The Witchcraft
3 Louva-a-deus
Notas iniciais
— Eu estive atento a todos os lugares que passamos e a tudo que deixaram para trás, fuçando entulho como um rato. Isso tudo valeu a pena. Essas são as minhas melhores criações.
Govannon abriu o seu baú marrom e encarou seus amigos como se esperasse ser ovacionado. O olhar faiscando, sorriso com os lábios fechados, palmas das mãos abertas; parecia estar apresentando algo a uma plateia. Boadiceia, Sulis e Bran continuavam a olhar o baú na esperança de que algo incrível pulasse para fora dele. Sin permanecia sentada na velha mesa sustentada por arames. Seus olhos fixos na capa de seu livro antigo, ela já estava acostumada à excitação de Govannon toda vez que criava algo novo.
O homem de cabelos prateados suspirou meio desapontado com os amigos e começou a tirar geringonças metálicas compactadas do seu baú, levando-as à mesa. Os outros abrem um círculo ao seu redor.
— Ok, eu tentei criar um armamento inspirado na maneira de lutar de cada um de vocês. Tipo, uma extensão de seus corpos...
— Extensão de nossos corpos? — Perguntou Sulis, franzindo a testa curiosa.
— Olhem só... — Ele se aproximou de Boadiceia com o seu típico sorriso no rosto, a ruiva o olhou intrigada, preferiria derrubar um exercito a entender as invenções do marido. "Permita-me, senhora", disse enquanto se agachava para prender uma sinta de couro na coxa direita dela. Em seguida puxou gentilmente o braço dela e colocou em seu pulso direito um bracelete com algo cilíndrico prateado. Ela rodou o pulso devagar examinando o artefato com curiosidade. Os outros encaravam ansiosos.
— Então, não vai experimentar? — Pergunta o inventor.
— E o que exatamente devo fazer?
— Lembre-se, extensão do seu corpo. Seja você mesma.
Era até engraçado ver Boadiceia tão confusa; ainda insegura ela se afastou e entrou em posição de combate, como se segurasse sua típica lança. No exato momento em que ela dobrou os joelhos e os músculos de sua coxa se contraíram, pequenos dispositivos na cinta em sua perna piscaram e o objeto cilíndrico em seu braço alongou-se rapidamente; em uma extremidade uma ponta afiadíssima surgiu cortando o ar; na outra, mais lâminas formando um círculo. Algumas partes da lança emitiam luzes neons oscilantes.
— Govannon! Isso é incrível! É perfeita para manter descrição e tão leve e rápida para o ataque! — A ruiva girava a lança na mão com maestria.
— Sensores orgânicos. Metal reciclado dos androides de Colora, além de cristais sintéticos de massa escura nas bases das lâminas. Essa belezinha pode cortar literalmente qualquer coisa!
Boadiceia agradeceu com um sorriso familiar. Os demais que olhavam interessados para a lança, voltaram à atenção para os apetrechos sobre a mesa, ansiosos como crianças.
— Para você Sulis, eu adaptei um dispositivo já pronto que tirei dos batedores que derrubamos no acampamento antigo. — Enquanto falava, Govannon ajudava Sulis a vestir uma espécie de mochila mecânica. Para finalizar colocou um diadema na testa dela, amassando seus cabelos negros e volumosos. Sulis se sentia estranha usando aquelas coisas, mas estava quase eufórica para descobrir o que aquilo fazia.
— Acho melhor não testarmos isso aqui dentro, não se quisermos manter nossa descrição... Você já viu o que os batedores da nova inquisição podem fazer não é?
— Espera! Você ta me dizendo que vou conseguir disparar mini-mísseis por esse troço? — Ela apontava com o polegar para as costas.
— Não é tão simples. Esse diadema na sua cabeça é o mesmo dos androides inquisidores, claro que adaptado para os comandos de um cérebro orgânico. Quando você estiver em perigo, essa mochila dispara, sem precisar acionar nada.
— Uau! Parabéns, nerd! Desta vez você se superou! — Sulis falou.
— Ah, inventor, não me peça para me livrar de minha maça. — Bran interrompeu, com sua voz ressonante.
