Notas iniciais
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Estava novamente no chão e sua boca enchia de terra pela terceira vez nos últimos dez minutos – e por isso deveria estar enfurecida, envergonhada, mas nada mais ocupava sua cabeça se não sua preocupação com Bjorn.

— Kiara, onde está com a cabeça?! – Dain diz em um grito cortante e frustrado – Você não pode se deixar distrair, por nada, isso aqui vale a sua vida, quem você poderá ajudar morta?! – Dito isso, o homem está aos seus pés ainda no chão e a puxa pelo braço para que se levante

— Desculpe... – O olhar que recebe é o suficiente para fazer com que se cale.

Observando enquanto ele se afasta, seu primeiro treino lhe vem à cabeça – Para uma garotinha tão pequena a ideia de lutar com um homem com o dobro de seu tamanho deveria ser assustadora, mas não para ela. Nunca sequer pegara em uma arma, mas ansiava por isso, para ser guerreira como a mãe, como Aslag — sua ancestral — havia sido, orgulhar seu reino e seu pai. Enquanto andavam reparou que o homem fazia uma falsa tentativa de esconder o humor em seu rosto, a garotinha tentava carregar uma das espadas que havia sido deixada por um soldado descuidado que ela achara mais cedo naquela manhã. Ao chegarem no salão vazio que havia sido proibido para ela até então – assim como muitas outras coisas — o homem não aguentou mais e com um sorriso satisfeito no rosto arrancou a espada de suas mãos pequenas.

— Você é muito pequena para essa espada, mas descobrirá que elas pouco importam – Começou a dizer com um sorriso nos lábios — Existem homens e mulheres capazes de causar muito mais estragos apenas com uma pequena faca, sim? – Contudo, não esperou pela resposta e caminhou até uma sacola marrom jogada no chão, voltando em seguida com duas espadas feitas de madeira e estendendo uma a garota que já o olhava com uma cara de desgosto – Ora, acha que já está pronta para uma espada de verdade? – Sua voz era irônica, mas divertida — Faremos o seguinte, se você conseguir ficar em pé por dez segundos quando começarmos com essa espada então lhe darei uma de verdade.

Satisfeita com o acordo e em poder provar suas habilidades e garota recuou com a espada de madeira em mãos, colocou-se na posição que assistira muitas vezes nos treinos de outros soldados e esperou ansiosa pelo primeiro ataque, que quando veio, ao invés de bloqueá-lo, escolheu desviar, assim que o fez viu a surpresa no rosto do treinador acompanhada de satisfação, mas antes que se pudesse dar conta estava deitada de costas no chão duro com a cabeça dolorida pelo impacto.

— Você tem bons reflexos, coisa que é muito importante para os soldados, mocinha, mas não tem disciplina ou atenção, seu ego, maior que essa teimosia toda te torna fraca e fácil de derrubar, toda essa confiança só atrapalha, levante e vamos de novo, dessa vez tente não pensar em nada além de que se cair no campo, você morre. – Dain não era cheio de floreios, assim como muitos de seus mestres, mas a menina por alguma razão sentiu calor em suas palavras, talvez uma preocupação.

Dias se passaram e ela ainda não conseguira ficar em pé por dez segundos, treinava com afinco todos os dias, mesmo quando não era para de fato estar treinando, em suas outras aulas treinava distraidamente com uma pena, com um rolo de papel, ou qualquer coisa que tivesse em mãos, claro que não demorou muito para que um dos seus muitos mestres se irritasse e a deixasse no mesmo salão que seu treinador aparentemente furioso, Mestre Aodh deixou o recinto depois de uma breve conversa com o homem e assim que a grande porta se fechou o rosto de Dain mudou completamente, ele acenou para que ela se aproximasse e sentou no chão, ela seguindo seus passos fez o mesmo.

— Princesa, tenho te visto treinar direto e aprecio isso, para falar a verdade reconheço essa dedicação, a mesma a minha quando tinha a sua idade, mas depois de alguns anos percebi que também aprendemos muito com os livros, e para um guerreiro é muito bom e importante saber com quem se está lutando, suas aulas sobre os reinos por exemplo vão fazer com que saiba dizer se seu oponente é de Vanah, Joth ou Niflehr e sabendo isso você aprenderá o que eles não treinam, a sua vantagem, a sua fraqueza e poderá usar isso ao seu favor, um bom guerreiro não é só aquele capaz de lutar fisicamente, mas aquele que possui capacidade o suficiente para avaliar seu oponente e lhe atribuir o valor e uma bela derrota. Nem todos os vitoriosos tinham uma espada na mão, alguns apenas fizeram um cerco corretamente ou souberam quando avançar e quando recuar, um soldado não pensa assim, e se estou certo você quer ser uma guerreira e não um soldado. – Quando o homem terminou de falar a garota tinha no rosto uma expressão de espanto, mas também via em seus olhos compreensão, aquele violeta que agora estava mais brilhante, sedento por conhecimento, então se colocou a continuar – Quer fazer outro acordo? Se ler os livros que eu te passar e provar que leu quando eu te fizer perguntas então conversarei com seu pai e passaremos a treinar todos os dias o dobro de horas, o que acha?

