Notas iniciais
Chuva. Chuva incessante.

Mal era de manhã, e as nuvens modorianas já choravam.
Todos na academia, por ser o dia inicial de aulas, queriam estar animados. Queriam.
A chuva deprimia todos ao seu redor. Afinal, o sol, é essencial em Modore.
Queira ou não, quem está lá, de toda forma, precisa do sol. Sem o sol, ficarão pálidos.
– Não tem como essa chuva acabar? – Chloe, agora com voz rouca, resmungava e xingava a chuva, algo que a deixava completamente desconfortável. Mesmo que não queira, teria que aceitar tal caso, mesmo a se recusar ter que apenas observar as gotas de água caírem sobre sua janela, fazendo com que o ar local ficasse completamente úmido e deprimente.
– Se você parasse de reclamar, e fizesse algo útil, essa “depressão” – Melanie, que agora observava sua companheira, traçava aspas no ar. -, Provavelmente iria sumir. Observar a chuva cair não irá cooperar com nada.
Chloe apenas suspirou, permanecendo perante a janela, debruçando-se.
– Você está tão despreocupada com isso. Como consegue? – Os olhos da mesma permaneciam caídos, indo de um lado para o outro. O olhar da mesma, pareciam pedir por socorro, o tremendo tédio eram expressados neles.
Melanie simplesmente sentou na cama aonde a outra permanecia, com os olhos caídos, e permanecidos na mesma. A preocupação era estampada naquele olhar maduro.
– Chuva não é tão ruim. Bom, pelo menos, para mim. O que lhe causa tanta tristeza ao ver a chuva? – O som da voz da loira soava baixa, e de certa forma, abafada. Melanie abusa dessa voz quando aparenta preocupação.
Os olhos avermelhados da outra, foi de encontro com os doces olhos mel da loira. O sentimento que eles carregavam, nunca fora visto por Melanie, mesmo que só tenha chegado ali a apenas 2 dias.
– Mesmo que... mesmo que não me faça mal nem me faça bem, tem algo que me preocupa sobre chuvas assim.
Ao Chloe parar de debruçar-se na janela, e apoiar seus cotovelos em seus joelhos, posicionando suas mãos em suas bochechas, Melanie reparou na estampa da blusa da outra. A blusa era de certa forma, uma blusa de uma banda punk.
“Realmente combina com ela.” Foi o que se passou sobre a cabeça de Melanie. A mesma apenas fechou suas pálpebras, gravando a imagem de Chloe vestida daquele jeito em sua cabeça.
Blusa punk, coque “mal feito”, short preto, meias longas e coloridas.
“Sim, isso realmente combina com ela.” Outro dos pensamentos de Melanie.
– Tudo bem, Mel? – Os olhos de Chloe foram de encontro ao rosto de Melanie.
Realidade, novamente. A loira tem certa mania de se perder em seus pensamentos, de toda forma.
– Melanie, por favor.
Silêncio. A voz da outra, que antes era dócil, agora voltara a ser firme. A dona dos vermelhos olhos, apenas calou-se, com uma expressão assustada. Talvez, nem ela sabia o porquê.
– Tudo bem.
Depois daquilo, ambas calaram-se.
O movimento na tal lanchonete da universidade, não era o dos melhores no momento.
Ikan, por precisar de dinheiro, trabalhava lá, desde de que havia chegado na Inuru.
O lobisomem, tinha certo apego por aquele lugar, por isso odiava ver o lugar tão vazio. Quando estava chateado, pegava um pano e ia limpar as mesas, até que ficassem brilhante.
Ficar num lugar daqueles sem fazer nada, e enquanto chovia, era totalmente depressivo para Ikan. Diferente de Lowa, a zumbi, que tomava conta do caixa, ele não conseguia ficar parado.
