The rain that falls

1 I - Nada como uma bicicleta


Era noite e chovia – muito, se me permite enfatizar-, eu estava parada em frente ao restaurante dos meus pais, encarando a água que caía do céu aos poucos. As gotas deixavam escapar pequenos sons cada vez que encontravam uma superfície, fosse ela o capô de um carro ou o asfalto; e eu, absorta naquele movimento, permanecia observando a chuva. Foi naquele momento que o vi pela primeira vez, foi o primeiro momento no qual meus olhos perseguiram aquele rosto, daquele menino. Apesar da chuva, ele estava em uma bicicleta azul e pedalava como se fosse um dia ensolarado. Suas roupas encharcadas, seu cabelo completamente grudado na testa e seu sorriso me obrigaram a persegui-lo com o olhar, o que acabara por tirar minha concentração da chuva. Ou melhor, concentraram meus pensamentos no movimento da chuva por ele, enquanto pedalava do modo mais livre que eu já vira. Seria hipócrita não ressaltar a camisa clara colada ao seu corpo, o que evidenciava seus músculos — era certo que praticava algum esporte ou ao menos frequentava alguma academia.

Passou pelo restaurante, mas ficou em algum lugar dentro da minha mente. Logo me virei, encarando meus pais trabalhando; minha mãe cozinhava, enquanto meu pai servia os únicos dois clientes no local. Ele me encarou com as sobrancelhas cerradas.

— O que você tá fazendo aí? – Falou no tom mais baixo possível, enquanto andava na minha direção – Ajuda sua mãe a adiantar o trabalho

— Mas, pai, só tem dois clientes, pra que isso? – Revirei os olhos

Ele me puxou, então desisti de protestar e fui a cozinha, onde permaneci parada (realmente, minha mãe não precisava de ajuda), ainda pensando na cena que acabava de ver. Esse ano eu começaria a faculdade, será que eu daria sorte de encontra-lo novamente? Nunca me esqueceria daquele rosto, nunca mesmo.

Era uma época boa para loja, talvez ele até passasse por ali novamente ano q vem (se morasse perto). Ah, claro, devo enfatizar que faltava um dia para o ano novo, por isso era o último dia no qual o restaurante iria abrir. Íamos para uma festa da vizinhança na virada – minha mãe realmente queria, não pude negar –, então, após fecharmos a loja, saímos para o shopping. Passamos o final da noite lá, conversando e escolhendo roupas, enquanto meu pai estava em casa, arrumando os preparativos pra festa. Acabei escolhendo um vestido solto rosa claro, pensando no que aquele menino pensaria se me visse assim. Que idiota, me encantando por alguém que nem sequer sabe que eu existo. Que merda.

No final, voltamos para casa, jantamos e conversamos. Antes de deitar, sentei a minha mesa — estava decidida de registrar aquele momento do modo que eu pudesse — então, peguei um lápis e me pus a desenhar cada traço daquela cena gravada em meus pensamentos. Desde o sorriso bobo do rapaz até as gotas de chuva colando a camisa em seu corpo, passei um bom tempo naquele movimento até pegar no sono.

— Filha, acorda, você me prometeu que ia ajudar o filho da Gina.

Meus olhos sonolentos encontraram a luz pela primeira vez, senti que minha cabeça estava apoiada sobre meus braços, já dormentes.

— Pode entrar, Lucas, ela nem trocou de roupa para dormir, essa menina...

Percebi um movimento maior para dentro do meu quarto, tinha uma terceira pessoa ali, portanto me forcei a levantar, ainda com o olhar embaçado. Dormir naquela posição com certeza não havia me proporcionado um bom sono.

— Com licença. – os passos se aproximaram, enquanto eu coçava meus olhos – Que desenho bonito, senhora Kramachov.

Levei um susto com o comentário, o que acabou me levando a arregalar os olhos e virar a folha de papel. Ora, mas que abusado, entra no meu quarto e ainda sai fazendo comentários. Ele soltou uma risada do meu movimento brusco e minha mãe me deu um tapa de leve.

— Ela desenha muito bem, mas é um pouco teimosa. Resolveu fazer direito, vai entender, não é? Todo mundo falou que ela deveria ser arquiteta ou algo do gênero. – Outra risadinha.

