The cute one
15 Capítulo 15
Era o primeiro dia de volta às aulas e eles já tinham tanto dever de casa que Jirou não sabia qual deles fazer primeiro. Suas costas doíam do treino da tarde e seus olhos ainda lutavam para permanecer abertos, já que o sono da noite não recuperou o atraso.
Ela decidiu começar pelo pior de todos. Por que alguém em sã consciência coloca matemática no primeiro horário de uma segunda?
Levou mais tempo do que o necessário, contudo, ela já estava quase terminando quando ouviu o elevador abri em seu andar. Ela esperou, imaginando que poderia ser alguém indo para o quarto de Toru. Porém, reconheceu os passos firmes de Bakugou e fechou os cadernos um segundo antes do garoto bater na sua porta.
— Orelha, estou entrando – Ele se anunciou com uma batida rápida. Como sempre, não esperando uma permissão para entrar.
— Ei, o que foi? – Ela o cumprimentou afastando um pouco a cadeira de sua escrivaninha.
Bakugou discou alguma coisa em seu telefone e entregou para Kyouka. A garota levantou a sobrancelha e olhou para o celular, uma chamada para “Velha” estava sendo realizada.
— Você vai dizer para ela que eu estava certo – Bakugou apontou para o celular.
— O quê você quer, pirralho?! – A voz de Mitsuki soou no aparelho.
Kyouka quase derrubou o celular no chão com o susto. Sua audição mais aprimorada amplificou o efeito do grito da mãe do loiro.
— Ahn, o-oi, Mitsuki-san – Ela gaguejou colocando o aparelho perto do ouvido – Aqui é Jirou.
— Hey, cabeça roxa, parece que você e Katsuki estão bem de novo.
— É, sim – Kyouka entrelaçou seus dedos nos fones de ouvido – Ele me pediu para dizer que ele estava certo.
Então Jirou percebeu que ela não tinha ideia do que Katsuki estava falando. A garota cobriu o celular com a mão e moveu a boca perguntando “Sobre o quê?”.
— Diga que eu não fiz nada errado – Ele explicou num rosnado.
— Ele não fez nada de errado – Jirou repetiu recolocando o telefone na orelha.
— Ele está te ameaçando para dizer isso? – Mitsuki perguntou. Kyouka podia sentir os olhos da mulher se estreitando perigosamente.
— Não, ele realmente não fez nada – Jirou riu trocando o celular de uma orelha para a outra – Na verdade, eu nem estava brava com ele. Nada aconteceu. Mas ei! Eu tenho cupcakes para o resto da minha vida, então eu acho que vou começar a ficar brava sem motivo.
— Nem se atreva a me chantagear, orelha! – Bakugou berrou bem próximo do rosto de Kyouka.
Ela se encolheu, primeiro porque gritos não eram bem vindos aos seus ouvidos, e segundo porque o rosto de Katsuki estava perto demais para a sua saúde mental.
— Espere um minuto – Mitsuki disse séria – Espera a porra de um minuto – Ela enfatizou cada palavra – Você está me dizendo que Katsuki passou o fim de semana inteiro triste e rabugento por algo que só aconteceu na cabeça dele?
Jirou corou furiosamente. Não é como se Kyouka pudesse dizer “Não, na verdade, eu o evitei porque eu gosto do seu filho”.
— Uhum – ela gemeu com um sorriso nervoso. Até mesmo Bakugou pôde ouvir a gargalhada de sua mãe no telefone.
— Garota, eu não sei que porra que você fez. Mas você pegou meu filho de jeito – Mitsuki suspirou para conter a risada.
— O que você está falando aí, bruxa velha?! – Bakugou tomou o celular de Kyouka e brigou com sua mãe.
— Que você é um idiota – Mitsuki latiu do outro lado. Kyouka sentiu-se culpada por ouvir a conversa alheia, porém ela não tinha como desligar seus fones.
— Deve ser porque eu sou seu filho! – Katsuki retrucou – Agora me deixa em paz, eu tenho mais o que fazer!
— Tchau, pirralho. E se cuida – Mitsuki se despediu antes de desligar o telefone.
— Tch. Aquela velha! – Ele murmurou fingindo raiva – Ei, onde estão as baquetas? – Ele virou-se para Jirou com aquele olhar desconfiado.
