The last war

2 Parte II - A Caça


Notas iniciais
Desculpem os erros, depois corrijo.

O sol estava se pondo. Iates cruzavam aquele espaço da baia destinado ao lazer enquanto, perto das docas, duas formas saiam de dentro da água. Wiyll foi o primeiro e, contrariando as expectativas, não possuía mais sua cauda. Suas pernas eram longas, as coxas torneadas e bronzeadas. Ele parecia diferente em si. Bem forte, mais moreno, o cabelo um pouco maior que o de costume. Vestia uma camiseta e uma bermuda; os pés descalços. Ao seu lado a figura de Ayå apareceu. Não trajava sua roupa de batalha, pelo contrário, seu corpo agora estava tomado por um shorts jeans, regata preta e um all-star surrado. Sua cabeça pelada agora dava lugar para um emaranhado de cabelo crespo.

— Sua magia é uma graça, Wiyll. – Ayå resmungou sarcástica enquanto se direcionava para longe da água. O rapaz deu de ombros e soltou uma risada.

— Eu precisava nos deixar mais apresentáveis, certo? Não sei como as coisas funcionam no seu mundo.

— Pode ter certeza que não a base de asteroides. – comentou olhando para os músculos visíveis no corpo do rapaz. – Sério, volta ao normal! – falou.

O garoto revirou os olhos e gradativamente seu corpo foi adquirindo a forma de antes. Ayå soltou um risinho e passou os braços em cima dos ombros do rapaz.

— Vem, nós temos um reino pra salvar. Só precisamos nos vestir direito antes. E claro, preciso de ensinar como se portar no meu mundo.

[...]

— Ayå, você está doida? NÓS NÃO VAMOS SALVAR O IMPÉRIO INDO PARA UMA... UMA... BOATA OU SEI LÁ COMO VOCÊ CHAMA ISSO! – Wiyll gritou com as duas mãos na cintura. A jovem revirou os olhos e continuou olhando uma arara com roupas.

Eles estavam num brechó que Ayå conhecia bem. Antes de virar comandante, comprava tudo ali. Parecia uma vida distante e sem graça, mas ela sentia falta. Espantou aqueles pensamentos nostálgicos de sua cabeça e voltou sua atenção para o que estava procurando. Já tinha conversando bastante com seu amigo sobre como as coisas ali funcionavam. Embora para ela mesma fosse difícil a adaptação depois de tanto tempo embaixo do mar, era bom estar em casa e agir naturalmente.

Viado, aqui não é a hora e nem o lugar para te explicar meu plano. Agora acelera porque não temos muito tempo.

— Viado? O QUE ISSO SIGNIFICA? – ele virou-se irritado para ela chamando a atenção das poucas pessoas que estavam ali. Todos soltaram um risinho e a comandante revirou os olhos.

[...]

Estavam parados na porta de uma boate. A música estava abafada, mas era audivelmente agitada. Wiyll estava inquieto, ansioso porque aquela seria sua primeira experiência totalmente humana, amedrontado porque aquele plano sem pé e nem cabeça era o que poderia salvar o Império de Serênia.

Ayå estava mais relaxada. Já tinha se acostumado com aquilo. A ideia surgiu para ela quando seu amigo incorporou o Oráculo Elky¹. Se as histórias fossem verdadeiras existiam outros dois, o Oráculo Melty² e o Oráculo Lievy³. Separados eles eram inúteis, mas se unidos eles poderiam dar fim numa guerra ou, quem sabe, em toda uma raça. O símbolo que apareceu nas costas de Wiyll ela já tinha visto uma vez, há certo tempo. Só precisava reencontrar quem o portava e tinha certeza que o local mais provável seria naquela boate.

Quando finalmente entraram no local a música lhes estourou os tímpanos. Pessoas dançavam, bebiam, conversavam, e tudo parecia uma completa bagunça. O garoto olhou assustado para tudo aquilo e começou a recuar. Não estava preparado para aquela loucura. Ayå, entretanto, passou seu braço pelo dele e começou a arrastá-lo para o bar.

— Não seja covarde, vem. Vamos beber algo.

— Olha, não acho que seja uma boa ideia eu estar aqui. – Wiyll disse em voz baixa. Ayå bufou e lançou um olhar firme para ele.

— Você não tem opção, me entendeu? – sua voz saiu mais alta e naquele momento ela era mais comandante do que amiga. – Se acostume, Wiyll Lorht, ou qualquer rasteira da vida vai te fazer cair.

