The Woods
28 Mais um
Notas iniciais
Fui caminhando rapidamente de volta para a clareira onde tinha combinado de encontrar o grupo, com meus pensamentos insistindo em permanecer no que tinha acabado de acontecer na casa de Dale. Eu não iria esquecer isso por um bom tempo.
Antes que eu me desse conta, eu já tinha entrado na floresta e achado a clareira onde Cat andava de um lado para o outro preocupada, Avery atirava suas facas em um tronco de arvore distraidamente com uma precisão levemente assustadora e Alex estava sentado com a cabeça apoiada nas mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Onde caralhos você estava? — Cat correu até mim preocupadíssima.
— Ué explicando pros meus pais tudo isso. — Falei em um tom como se fosse óbvio.
Eu era particularmente boa em mentir. Na maior parte das vezes pelo menos.
Aliás, pensando bem, ultimamente as situações nunca se encaixavam nessa “maior parte das vezes”.
— Ok ok tanto faz. — Avery (que havia parado de jogar as facas no tronco da arvore e se materializara ao meu lado) revirou os olhos. — Não temos tempo para isso, temos que ir andando.
Alex levantou e Cat assentiu enquanto Avery já tomava o lugar na frente do grupo guiando todo mundo.
— Ir pra onde exatamente? — Arrisquei depois de um tempo de caminhada silenciosa.
— Primeiro pra sede e de lá decidiremos. — Avery respondeu simplesmente.
Desde o reaparecimento de Alex, ela tem andado estranha, todo seu humor de pouquíssimo tempo atrás se foi com um piscar de olhos. Antes eu a achava meio irritante e louca, mas agora eu sinto falta da antiga Avery. É como se a tensão no ar fosse palpável.
—... E Cat ficam aqui esperando por nós, não vai demorar muito, não se preocupem. — Estava tão absorta em meus pensamentos que nem ouvi quando ela começou a falar.
Olhei para Cat. Ela parecia estar com medo, mas agora isso era recorrente. Não era culpa dela, para falar a verdade, parte da culpa era minha e carregar isso comigo era simplesmente insuportável, mas eu não podia começar a pensar nisso agora, o perigo ainda não passou.
Talvez nunca passasse.
— Lucy? — Avery me chamou.
Ela me olhava como se estivesse a espera de alguma resposta minha. Estava parada na margem do lago/portal. Não sabia como eles chamavam isso.
— Ahn? — Não queria parecer a completa inútil que eu estava parecendo agora, mas eu estava perdida.
— Sede. Armas. Suplementos. Nós. Buscar. — Notei um tom leve do antigo humor que costumava residir em suas frases.
— Ah... Sim, claro. — E é claaaaro que eu não entendi.
— Ótimo, então... Quer fazer as honras?
Devia estar perto do amanhecer e estava relativamente frio. Eu não queria nem começar a pensar em como estava a temperatura desse lago. E eu sabia que ela também não estava nem um pouquinho a fim.
Soltei um grunhido audível e Cat riu.
— Ok eu vou primeiro então. — Ela tomou a dianteira.
Colocou primeiro um pé na água aparentemente gelada do rio e estremeceu. Segurei uma risada, lembrando-me de que eu era a próxima. Então, entrou de uma vez, bem rápido, decidindo que assim seria melhor.
— Vem Lucy, sua vez. — Levantou um braço fazendo sinal para em entrar.
Eu não sabia ao certo como seria o melhor jeito de entrar mas supunha que esse jeito não existia. Olhei de relance para Cat e Alex, ambos inclinaram a cabeça em direção a água indicando para eu entrasse. Andei em direção ao lago, molhei a ponta do pé e senti como se um pedaço da minha alma tivesse acabado de ser levada.
— Lucy! Anda logo, daqui a pouco amanhece e você ainda está aí. — Avery me chamou impaciente enquanto jogava um pouco de agua na minha direção, porém sem força o suficiente para que me molhasse. — Sem contar que daqui a pouco EU congelo.
— Tudo bem, já vou. — Respondi de volta.
Levando em conta que era melhor eu ir logo e que a água roubaria toda a minha alma assim que eu entrasse no lago, decidi entrar de uma vez. Fui correndo para dentro da lagoa antes que eu tivesse tempo de pensar novamente e mudar de ideia. Senti que meus pés já não alcançavam mais o chão e nadei até o meio do lago onde estava Avery.
— Finalmente. — Revirou os olhos e sorriu. — Pronta?
— Sim, vamos logo, por Deus. — Eu tinha quase certeza que já não estava sentindo a ponta dos meus dedos.
Ela mergulhou para dentro da lagoa e eu a segui em direção as algas. Em direção ao portal.
~’’~
Levantou um pouco antes do amanhecer com os cabelos e roupas ensopados de suor, seus pesadelos ainda o perseguiam. A umidade do ar era sufocante. Andou até a janela e a abriu para que o vento frio da noite entrasse, então ficou parado contemplando a vista perdido em seus próprios pensamentos.
A verdade era que não conseguia tirar Lucy da cabeça. Pensava nela até dormir e ao acordar seus primeiros pensamentos eram sobre ela. Todas as noites, tinha pesadelos em que ela morria no fogo.
E ele se arrependia cada vez mais, a cada minuto que passava desde o incêndio.
Fizera aquilo porque era seu dever. Estava em seu sangue.
— Ei, garoto mistério! — Luke levou um susto enorme e viu Elinor do lado de fora da janela. — Que tal descer aqui pra gente conversar?
