Notas iniciais
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Eu estava num conflito comigo mesma, parte de mim queria salvar a vida da Jane a outra achava que ela nunca aceitaria isso e que eu deveria seguir em frente e uma terceira parte achava que eu deveria fazer tudo isso escondido, mas como fazer algo assim? Nenhuma das opções parecia racial.

Dr. Gomez pelo menos parecia apoiar a ideia de eu doar o rim para Jane. Eu não podia suportar a ideia de perdê-la, mas como convencer alguém a receber meu órgão se nem ao menos quer me ver?

Doía pensar que Jane preferia morrer ao aceitar minha doação, mesmo sem perguntá-la eu tinha certeza que tomaria essa decisão. Mal imaginava o rancor e ódio que tinha guardado de mim para fazer tudo que estava fazendo.

Nada que eu pensava parecia ser o suficiente para pedir seu perdão. Algumas vezes quase fui visitar Connor novamente, agradecer o endereço que tinha me dado e talvez perguntar sua opinião sobre a doação, mas ele acabaria contanto para Julie, e o mesmo ódio que existe em Jane está em Julie e ela estragaria com tudo.

Não tinha em quem confiar, eu não tinha mais ninguém, podia sentir tudo se afastando, podia sentir tudo se desfazendo entre meus dedos. Eu estava pagando pelos meus erros do pior jeito possível.

Mesmo eu não tento a certeza de nada fiz os testes de sangue para saber se poderia doar meu rim à Jane. Era uma ideia louca. Cada dia que se passava eu pensava em algo novo, um novo problema, um novo medo... Cheguei a hesitar por medo que eu não sobrevivesse a cirurgia ou após sem um rim.

Pelo menos uma vez por semana eu encontrava Dr. Gomez para saber como estavam as coisas com Jane, se ela estava bem e se o estado do câncer dela tinha piorado. Suas noticias eram sempre as mesmas. Ela estava fraca e a cada dia aguentaria menos.

Um pouco mais de um mês depois eu já havia posto toda minha vida de volta no lugar, principalmente meu trabalho. O resultado do exame já tinha saído, e eu poderia ajudar Jane, mas minha mente ainda não estava convencia que eu poderia fazer aquilo. Eu queria poder pedir à Jane, eu queria poder vê-la. Julie também não queria mais me ver. Eu havia perdido contato com todos incluindo Connor. A última vez que o vira foi quando me deu o endereço do hospital, além dos meus clientes e do Dr. Gomez eu não via mais ninguém.

Algumas vezes eu abria o diário de Jane e o lia, ficava lembrando dos nossos momentos e da primeira vez que a tinha visto.

— Jane perdeu totalmente o rim direito — disse Dr. Gomez na minha ultima visita — Ela aguentou um mês desde que começamos a conversar, e não acho que ela aguente outro mês apenas com metade de um rim. Eu entendo que você está em conflito, Marie. Eu tentei te dar todo o tempo que você precisava, mas eu acho que chegou a hora de se decidir. Eu não posso fazer mais nada para adiar seu sofrimento.

Enquanto me olhava sentado do outro lado da mesa, Dr. Gomez colocou um papel na mesa a minha frente. Era um documento, que permitia a doação. Já havia uma assinatura do Médico de um lado e uma linha vazia do outro, esperando minha assinatura.

— Aqui tem todas as condições e cuidados que devem ser tomados — continuou ele — Você deve estar ciente dos efeitos que isso pode causar e dos riscos. Leia com atenção e sei que você fará a coisa certa.

Concordei e levei os papeis para casa. Li provavelmente cinco vezes. E naquela mesma semana voltei ao seu escritório para devolver o documento junto com minha decisão, eu não estava pronta para dar nenhum passo, independente para que lado fosse, mas eu precisava agir. Precisava me decidir. E assim que o fiz, me senti muito bem, eu me senti satisfeita.

— Você tem certeza? — perguntou Dr. Gomez pela terceira vez no nosso encontro.

— Sim, eu tenho — concordei com a cabeça.

— Não se preocupe, vai ficar tudo bem. — garantiu — Ela vai ficar bem. Eu prometo.

Eu fiquei internada por um dia, no dia seguinte ocorreu a cirurgia e depois que sai do hospital, só recebi informações de Jane por e-mail pelo Dr. Gomez. Havia alguns e-mails dele em minha caixa, mas apenas li o primeiro, agradecendo por salvar a vida de Jane, e garantindo que a doação seria em anônimo e que não tinha o que me preocupar.

Não voltei mais para a cidade. Voltei a me focar no trabalho e assim como a caixa havia ficado por um ano escondida no meu armário ela ficou novamente. Todas nossas lembranças e o diário de Jane M. Summer ficaram no fundo do meu armário, onde eu não mexeria novamente.

Os meses foram passando assim como as memórias foram se esvaindo. Eu estava feliz por pensar que Jane não estaria em tanto perigo por minha causa. Às vezes eu parava pra pensar o que ela estaria fazendo aquele momento.

Ainda estaria no hospital?

Voltou a trabalhar?

Foi viajar e aproveitar a vida?

Será que ela teria voltado a namorar?

Minha necessidade de vê-la e pedir perdão haviam melhorado após a cirurgia, já tinha sentido que parte da minha divida havia sido paga. Eu estava aceitando a decisão de Jane de não me ver mais.

