The act of letting go
1 1 - Let me go.
Notas iniciais
O céu da alvorada em tons de amarelo e alaranjado, a brisa leve, as águas calmas... Tudo ali estava exatamente como se lembrava. A grama nem mesmo crescera, e os únicos animais nas proximidades eram pequenos pássaros que pousavam no chão de quando em quando, apenas para tomar impulso e levantar voo novamente. Como bem podia recordar, aquele lugar ainda lhe trazia uma paz interior indescritível, a qual sempre procurava cada vez que o caos – bastante recorrente – resolvia aparecer em sua vida outra vez.
Enquanto estivera em missão na cidade de Karakura, aquele sempre fora seu refúgio, ainda que ficasse isolada no guarda-roupas de Ichigo, onde se instalara sem aviso prévio, pela maior parte do tempo. Cada vez que algo importante era colocado à prova e a Soul Society se encontrava em um cenário de riscos e incertezas, era àquele lugar que ela recorria para respirar propriamente e baixar – ainda que pouco e por pouco tempo – sua guarda.
Mas naquela manhã de julho, seu objetivo ali era diferente. Pela primeira vez desde que conseguia se lembrar, nem o caos e nem o drama assolavam sua vida. Era exatamente o contrário. Pela primeira vez desde que conseguia se lembrar, sentia-se exageradamente bem. E para que a felicidade se tornasse algo genuinamente real em sua vida, tinha ainda um assunto que precisava resolver.
Rukia apertou com força os objetos que trazia consigo enrolados em um pano branco sobre o peito. Andava em passos lentos e espaçados, porém decididos, sobre o caminho cimentado separado do rio por algumas faixas de grama. Deixara a Seireitei antes do nascer do Sol através do Senkaimon, que fora liberado por Ukitake Juushirou. Além dele, o único que tinha conhecimento do que estava fazendo era Urahara Kisuke, que a esperara do outro lado e a levara até seu destino.
Dali para frente, estava sozinha.
Caminhou mais alguns passos no rumo da ponte, com o corpo levemente trêmulo, tomada pela emoção de finalmente compreender que era sim capaz de superar a separação dolorosa que lhe fora imposta no segundo que fora informada de que dali em diante se tornaria uma Kuchiki. E mais do que isso, finalmente seria capaz de realizar o desejo que se intensificara a partir do momento que seu olhar cruzara o de Kurosaki Ichigo naquela noite conturbada de anos atrás.
Parou.
Sentou-se na grama. Colocou o pequeno embrulho sobre as pernas, e com cuidado desfez o nó que prendia o pano. As quatro pontas caíram graciosamente sobre seu vestido azulado, revelando um caderno azulado de capa grossa, já castigado pelo tempo, que lhe servira como um diário; uma foto antiga, já um tanto desgastada, e um dente-de-leão já seco.
Pegou a flor com cuidado, não podendo evitar que a única folha seca que lhe restava no caule caísse. Por muito tempo, aquela fora para si a flor mais bonita entre todas as espécies. Era especial, não pelas pétalas dispostas em camadas ou pela cor exuberante, que outrora costumava atrair joaninhas, mas porque fora um presente dele. E naquela época, tudo que vinha dele, ainda que fosse um simples bom dia sussurrado entre dentes, era especial.
Lembrava-se perfeitamente do dia que recebera aquela flor. Era uma manhã de primavera, e ele a pegara totalmente desprevenida no momento que apareceu correndo com aquela coisinha amarela em mãos. Ele lhe dissera que aquela era a primeira flor a desabrochar entre os dentes-de-leão, e por isso a única digna de estar nas mãos dela. Nunca, em toda a sua vida, sentira seu rosto esquentar tanto.
No entanto, já não passava de uma pilha de partículas mortas. A representação perfeita da relação que construíram ao longo dos anos. No início, era especial, agradável aos olhos. Mas como qualquer outra daquela natureza, era efêmera e jamais poderia dar certo. No final, seria reduzida ao pó.
E foi pensando nisso que Rukia puxou de sua sapatilha o isqueiro que pegara escondida na última gaveta da escrivaninha de Kurosaki Isshin. Acendeu o fogo sobre a flor, e deixou que as chamas a consumissem. Durante poucos minutos, a brisa levou para longe o que sobrara das cinzas. E estava feito.
Respirou fundo.
Partiu para o caderno. Tomou-o em mãos como se fosse o objeto mais frágil do universo e passou levemente as costas da mão direita pela capa empoeirada. Teve ímpetos de abri-lo, mas não precisava. Lembrava-se exatamente de tudo que fora escrito ali. Ainda que tivesse outras questões em sua vida, cada letra era sobre ele. Sobre sua aparência, seu perfume, seu jeito... Tudo que a fazia amá-lo como nunca antes amara alguém, e que lhe passava a ilusão de que jamais encontraria em outra pessoa.
Lembrou-se também do dia em que seu mundo desabou. Forçada pela vida a se tornar uma outra pessoa, ela sabia que o perderia. Se antes ele era a única coisa que ela tinha, de repente já não tinha mais nada. E ela nunca mais escreveu.
Aquilo que um dia representara seus maiores segredos e desejos já não passava de papeis empoeirados. E pensando nisso, ela repetiu o processo. E em poucos minutos, as chamas já haviam consumido todas as páginas.
Não esperou, portanto, que a brisa levasse as cinzas. Juntou-as com as mãos e as atirou no rio.
