The Winter: walking into the past

1 Capítulo I: A fraqueza no outro lado do mundo


Notas iniciais
Houveram algumas mudanças. Aos que haviam lido, peço desculpas!

E.U.A

Virgínia — Alexandria

Minha casa

10:00 am – sexta-feira – 2020

Não, Khan! Você não pode! — O pastor alemão preto olha para mim e pesa a cabeça para o lado como se tivesse compreendido claramente minha repreensão.

Assim que me aconchego no sofá, ligo a televisão e verifico os canais torcendo para que tivesse pelo menos um filme bom passando por um deles, e bebo um pouco da minha fonte de energia — café fresco.

— Eh Khan, parece que não tem nada passando de bom... – comento para o meu cachorro que se aquietou no seu cantinho preferido, ao lado da estante de madeira — onde ficavam os meus livros e alguns materiais da época de faculdade — e em baixo do aquecedor, o mesmo que deixava o ambiente mais aconchegante e também o grande culpado de me impedir, algumas vezes, a abandonar minha querida preguiça.

Deixo em um canal qualquer na televisão e me viro para o celular que havia deixado ao meu lado, mas não tinha nenhuma notificação, então, retorno a minha atenção para a televisão bebendo mais um gole bem generoso do café, o qual minha língua e minha garganta aceitavam bem cada toque do líquido escuro, quente e feito na hora numa manhã gelada de outono na Virgínia.

Virgínia ou popularmente mais conhecida por aqui de Old Dominion, por causa do rei britânico Charlie II, ou também de Mother of the Presidents, em razão pelas quais oito presidentes norte-americanos nasceram e cresceram aqui; é famosa no outono com suas paisagens únicas e montanhosas. O estado ganha, cada vez mais, fãs que se encantam com os lindos cenários dignos de um filme de Hollywood nessa estação do ano. Alexandria, que é uma cidade independente do estado de Virgínia, conhecida como a mais romântica do país, é localizada a poucos minutos de Washington, DC, que junto com Maryland formam a Região da Capital dos Estados Unidos. Quando se visita a cidade, uma degustação de vinhos locais é obrigatória.

Começo a ficar entretida com a senhora na TV mostrando facilmente o manuseio com massa numa bancada suja de farinha. A moça tinha cabelos escuros e curtos, aparentava ter uns quarenta e poucos de idade. No rosto havia a companhia dos óculos com uma armação moderna e com curvas harmônicas ao tipo de rosto.

Levo a caneca, mais uma vez até os lábios, e bebo outro gole do café. Ainda entretida com o programa, escuto o meu celular vibrar. Olho automaticamente para a tela do aparelho e leio um nome que há muito tempo não o via.

Secretária Song Kyung-Mi

Um pouco surpresa, atendo.

— Senhorita Anna? — pergunta a pessoa do outro lado da linha com um leve sotaque. — Que bom que me atendeu! – disse ela demonstrando alívio em sua voz.

Eu não gosto muito de falar ao telefone. Geralmente desligo. Deve ser por isso, o último comentário vindo dela. — Senhorita Anna, me desculpe o incômodo. – diz a senhora do outro lado da linha.

— Não, tudo bem... – respondo. — Já faz um tempo que não nos falamos. Qual o motivo da ligação?

Estará desculpada dependendo do motivo de ter me ligado. — respondo em pensamentos.

— Bom... – uma pausa. – É para deixa-la ciente sobre um acontecimento. – completou a secretária.

— Okay. – afirmo, não dando muita abertura para uma conversa longa e desnecessária.

— É sobre o Presidente Park... — fico surpresa com a resposta e me mexo no sofá. — Parece que ele não está bem de saúde.

