Notas iniciais
boa leitura ♥

Eu não conseguia ver aquilo. Eu queria correr atrás daquele vagabundo e acabar com a raça dele.

Ver aquele otário carregando Emily daquele jeito foi um pesadelo. O que ela tinha feito?

Eu cantei as últimas duas músicas só pensando em que poderia ter acontecido. Ele nos viu trocando olhares? Não era possível. Ou era?

***

Quando eu estava colocando meus instrumentos no carro uma das meninas que estava andando com Emily me chamou.

— Com licença? Você está ocupado? – Ela disse com uma grande gentileza.

—Não, pode falar. – Disse desfocando a atenção do equipamento para ela.

Ela não era nada feia. Tinha um cabelo pintado de azul em um tom degrade, tinha olhos escuros e algumas tatuagens pelo corpo. Ela parecia ser mais amiga daquele vagabundo que andava com Emily do que ser amiga da própria Emily.

—Você vai estar ocupado no dia 15 de fevereiro?

—Não, por quê?

—É que vai ser aniversário de quinze da minha irmã e nós precisávamos de um músico. Vai ser as 19h no Salão Central. Está bom para você?

—Perfeito! – Disse dando-lhe um sorriso de agradecimento.

—Você sabe cantar pop, né? – Aquilo tinha me pego de surpresa. Eu sabia sim, mas não tanto quanto MPB.

—Sei sim.

—Ótimo. você terá que cantar pop então. – Ela disse devolvendo o mesmo sorriso de agradecimento.

Ela estava se virando para ir embora quando hesitou e deu meia volta.

—Aliás. – Disse dando-me um sorriso malicioso – Minha amiga Emily vai estar lá também.

Meu coração começou a se acelerar e sabia que estava corado, pois sentia o calor em meu rosto.

—Eu vi os olhares que você deu para ela o show inteirinho! Ela namora um babaca que estava beijando outra. Quando fui tentar falar com ela, ele a levou embora a força.

Agora eu conseguia odiar mais ainda aquele homem.

— Eu mal te conheço, mas com certeza você é melhor que o babaca do Carlos. Tente ficar com ela na festa da minha irmã. Boa sorte – Ela disse deixando comigo o cheiro de seu perfume.

Eu precisava daquele poema.

***

Estava em casa e estava colocando os equipamentos em casa, quando tropecei. Não foi um tropeço, minhas pernas tinham ficado fracas.

Consegui me erguer e terminei de levar as coisas para a garagem.

Depois de colocar todas as coisas lá, fui para dentro de casa. Minha mãe ainda estava lá. Acordada.

—Onde estava Isaac? – Ela disse ríspida.

— No show mãe. – Respondi tentando ir para o meu quarto

—Você se sentiu fraco? Conseguiu tocar? Caiu alguma vez? – Ela estava me enchendo de perguntas e eu só queria ir dormir, não queria pensar em nada disso.

—Não mãe! –Eu soltei um grito e logo depois me arrependi ao ver o rosto de desespero da minha mãe. – Eu estou bem, só me deixe ir dormir. – Eu acalmei a minha voz e me dirigi ao quarto.

Eu não queria sonhar com aquilo outra vez. Ver meu pai morrendo em uma cadeira de rodas todas as noites era a pior coisa do mundo. Mas aquela noite, aquele sonho tinha sido diferente.

Eu sonhei que estava deitado na cama de um quarto. Eu estava vendo Emily virar de costas para colocar uma camiseta de pijama. E nas costas dela. Tinha uma enorme tatuagem de um par de asas de anjo. Sem pensar duas vezes eu me dirigi até ela e contornei a tatuagem com os dedos.

Então eu acordei. Aquilo parecia tão... real.

***

Já estávamos no dia 14 de fevereiro. E eu não conseguia para de pensar naquele sonho. Nos outros 3 dias eu continuei sonhando com Emily, mas os outros sonhos não eram tão real como aquele.

Eu e minha mãe estávamos na sala assistindo a um filme que passava na TV.

—Mãe, eu vou tocar em um aniversário amanhã. Vai ser as 19h no Salão Principal. – Eu tinha que avisa-la, por mais que ela não queria que eu tocasse, eu tinha que fazer o que eu sonhava.

—Você sabe que eu não gosto disso Isaac. – Ela disse calma, mas como sempre eu sabia que ela iria ceder. – Essa vai ser a última vez em que você faz um show.

—Mãe! Como a última vez! Eu preciso tocar! Eu preciso fazer a minha vida valer a pena!

— Filho, você ainda tem muito tempo para fazer sua vida valer a pena.

—Mãe, mas você não sabe quanto tempo.

—Eu não sei, mas posso acreditar que não vai ser aos seus 23 anos.

—Mãe você acaba com a minha vida! – Gritei com ela mais uma vez e me tranquei no quarto novamente.

Não importa quanto tempo eu tinha, eu precisava fazer aquela vida valer a pena.

Eu iria fazer. Nem que me matassem.

Notas finais
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