The empire within your arms

1 Às vezes o destino é bondoso


Em certos lapsos de tempo saio de mim e estranho minha própria vida. Pego-me pensando, ao olhar no espelho: esse é meu cabelo? Essa é minha aparência? Então, ao olhar ao redor, me invade uma sensação de não pertencimento: essa é minha casa? Essa é minha realidade? E, então, os milissegundos de devaneio passam e eu aterrisso novamente, a cerâmica gelada encontra meus pés. Penso que é um chão frio, duro e apático, do mesmo jeito que é o resto da casa. Como se as paredes, os moveis, o piso e o teto gritassem para mim: corra! E é isso que eu faço. Tento passar o menor tempo possível em casa.

Sinto um embrulho no estômago ao engolir o café que vai me manter acordado durante as próximas hora, nas aulas. De repente, nada disso faz sentido. Terminar a escola para quê? Ir para faculdade a fim de quê? Os olhos do meu pai encontram os meus, como se pudesse ver as dúvidas atrás das minhas pupilas. E do mesmo jeito que meu pensamento navega sem um capitão, o pensamento dele alcança o meu, como que respondendo: o império.

Meu irmão entra na cozinha, já arrumado para o trabalho. Seu terno perfeitamente alinhado e caro, impõe sobre ele uma seriedade que ele nunca conseguiu expressar pelas ações. Tinha sido irresponsável inúmeras vezes, causando transtornos ao meu pai, que temia pelo impacto de sua imagem rebelde no império... ou empresa, nos termos atuais. Com muito esforço, papai conseguiu coloca-lo nos rumos. Após passar sete anos para completar a faculdade de Administração, Fernando estava apto a trabalhar com papai. O voto de confiança fez meu irmão começar a bajular papai como nunca antes havia feito, o que me deixava desconfortável, visto que seu papel era meramente ilustrativo. Quem teria que seriamente assumir a empresa quando meu pai não pudesse mais era eu, não ele. Eu era a última esperança de administração forte e inteligente e meu pai não fazia questão de esconder isso.

Meu futuro, então, estava todo planejado. Eu iria terminar a escola, fazer faculdade, assumir a empresa e garantir a existência e o legado do império do meu pai que, por ter vindo de um passado humilde, valorizava suas conquistas profissionais acima de tudo. Foi essa adoração ao dinheiro que o fez perder minha mãe, mas, para ele, isso foi apenas um contratempo visto que logo comprou essa casa grande, cheia de móveis e, ainda assim, vazia, e seus carros, cheios de tecnologias, e, ainda assim, desconfortáveis. Estava assegurando seus bens. Meu pai havia, de fato, se tornado um dos adultos dos quais o Pequeno Príncipe me alertara quando, na infância, minha mãe leu o livro para mim: só falava de números – metros quadrados, preços e juros. Esse era meu destino, meu futuro.

Sem estar muito consciente de meus movimentos levanto da mesa e termino de me arrumar. O motorista me espera lá fora para me levar para o colégio mais caro da cidade. Sentia alívio toda vez que saía da casa, mas o pensamento de que no fim do dia teria que retornar não me permitia aproveitar tal sensação.

Ao chegar na escola meu rosto inexpressivo ganha vida, um sorriso esboça-se quando meu olhar encontra Miranda, minha namorada. Ela se aproxima de mim, seus cabelos castanhos presos num rabo de cavalo deixam sua beleza mais rígida. Atirando-se em meus braços, ela beija minha boca com paixão. Estão todos vendo? 3, 2, 1... ela se afasta.

— Bom dia, amor! – Sua voz doce invade meus ouvidos. – Tudo bem?

— Tudo. – Respondo sem graça enquanto subimos as escadas para nossa sala.

— Como foi seu dia ontem, estudou muito? – Ela pergunta enquanto segura na minha mão, me guiando para cima.

— Estudei um pouco. E você?

— Minha mãe e eu ficamos escolhendo alguns vestidos para usarmos na coletiva de imprensa do seu pai. – Ela falou, seu ânimo se esvaindo ao perceber que estávamos nos aproximando do corredor, vazio. – Muito empolgante. – Quando chegamos ao corredor, ela solta minha mão.

