Notas iniciais
Oi vidinhas, voltei com mais uma one. Espero que gostem!

Harry estava nervoso.

Não poderia não estar, em um momento como aquele. Suas palmas suavam um pouco e seu lábio inferior já estava vermelho depois de ser mordido tantas vezes. A respiração ofegante recusava-se a se acalmar, mesmo que Harry estivesse tão parado quanto uma estátua.

Tentou se tranquilizar pelo que deveria ser a centésima vez. Nada poderia dar errado. Hermione havia adorado a ideia, e Rony também. Tudo do que ele precisava estava bem ali – dizer que ele já havia conferido milhares de vezes era pouco.

Seu olhar se voltou instintivamente para ela. Sua garota. Voando como uma águia, derrubando qualquer um que estivesse na sua frente. Tomando posse da goles, marcando tantos pontos que ele já havia perdido a conta.

Ela estava linda. Não que isso fosse novidade, mas ainda assim, Harry se surpreendia com o quanto ela parecia incrível mesmo com o corpo todo suado e os cabelos bagunçados.

Mas era de Ginny que ele estava falando, e ela era sempre assim. Linda, perspicaz, surpreendente. Sempre o fazia sorrir, de forma tão boba que os amigos o cutucavam e faziam brincadeiras sobre.

Mas ele não se importava. Nem um pouco. Amava estar com alguém que o fizesse tão bem. E -não que ele estivesse em dúvida — mas foi preenchido por uma certeza enorme que se espalhou pelo seu corpo e o fez arrepiar: Havia tomado a decisão certa.

Havia tomado a decisão certa porque ninguém nunca seria capaz de atrair seu olhar com tanta facilidade. Não aquele olhar bobo e apaixonado, de alguém que era completamente rendido e faria de tudo para fazê-la feliz.

Havia tomado a decisão certa porque mesmo após quatro anos de namoro ele ainda sentia o coração errar as batidas cada vez que Ginny sorria.

Havia tomado a decisão certa porque ela havia sido sua luz nos dias regados pela escuridão. Nos dias em que nem mesmo o sol conseguia brilhar. Nos dias em que o medo da guerra era sufocante – e também nos que vieram depois: Os dias em que as perdas doeram tanto que sugaram toda sua esperança.

E não foram poucos – muito pelo contrário. Às vezes Harry ainda se sentia do mesmo jeito de quando viu os túmulos de seus pais em Godric´s Hollow. Às vezes se esforçava para ver o lado bom de estar vivo em um mundo sem Sirius ou Remus, sem Dobby ou Fred. Quando eles se foram, levaram uma parte da alma de Harry junto — uma parte que nunca retornaria – enquanto o resto foi tomado por um sentimento de culpa tão grande que as vezes ele achava que não conseguiria encarar as pessoas ao seu redor — as pessoas que haviam perdido filhos e irmãos em uma guerra que apenas ele tivera o poder de parar.

Mas a felicidade podia ser encontrada mesmo nas horas escuras – ou pelo menos era o que Ginny costumava falar. Ginny, que havia perdido um irmão, que havia passado a infância temendo o início da guerra, que havia sido possuída e passado por traumas horríveis com apenas onze anos.

Ginny o inspirava, o mostrava que ainda havia tanto a ser visto, vivido, amado. Ginny era sua fraqueza e sua fortaleza, e juntos conseguiriam passar por todos os dias ruins que existissem em seu caminho.

Porque quando ela tinha pesadelos e acordava assustada e ofegante ele estava lá para acalma-la. E quando ele sentia o desespero tomar conta de si ela o lembrava de que estava tudo bem. Já havia passado. Tudo estava bem agora, porque eles estavam em casa.

Pensar em casa trouxe seus pensamentos de volta ao presente – ou melhor, ao futuro. Harry ainda não tinha a menor ideia do que fariam, para onde iriam morar. E isso trouxe uma das suas maiores preocupações para sua mente: A aprovação de Molly.

Era idiotice fingir que a senhora Weasley era apenas a mãe de Ginny. Ela havia sido uma figura materna para Harry desde que ele tinha onze anos e foi chamado para passar o natal com a família Weasley ao invés de ficar trancado no seu quarto na casa dos seus tios. Harry ainda tinha medo de decepcioná-la, por mais que Rony já tivesse dito várias vezes que Molly amava Harry como se fosse seu próprio filho.

E Harry também a amava como se ela fosse sua mãe. Depois da guerra, a família Weasley – além de Hermione, Luna e Neville — haviam sido sua fortaleza, sua família.

Talvez Molly achasse que Ginny era muito nova – talvez Ginny fosse muito nova. Mas se a guerra havia ensinado algo a Harry era que as pessoas nunca sabiam seu destino. Remus e Tonks nunca pensaram que não voltariam para casa cuidar de seu filho. Sirius nunca imaginou não realizar seus planos de ter seu afilhado em casa, morando juntos como a família que haviam sido impedidos de ser por tantos anos.

Lily e James... eles já imaginavam. E por isso mesmo viveram seu amor como se não houvesse amanhã. Harry sabia que os pais haviam morrido jovens, mas também tinham vivido tanto quanto foi possível.

E de certa forma, não havia mais o que esperar. Harry estava certo – não menos nervoso, mas certo – e a hora estava chegando. Ginny se virou para ele após arremessar a goles, e seus olhares se encontraram por um segundo.