No fim, o rapaz realmente se acostumou. Precisou de duas doses de vodka para que ele acalmasse os nervos e visse naquele lugar uma oportunidade para realmente aproveitar. Em Serênia ele não tinha muito lazer por ser filho da rainha, mas ali ele era livre para ser quem ele realmente era. Não precisava ter vergonha de seus pensamentos, do seu corpo, de sua voz, de seu cabelo, de nada. Só precisava se divertir. Mesmo que tudo fosse acabar pouco tempo depois.

Dançou, aprendeu a cantar músicas humanas, conheceu pessoas, mas o ponto alto da festa foi quando avistou aquele garoto estranho entrando na boate. A pele branca contrastava com seu cabelo preto; era forte, mas não de um jeito desagradável. Tinha um sorriso torto contagioso e olhos castanhos.

“Ele é lindo”, Wiyll pensou. Virou-se para chamar Ayå, mas não encontrou a mulher em lugar nenhum. Quando tornou a olhar para o rapaz que tinha acabado de chegar, foi surpreendido pelo olhar carregado que este lhe direcionava. O serênio engoliu em seco e começou a ficar internamente agitado quando o garoto começou a vir em sua direção.

— Você é novo aqui. – não foi uma pergunta. Wiyll abriu um sorriso sem graça e olhou para os lados.

— É... sim. Uma amiga me trouxe. – respondeu tentando não se atropelar nas palavras. Aquele rapaz tinha uma aura que o deixava nervoso.

— Qual o seu nome? – tornou a falar em voz um pouco alta para que a música não atrapalhasse a conversa. Wiyll franziu o cenho por um momento, raciocinando. Seu nome não era comum e não podia atrapalhar a operação de Ayå caso aquele garoto fosse um inimigo ou algo do tipo. Precisava de um nome diferente, algo que passasse longe do seu verdadeiro.

— É... William. – “ótimo, Wiyll, realmente super diferente”.

— Lindo nome. Então, Will, dançaria comigo? Todos precisam passar por esse rito quando vêm à minha boate.

O serênio não poderia dizer não. Primeiro porque não queria, estava atraído demais para pensar em se afastar, e segundo porque não sabia onde sua amiga estava e não queria ficar sozinho. Nem imaginavam que aquela dança era meramente uma jogada da comandante. A verdade é que o rapaz misterioso, Emmanuel, também carregava uma runa em suas costas. De longe Ayå observava a aproximação dos dois oráculos sabendo que aquela era a única forma de fazer Emmanuel coagir com seu plano. Não sentia-se bem usando Wiyll, mas ela conhecia o dono da boate bem o suficiente para saber que ele fugiria de qualquer perigo.

A menos que ele se sentisse atraído por alguém. Caso isso acontecesse, ele faria qualquer coisa para continuar ao lado dessa pessoa. Era com isso que a comandante dos Nove Exércitos contava, principalmente porque sabia que a conexão entre dois oráculos ia além do que qualquer sentimento mundano pudesse explicar. Infelizmente teria que jogar aquele jogo literalmente sujo se quisesse paz para o Império Serênio.

Mas ela suspirou profundamente antes de tomar um gole de sua água. “Sereio precisa de um pouco de experiências reais. Isso será bom para ele... Eu acho”, pensou enquanto se movia lentamente entre a multidão sem tirar os olhos dos dois rapazes.

Talvez aquilo tenha sido uma das coisas melhores coisas que Ayå já tenha feito na sua vida.

[...]

Duas horas haviam se passado desde o encontro e Wiyll e Emmanuel não tinham se desgrudado um só segundo. Riam abertamente enquanto compartilhavam histórias e outras coisas, o tritão sempre tendo que omitir a parte de que ele era um ser aquático. Sentia-se tão bem na presença daquele garoto que por um momento esqueceu-se de seus problemas; esqueceu sua mãe, o Império, tudo. Pelo menos até ver Ayå se aproximando rapidamente dos dois.

— Wiyll, temos que correr. Eles estão aqui. Eles sabem do nosso plano. – a garota disse com a voz abafada. Seu rosto estava com um corte profundo que sangrava.

— Temos mesmo que ir? – o garoto perguntou sem tirar os olhos de Emmanuel. A comandante se aproximou um pouco mais e virou o rosto do príncipe para que eles pudessem se fitar. Foi então que notou o ferimento de Ayå e se lembrou de que ele tinha problemas maiores para enfrentar. – Entendi. Vamos. – antes de sair, porém, virou-se na direção de um confuso Emmanuel e lhe beijou nos lábios. – Me desculpe que tenha sido assim.

— Ei! Onde você vai, William? E VOCÊ, EU CONHEÇO VOCÊ! – o dono da boate primeiro falou para seu interesse e depois se virou para a comandante. – Vocês não vão sair daqui sem mim!

