Notas iniciais
{revisado — 17 de janeiro de 2016}

Estava eu, inerte sob a sombra refrescante da macieira estéril que colecionávamos no jardim de casa, lendo uma das minhas incalculáveis histórias em quadrinhos. Meu pai assava hambúrgueres na grelha e mamãe estava sentada em sua cadeira de praia na varanda, conversando baixinho com as suas irmãs sobre seu casamento agradável. Ela estava tão bonita quanto de costume... seu vestido estampado com margaridas dava um contraste inexplicável aos seus olhos dourados. Já meu pai tinha um gosto horrível para roupas. Ele estava usando uma camiseta florida — talvez para combinar com o vestido da mamãe, mas nem de longe se pareciam — e uma bermuda bege. Entretanto, uma coisa fazia sua moda excêntrica passar despercebida: o brilho infinito estampado em seus olhos. Provavelmente o mesmo brilho que possuía quando se apaixonou pela mamãe pela primeira vez.

Mas algo acabou com o almoço, acabou com as nossas vidas e ruiu a nossa família. Os Johnson. Não exatamente os Johnson, mas a infecção que os obrigou àquilo.

Nosso vizinho Oswald Johnson e sua esposa, Dora, invadiram o nosso terreno berrando e por um momento confundimos com uma brincadeira — eles eram muito extrovertidos —, até que Dora literalmente arrancou um pedaço do pescoço da tia Emma com os dentes. Minha mãe gritava para que eu corresse para dentro de casa e meu pai tentava de todos os modos nos proteger.


Acordo, ofegante e toda suada, em meio à solitária floresta. Os malditos pesadelos são constantes nos últimos anos e eu não consigo evitá-los de jeito nenhum. Sinto até medo de dormir e dar de cara com um desses. Olho de relance para os dedos das minhas mãos e noto um progresso, já que não roí as minhas unhas.

— Merda de pesadelos — murmuro. O sol está brilhante no canto do céu pela primeira vez na semana e me sinto aliviada. Dias chuvosos ou somente nublados fodem meu sentimental mais do que já é fodido. Me permito levantar e caminhar mais um dia, saltando as raízes incômodas e driblando as árvores. Por que diabos eu não andei pelas margens daqueles trilhos no acidente da linha ferroviária? Já teria encontrado civilização há semanas.

Acaricio, tranquilamente, a pena macia da flecha que consegui recuperar do infectado que abati no dia anterior. É muito bom quando se consegue recuperar uma delas, afinal, é possível abater alguma outra coisa. Certifiquei-me cuidadosamente de limpá-la, porque a infecção que percorre as veias daquele infectado podia muito bem estar entornando a seta da flecha.

Corro os meus olhos por toda a floresta por alguns segundos até que enxergo uma estrada, mais tarde, lá pelos declives. Uma estrada era tudo de que eu precisava! Sigo a trilha até ela, toda animada, tropeçando uma vez ou outra em algum obstáculo importuno. Até parece que, quanto mais eu caminho naquela direção, mais distante a estrada se torna, mas não me abato. Prefiro que demore a não encontrar uma cidade — desabitada ou não.

Meus tênis tocam o asfalto.

Como é excelente pisar em algo humanizado depois de tanto tempo sentindo cheiro de mato e caminhando em pegajosas lamas. Analiso a minha volta para qualquer sinal de sinalização e encontro uma placa. Pequena, verde, mas útil ao extremo. Nela, está escrito em brancas letras garrafais que a cidade mais próxima é Boston e está a uma milha de distância.

Caminho, então, naquela direção a qual fui instruída pela placa. Até sinto minha fome diminuir quando penso que poderei aliviá-la em Boston. Não sei o que posso encontrar por lá, mas sei que é bem melhor do que aquela floresta assustadora. Só preciso ser cautelosa e tomar cuidado para não ser vista pelos guardas da quarentena. Conflitos devem ser evitados em minha situação.