Ultimamente, estava tão estressado, desde o “acidente” com a porta de vidro. Ele agradecia pôr a dona das madeixas esverdeadas não aparecer naquele estabelecimento certas vezes, como era o momento. Ele soltava suspiros de alívio certas vezes.
– Ainda bem. – Murmurava, enquanto limpava as mesas.
Lowa, alguém com quem se importava muito com Ikan, observava-o limpar as mesas, preocupada.
A dona da pele pálida, dos olhos petrificados, ajeitava seus curtos e grisalhos cabelos, caso algum cliente resolvesse aparecer. De toda forma, ela não suportava a ideia de ver seu colega de trabalho dar tudo de si para com o trabalho, e ela ficar parada ali, sem fazer absolutamente nada, além de ficar em frente a um computador, sentada num banco alto, tediosamente sobre um balcão.
Sobre o ombro, Ikan sentiu uma mão amiga, olhando para trás sobre seus ombros. Lowa, carregava uma caneca de café numa das mãos, que não apoiara no ombro do mesmo.
– Tome um pouco do café, e descanse.
A voz doce de Lowa, e o seu sorriso, tranquilizava Ikan. Tem como dizer não para uma doçura de zumbi?
Ele suspirou, retirando a caneca das mãos da mesma, e tomando para si.
– Obrigado.
Ele retribuiu o gesto com um sorriso.
– Não há nada para agradecer. – Ela mantinha o sorriso, enquanto voltava para seu lugar.
Ikan sentou-se, e degustou do café.
“Realmente, delicioso.”
O tempo parecia que havia parado. Ninguém aparecia ali, por mais que passasse os minutos. As esperanças de Ikan já estavam completamente mortas. Lowa parecia entristecida, ou apenas estava entediada.
Até que, o inesperado aconteceu.
O sino da porta foi ouvido, muito mais forte aos ouvidos de Ikan. O cheiro da pessoa era-lhe familiar,por isso, ele mesmo não queria atende-la.
Lowa, ao ouvir, estampou imediatamente um sorriso ao rosto.
– Seja bem-vind – O seu sorriso fora desfeito, a bandeja que a mesma segurava caiu, fazendo um estridente barulho. A expressão da mesma, já não era alegre ou triste, e sim, de horror.
Como o barulho perturbou os ouvidos de Ikan, ele cobria suas peludas orelhas com as mãos, com o objetivo de abafar o som dentro delas.
Lowa parecia paralisada. Estava boquiaberta, sem mesmo acreditar a pessoa que permanecia a sua frente.
– K-Kim?!
A dona dos negros cabelos curtos, que causava mistério no olhar pela franja, mostrava todos os dentes, num sorriso.
– Olá, Lowa.
Aniza, como sempre, hiperativa.
Dessa vez, a pequenina, dava voltas nos arredores da academia, subindo e descendo escadas, entrando e saindo das salas vazias, correndo pelo grande salão. Repreendida por Madson certas vezes, mas não deixava de demonstrar felicidade. Irônico.
– Para viver, tente ser feliz! – Rodopios, saltos, giros, manobras, acrobacias. De tudo um pouco.
– Você não diz coisa com coisa. Aniza, você é estranha. – Madson reparou, tentando fazer Aniza parar de fazer tudo aquilo.
Mas, pareceu, que Aniza nem a ouviu direito.
– Sou feliz! – Ela parou diante a Madson. – Seja feliz!
Madson, revirou os olhos.
– Eu sou feliz. – Indagou, indiferente.
– Seu jeito de ser feliz é careta. – Para demonstrar, Aniza fez cara de desgosto.
Madson até achava graça. Mesmo que ela gostasse daquele jeito infantil de Aniza, com ela tendo mais de duzentos anos, ela não poderia ter o mesmo jeito infantil. Tanto que, está ali para zelar pela maturidade dos estudantes, mas as vezes ela mesma não é madura. Algo assim, ela nunca admitiria para alguém, por conta do orgulho.
