo obrigada a bater em seu irmão por um lugar na facção.
— Eu o faria. — ela diz.
Eu e Marlene reviramos os olhos. Mesmo Lynn tendo um irmão ele não entenderia. E eu no lugar de Zeke ficaria traumatizada, afinal Cameron não sabe lutar, e mesmo se aprendesse eu não conseguiria bater nele. Mas se tivesse sido obrigada, eu me renderia, eu deixaria ele me bater.
Olho novamente para Zeke e ele está lá, jogado no chão olhando para um nada. Não sinto pena, pois é algo repugnante sentir pena de alguém como Zeke. Ele é forte e não um frango, como disse Lynn. Não é um covarde e por isso ficará na Audácia, por que merece isto.
— Vocês tem medo do segundo estágio? — pergunta Marlene um pouco receosa.
— Sim. Um pouco. — eu digo. — Na verdade, não sei como será o segundo estágio.
— Eu também não sei muita coisa sobre ele, poucos sabem. — diz Lynn.
Assinto lentamente com a cabeça.
— Terceira luta, Lynn e Marlene. — grita Eric.
Olho para as duas e Lynn parece esconder sua tensão mas seus ombros estão em linha reta e sua mandíbula travada. Marlene parece meio indiferente, mas um pouco estranha.
Elas sobem uma de cada lado do ringue e começam a lutar. Lynn dá um chute certeiro na lateral do corpo de Marlene, mas ela segura sua perna e gira, fazendo Lynn cair no chão.
Lynn fica de barriga para cima deitada no chão e quando Marlene vai chutá-la, ela dá uma grande rasteira nela.
— Uuhh... — eu digo meio automático.
Marlene solta uma exclamação de surpresa inaudível e as duas se levantam rapidamente.
Marlene consegue dar um gancho de direita em Lynn e mais dois socos rápidos no rosto dela.
Lynn cambaleia um pouco e balança a cabeça para os lados tentando recobrar e equilíbrio.
Eu reparo que Marlene é rápida — e entendo uma parte de todo seu ânimo — pois ela dá pulhinhos para trás e para frente enquanto se defende.
Marlene copia o passe que Zeke deu em Uriah, fingindo o soco no estômago e dando um com toda força no rosto.
Lynn cambaleia muito e finalmente cai, mas ainda não desacordada.
— Já? — Marlene pergunta para Eric.
Ele pensa um pouco e assente com a cabeça, dando de ombros. Então Marlene desce do ringue e se apoia em mim. Ela ri um pouco e diz:
— Eu estou no êxtase, desculpe. — ela diz.
— Só não me bata. — eu digo e rimos.
— Vá falar com Zeke, por que eu quero ver Uriah na enfermaria. — ela diz tentando soar séria. E ela acrescenta: — E a Lynn também.
Olho-a estranhando e ela dá de ombros e vai embora.
Caminho receosa até Zeke e me ajoelho em sua frente.
— Zeke... — eu começo a dizer. — Posso apenas te acompanhar?
— Pode. Desculpe, Sam. Não sou um marica, como deve achar. — ele diz cabisbaixo.
— Não é um marica e nunca foi. — eu digo. — Além disso, ele é seu irmão e se eu tivesse que bater em meu irmão eu cederia.
Eu sento-me em seu lado.
— Então sou brutal por ter batido nele.
— Zeke, entenda, você foi obrigado. Preferia virar um sem facção que é algo que nunca poderá ser mudado ou bater em seu irmão que é algo que não vai doer nele para sempre?
Minhas palavras são duras, mas meu tom é reconfortante, pois não quero deixá-lo pior.
— É... Eu sei. Não deveria ficar assim não é? — ele diz. — Você é você. — eu digo. — Deve ficar como acha que deve ficar.
Ele assente com a cabeça e ficamos assim, num silêncio confortante, digerindo nossas próprias palavras.
+++
As lutas dos iniciandos nascidos da Audácia se encerram e Eric chama todos para o centro da sala e começa as lutas dos transferidos. A primeira luta é de Tris e Peter.
Peter acaba vencendo a luta, mas ele é brutal e sádico. Mesmo ele vencendo, Tris o feriu também e ambos foram para a enfermaria.
— Segunda luta, Sam e Al. — grita Eric.
Eu subo o ringue de um lado e Al de outro. Começamos a luta com ele tentando um soco de direita, mas eu consigo defender. Ele é lerdo demais. Penso rapidamente que se tentar um chute nas laterais de seu corpo ele segurará minha perna então faço o que ele acha que farei. Levanto minha perna como se fosse desferir o chute na lateral, mas quando ele passa os braços para o lado para girar minha perna eu dobro meu joelho e o avanço ao mesmo tempo,dando uma forte joelhada em seu estômago. Quando ele se enverga pelo susto eu dou um soco certeiro no seu nariz e pinga sangue.
Al me dá um gancho de direita por que não consegui defender, mas mesmo zonza, não posso ficar parada. Eu dobro o joelho direito em frente ao meu corpo e empurro com toda minha força. Ele cai no chão e quando vai se levantar eu chuto sua cabeça em encontro ao chão.
Ele apaga.
Eu me afasto dele e olho ao redor, horrorizada com que fiz. Eric está sorrindo e Quatro ajuda Al a se levantar e o leva para fora da sala.
Desço do ringue e me sento apoiada no próprio. Enterro meu rosto em minhas mãos e me sinto horrível. Lembro-me do Al, meu amigo, jogado como um saco de batatas no ringue.
Eu fiz isso.
— Agora... Sabe o que é? — diz Zeke um pouco cabisbaixo. Eu me levanto abruptamente.
— Me desculpe, me desculpe eu não sabia como era. — eu digo me virando para ele e o abraçando com quase toda minha força.
— Tudo bem, tudo bem. — ele diz calmo e reconfortante. Tomo distância dele e ajeito minha postura.
— Eu vou para meu dormitório. Preciso... Tomar um banho. — eu digo passando a mão pela testa. — Depois nos encontramos no refeitório, está bem?
— Pode ir, depois me encontre lá.
Assinto com a cabeça e caminho até o dormitório.
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