No momento em que encontro sinais de civilização, como uma iluminação esbranquiçada por detrás do horizonte — provavelmente originada pela quarentena de Boston —, o meu coração se alivia de maneira acidentada. Florestas me assustam desde quando eu era criança e eu ia acampar com o papai. Minha mãe preferia ficar em casa porque não gostava muito dessas coisas e era alérgica a quase todos os insetos. Certa vez, um urso nos perseguiu. Ficamos muito gratos por termos levado a velha espingarda de papai e foram necessários cinco tiros para abater de vez aquele animal. Foi uma experiência traumática.

De que estou reclamando, afinal? Eu sou um trauma.

Sou, além de tudo, uma garota evasiva. Por quê? Porque nunca sei quando posso ser morta por alguém que eu amo. Aprendi com a dor que nunca se pode confiar totalmente em uma pessoa, principalmente neste mundo. Amor destrói, amor te mata. A separação dolorosa com o meu pai comprova isso.

— Estaladores! — ouço alguém gritar. Meu peito literalmente congela e a fome que meu estômago costuma cantar se evapora quando a adrenalina começa a percorrer pelas minhas veias. Assim que avisto um carro falecido, me escondo atrás dele e preparo meu arco.

Uma mulher e dois meninos aparecem da floresta. Ela segura um revólver na mão direita e o menino mais velho uma pistola. São possivelmente seus filhos, imagino. O mais novo aparenta ter oito anos. Pobrezinho, o que está fazendo fora da quarentena? — se perguntariam o mesmo se olhassem para mim. Tenho que parar de julgar pessoas pela aparência. Fragilidade vem de dentro.

— Will, fique bem atrás de seu irmão, está bem? — diz a mulher para o garotinho. Ele concorda suavemente com a cabeça enquanto segura com força o tecido da camiseta do irmão.

Depois disso, mais ou menos uma dúzia de infectados abandonam o mar de pinheiros. Eles guincham, se contorcem e até topam uns com os outros. Dois deles são perseguidores — uma mistura de corredor com estalador. A audição deles já é avançada, mas ainda conseguem enxergar um pouco.

A mulher atira na cabeça de um perseguidor e recua na direção do carro em que estou escondida. Uma hora ou outra terei que abandonar o meu esconderijo, é só questão de tempo. Não, não é não, eu não posso agir com impotência como fiz com a mamãe. Lily não pode mais ser um nome frágil. Devo me conhecer como uma heroína, como alguém capaz.

Levanto-me e atiro cuidadosamente uma flecha na garganta de um dos estaladores. No momento em que a flecha atinge o infectado, o trio me olha, possivelmente na dúvida entre mirar em mim ou nos infectados.

— Quem é você? — grita a mulher.

— Lily. Não quero machucá-los — digo. — Só confiem em mim.

Ela concorda com a cabeça em ambiguidade. Estou desarmada agora, então se eles quiserem me matar, podem. Subo em cima do carro e grito para que eles façam o mesmo. Os estaladores ficam confusos quando subimos nas coisas, sua eco localização até consegue nos localizar, mas eles não conseguem escalar nada muito bem. Por isso atirar neles do alto é sempre uma boa opção.

— Meu nome é Cassandra — berra ela, parecendo se sentir em um jogo quando acerta tiros na cabeça dos infectados. Um sorrisinho se canaliza no seu lábio, que tem uma grande cicatriz. — E estes são meus sobrinhos, Will e Blaine.

Parece que eu me enganei. Ela não é a mãe deles.

Will é pequeno e magricela. Seu cabelo é um loiro bem claro e cai de leve sobre seus cílios. Quando olho para ele, ele sorri com tristeza. Blaine é um pouco mais alto que eu e tem olhos bem verdes, mas seu cabelo é escuro como o da tia e tem uma falha na sobrancelha esquerda. Ele não sorri.

Pois é. É muito difícil sorrir quando seu mundo está desmoronando.