Finalmente virei o olhar para o menino e entrei em choque. Impossível. Percebi o mesmo corpo de que observei ontem estático a minha frente. Foi uma questão de alguns segundos para que eu sentisse minha bochecha ficando quente, seguida pela minha boca entreaberta e um silêncio estarrecedor.

— Oi, Lola. – Ele me cumprimentou com um sorriso debochado – Não sabia que você me conhecia.

— Hum? – Minha mãe soltou — Como assim? Ela te conhece?

Ele assentiu com a cabeça e apontou para o desenho. Eu estava atônita, sem reação alguma à situação, logo meu corpo permaneceu congelado observando o movimento dele. Minha mãe soltou uma risadinha divertida, como se eu fosse algum tipo de entretenimento.

— Não é isso... Foi uma... — gaguejei um pouco, mas me recompus com um tom irritado — Saiam do meu quarto, por favor, eu tenho que me arrumar. — esbravejei

Ninguém respondeu com palavras, eles apenas se retiraram e eu fiquei um tempo tentando decifrar todos acontecimentos. Cheguei a me beliscar para garantir que eu estava acordada: infelizmente, estava. Quase não consegui observar os traços do menino – agora sabia que seu nome era Lucas -, somente seus olhos, os quais eram puxados, indicando alguma descendência asiática. Não podia negar que eles eram lindos, até mesmo quando ele sorriu debochando de mim, fizeram uma curva imitando a lua crescente das últimas noites.

Demorei para me arrumar, não por querer impressioná-lo, mas por não querer encará-lo após aquela situação nem um poucodesagradável. Ainda assim, saí do quarto, eventualmente, ao chegar à sala me deparei com ele e minha mãe conversando e rindo — queria saber sobre o quê, parecia que algo era realmente muito engraçado. Entrei na sala com uma feição fechada, parei atrás deles e permaneci encarando aquela situação.

— Vamos logo com isso. — falei enquanto me movimentava para o centro da sala — O que tenho que fazer, mãe?

Ele riu. De novo. Ele poderia ser lindo, mas aquilo estava começando a me irritar.

— Ela acordou de mau humor, Lucas. Não se chateie com isso, por favor. – ele assentiu, com um belo sorriso agradável de observar – Lola, pare disso, pelo amor... – ela levantou do sofá, segurando meus braços – vocês têm que comprar tudo que está nessa lista lá na feira. — Retirou um pape do bolso direito e me entregou — É a última do ano, deve estar bem cheia. — Richieta Kramachov desviou o olhar do meu e pairou sobre o filho de Gina — Que bom que ele é pontual. – outro sorriso – Ah sim! Isso aqui também.

Minha mãe me entregou um cartão de crédito, indicando que eu deveria pagar. Reparei na lista por um instante, constatando que era uma lista realmente grande. De fato,apesar dos itens não serem pesados, ele não conseguiria trazer e comprar tudo sozinho, o que explicava a necessidade da minha companhia. Respirei fundo, guardei tudo q precisava e deixei que meu olhar parasse sobre ele por alguns segundos. Me surpreendi ao me chocar com as pupilas dilatadas me encarando de volta. Obviamente, não demorei muito ali – como eu disse, segundos — e me virei. Não tinha necessidade de me expor gratuitamente para o menino que até pouco tempo era uma fantasia. Talvez devesse ter permanecido assim.

Saímos da minha casa sem trocar muitas palavras, pois Aquela situação havia nos deixando bem constrangidos, principalmente a mim. Ele deve pensar que eu sou uma esquisita que persegue ele ou algo bem próximo. Não duvidava que ele já tivesse experienciado uma situação dessas: deverdade, ele era tão bonito que um cenário desses não me deixaria nem um pouco surpresa.

— Você faz faculdade aonde?

— Hã? – ele cortou meus devaneios – Ah, sim. Na Tomhawlk. Mas eu ainda não comecei.

Andávamos com uma certa distância entre nós na calçada vazia, enquanto eu tentava desviar das poças formadas pela chuva de ontem. Ele falava comigo, mas não me olhava. Será que realmente tinha achado que eu era uma maluca?? Ah, mas que merda.