— E nem deveria grandão, eu sei o que aquele pedaço de ferro significa pra você. Seu dispositivo foi o que me deu mais trabalho, demorou bastante para achar o material necessário, mas finalmente conseguir criar algo funcional para ti. — Govannon então descompactou algo que lembrava braceletes, eles alongavam-se e ganhavam o formato de aros interligados.
— Coloque-os nos braços, Bran.
O grande homem loiro imediatamente vestiu o dispositivo nos braços musculosos; anéis que iam de seus ombros até os pulsos apertavam-se e ajustavam-se perfeitamente a ele, enquanto pequenas luzes acendiam nos anéis.
— Cada aro deste vai duplicar ou até triplicar a sua força. Melhoram sua resistência e desempenho muscular nos membros. Qualidades perfeitas para você usar sua maça velha.
— Grandioso filho de Hefesto! —Bran exclamou sorrindo e socando sua própria mão.
Ainda sentada à mesa, Sin observava seus amigos. Era tão confortante vê-los sorrir, mesmo quando o motivo do sorriso fosse a guerrilha. Ao seu lado ela notou algo pequenino se mover nas sombras. O som das asas batendo denunciava ser um inseto, talvez atraído pela luz das velas. O animalzinho se aproximou um pouco mais da luz revelando-se um louva-a-deus. Era normal ter insetos nos acampamentos improvisados, mas havia tanto tempo que Sin não avistava um.
Foi há muitos invernos atrás. Ela estava sentada em uma sala extremamente clara e aconchegante. Pelo chão haviam varias almofadas grandes e coloridas, que Sin achava um pouco brega, mas que eram as mais macias. Um cheiro tipico de madeira perfumava o ar. O gosto de maçã e canela ainda se dissolvendo na boca; as cartas espalhadas no chão... Tudo era tão limpo. A bela bruxa sentada na poltrona bebia o chá elegantemente, seus chapéus eram os mais bonitos. A pequena Sin e todas as outras garotinhas queriam ser como ela. "Vocês neófitas guardem as minhas palavras com atenção. Os sinais e signos que recebemos são as vozes dos deuses. Se um louva-a-deus atravessar o caminho de vocês, para o luto devem estar preparadas. Não os matem, se o ciclo reencarnatório de um amigo não quiser atrapalhar." A mulher dizia.
— Argh... Eu odeio esses bichos! — Sulis pisou no pobre inseto, produzindo um som crocante e afastando Sin de suas lembranças.
— Vamos, já está na hora! — A velha disse por fim, levantando-se e encarando seus amigos.
* * *
Ventava muito naquela noite. Um vento frio e empoeirado; as chamas das tochas bruxuleavam ameaçando se apagarem, mas continuavam vivas e iluminando aqueles que se reunião ao redor de um barranco. Na parte mais alta estava Boadiceia, Govannon e Sin; de frente para eles e na parte mais inferior encontravam-se Sulis, Bran e mais dois rebeldes — Um homem velho, porém viril, barbado e armado até os dentes e outro bem jovem com os cabelos curtos e pele tão pálida que brilhava nas tochas.
Estavam mais afastados do acampamento em um local cheio de mato e terra avermelhada, falavam tão baixo que suas vozes eram quase sussurros (como na maioria das vezes).
— Está chegando a hora, meus amigos. — Disse Boadiceia. — Iremos para um lugar que, com certeza, nem desejamos passar por perto. Iremos ao empório proibido. Nesses últimos meses de fuga conseguimos despistar os cães do governo, eles não devem imaginar que ainda estamos na Cidade do Meio. Graças aos deuses e à nossa astúcia e raça, não fomos descobertos. E é essa astúcia e raça que eu peço a cada um de vocês. Sejamos corajosos, mas a cima de tudo, sejamos cautelosos. Será uma jornada muito curta até o nosso destino, antes do alvorecer já estaremos lá. — O vento soprava forte seus cabelos fazendo seus cachos alaranjados dançarem na noite.
— O trabalho só está começando. — Sin da um passo a frente, falando por debaixo do capuz. — Todos nós aceitamos os riscos e sabíamos onde estávamos nos metendo quando decidimos pelo ritual de transfiguração totem. Usei todas as minhas forças, tudo o que estava ao meu alcance para descobrir onde estariam os dois ingredientes mais importantes para o rito. Raiz de mandrágora e cristal esbático lunar, os últimos exemplares com certeza estarão no empório.