Kyouka sabia que essa era forma dele de pedir educadamente para tocar com ela.
— Desculpe, Bakugou, eu ainda tenho muito dever de casa para fazer – Ela negou com um sorriso triste. Bakugou ergueu uma sobrancelha, era assim que ela o estava evitando antes, não se pode culpa-lo por desconfiar – Sério – Ela sorriu para ele percebendo o que se passava na cabeça do garoto – Eu não estou evitando você. Não se preocupe, você ainda crédito comigo – Ela esticou-se na mesa e pegou a sacola com cupcakes e a ergueu.
— Amanhã, então – Ele sugeriu abrindo a porta do quarto da garota.
— Claro – Ela concordou abrindo novamente o caderno.
Bakugou saiu do quarto e Kyouka esperou até ouvir a porta do elevador abrir para bater sua cabeça na mesa e grunhir um choro. Ela queria pedir desculpas para ele por tê-lo evitado, por mentir para Mitsuki-san, por tê-lo feito ficar mal durante o fim de semana. Isso realmente aconteceu? Sua mãe havia dito que ele ficara triste e rabugento. Ok, rabugento já é um estado de espírito do garoto. Agora, triste? Ele realmente ficou triste?
Não, você está criando expectativas. Kyouka sacudiu a cabeça para afastar esses pensamentos. Eu julguei você como mais inteligente, cérebro. Ela pensou batendo com os nós dos dedos na própria cabeça.
Ela tentou focar no dever de casa, não funcionou. Por sorte, só faltava o dever de inglês, o mais fácil para ela. Se ela fosse dormir agora, poderia fazer antes do café da manhã.
Com isso, Jirou guardou todos os seus cadernos, colocou sua roupa de dormir e se enfiou na cama. Apesar de todo o sono atrasado, ela ainda tinha a cabeça cheia e ficou se remexendo na cama. Ela desejou que seu travesseiro fosse maior, ela realmente queria abraçar algo mais fofo agora.
Oh, ela tem Momo! Infelizmente não é como se ela pudesse ir para o quarto de sua amiga sem uma boa desculpa como ela fez antes do fim de semana. E Jirou não estava pensando muito bem para conseguir uma boa desculpa.
Ela olhou para o relógio. Eram 20:30h da noite. Argh, ela estava pegando os hábitos estranhos de Bakugou. Bem, esses também eram os hábitos de Yaomomo. Com sorte, ela encontraria a garota da criação dormindo e poderia se esgueirar ao lado dela na cama e pensar em uma explicação melhor quando acordasse.
Yaoyorozu havia lhe dado uma chave de seu quarto, assim como Jirou havia entregado uma para ela. Bem, mais ou menos, ela deixou Yaoyorozu fazer cópia de sua chave com sua individualidade. O ponto é que, ambas tinham livre passagem para o quarto uma da outra a hora que quisessem.
Elas fizeram isso pouco antes do fim do primeiro semestre do segundo ano. Toda a tensão dos vilões e etc, elas se sentiram mais calmas sabendo que poderiam socorrer uma a outra se fosse preciso. Elas raramente usavam, já que Jirou dormia bem depois de Yaomomo, então quando sua amiga aparecia, Kyouka ainda podia recebê-la. Por outro lado, a garota punk não gostava de incomodar Yaomomo, ela já tinha muitas ocupações para Kyouka perturbá-la com as suas.
Por garantia, Jirou esperou mais alguns minutos antes de subir com seu edredom envolto em sua cabeça e seu travesseiro em seus braços. Ela agradeceu aos céus pelo dormitório feminino ser ligado pelo elevador e ela não precisar encontrar ninguém no caminho até o quarto de sua amiga.
Kyouka olhou as frestas da porta e viu que as luzes estavam apagadas. Decidiu não bater, assim não acordaria Yaoyorozu. Ela destrancou a porta e entrou o mais silenciosos que podia.
— Jirou? — Momo ofegou com a surpresa de alguém invadindo seu quarto. A morena ergueu a cabeça um pouco para ver melhor quem abrira sua porta.