— Hum... – seus dedos entraram nos bolsos da calça bege que ele trajava – Sou professor lá.

Arregalei meus olhos, virando meu rosto para encarar o perfil dele. Como? Ele devia ter uns 23 anos e já era professor de faculdade? Aquilo realmente havia me surpreendido, em todos os espectros. Parecia que eu estava em uma sitcom muito mal planejada.

— Você? – minha voz saiu um pouco esganiçada – Como? Impossível. — eu ri, um pouco aflita – Você tem o que 22, 21...?

—24.

— Como é possível que você seja professor com 24 anos de faculdade? Você está tentando me enganar. – cruzei meus braços, observando o movimento estático dele.

— Sou professor do primeiro período de introdução ao direito.

Soltei uma gargalhada, o que me fez para na frente de uma poça. Ele, um pouco chocado, parou mais a frente e se virou, enquanto seus olhos me observavam. Não sei se ele estava ofendido ou confuso, mas ficamos um tempo assim: eu ria e ele encarava.

— Então, eu vou ter aula com você? -debochei

— Talvez, — ele alongou, se aproximando — você é do primeiro período? É o primeiro ano que vou dar aula.

Ok, ele realmente não parecia estar brincando. Dei um passo a frente, acabei pisando na poça e, portanto, sujei toda minha perna. Porque diabos eu fui usar uma saia no dia seguinte de uma tempestade? Xinguei mentalmente todos os nomes que pude pensar. Eu, honestamente, esperava uma atitude cavalheira dele, seja me oferecer um lenço ou demonstrar alguma preocupação, todavia, ele apenas riu. Era melhor ele ter ficado na minha imaginação.

— Se você não tivesse ficado tão chocada com o que eu te contei, isso não teria acontecido. – ele mexeu no cabelo e sorriu de lado, como se me achasse uma idiota – Vamos logo. Não quero perder a primeira leva da feira.

Bufei alto o suficiente para que ele pudesse ouvir e seguimos em frente, dali em diante resolvi que não falaria nada. E, realmente, permaneci quieta até perceber que o caminho que ele nos guiava era um pouco estranho. Será que ele era o maluco aqui? E aquele desenho fez ele acreditar que eu faria qualquer coisa com ele? Não poderia ser, a mãe dele era amiga da minha, ele não seria louco. Ou seria?

Minhas mãos suavam um pouco, mas eu estava pronta para qualquer tentativa estranha dele. Viramos mais uma rua e ele parou.

— O que você está fazendo? Por que estamos aqui? – perguntei, afobada, quando ele parou e me encarou – Não entendi porquê estamos aqui. Seria bom se você se explicasse logo, se não vou ligar pra minha mãe e...

Ele nem respondeu, apenas suspirou e entrou na farmácia que estava ao nosso lado. Um pouco atônita, me senti aliviada e culpada, afinal ele só queria parar aqui. Mas, assim, ele poderia ter falado ao invés de ter seguido o caminho sem nem me explicar para onde íamos, aquilo foi bem estranho. Observei ele através das paredes de vidro do estabelecimento, o que me permitiu notar como a menina do caixa parecia um pouco incomodada com a presença dele – com certeza não era um incomodo negativo. Em poucos minutos ele voltou com uma sacola em mãos.

— Fica quieta.

Ele se abaixou, apoiando-se em apenas um dos joelhos. Cheguei a abrir a boca para protestar, mas observei ele retirar um pequeno vidro de álcool e um pacote lenços. Seus dedos longos viraram o álcool nos lenços e logo começaram a limpar a minha perna. Eu estava atordoada com a atitude dele, então acabei com o corpo todo congelado, enquanto percebia as minhas bochechas esquentarem, muito.

Lucas se levantou sem pronunciar nenhuma palavra, parecia envergonhado também de tal atitude, então não me encarou – apenas jogou os lenços na lixeira. Voltamos, então, a seguir nosso caminho, os dois sem levantar o rosto e ,até que minha coragem aparecesse, quietos.

— Obrigada. – falei enquanto entravamos na feira

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.