— SIM! – Como uma criança, fazendo jus ao que era, a menina se atirou nos braços do treinador envolvendo-o em um abraço, ele que não estava acostumado se sobressaltou, mas em sua emoção a menina não percebeu, só sentiu quando foi abraçada de volta.

Mesmo agora, vendo Dain tão bravo a menina que hoje já estava com 17 anos e não era mais uma garotinha não pode deixar de ignorar a gratidão e o amor que sentia por aquele homem, duvidava que ele sequer tivesse ideia do bem que a fez naqueles momentos, com aquelas conversas e ela sabia que ele não estava furioso, bravo sim, mas não furioso e também sabia que ele tinha razão, mesmo assim só poderia torcer para caso isso acontecesse de verdade a adrenalina do campo a cegasse para as outras coisas.

Conhecendo-o como ninguém ela sabia que o treino havia sido encerrado naquelas palavras não ditas, então se retirou direto para o centro da fortaleza onde deveria achar o médico responsável por seu lobo, imediatamente lembranças de Bjorn, seu grande lobo cinzento, caído em meio as folhas da floresta e com o focinho cheio de sangue a abateram e começou a andar mais rápido, quase correndo para junto do seu coração, reconheceu o uivo – Lamentoso e grave — antes de vê-lo e isso foi o suficiente para que corresse em sua direção. Bjorn estava deitado agora limpo em peles no chão, observou sua tentativa falha de levantar-se em direção a companheira, e antes que pudesse ir até lá o médico responsável apareceu, ou melhor, médica.

— Bom dia, princesa, me chamo Genevra e o rei me ocupou pessoalmente de cuidar do garotão ai, tenho boas notícias – A mulher sorria, o coração e mente apertados da menina relaxaram – Ele não foi ferido ao contrário do que imaginávamos, apenas abateu uma caça contaminada com alguma fruta venenosa ou algo assim, então acabou se contaminando também, mas já fizemos com que ele vomitasse o que acreditamos ser todo o veneno então por enquanto deve ficar só de olho e deve se recuperar com o tempo de ter vomitado tanto.

— Obrigada, Genevra. – Foi tudo que a garota disse apesar de querer dizer muito mais, aprendera com o tempo a conservar as palavras, ser educada e se portar como seria o esperado de uma princesa em Kahrar. Andou até uma espécie de trenó para carregar coisas pesadas e com calma colocou Bjorn sobre ele, o lobo era pesado demais para que ela o carregasse, então foi empurrando até os seus aposentos onde poderia alimenta-lo.

Sua cabeça não parava de flutuar do treino para seu grande lobo feroz que agora parecia tão fraco e inofensivo, seu melhor amigo, desde os oito anos eram inseparáveis, isso fez com que se lembrasse de quando se conheceram – Todos os guerreiros do reino eram mandados para a floresta com oito anos, era como uma regra, qualquer um que voltasse sem um mascote e vivo não seria guerreiro, estaria fadado a trabalhos menos honrados. Ela ansiava por este dia, em que poderia provar para seu pai e seu reino seu valor, mas claro que na época não sabia que caso o herdeiro do trono voltasse sem uma mascote além de perder a coroa também seria exilado, tinha certeza de que seria bem sucedida, e quando o dia chegou ela acordou mais cedo do que todos, arrumou as pequenas coisas que eram permitidas; uma adaga para o caso de um encontro infeliz com algum outro animal, e um cantil, vazio, além de um único retalho de pano onde poderia colocar frutas que encontrasse na floresta, assim que terminou correu para o pátio e encontrou com seu treinador, quase tropeçando nos próprios pés tentou dar meia volta antes que ele a visse

— Bom dia, princesa – Tocou com a ponta da longa espada em seu próprio ombro e Kiara se esquecendo de libera-lo apenas observou, aquele gesto tornara-se tão comum recentemente, ela o odiava, mas convivia com ele, só depois de cruzar o olhar ao seu e retribuir o mesmo gesto sabendo que o irritaria tocou a têmpora e o coração, tão logo o complemento veio em sua cabeça e falou em modo automático, “Pensamos como um, nossos corações batem em sincronia, como dizer onde um fogo começa e outro termina? ”. Era nítido o quando Dain relaxou ao abaixar o braço – Não faça isso novamente, princesa, sabe que não deve – repreendeu-a

— Algumas pessoas merecem – A menina deu de ombros.

