Os seios cresceram, as curvas se sobressaíram e a menarca finalmente veio. Kite se lembrava do dia da sua primeira menstruação, estava na escola e não conseguia entender o que estava acontecendo. Por ter crescido com o pai, nunca soube que um dia sangraria feito doida.

Era tão inocente ou simplesmente tapada demais, mas felizmente uma amiga a ajudou naquela confusão. Depois ficou sabendo que isso ocorreria todo mês e que sentiria muita dor. Era algo que só mulheres passavam, e que por isso se tornara uma finalmente.

Mas não se sentia ainda mulher, apesar de ser bem feminina com seus cabelos longos e lisos, que seu pai não deixava cortar e nem pintar por parecer com sua falecida mãe, e de ser uma boa dona de casa quando conseguia reconciliar os estudos com as tarefas do dia a dia.

Cozinhava e limpava, estudava e aprendia, abaixava a voz e a cabeça diante a imponência de seu pai. No entanto, só viu que não era mais menina com aqueles olhares que a secavam até a alma. Homens passaram a observá-la, alguns sorriam e outros iam até ela trocar ideias. Seu pai, indignado, a proibiu de sair de casa. Não iria nem mais na feira aos domingos e, quando voltasse da escola, teria que ir direto pra casa.

Mas Kite queria aqueles olhares de volta, eles faziam com que se sentisse numa aventura longe da mesmice que era a vida. Suas amigas usavam roupas curtas e pintavam a cara, Kite percebeu que dessa maneira, elas conseguiam ganhar mais daqueles olhares e, pela primeira vez, desobedeceu a seu pai quando também descobriu que era infeliz.

Censurava-a de tudo nesse mundo, e só notou a verdade quando passou a questionar se era justo ser privada da liberdade, dos olhares. Eles mostraram a ela de que vivia numa bolha, onde era ainda a garota casta de família. Mas agora era uma mulher por ter feito uma escolha por conta própria.

Fugiu de casa, passou a morar na cidade, longe do curral em que vivia antes. Virou moça experiente, que te cumprimentava no bar com um sorriso e cheiro de cigarro. Uma moça que gravava vídeos se tocando, e adorava seus seguidores. No entanto, às vezes precisava enxergar os olhares e dormia com qualquer um. O irônico era que pra conseguir ter a visão completa do olhar, precisava ser na posição papai e mamãe.

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