Bagunçando o cabelo novamente em uma mania provocada pelo nervosismo, Harry se parabenizou pelo timing perfeito. Afinal, no dia seguinte partiriam em uma viagem para a França, e nada – nada no mundo – poderia ser melhor do que comemorar tudo que estaria por vir comendo petit gateaus e visitando a Torre Eiffel com Ginny. E ele sinceramente sabia que seria uma pena pagar o ingresso do Museu do Louvre quando passaria o tour inteiro admirando a ruiva ao seu lado – mas não podia evitar.

Com os pensamentos tão distantes quanto era possível, Harry viu com surpresa e assombro uma mulher negra de cabelos encaracolados – das Holyhead Harpies, para alívio da torcida – mergulhar em uma velocidade e habilidade imensurável. Tomou o pomo em suas mãos facilmente e então o ergueu, mostrando para as colegas de time e os fãs nas arquibancas.

Harry sentiu um arrepio passar pelo seu corpo inteiro. Se o jogo havia acabado, seu tempo também.

Colocou a mão no bolso do moletom só mais uma vez para conferir que tinha o que precisava. E então levantou.

Ginny correu na direção das arquibancadas depois que comemorar com seu time, e chegou até Harry na ponta da quadra. Antes mesmo de dizer algo ela o beijou, o beijou com tanta intensidade e paixão quanto se tivesse esquecido de onde estavam. Mas na realidade eles pareciam nunca perceber – estavam sempre em sua própria bolha privada.

Harry a segurou pela cintura enquanto afastava seu rosto. Ela estava sorrindo — e ele também, apesar do nervosismo.

— Parabéns, querida. Você foi incrível, como sempre.

Ginny sorriu e beijou seus lábios suavemente.

— Obrigada, meu amor. Estava pensando em amanhã.

— Ah, é mesmo? – Harry perguntou, satisfeito ao achar uma brecha no assunto para o que precisava fazer – Porque eu estava pensando em algo que faria essa viagem ainda mais especial.

Ginny sorriu maliciosamente.

— Eu tenho uma ideia. Envolve não levar roupas e não sair do quarto de hotel a viagem inteira.

Harry riu, balançando a cabeça em negação.

— Tenho que admitir que é uma ótima ideia, mas não foi o que pensei.

A ruiva encarou seus olhos verdes, arqueando as sobrancelhas.

— O que é então?

Harry sentiu seus batimentos cardíacos dispararem. Sentia-se como se seu coração fosse sair pela boca a qualquer instante. O momento havia chegado, o momento pelo qual ele tanto havia ansiado. Encontrou toda a coragem que necessitava olhando nos olhos castanhos da ruiva, colocou a mão dentro do bolso e tirou a caixinha.

Ginny abriu a boca em surpresa enquanto Harry se ajoelhava no meio do campo de quadribol. A cena toda parecia acontecer tão lentamente quanto possível, como se o universo quisesse apreciar um momento tão importante entre os dois. As lágrimas encheram seus olhos antes que percebesse, e a ruiva se ajoelhou logo após Harry o fazer em um movimento automático e involuntário – precisava olhar em seu rosto sem nenhum empecilho naquele momento.

— Gin – ele começou a falar baixinho, curvando os lábios em um sorriso enquanto lembrava uma das suas conversas com Luna sobre esse momento, quando ele disse ter certeza de que ela iria se ajoelhar também – Você sabe que palavras não são meu forte. Na verdade, você sabe absolutamente tudo sobre mim. E também sabe o quão apaixonado eu sou – os torcedores e jogadores, a essa altura, já estavam se aglomerando em volta do casal e comentando sobre o quão fofo aquilo era, mas Ginny não os via. Não via nada além do moreno a sua frente, controlando as lágrimas enquanto falava as palavras mais sinceras que já havia dito – Porque eu te amo, Gin. E não vejo meu futuro de outra maneira que não seja com você. Você quer casar comigo?

As lágrimas já corriam soltas pelo rosto de Ginny desde que ambos haviam se ajoelhado, mas assim que Harry perguntou ela começou a rir.

— Seu idiota! Não consigo acreditar!

Harry arqueou as sobrancelhas, confuso.

— O que?

— Eu ia te pedir! — Ginny exclamou, limpando as lágrimas enquanto tentava controlar a crise de risos.

— O que? – Harry repetiu, dessa vez com mais ênfase e mais alto.

— A viagem, Harry. Como não percebeu? Todo o objetivo era te pedir em casamento!

Harry não conseguiu falar nada. Apenas puxou seu rosto para si, a beijando de forma tão apaixonada como se as palavras tivessem se perdido em algum lugar entre seus corpos grudados.

Quando se soltaram, ambos riam tanto que mal conseguiam se manter ajoelhados.

— Isso quer dizer que temos duas alianças? – Harry perguntou.

— Sim, seu bobo, quer dizer que temos duas alianças. E também reservas de cafés da manhã para dois e encomendas de lingerie chegando em Paris.

Harry deixou mais uma risada escapar. Uma risada boba e apaixonada de quem tinha o amor da sua vida a sua frente. Os olhos de Ginny encaravam os dele ainda com incredulidade e um brilho de divertimento.

— Harry? – ela perguntou baixinho, se aproximando e sussurrando tão perto dele que seus lábios se roçaram enquanto ela falava – acho que eu tenho um talento natural para Adivinhação.

O moreno franziu a testa.

— Porque?

— Venho dizendo que vou me casar com você desde os onze anos. Mas por algum motivo, ninguém acreditava em mim.

Quando Harry riu, foi o som mais bonito que ela já tinha ouvido. E eles ainda tinham muitas incertezas – Merlin, não sabiam nem mesmo quando conseguiriam sair da sua bolha particular, levantar (seus joelhos já estavam doendo) e ir para casa. Mas sabiam que enquanto tivessem um ao outro ficariam bem.

E isso era suficiente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!