Não demorou muito para que os outros aparecessem, assim que o grande alvo soou todos correram para a floresta na esperança de conquistar o melhor mascote, Kiara não queria tardar a retornar, seu pai havia lhe contado sua história e disse que seu lobo o encontrara e assim era com todos, ela continuou correndo até chegar a uma grande clareira, encontrou uma pequena lagoa de onde alguns pequenos animais se hidratavam, abaixou para encher seu cantil e procurou nas redondezas alguns arbustos que poderiam conter pequenas frutas e encontrou, tocou a têmpora em agradecimento ao seu treinador, por tê-la feito sofrer tanto para prestar atenção em todos os mestres, tudo lhe era útil, ser um guerreiro não era ser apenas um soldado, lembrou-se silenciosamente. Não demorou para que a pequena garota capturasse algum animal e espalha-se seu sangue para atrair maiores predadores e novamente não tardou para que isso também acontecesse, mas ao contrário do que a jovem imaginava não apareceu somente um, mas quatro grandes lobos e nenhum deles parecia ter qualquer interesse nela se não despedaça-la, como foi lhe instruído andou calmamente e cuidadosamente para trás sem quebrar o contato visual com as feras, mas sentiu uma respiração quente em sua nuca e logo parou de andar, seu sangue gelou apesar disso ser impossível, tirou a pequena adaga da cintura e preparou-se para sua única chance de sair viva dali, olhou em volta e procurou por pequenas trilhas onde as quatro feras seriam obrigadas a andarem em fila lhe dando assim uma pequena vantagem, contou até três e correu sem olhar para trás, não que precisasse, os bichos eram incrivelmente barulhentos e obviamente mais rápidos do que ela, sua única vantagem tinha sido o elemento surpresa, mas não duraria muito mais que alguns segundos e ela sabia disso, se pendurou em uma árvore grossa e alta e esperou, três bestas prosseguiram com a perseguição, mas o maior deles não, ficou parado farejando abaixo da árvore como se soubesse que ela estava ali, não teria outro jeito se não enfrentar a coisa, ela não fora treinada para ficar escondida em cima de uma árvore e sabia disso, então saltou para o chão e iniciou o contato visual com o lobo, ele começou a avançar e rosnar em sua direção se preparando para o bote e seu sangue inflamou como quando brigava com os filhos dos amigos de seu pai, as labaredas dançavam em seu olhar violeta que era refletido nos olhos da criatura, mas por fim, Kiara largou a adaga no chão, seria lhe inútil, “um guerreiro não é um soldado” sua mente dizia a si mesma como um mantra, a fera quebrou o contato visual e saiu andando como se nada houvesse acontecido minutos antes e a deixou ali, olhando para sua sombra, profundamente irritada. Na manhã seguinte continuou a caminhada e encontrou o litoral rochoso que dava vista para a ilha das feras rastejantes, todos os jovens eram proibidos de irem lá antes de serem considerados guerreiros, era um lugar perigoso para os inexperientes, sentou na borda e ficou olhando enquanto comia algumas pequenas frutas que achara no dia anterior, mas não considerou a ideia de que o cheiro poderia atrair outros animais como o urso que acabara de encontrar as suas costas.

— Droga! Droga, droga! – Resmungou a garota olhando do urso para o litoral, poderia sobreviver se pulasse, mas contra o urso as chances eram zero.

Antes que pudesse pensar em tomar uma decisão, o urso avançou e a jogou no chão e ainda mais rápido do que subiu foi arremessado longe, a garota olhou somente a tempo de ver o pescoço do urso ser dilacerado pelo lobo do dia anterior que depois de acabar seu trabalho aproximou-se só o suficiente para conferir se ela estava inteira e então com todo um ego inflamado afastou-se de volta para a cobertura das árvores.

— Parece que arranjei uma mascote – Refletiu em voz alta para si mesma ainda olhando o espaço que o lobo estava minutos antes – Bem... talvez ele seja antissocial e antipático, mas ainda assim é uma mascote – Deu de ombros como se alguém pudesse vê-la.

Manteve-se atenta enquanto retornava para o reino, não lembrava de ter se afastado tanto assim, sorte que ela conhecia a floresta e sabia ver rastros, conseguia ouvir o andar do lobo atrás de si e isso a deixava mais confiante também. Quando começou a anoitecer subiu em uma árvore e acomodou-se em um galho alto, o lobo ficou distante, mas de forma que ainda pudesse vê-la e recusou-se a olha-la nos olhos, ela aguardou e quando finalmente o lobo pareceu dormir levantou e preparou um coelho que tinha pego mais cedo, tirou sua pele e colocou perto de seu mascote para quando acordasse, como se fosse um agradecimento, mas além disso, era também um pacto, ambos sabiam disso, logo voltou a dormir.

Desde então Kiara e Bjorn são inseparáveis, seu lobo é extremamente orgulhoso e prepotente, mas em seus dias bons é carinhoso e divertido, a garota aproveitou para pentear seus pelos, ele odiava isso e mesmo nesse estado parecia resmungar, isso lhe arrancou uma risada rouca.

— Olha você parece melhor, já está tão ranzinza, amigo! – Afagou sua têmpora.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.