Por último, pegou a foto. Era antiga e já estava amarelada, mas a imagem continuava intacta. Ela sorria, levemente corada, enquanto era abraçada com força pelo homem de longos cabelos vermelhos que representara, ao mesmo tempo, sua ascensão e sua ruína. Sorriu ao lembrar-se do quanto estavam felizes naquela época. Não faziam nem ideia que dali alguns dias, a torre que achavam que haviam construído juntos viria abaixo do modo mais brutal possível. Não imaginavam que dali para frente, as coisas jamais seriam as mesmas, e chegariam ao ponto que estavam.
Ela mesma nunca imaginara, mesmo após a separação, que chegariam àquele ponto. Jamais imaginara que as belas flores que ele plantara em sua mente como memórias viriam repletas de ervas daninhas impossíveis de arrancar, e precisariam ser permanentemente destruídas para que ela pudesse ser feliz.
Mas aquilo era passado. E era exatamente o passado que ela queria deixar para trás.
Com as mãos trêmulas e lágrimas empoçando em seus olhos, Rukia segurou a foto pelas pontas. Olhou pela última vez o último momento em que estiveram felizes juntos, e fechou os olhos. Todas as lembranças de sua juventude juntos, até o momento que foi um divisor de águas em suas vidas passaram por sua mente.
Quase fraquejou, mas respirou fundo e juntou novamente toda a confiança que a levara até ali. Era apenas um gesto. Um único gesto que representaria o fim de uma era de puro sofrimento e a conquista de sua liberdade.
Pensando nisso, ela puxou as pontas da fotografia em direções contrárias, e a imagem se partiu bem no centro, apartando o abraço dos dois. Abriu os olhos apenas para observar onde estava pisando, se aproximou da água e atirou nela os dois pedaços.
Fechou novamente os orbes acinzentados e gritou. Gritou coisas desconexas, confissões inconscientes ao vento. Naquele momento, com os únicos resquícios daquelas memórias de sofrimento atirados ao vento e à água, e sem qualquer preocupação no peito, estava livre. Completamente livre.
Completamente livre, ela gritou.
Deixou o corpo pequeno cair sobre a grama, e as lágrimas que desceram por seu rosto representavam apenas a felicidade plena que ela nunca antes sentira. Dane-se que era uma Kuchiki e que para os Kuchiki, as lágrimas eram sinônimo de fraqueza. Aquele era o momento dela.
Após alguns minutos, limpou as lágrimas. Sentou-se na grama, observando as águas balançarem devagar de acordo com a brisa que envolvia seu corpo. Respirou fundo. Tentou identificar a sensação que lhe tomava o peito, mas era nova demais para ter nome. Estava feliz.
Sentiu uma presença próxima, e só pelo arrepio que lhe subiu a espinha pôde perceber que o Senkaimon se abrira por perto. Mas não se importava que tivessem ido lhe buscar e lhe repreendessem por sair da Seireitei sozinha e sem permissão. Pela primeira vez na vida, estava genuinamente feliz.
Mas tudo aconteceu diferente do que ela imaginava.
A mão pesada que lhe tocou o ombro era bastante conhecida, e aqueles cabelos vermelhos eram inconfundíveis. Ela teve medo que fosse se arrepender de tê-lo tentado arrancar completamente de sua vida, mas o sentimento que teve no exato momento em que seus olhos se encontraram foi exatamente o contrário. Não sentia absolutamente nada.
Ele, por outro lado, parecia surpreso, quase preocupado. Sabia que ela só visitava aquele lugar quando se sentia mal, para acalmar o inferno que se instalava em seu íntimo quando o caos tomava conta do externo. Estaria ela cogitando mudar de ideia? Ele esperava.
Gentilmente, Rukia empurrou a mão de Renji de seu ombro. Séria e mais determinada do que nunca, não quebrou o contato visual. A atitude o deixou ainda mais surpreso.
— Te mandaram aqui? – Perguntou Rukia, cruzando os braços.
— O Taichou ficou furioso quando descobriu que você tinha saído. – Respondeu, um pouco sem jeito – E o Ichigo quase enlouqueceu pensando que você tinha desistido e fugido.
— Hm. Se era só isso, podemos voltar. – Ela pôs-se a caminhar até o Senkaimon que ainda estava aberto.
No segundo que ela deu o primeiro passo, Renji sentiu todo o seu corpo tensionar. Não podia deixar acontecer daquela forma, não podia...
— Rukia! – Deixou escapar, um pouco mais alto do que o normal. O pânico era visível em seus olhos.
— Hm? – Ela parou de andar, e virou-se para ele com a mesma expressão de antes.
— Amanhã... Você vai mesmo...? – Não teve coragem de terminar a frase.
— Vou.
— Não! – Praticamente gritou, desesperado – Eu não fui forte o suficiente para te salvar quando você precisou. Eu não fui capaz de fazer tudo o que devia fazer, mas ainda dá tempo de me redimir! Me diz que...
— Não. – Rukia cortou, séria – Você precisa aceitar que depois de tudo, é impossível. Eu já me libertei de todas as nossas memórias, Renji. E sinto que tenha sido tarde demais.
Ele sentiu as lágrimas começarem a querer cair. Respirou fundo. Não fraquejaria diante dela. Não outra vez.
— Se você me ama tanto quanto diz, siga em frente. E me deixe ir também.
Rukia caminhou até o Senkaimon com a confiança que nunca tivera e passou por ele sem hesitar.
Renji virou o rosto, em uma tentativa falha de impedir as lágrimas de escorrer. Na água, boiava a única foto que tinham juntos, rasgada pela metade. A folha do dente-de-leão estava no chão e ele finalmente entendeu o que ela pretendia dizer com eu já me libertei de todas as nossas memórias.
Da pior forma, entendeu.
Você só sabe que a ama quando a deixa ir.
Notas finais
Espero que tenham gostado!
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