Ele não havia notado que já tinha amanhecido. Aparentemente ficou parado naquela janela por um tempo considerável. Ponderou a questão da garota enquanto saia dali e decidiu ir com ela.
Ele não tinha o que fazer e nem para onde ir, de qualquer maneira...
~’’~
Saímos do lago, no outro lado do portal. Estava prestes a amanhecer e as primeiras tonalidades da manhã já tingiam o céu.
Avery andou apressada para dentro do complexo e entrou em uma salinha fazendo sinal para que eu entrasse atrás dela. A sala era escura, tinha só uma pequena janela aberta no alto e as quatro paredes (assim como o lugar todo) eram brancas. Assim que eu entrei, ela fechou a porta e apertou um botão ao lado dela, parecido com um interruptor. No mesmo instante a sala inteira se iluminou apesar de eu não conseguir ver a fonte da luz. Senti minha pele esquentar levemente, como se estivesse sendo exposta ao sol e então, tão momentaneamente como surgiu, a luz foi embora.
Assim como a água do lago em mim. Eu estava completamente seca.
Fiquei chocada, mas Avery estava tão neutra como se essa fosse a coisa mais normal do mundo. Assim que a luz se apagou, ela abriu a porta e foi caminhando pelos corredores em direção a escada.
— O que foi...?
— Nosso sistema de secagem ué. — Ela me interrompeu prevendo minha pergunta.
— Ah sei, conheço um ótimo sistema de secagem, chama toalha. — Devolvi ironicamente.
— Ué se eu soubesse que você preferia toalhas... — Respondeu.
Chegamos no segundo andar e estávamos indo em direção a sala de armamentos quando passamos por um garoto que nos abordou.
— Lucy, Avery — COMO ELE SABIA MEU NOME? — Aconteceu alguma coisa?
— Seth. — Ela respondeu e então eu me lembrei dele. — Ah... nada não, só o de sempre.
Aquele era o menino bonitinho que tinha parado para conversar comigo um dia antes.
E por Deus, Avery não sabia mentir.
— Então tá... — disse ele sem acreditar muito mas continuando seu caminho. — Se precisar de ajuda com nada me chama.
Ela simplesmente se virou e continuou o caminho até a sala, mas achei ter visto que ela ficou sem graça.
— Nossa... — Ela parou assim que entramos na sala. — Eu vou precisar de uma mochila para as armas, espere aqui enquanto vou no meu quarto pegar.
Com isso ela saiu da sala me deixando ali sozinha. Andei até a estante de armas analisando-as até chegar no arco que eu havia escolhido para lutar.
— Então sua arma é o arco? — Perguntou uma voz atrás de mim.
Levei um susto e me virei sobressaltada.
—Seth! Que susto! — Ele não tinha ido embora afinal.
— Ah me desculpe, não era minha intenção. — Ele abriu um sorriso torto lindo de desculpas.
Ah não, assim não dá, como esse garoto pode ser tão lindo?
Sorri de volta.
— Mas sim, minha arma é o arco, qual é a sua? — Perguntei com uma curiosidade infantil.
— Adivinha. — E eu me achando infantil.
— Hmm... — Dei uma olhada nas estantes. — Faca?
— Um pouco mais pesado.
— Espada? — Perguntei e ri em seguida. Isso tava meio ridículo.
Ele riu também, andou até a estante e pegou um machado. Eu nunca teria acertado.
— Um machado? — Nem tentei esconder minha expressão de surpresa.
Eu nunca imaginaria ele lutando com um machado, ele simplesmente não fazia o tipo.
— Um machado de combate. — Ele disse enquanto manuseava a arma de uma forma impecável.
— Ahn, o que que ta rolando aqui? — Avery entrou na sala com a mochila e foi direto pra estante de armas pegar as que nós precisaríamos.
Seth distraidamente me entregou o machado e só então eu percebi que ainda estava olhando surpresa para o machado pesado agora em minhas mãos.
— Eu quis saber primeiro. — Seth disse.
— E eu já respondi sua pergunta. — Ela tinha estendido um pano grosso branco no chão e colocava diversas armas em cima dele.
— Eu diria que não respondeu. — Ele insistiu.
Ele não ia desistir.
Avery bufou e virou para ele. Analisou-o por alguns segundos, nenhum dos dois desviou o olhar.
— Vou com vocês. — Ele disse simplesmente depois de algum tempo.
— Ah mas não vai mesmo. — Abriu um sorriso um pouco assustador e voltou a arrumar as armas.
— Não é você quem decide, como vai me impedir de ir exatamente?
Por um instante achei que Avery perderia sua sanidade pois ela se levantou em um pulo e se aproximou ameaçadoramente de Seth, que por sua vez, continuava inabalado.
Eu sinceramente não sabia qual dos dois ali era mais louco.
— Eu não quero ter que dar um jeito no seu cadáver. — Ela sussurrou pausadamente e estreitou os olhos.
— Eu tô indo justamente para que não tenham que dar um jeito no seu. — Respondeu de um jeito despreocupado.
Meus olhos quase lacrimejaram com o esforço de não gargalhar ali mesmo.
Vi que dessa vez Avery perderia a cabeça mesmo e já ia voar no pescoço dele, mas eu fui mais rápida e entrei na frente dela estendendo o cabo do machado para Seth.
— Nesse caso, acho que você vai precisar disso. — Sorri e ele pegou o machado sorrindo de volta.
Virei e dei uma piscadinha para Avery que estava bufando de raiva atrás de mim.
— Então, já que está tudo resolvido, podemos arrumar logo tudo? Temos que ir logo. — Ela disse por fim, ainda irritada.
— Às suas ordens — Ele respondeu.
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