"Ele não está bem de saúde..." — a frase se repete em pensamento. Essa notícia me obrigava lembrar de um acontecimento triste vívido na infância. Quando se vive a morte de uma pessoa importante, pelo menos uma vez na vida, é como se qualquer outra pessoa do mesmo nível de significância não estivesse longe de tal acontecimento. É o ápice da realidade. — Como assim? O que aconteceu? – pergunto, pousando a caneca na mesinha de centro. Nesse mesmo momento, vejo, de canto de olho, que Khan, ainda no seu cantinho, levanta a cabeça pela minha agitação.

— Ele teve um ataque no coração. – a secretária Song responde.

Infarto no miocárdio? — penso.

— Foi recente. – complementa ela.

Paro por um momento – Recente... Quando recente? Você só me contata agora? – pergunto mostrando seriedade na voz, mas, com um tom baixo.

— Há quatro semanas... Peço desculpas! — responde a secretária. Meu coração acelera, as mãos começam a ficar úmidas pela tensão e o ambiente-quente-aconchegante da sala é desfavorecido pela conversa. Penso em várias possibilidades — Pode ter sido estresse, ou o colesterol deve estar acima do normal, ou pode ser... diabetes?

— Qual foi o diagnóstico? — pergunto respirando fundo, tentando-me acalmar.

— Foi estresse. – responde a mulher, do outro lado da linha.

Estresse... Será que as coisas da empresa não estão indo bem?

— O Pres. estava discutindo com a sua irmã, a Srta. Soo-Youn e... – complementa a Sra. Song, me afastando dos pensamentos.

— Soo-Youn? – interrompo-a mais uma vez. Levo as costas da mão até minha têmpora, para limpar o suor. – O que foi que ela fez? – pergunto em seguida.

— Bem... Ela agora passa algumas noites fora, tem saído com um cara estranho... – ela faz uma pausa. — As coisas aqui não estão muito boas. – conclui a Sra. Song.

Soo-Youn... Prometi a mim mesma que não moveria um dedo por ela.

— Srta. Anna. – chamou a secretária. – A senhorita poderia vim? Fazer uma visita para o presidente Park.

Fico em silêncio por alguns segundos. — Visita? — penso, não gostando muito da ideia.

— Srta. Anna, se me permitir o devido comentário... Acredito que a sua vinda fará bastante diferença para o presidente. — fico em silêncio. – A madame Park Hwa-Young está de viagem.

Park Hwa — Young...— a imagem da mulher de cabelos curtos, escuros e lisos, de olhos puxados típicos asiáticos, que fez da minha infância um inferno, passou por uma lembrança angustiante e de ódio pela minha cabeça. Era perceptível a minha relação complexa e descontente com aquela mulher.

— Srta. Anna... está aí? Alô? – escuto a secretária Song do outro lado da linha me chamando.

— Sim... estou aqui.

— Então, senhorita, o quê me diz? – pergunta a moça, esperançosa pela minha resposta.

— Bem... – respiro fundo. — Eu vou pensar direito. – respondo tentando demostrar confiança em minha voz.

O silêncio mais uma vez habita, só que não por muito tempo — Entendo... — escuto um suspiro na outra linha – Tudo bem então... Até mais, Srta. Anna. – respondeu, soando decepção, se despedindo.

— Até, secretária Song. – respondo a despedida e desligo a ligação. Com o celular ainda em mãos, olho à minha frente com o olhar preso e vago tentando absorver toda a conversar anterior. A responsabilidade como filha começa a pesar na consciência deixando meus ombros tensos. Meus olhos começam a se encher de lágrimas, criadas pelos pensamentos e lembranças de um passado agradável e sucinto.

Khan, que estava bebendo sua água no pote de alumínio, vem à minha direção e deita à minha frente pousando o seu focinho sobre suas patas frontais. Volto meu olhar a ele e faço um carinho no topo de sua cabeça — Eh amigão... – respiro. – O que eu faço agora? — deixo uma pausa no ar com a esperança de uma resposta vinda dele.

Penso um pouco mais na proposta da secretária Song Kyung-Mi. Só de pensar em voltar para Coréia, meu corpo responde com calafrios e um coração apertado.