Quando tinha muito tempo livre eu assistia Friends ou qualquer filme que Jane amava, ficava relembrando dos velhos tempos, não como buracos em mim, mas sim como ótimas lembranças e que me fizeram muito bem enquanto duraram.

Os meses tornaram-se anos... E as coisas foram ficando cada vez mais distante. Confesso que havia certas esperanças de revê-la, de voltar tudo ao normal. A vida vai te ensinando que nada mais passa de esperanças, amor e fadas. Tudo começa a ser mais racional, ela não voltaria, a esse ponto Jane já poderia estar casando de novo. E se fosse para vê-la com outra, eu preferia não vê-la.

Toda vez no banho quando via minha cicatriz pensava em Jane, pensava que parte de mim sempre estaria com ela, mesmo que não soubesse. E parte dela sempre estaria comigo, não fisicamente.

...

Abril de 2036. Estavam se fazendo dois anos que havia encontrado o diário de Jane. Eu não estava trabalhando aquele dia, então tirei a tarde para ler o diário e mexer na caixa que havia guardado por tanto tempo.

Relembrei cada segundo nosso com todas aquelas lembranças, cada filme que vimos no cinema e guardamos os ingressos, seus comentários no final do filme, nossos encontros e comemorações em restaurantes estavam ali guardados, as passagens de nossas viagens juntas, os postais e fotos que tínhamos guardado. Lembrei-me de cada dia ao seu lado, cada sorriso que dei por sua causa, cada "Eu te amo".

Mais tarde no mesmo dia dei uma saída, iria jantar em seu restaurante favorito no centro da cidade. Coloquei nossa caixa no banco do carona e dirigi para o restaurante. No meio do caminho me distrai por alguns segundos olhando para a caixa, olhando as fotos que estavam por cima em destaque.

Um vulto passou na minha frente e me virei rápido, mas antes que eu pudesse perceber algo freei forte e bati em alguma coisa dando um tranco com o carro, meu pescoço ficou dolorido logo em seguida, a caixa estava caída no banco com tudo espalhado no chão. Sem me preocupar com as fotos sai do carro para ver o que havia acontecido.

Um cachorro da raça Beagle estava caído no chão de baixo do meu para-choque. Ele usava uma coleira vermelha e estava desacordado.

— Está tudo bem? — um homem desconhecido veio me ajudar com o cachorro.

— Eu estou bem, não o vi chegando... — disse ainda com a voz tremula.

— Ele veio correndo daquela direção — apontou — Foi muito repentino — acrescentou pegando o cachorro no colo.

— Conhece algum veterinário por perto? — perguntei. Fui até meu carro e abri a porta de trás para o homem colocar o Beagle no banco.

— Tem um a umas cinco quadras aqui à direita. Não é difícil de achar — respondeu o homem.

— Obrigada pela sua ajuda, vou levá-lo lá.

O homem concordou, desejou sorte e se retirou. Passei a mão no cachorro e para meu alivio ele ainda respirava, sua coleira vermelha tinha um pingente dourado pendurado em forma de osso e nela escrito seu nome.

"Dexter".

Um aperto tomou conta de meu peito, era um cão de raça e tinha nome, ele com certeza tinha uma família. Quase pude ver o rosto de uma menininha de dez anos triste por seu cachorrinho ter sido atropelado.

Mesmo com o medo pude dirigir até o hospital de cachorro mais próximo. Peguei Dexter no colo e o levei para dentro.

— Eu atropelei esse cachorro agora na rua — disse à recepcionista que no mesmo instante levantou-se e me ajudou a levar Dexter para uma sala mais ao fundo.

Deitamos o cachorro numa mesa alta e cumprida, a recepcionista deu uma olhada nele fez algumas perguntas de como e onde, perguntou sobre o dono e apenas contei o que eu sabia.

— A doutora já vem — garantiu a recepcionista voltando para seu balcão.

O pouco que eu conhecia sobre veterinária não permitiu que eu olhasse no pequeno Beagle, sua patinha parecia quebrada, mas não olhei nada, além disso. Era um cachorro bem cuidado então era uma pena pensar que ele teria fugido e sua família estava preocupada com ele. Assim que ele melhorasse eu iria atrás de seus donos.

Por fim chegou a veterinária na porta.

Minha respiração deveria ter ficado mais fraca do que a do cachorro, pois a veterinária que entro de jaleco na sala era Jane. Seus olhos encontraram o meu e seu corpo hesitou.

E eu nem cheguei a esperar essa.

— Marie... — sua voz saiu fraca e baixa, e como eu tinha sentido falta de sua voz.

Meus lábios quase se formaram num sorriso, mas não era o momento, faria parecer que eu tinha feito tudo aquilo de proposito.

Seu cabelo estava mais curto do que antes, só tinha cabelo o suficiente para cobrir um pouco de sua orelha e o alto da sua testa. Ele estava mais claro, quase loiro. Seu rosto estava bem, ela parecia bem. Não estava abatida nem com cara de quem acabara de se recuperar.

Fiquei extremamente feliz por ela estar trabalhando e seguindo a vida dela.

— E-Eu... — gaguejei e gesticulei para o cachorro — Eu o atropelei... Sem querer — acrescentei.

— Claro... — concordou Jane — Vamos dar uma olhada nele.

Enquanto ela o avaliava um tanto desconfortável eu fiquei no canto da sala apenas observando. Nenhuma das duas parecia à vontade perto uma da outra. Era como se não tivéssemos morados juntas durante tanto tempo.

Era como se fossemos outras pessoas.

Notas finais
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