— Desculpa. Eu não queria te acordar – Jirou choramingou como uma criança enquanto jogava seus pertences amontoados na cama de Momo – Eu só queria dormir aqui – Ela continuou levantando o edredom de Yaoyoruzu e deslizando para dentro, engatinhando até o topo da cama por baixo dos lençóis.
— Está tudo bem, eu acabei de deitar – Momo explicou puxando o edredom para expor o rosto de Kyouka – Você não me acordou.
— Bem, então... eu ganho um abraço? – Kyouka pediu sem jeito, ainda com uma voz infantil.
— Claro que sim, o que aconteceu? – Yaomomo perguntou aconchegando sua amiga em seus braços.
— Oh, não é nada – Ela desfez, enterrando o rosto no pescoço de Momo enquanto a outra garota passava os dedos em seus cabelos.
— É claro que é mais que nada, você está praticamente implorando pela sua mãe – Momo bufou frustrada enquanto apoiava o queixo na cabeça da amiga e a apertava protetoramente.
— Ok, é alguma coisa, mas não é grande coisa, de verdade. Pode esperar até amanhã.
— Kyouka... – Momo chamou com o tom grave.
— Pare de se preocupar, eu não quero te incomodar com isso. – Kyouka estalou fazendo beicinho — Agora você tem que dormir. Eu não quero atrapalhar seu sono.
— Você não está incomodando. E eu não estou com sono ainda. – Momo insistiu docemente. Contudo, Kyouka permaneceu em silêncio – Só me conta! – Yaoyorozu exigiu sacudindo Kyouka bruscamente.
— Ok! – Jirou concordou enterrando o rosto mais fundo no pescoço da amiga.
Yaoyorozu voltou a desfazer os nós do cabelo de Jirou até que a garota punk decidisse falar o que aconteceu.
— Então?
Jirou suspirou antes de responder.
— Eu estou gostando do meu melhor amigo – Ela disse decepcionada consigo mesma.
Yaomomo retesou a coluna e parou imediatamente de mexer nos cabelos da amiga. Ela afastou-se um pouco de Kyouka para poder encará-la com uma sobrancelha erguida.
— Meu melhor amigo homem – Esclareceu Kyouka com ênfase na última palavra.
— Oh, ok – Momo suspirou aliviada e aninhou Jirou de volta em seu abraço. – Tem certeza?
— Sim.
Yaoyorozu esperava que Jirou continuasse a conversa, porém, parecia que a resposta curta era suficiente para a garota punk.
— É isso? É tudo o que você vai me contar?
— O que mais você quer saber? – Kyouka perguntou confusa. Isso era explicação suficiente, não?
— Que tal tudo? – Momo debochou – Você não pode simplesmente falar isso e me deixar no escuro.
— Bem, eu prefiro dormir com as luzes apagadas, mas o quarto é seu, então... – Kyouka sorriu, seu sarcasmo aparecendo.
— Não mude de assunto, mocinha. – Momo a repreendeu se remexendo na cama para acomodar melhor sua amiga – Comece a falar.
— Ok – Kyouka suspirou derrotada – Bem, ele é um filho da puta. Mitsuki-san que me desculpe, mas seu filho é o pior. Ainda assim arrrrgh. Momo, por que ele tem que ser tão fofo?
— Ok, estamos falando do Bakugou – constatou Yaoyorozu armazenando as informações em sua mente.
— Ia ser tão fácil se ele fosse só um idiota, — Kyouka continuou sem dar importância para o devaneio de Momo – Mas, não. Ele tem que sorrir daquele jeito, ou se preocupar comigo e com o Kirishima. Ele finge que odeia todo mundo, mas no fundo ele é tão protetor e... Argh. Eu me odeio – Ela desabafou apertando ainda mais Yaoyorozu.
— Por quê? Isso é muito fofo, Kyouka – Momo consolou a amiga com sua voz doce –Embora eu não consiga ver esse lado do Bakugou, vocês seriam um belo casal.
— Não, não seriamos. Por que nunca vai acontecer – Ele gemeu, sua voz abafada, vibrando no peito de Momo.
— Bem, todo mundo discorda.
— Você já viu o Bakugou? – Ela afastou-se de Momo e a encarou ranzinza – Aquele maldito é perfeito em praticamente tudo.