— Todos esses ingredientes foram proibidos. Se alguém for visto pelas ruas com materiais tão poderosos será condenado à morte imediata. Tentem ser o mais discreto possível. — Boadiceia buscou o olhar de Bran entre os demais e esse acenou com a cabeça em acordo. — Estou com o mapa do subterrâneo que sai do final das antigas docas até o empório. O caminho não deve ser grande coisa. Os androides ou soldados que estiverem por lá, abateremos sem muitos problemas. Tudo complica quando chegarmos perto do empório; não consegui um mapeamento daquela área, provavelmente deve ser um dos lugares mais vigiados da cidade e vocês sabem que não poderemos usar magia, eles podem rastreá-la. Conto com sua experiência como Ladrão das Sombras, Simmon. — Boadiceia se refere ao homem mais velho do grupo. — Partiremos em meia hora. — diz por fim.
Sin e Sulis conversavam um pouco afastadas dos demais. Sin retirou de seu pescoço um cordão e colocou nas mãos da outra mulher. Nele havia uma pedra tão brilhante que parecia emitir luz própria; ela beijou a testa da irmã mais nova e sussurrou algo em seu ouvido.
Bran não parecia querer se despedir de ninguém, estava sozinho e calado com um olhar fixo na maça que carregava. Por vezes girava a grande arma, brincando com seu peso. Govannon matinha Boadiceia em seus braços, ambos sorrindo e brincando de forma apaixonada.
Sin caminhou até a líder ruiva para se despedir, mas hesitou por um instante. Ela não queria atrapalhar o momento dos dois. Não quando ela sabia os riscos dessa missão, não quando ela sabia que um poderia jamais ver o outro novamente. A velha sacudiu a cabeça ligeiramente tentando distanciar esse pensamento. Como poderiam sair vitoriosos se nem ela mesma conseguia vibrar cem por cento positivo?
— Bodicie. — Chamou — A mulher ruiva veio em sua direção ainda sorridente. — Por favor, tenha o máximo de cuidado. Nós sempre fugimos do governo, ir direto para a casa deles me assusta.
— Oh, minha amiga, vejo a preocupação estampada no seu rosto. Você está angustiada. Tem algo que não me contou? — Boadiceia perguntou com serenidade.
— O que eu não lhe contaria? — A bruxa sentiu um aperto no coração. — Só estou com medo. — Abaixou a cabeça evitando olhar nos olhos de Boadiceia.
— Ei ei, nada disso, — A ruiva segurou no queixo da amiga e levantou seu rosto carinhosamente. — Eu preciso de você forte! Quando partimos, você e o Govannon cuidarão de nosso povo. Não precisa se preocupar, Andrasta estará conosco. Você sabe, já passamos por poucas e boas.
Elas se abraçaram e mesmo sorrindo a aflição não deixou o rosto de Sin.
— Abençoe-me, Sin. — Pediu Boadiceia. A velha estendeu sua mão acima da cabeça da amiga e disse:
"Em nome de tudo que é bom, forte e lindo eu te abençoo".
O grupo da missão já havia começado a marchar na direção em que o mapa em seus widgets de pulso apontavam. Os dispositivos que os rebeldes usavam foram alterados por Govennon para que não fossem rastreados pelo governo. A ruiva seguiu seu grupo, deixando para trás a bruxa e o inventor de cabelos argentos.