– Hm, ok. Mesmo que meu jeito de ser feliz seja careta, eu preciso ser assim. Aniza, me faz um favor? Brinque em outro lugar. Ah, tome uns trocados. – Madson tirou de seu bolso algumas moedas e entregou-as para a mesma. – Compre doces. Só vá agora, vai, vai. – A mesma deu alguns empurrões em Aniza, indicando para que ela fosse breve. – Vai, xô, xô.
Confusa, Aniza foi.
– Tudo bem.... – Ela, com o sorriso estampado ao rosto, foi ao Chusegunter, sorrindo e saltitando.
Assim que estava no corredor para entrar no Chusegunter, pela porta de vidro ela pôde perceber que, A moça dos cabelos negros, apontava um guarda-chuva ao rosto de Lowa, que estava amarrada ao Ikan, feitos de reféns.
Os olhos de Aniza nunca tinham sido enchidos de tamanha tristeza.
“Ikan…L-lowa…” Os olhos de Aniza estavam tão caídos. Como seus ouvidos eram um tanto aguçados, ela pôde ouvir um pouco do que Kim dizia.
– Sabe, sabe... – Ela ainda apontava o guarda-chuva ao rosto de Lowa. – Você só me trouxe desgosto, Lowa.
– Você disse que não voltaria mais... – Vociferou Ikan, cerrando os dentes. – Por que voltou aqui?
– Hm... – A cabeça de Kim moveu-se na direção do rosto de Ikan. Sombriamente, ela sorriu. – Fico feliz que perguntou. Voltei aqui para pegar de volta o que é meu.
– Não é mais seu, lembra? Você doou para minhas experiências! – Gritou Ikan.
Lowa não dizia nada, apenas chorava.
Aniza sentia tanta angústia, mas ela saberia que, no momento, apenas precisava ouvir. Para não ser percebida, ela escondeu-se atrás do sofá que havia ali no corredor. E continuou a ouvir.
– Claro, claro. No que você usou mesmo? Ah, é verdade. – Ela aproximou seu rosto do de Lowa. – Você reviveu essa inútil! – Kim gritou no rosto de Lowa, o que causou que a outra chorasse mais. – Inútil....
– Não fale assim da Lowa, a inútil é você! – Estressado, Ikan gritou novamente.
– Eu falo como eu quiser. – Uma risada psicótica veio da mesma. – Me lembro que, você não usou tudo com ela. Você usou em mais alguma coisa, me lembro bem.
– Vá para o inferno, Kim!
“O que foi essa outra coisa?” Aniza questionava, ainda sem compreender.
Kim, apenas ignorou a ofensa do lobisomem.
– Aonde você depositou o resto do titanium, dos órgãos projetores, e das emoções artificias? Hein, Ikan? Aquilo era pouco, mas dava para algo a mais. Está com a Lira, certo?
– Não envolva Lira nisso....
– Você não vai falar, né? – Ela suspirou. – Vou ter que manter vocês aqui, então. Até você abrir a boca.
– Pode me manter em cativeiro, amanhã alguém virá aqui para fazer sua refeição, então você ficará encrencada.
– Amanhã? – Ela riu. – Ninguém virá aqui, Ikan. Ninguém virá. Sabe essa chuva? Então, ela desanima as pessoas, e elas não levantarão para vir aqui.
– E morreriam de fome? – Lowa atreveu-se a dizer. – Eles não são loucos igual a você!
– Ah, ainda bem que você perguntou. – Ela estampou um sorriso no seu rosto. – Sabe, quem controla a atual chuva sou eu. Ela afeta nas emoções das pessoas, e ninguém irá querer levantar.
Lowa voltou a chorar.
– Acalme-se, Lowa...
“Deve haver um jeito.” Ikan estava distante, procurando jeitos para sair dali. Havia tantas ideias, mas recusava todas elas.
– Preciso ajuda-los.... – Murmurou para si.