— Nem me lembre desse evento idiota. – Eu respondo. – Tenho que aturar o Fernando fingindo que se interessa pelas relações públicas da empresa... – Suspiro. – E o papai me enchendo o saco sobre o discurso que irei fazer.

— Você vai se sair bem. – Ela responde. – Estarei ao seu lado.

— Não me deixe gaguejar. – Retruquei.

— Nunca.

O corredor começa a se encher de pessoas e vamos, definitivamente, para nossa sala.

Algumas poucas pessoas já se encontravam no local. Nossos colegas nos cumprimentam e voltam às suas conversas. Falamos baixinho:

— Acho que poderíamos fazer de novo. – Miranda disse do jeito mais casual possível enquanto mexia no celular.

— O quê? – Respondo, esperando que minha tentativa de ingenuidade a deixe desconfortável o bastante para abandonar o assunto.

— Sexo. – Ela responde como uma facada.

Esse é meu problema: subestimar Miranda. Ela quase nunca está desconfortável porque quase sempre está no controle da situação. Quase sempre. O único momento que ela não tem o controle é quando está com sua mãe, Maria Lúcia. Minha sogra é tão austera quanto minha namorada, mas muito mais calculista. A única diferença entre ela e meu pai é o fato de que ela realmente se importa com o futuro da filha... é daí que derivam seus erros. Dona de uma grande empresa de comunicações, ela está prestes a salvar a nossa, se o processo de aglutinação, que será anunciado em um evento daqui a alguns dias, se concretizar. É por isso que eu e Miranda devemos ficar juntos. A sobrevivência da empresa do meu pai e a expansão da empresa da mãe de Miranda depende do quanto um consegue agradar o outro. É claro que a corda arrebentaria para o lado mais fraco, logo, se eu terminar com Miranda, Maria Lúcia, que faz tudo pela filha, encerrará o contrato.

— Tudo bem. – Respondo, novamente sem graça. Não gostava de falar dessas coisas com Miranda, me sentia estranho. Nossa última vez foi igualmente constrangedora. Quase não consegui ficar excitado, mas fechei os olhos e permiti que minha imaginação flutuasse até o fim do ato. Isso configura como traição? Pensei, curioso.

— Você só teve um probleminha. – Ela responde, ainda mexendo no celular. – Muitos homens broxam ou demoram a ficarem excitados. Tudo certo, mas acho que quanto mais tentarmos, melhor. – Ela olha nos meus olhos. – Assim podemos passar dessa fase inicial chata de uma vez e partir pra parte em que fica bom. – Eu rio e ela põe a mão no meu rosto, apertando minhas bochechas.

O sinal bate trazendo o resto dos alunos para suas cadeiras e o professor para a sala. Ele desliga as luzes e liga o projetor, dando início a uma aula chata de sociologia. Tenho a impressão que o café que tomei não está fazendo efeito. Meus olhos pesados dão espaço a visões de possíveis realidades, nas quais eu não estou preso ao meu futuro. Em alguma dimensão meus pais ainda estão juntos. Em outra, meu pai me ama e quer que eu faça o que eu quiser. Em outra, eu e Miranda somos bons amigos, sem ela se agarrar em mim como seu colete salva-vidas... Falando em colete salva-vidas, estou precisando de um. Não queria ser o tipo de pessoa que se deixa levar pela vida. Tem algo pior do que ser covarde? Mas não há nada a fazer, meu pai sabe que se deixar seu império nas mãos do meu irmão, ele vai arruinar tudo. Por que inventei de ser tão responsável e esforçado? Ah, lembrei, porque meu irmão já desempenhava o papel do rebelde. Uma pena ele ter abandonado seu posto de forma repentina. Isso me frustrou porque quando ele causava algum transtorno ao meu pai, eu adorava. Sentia que de algum jeito ele estava tendo o que merecia. Meu irmão ter se tornado um cachorrinho do meu pai foi uma das piores traições. O destino é realmente cruel, pode tirar toda nossa modalidade de satisfação e nos deixar face-a-face com a cruel realidade. Tenho que assumir meu papel, estudar, ficar com Miranda e chefiar a empresa do meu pai. É isto, não há um colete salva-vidas. Só dá pra afundar.

