The return to Neverland
1 Prólogo
Quase nunca as coisas acontecem como planejamos... Na verdade sempre pensamos que tudo vai estar sobre nosso controle, acho que isso é por culpa de nossa arrogância humana de achar que nada de ruim vai acontecer, uma mentira que nos ajuda a ter coragem. Infelizmente com essa pequena acabamos por enfrentar drásticas consequências que nós derrubam e nos quebram como um pequeno galho em uma grande avalanche.
Todos somos atores nesse pequeno mundo. Atuamos todos os dias, sem nem imaginar a próxima cena. Somos meros atores desejando intensamente que o próximo ato não seja uma tragédia, infelizmente ela sempre está mais próxima que qualquer outro ato. Um exemplo claro disso sou eu, sempre achei que estava longe de mim, mas perdi o controle de minha própria peça. Sinto que cada dia que passa me encontro mais perto do ato final, na verdade, simplesmente perdi o controle de tudo ao meu redor. É como se tivessem me jogado de uma hora para outra em uma grande tragédia grega.
Tudo começou a menos de uma semana. A pobreza dominava cada canto da cidade, a guerra havia sugado cada parte do sistema, que sempre pareceu funcionar tão bem. A grande quantidade de crianças, agora órfãos, só podia significar que os orfanatos estão cheios e talvez uma parte maior do dinheiro esteja destinada a eles. Isso é um tanto quanto ingenuidade de se acreditar. Órfãos são pequenos bastardos da sociedade e nosso destino é apodrecer para o resto de nossas vidas jogado em uma sarjeta implorando por um pouco de comida. Eu sei disso já que meu irmão mais novo está preso em uma dessas prisões. Já eu, bom estou em uma prisão um pouco pior de fugir, mas eu vou. Meu nome é Cecily L. Dun, a única coisa que quero é encontrar meu irmão para assim voltar ao resto de nossa velha casa. Não faz muito tempo que uma ‘’sombra’’ invadiu nossa casa. Garret, meu irmão mais novo, conversava com o invasor e dizia que ele não era perigoso, que ele , assim como metade do mundo, estava se escondendo de uma pessoa cruel. Não conseguia ver essa pessoa e nem meus pais, por isso pensamos que seria apenas um amigo imaginário de meu irmão. Mas os dias passavam e a criatura não ia embora. Aquilo só foi embora no dia que encontramos nossos pais com seus membros cortados e cabeças penduradas em ganchos da cozinha. Aquela foi a primeira vez que pude ver o ‘’amigo imaginário’’ de meu irmão. Ele não tinha olhos, ele não tinha um rosto... Como já disse não passava de uma mera sombra. Minha primeira reação e única reação foi pegar a mão de Garret e correr para o mais fundo da floresta, que existia atrás de nossa casa. Corremos para o mais longe possível da casa, corremos até o cansaço nos capturar e fazer nossos corpos caírem na grama coberta por uma leve camada de orvalho. Pela manhã seguinte já havíamos sido ‘’salvos’’ por um estranho homem que desejava saber o que tinha acontecido noite passada. Garret não falava nada, enquanto eu estava gritando e implorando para que capturassem aquela sombra. As lagrimas escorriam pelo meu rosto e pareciam queimar minhas bochechas, sempre que dizia que sombras não matavam pessoas eu entrava em um estado mais alerta. Eu gritava e dizia que capturaria aquela coisa sozinha. Esse meu pequeno momento de loucura foi o bastante para me diagnosticarem com esquizofrenia e assim decidiram que o melhor lugar para uma órfã como eu seria no sanatório Lennox. Meu irmão foi separado de mim naquele dia. Sei que o mandaram para um orfanato da cidade, o único problema é que não faço a menor ideia de qual seja, embora não vejo problema de bater de porta em porta até encontra-lo.
-Cecily. –chamava uma voz ao fundo. –O que está pensando?
Abri meus olhos. Ainda me encontrava sentada na velha poltrona de couro que ficava posicionada ao lado da grande janela que iluminada todo o consultório de Dr. P.Hinson. A vista da janela não era grande coisa, na verdade a única coisa que podia ver, além de mato crescendo, era o velho trilho de trem que havia sido desativado há alguns anos atrás. O céu estava coberto por nuvens negras que escondiam o sol da primavera, isso dava mais um tom de tristes a aqueles dias que era obrigada a passar presa.
-Hum... Em nada demais. –respondia com o mesmo tom monótono de sempre. –Por que mesmo o trem foi desativado nessa região?
Pude escutar um suspiro vindo da direção de meu medico e então o piso deu um leve rangido, o que significava que ele havia se levantado da velha poltrona. Fecho meus olhos por mais um momento para foca-me nos barulhos que eram feitos para assim descobri aonde ele ia, sem ter de olha-lo. O cheiro forte de licor ainda estava naquela sala, isso devido a um acidente que ocorrera há alguns dias atrás, quando uma paciente chutou uma das garradas de Dr. P. O rangido do piso havia parado, mas seu ultimo som viera do lado esquerdo da sala, ele certamente estava parado enfrente a sua estante.
-Nosso proposito aqui não é o trem, Cecily. –respondia o homem que mantinha seu tom calmo. –Você realmente gosta de mudar o foco de nossas conversar.
-Só não tenho nada o que conversar. Tudo que eu falar será usado contra mim. –respondia cruzando meus braços. –Eu já o vi fazendo isso. Franny era perfeitamente normal, mas mesmo assim... –minha voz falhou ao lembrar-me do desaparecimento misterioso de uma de minhas únicas amigas naquele lugar.
Franny era uma garota normal, mas seu problema era ser bastarda de um homem poderoso que para evitar escanda-los a jogou aqui. Toda vez que ela entrava nesse consultório ela saia diferente, drogada por causa dos medicamentos. Até que certa noite ela desapareceu. Uma vez pude escutar as enfermeiras falando que haviam dando o tratamento especial para ela. Eu não sabia o que era, mas me causara arrepios e me fizera chorar por um longo período de tempo. Eu podia ser a próxima?
-Não fale besteiras, Cecily. –por um momento Dr. P mudou seu tom de voz o deixando um pouco mais serio. –Franny teve uma complicação medica, não tínhamos equipamento suficiente para trata-la aqui, por isso fomos obrigados a manda-la para um hospital onde poderia ser devidamente tratada.
Enquanto Dr. P cuspia suas mentiras desviava meu olhar na direção do relógio. O som dele sempre me deixou um tanto quanto irritada, mas agora estava animada, pois faltava menos de um minuto para aquela torturar toda ter seu fim.
-Doutor, já acabou nosso tempo, acho que deveria me retirar agora. –antes de terminar de falar já estava de pé e caminhando na direção da porta.
Dr. P não se importava mais em me segurar, já que sabia que seria inútil, mas o que o deixava em paz era saber que já tinha a mim presa naquele lugar. O homem de meia idade só deu um breve suspiro e fez um breve gesto de mão indicando que me retirasse dali. Não era preciso pedir duas vezes para isso acontecer. A porta do consultório quase nunca ficava trancada no período das consultas por isso a abri sem muita dificuldade, só precisei jogar meu corpo um pouco para frente por conta do peso da mesma. Era uma porta completamente entalhada a madeira e era pesada demais para um adulto, imagine para uma criança como eu.
-Tenha um bom dia, Cecily. Nos vemos amanhã.
-Digo o mesmo, doutor. –respondia ao retira-me. Dei uns passos para frente, deixando a porta aberta atrás de mim. –Eu nunca mais o verei. –resmungava ao retirar uma mecha de cabelo de minha face.
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