Aniza, cuidadosamente, foi engatinhando até as escadas. A partir de que conseguiu engatinhar até as escadas,Aniza desceu-as imediatamente, voltando ao grande salão, se deparando com Madson.
– Madson! – Aflita, ela correu até a mesma. – Ainda bem que está aqui!
– Aniza, eu não falei que era para você comprar os doces? – Calmamente, Madson a perguntou.
– Eu sei, mas é que....
– Não, eu não quero ouvir. Vá comprar doces, ou fazer... sei lá o quê. Mais tarde se iniciam as aulas e você sabe disso.
Aniza permaneceu-se cabisbaixa.
– Tudo bem....
– Ei, ei. – A outra percebeu a tristeza no olhar da menor. – Cadê a alegria de poucos minutos atrás?
– Não é nada demais...
– Então, vá fazer o que quiser. Brincar, por exemplo. Só que em outro lugar. Eu tenho um trabalho a fazer.
– Sim, sim. Eu... vou procurar Melanie.
– Isso, então vá.
Aniza foi em direção a ala 7 de dormitórios.
Ao chegar na porta do dormitório de Melanie, ela bateu na porta. Quem abriu foi Chloe.
– O que você quer, pirralha? — A expressão de Chloe era de irritação, como se Aniza estivesse interrompendo algo importante.
– É-é que eu .... – Aniza gaguejava tanto que mal conseguiu terminar de falar. O medo que Aniza sentia por Chloe era enorme, só por conta do ar superior que Chloe transpirava.
– Chloe, quem está aí? – Melanie se aproximou, e ao ver que era Aniza, ela sorriu. – Oi oi, Aniza.
– Melanie! – Ela demonstrava demais o nervosismo. – Preciso da ajuda de vocês duas!
– Que? Pra que quer ajuda, pirralha? Pra pegar algo em um lugar alto? – Como sempre, Chloe agiu arrogantemente.
Melanie teve que conter o riso.
– Não! É sério!
Melanie parecia espancar Chloe só com o olhar, o que fez com que a outra calasse.
– O que está acontecendo, Aniza?
– É que...Não é algo em si sozinho, e sim algo que alguém está fazendo...algo muito ruim!
– Quem? – Chloe atreveu-se a perguntar, num tom menos arrogante do que antes.
– Uma Kim... – Acanhada, Aniza respondeu.
– Kim? Quem é Kim? – Melanie teve que perguntar, senão ficaria confusa.
Chloe franziu o cenho.
– Um dos piores perigos da Inuru. Aonde ela está?
– Na Chusegunter... Ela está mantendo Ikan e Lowa como reféns!
– O que estamos esperando? Temos que ir logo! — Vão na frente. — Indiferente, retrucou Chloe. — Tenho que pegar algo, antes de ir.

– Tem certeza? — O ar que Melanie transpirava, já não era o mesmo de antes. Ela aparentava preocupação, hábito de quando Chloe a contraria.

Aniza interrompeu.

– Vai ser até melhor! Precisamos de ajuda de duas outras pessoas, que nunca me ouviriam nesse sentido. — Cabisbaixa, confessou.

– Que seja. Vocês devem ir logo, antes que Kim apronte algo com aqueles dois. — A mesma revirou os olhos, e bufou. — Não pense que estou fazendo isso por Lowa e Ikan, apenas não quero que aquela vadia continue cometendo atos e não sendo punida por eles.

Melanie ainda enxergava bondade naquele coração de pedra, mesmo que nunca demonstrasse a tal da verdade. Achava que era até melhor assim, para que tudo ficasse sobre o total controle. No controle de Chloe. Ela apenas sorriu.

– Se você diz. Vamos, Aniza. — Acompanhada da menor, começou a andar.

–Quem deveremos ver?

Lira.

Notas finais
Oi gente! Obrigada por ler mais um dos capítulos. Demorou, não é? Desculpe, estava sem criatividade. Enfim, obrigada por tudo! Se bobear, sai um novo capítulo ainda hoje....ou amanhã.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.