— E ele gosta de você – Yaomomo disse, era para isso ser óbvio, não?
— Não desse jeito – Jirou bufou e revirou os olhos – Além do mais, eu nunca vou namorar um amigo de novo.
— Como assim “de novo”? – Momo perguntou procurando os olhos de Jirou.
— Oh, sim. Eu nunca contei, certo? – Ela sorriu o sorriso mais falso do mundo e fez um esforço enorme para não engolir em seco e desviar o olhar. – Eu... anh... meio que namorei no fim do ano passado.
— E nunca me contou?!
— Desculpa? – Jirou tentou encolhendo-se.
Momo bufou, se irritou, se magoou e então suspirou.
— Eu deveria fazer um chá? – Ela sugeriu frustrada.
Kyouka tinha o péssimo hábito de não contar absolutamente NADA. Momo precisou de muita paciência e persistência para quebrar os muros da garota. E parece que alguns ainda permanecem de pé. Jirou sempre pensava que estaria incomodando ou que seus problemas não eram dignos de atenção. Porém Yaoyorozu não queria ser a única a desabafar nessa amizade.
Jirou não aceitou o chá. Ela não queria tirar Momo de sua cama por ela. Entretanto, ela contou toda a história sobre seu ex-namorado, como ele também era seu melhor amigo antes dela entrar na UA e de como tudo terminou. Já passava das 23h quando Kyouka contou sobre a noite em que Bakugou a consolou com sorvete e chocolates.
— Bem, já faz um tempo, mas eu ainda me lembro de quando você ficou triste. Você poderia ter me contado antes, mas tudo bem – Momo provocou com uma pitada de ressentimento.
— Você estava ocupada, era no meio da semana e depois... Ah, eu contei agora, não contei? – Kyouka cruzou os braços e fez beicinho.
Ambas estavam sentadas agora, Momo encostada à cabeceira da cama e Kyouka com as pernas cruzadas no meio da cama.
— Praticamente à força. – Momo lembrou-a – Mas ainda não entendi o que isso impede de você tentar alguma coisa com Bakugou.
— Quando nós terminamos, eu não perdi só um namorado, eu perdi meu amigo também. – Ela balbuciou.
De repente, Kyouka sentiu necessidade de se aninhar novamente no colo de Yaomomo. A garota da criação deslizou um pouco e acomodou sua amiga novamente.
— Kyouka-chan, você não pode deixar esse medo tolo te impedir – Momo aconselhou maternalmente.
— Oh, cala a boca. Você e o Todoroki estão nessa novela há meses – Ela resmungou irritada – Você não está realmente em posição de falar.
— Pode ser verdade, mas ainda ofendeu – Momo reclamou.
— Desculpa – Kyouka gemeu arrependida – Eu só queria continuar ignorando-o.
— Bem, não é muito fácil ignorar o Bakugou – Momo suspirou e acariciou o cabelo da amiga – Espera, foi por isso que você dormiu aqui semana passada? Você estava evitando ele?
— Uhum. Não funcionou.
— O que houve?
— Sabe aquele cupcake que eu te dei no almoço? Bem, ele trouxe 10 para se desculpar. – Ela enfiou o rosto contra a pele de Yaomomo e rosnou bem alto – E ele não tinha feito nada! E hoje ele me fez falar com a mãe dele e ela me disse que ele passou o fim de semana inteiro se sentindo culpado por eu estar evitando ele. É por isso que eu vim aqui, eu me senti tão mal que não consegui dormir sozinha.
— E você continua achando que ele não gosta de você?
— Oh, por favor, alguém me mate – Ela gemeu dramaticamente.
— Não seja tão dramática – Pediu Yaoyorozu com um bocejo.
— Ok, é isso, você vai dormir – Kyouka ergueu a cabeça para dar ênfase à suas palavras.
— Eu estou perfeitamente bem – Momo contrariou com um segundo bocejo
— E eu sou a rainha da Inglaterra – Jirou debochou cortando como uma faca — Você nunca dormiu tão tarde e amanhã você tem mil coisas de representante de classe para fazer. Então, boa noite – ela terminou se aninhando novamente na amiga.
— Boa noite – Momo balbuciou já pegando no sono.
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