As luzes se acendem de repente e sou tirado de meu estado meio sonolento, meio acordado, completamente perdido em meus pensamentos. A coordenadora do ensino médio entra trazendo consigo um rapaz da minha idade. A pele bronzeada, o sorriso tímido e os olhos curiosos vasculhando a sala me atraem. Seu olhar pousa nos meu e, de repente, sinto o sangue preenchendo minhas bochechas. O que está acontecendo?

— Licença, professor! – A coordenadora começa. – Este aqui é o Augusto. Ele está entrando na turma de vocês agora. – Augusto acena com a mão para ninguém em específico. Seus olhos encontram os meus novamente. De forma quase instantânea, olho ao meu redor, mas não há cadeiras vazias perto de mim, só no fundão. Droga.

O professor e a coordenadora trocam palavras e Augusto entra na sala, com a mochila nas costas. Ele passa do meu lado, topando de leve sua cintura em meu ombro. Seu perfume invade meu nariz. O cheiro mais doce. Ele senta muitas cadeiras atrás de mim e eu não consigo evitar, viro-me para olhá-lo. Minha sorte é que quase todos da sala faziam o mesmo, a curiosidade em relação ao aluno novo era geral. Seus olhos encontram os meus uma terceira vez.

Durante as aulas fico criando assuntos para poder falar com Miranda, sentada atrás de mim, e, dessa forma, conseguir dar uma olhada nele. De vez em quando ele olha de volta.

No intervalo, algumas pessoas vão falar com ele, fazendo todo o tipo de perguntas: de onde ele veio, o que gosta de fazer, onde mora. Ele responde todas, rindo e contagiando o círculo de pessoas ao seu redor, que também acabam rindo. É muito convidativo e carismático, com um charme exalado sob medida. Logo eu e Miranda também entramos no círculo. Ela abraça meu braço e eu tento pensar em algum jeito de puxar assunto.

— A Mi é a melhor aluna da turma. – Júlia fala. – Se precisar de alguma anotação pode pedir dela.

— É verdade. – Miranda confirma, sorrindo. – Qual seu instagram?

Ele responde e olha para mim, de cima abaixo.

— Vocês namoram? – Ele pergunta, sem papas na língua. Meu coração acelera.

— Sim. – Miranda responde de forma despreocupada. – Então, vai querer as anotações de qual matéria?

— Eu tenho mais dificuldade em química. Sociologia eu peguei na metade, mas consegui entender. – Ele responde passando a mão nos cabelos.

— Acho que não trouxe meu caderno de química hoje. – Miranda respondeu. – Mas seu caderno tem tudo né, Edu? – Ela pergunta a mim.

— Aham... – Eu respondo, meio nervoso. – Eu só tenho um caderno pra todas as matérias.

— Mi, se a gente demorar mais pra ir à cantina os folhados vão acabar. – Júlia disse.

— Verdade, vamos! – Miranda responde, dando um beijinho na minha bochecha. – Boa sorte tentando entender a letra do Edu. – Ela fala para Augusto. – Foi um prazer.

As duas saem pela porta e o círculo ao redor do aluno novo começa a se dispersar. Ele me acompanha até minha cadeira e espera enquanto eu pego meu caderno.

— Então. – Eu falo. – Quer tirar foto das folhas?

— Pode ser. – Ele responde, dando de ombros.

— Pode tirar foto. – Estico meu caderno para ele, nas folhas de química.

— Na verdade... – Ele começa. – Meu celular descarregou. Pode tirar foto no seu e depois mandar pro meu Whats?

— Posso... claro! – Respondo pegando meu celular do bolso. – Anota seu número.

Ele pega o celular da minha mão e durante esses segundos, nossos dedos se tocam. Sinto algo dentro de mim e, então, fico ansioso pelo momento no qual ele terminará de digitar os números e nossos dedos se tocarão novamente. Isso acontece enquanto ele devolve meu celular. Ele sorri e diz:

— Te vejo depois. Vou comer. – E sai pela porta da sala.

Olho para o meu celular. Ele salvou seu contato como “Guto”, com um emoji de sorriso no lado. Fico alguns segundos parado, repassando o que aconteceu na minha cabeça. O que de fato aconteceu? Nada. Não aconteceu nada. Um novato entrou na turma, apenas isso. Entretanto, meu coração diz o contrário: tudo havia acontecido. Era como se o universo tivesse me jogado o colete salva-vidas... às vezes o destino é bondoso.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Façam comentários galera, vou responder todos ^_^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.