* * *
"Vamos! Todos para dentro!" Repetia Govannon para as famílias de rebeldes espalhadas no acampamento. Estavam assentados em pequenos edifícios inacabados, nunca passaram tanto tempo em um mesmo local; ficar na Cidade do Meio deixava Govannon apreensivo. Algumas crianças corriam umas atrás das outras, alguns jovens treinavam combate corpo a corpo entre si, outros se reunião ao redor de fogueiras. Com o tempo todos seguiam a ordem do líder e recolhiam-se. Exceto a Sin e um grupo de quatro jovens garotas; elas usavam túnicas e véus que lhes cobriam os cabelos, as peles estavam mais limpas do que as dos demais. Todas caminhavam juntas, calmas e sérias, até se separarem e cada uma ir para uma extremidade do acampamento. Carregavam cuidadosamente repisas de madeira com pequenas ânforas de vidro, que foram depositadas ao chão quando finalmente param de andar. Cada uma, inclusive Sin, derramou sobre a terra o líquido colorido de uma das ânforas e começaram a recitar palavras enquanto erguiam os braços aos céus. O ambiente foi se tornando mais elétrico, e com um estalar, um círculo de luz branca surgiu no chão. Esta luz se erguia cada vez mais até formar uma cúpula de energia e finalmente desaparecer. As mulheres partiam para outra posição e repetia o procedimento. A cor do líquido derramado e também da manifestação energética ia se alterando à cada vez. Depois da sexta vez, elas se juntaram e recolheram-se em um dos edifícios. Sin, que ficou para trás, vai ao encontro de Govannon.
— Desta vez vocês demoraram. — Diz Govannon à amiga, enquanto se sentava na já conhecida mesa improvisada. Ele pegou um cantil de dentro do casaco e serviu à velha uma bebida em um copo de beira quebrada.
— É... Os feitiços de proteção estão mais difíceis. Depois que os batedores começaram a rastrear magia, precisamos conjurar feitiços desorientadores também, o problema é que eles duram pouco.
— Como estão as meninas? – o homem deu um longo gole em seu cantil e fez cara feia.
— Estão bem. — Sin cheirou discretamente o liquido na caneca. Era grogue, a bebida dos piratas. Ela nunca apreciou a mistura e sempre recusava quando lhe era oferecido. Hoje ela beberia. — Como você acha que eles estão? — Perguntou, tentando mudar o assunto.
— Estão vivos, Sin. Quero dizer, eles são bons. Sulis, Bran e a Bodicie são os melhores lutadores que temos, eles estão acostumados. Estamos todos acostumados.
— Você acha que todos nós estamos prontos? Sei o que deve ser feito, mas... É que não me vejo como uma guerreira. Nunca me imaginei assim.
— Poucos de nós imaginaram-se em um guerra, mas aqui estamos... Quando eu era guri, passava muito tempo pensando em meu futuro, no que eu teria ou como estaria, a verdade é que eu tinha medo do futuro. Eu seguia a fórmula pronta que me venderam, achava que com ela teria um futuro feliz. — Ele bufa pelo nariz como se risse de sua ingenuidade, então continua. — Me diziam: estude, arranje um emprego, case e tenha filhos; como se tudo fosse simples assim, o mundo estava errado desde aquela época, Sin. Quando alguém fracassava, o erro era sempre da própria pessoa. A verdade é que esse mundo nunca nos deu oportunidades, sempre nos dominou. Agora vivemos nessa droga de vida, lutando para não morrer, para não sermos dominados mais uma vez. Nós sempre estivermos lutando, o fracassado do passado era o rebelde que somos hoje. Sempre foi uma batalha Sin, disfarçada ou não.
— Eu e a Sulis viemos de uma família mística. Mesmo antes do despertar, nossos ancestrais praticavam a Grande Arte. Desde muito cedo descobri meus dons, e queria usá-los para curar, para trazer harmonia.
— Você trás paz ao coração de nossas crianças. — Salientou o homem.
— Govannon... Antes da Sulis e os demais partirem eu recebi um sinal. — A velha levou a bebida aos lábios e virou-a de uma vez.
— Um sinal?
— Sim, eu vi um — — -
Em súbito uma explosão, os dois levantaram apressados e correram para fora. Varias pessoas assustadas saíram de suas acomodações para saber o que havia acontecido. Ouviam-se gritos e choro vindos da área leste do acampamento. Rebeldes armados corriam em direção à torre de fumaça no céu que denunciava fogo. De repente outra explosão. Sin caiu ajoelhada ao lado de Govannon; este que segurava o seu braço, a puxa pra cima tentando levanta-la.
— Sin? — O homem pergunta preocupado. A bruxa parecia aterrorizada.
— Govannon, quebraram o feitiço! Eles nos encontraram!
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