— Nel, você não pode ir. É perigoso demais.

— O que é perigoso? Ah, foda-se. Não importa o quão perigoso seja, William. Eu só quero estar contigo.

Ayå abriu um sorriso de canto sentindo-se vitoriosa. Wiyll ia dizendo “não”, mas a amiga o calou. Lançou-lhe um olhar de “deixa que eu tome conte da situação” que, mesmo bêbado, o tritão reconheceu como sendo sua hora de calar.

— Sim, já nos conhecemos e sim, você pode ir se nos emprestar seu carro. – ela falou rapidamente. Emmanuel tirou as chaves do bolso e colocou na mão da garota.

— O que estamos esperando?

[...]

A comandante realmente fazia jus ao seu status quando no caminho da saída da boate até a rua teve de abater cinco capangas. Os três entraram no carro e ela partiu numa corrida desenfreada pela cidade para conseguir despistar seus inimigos. Ninguém conversava, estavam com medo da presença da garota. Ela parecia ser outra enquanto estava em “modo batalha”. Entretanto perguntas e mais perguntas mudam eram proferidas naquele ambiente minúsculo, principalmente vindas de Emmanuel.

— Acho que agora sei quem é nosso inimigo, Wyill. – disse a garota finalmente. Ela limpou o sangue de seu rosto e fez uma careta quando sua mão tocou o corte feito por uma faca que provavelmente estava bem afiada. – ACCM.

Ninguém falou nada esperando que ela continuasse. Ayå pigarreou como se estivesse se preparando para apresentar um seminário.

— Associação de Caça às Criaturas Mágicas. Não é a primeira vez que eles fazem isso, sabe? Já aconteceu com um pessoal que vivia no submundo a uns dez anos atrás e agora me parece que eles resolveram atacar o oce-

— Espera, o que? – Emmanuel perguntou aturdido. Parecia ter percebido agora o sentido naquelas palavras. Wyill suspirou com pesar, porque sabia bem que depois daquilo o rapaz fugiria de seus braços. Deveria ter se acostumado a todo mundo sair da sua vida. Ayå olhou para eles dois pelo retrovisor central do carro e mordeu o lábio inferior, pensativa.

— Realmente apagaram sua memória, não é Emmanuel? – a garota perguntou como se achasse tudo aquilo bastante engraçado, mas na verdade ela estava tentando não pirar.

— Apagar a memória? Do que você está falando? – Wiyll foi quem perguntou dessa vez, impulsionando-se para frente para que conseguisse fitar a amiga melhor. – Ayå, o que é que você está nos escondendo?

A comandante começou a explicar a situação. Emmanuel era um Shooter ou, como eram mais frequentemente conhecidos, seguidores do Cupido. Eros (outro nome que davam ao ser rei) dominava grande parte dos céus fazia algum tempo, mas ele não demonstrava tanto perigo de qualquer forma. Estava mais preocupado em fazer as pessoas se amarem o que para Ayå era meio nojento. Emmanuel foi expulso de sua casa quando incorporou o Oráculo Melty. O oráculo significava perigo, porque uma hora ou outra o procurariam para algum plano mirabolante e tudo o que não queriam naquele momento era perigo. Apagaram a memória do jovem shooter e deram a ele uma nova vida na Terra. Fora amaldiçoado, entretanto: só poderia voltar ao reino dos céus quando amasse e fosse amado. Ela também explicou sobre o poder dos oráculos e como eles poderiam acabar com ACCM se fossem unidos e, sabendo da relação que parecia se desenvolver entre os dois, acrescentou dizendo que eles estavam destinados um ao outro. E que agora só precisavam achar o terceiro e último oráculo.

O silêncio que se seguiu foi esmagador. Cada um tentava absorver aquelas informações da melhor forma possível. Emmanuel começou a chorar e Wiyll confortou-o com um abraço. Ficaram assim até que chegassem a um casebre na beira da estrada.

— Com tanta gente nos seguindo, é aqui que vamos ficar? – o tritão perguntou receoso.

— É mágico. Podem entrar.

Entraram e, uma vez dentro daquela casa, sentiram-se mais seguros. Conversaram durante toda a noite até que o cansaço fosse mais forte e todos os três fossem dormir. No fim, Emmanuel e Wiyll já sabiam quem eram e o que precisavam fazer. Mas antes, precisavam do terceiro oráculo.

Ayå estava um pouco preocupada sobre este terceiro.

Notas finais
¹ Oráculo de Elky: oráculo do reino aquático. ² Oráculo de Melty: oráculo do reino aéreo. ³ Oráculo de Lievy: oráculo do reino terrestre.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.