The Way You Look Tonight

14 Quando o amor floresce


Notas iniciais
É um deleite ver esses dois pombinhos gradativamente se aproximando, não é? Então desejo que aproveitem, porque o jantar deles será um completo banquete ;) (Como eu consigo viver convivendo com esses meus trocadilhos horríveis? Realmente não faço ideia hahah)

Um dos fenômenos mais interessantes deste mundo é o quanto todo aquele discurso acerca do poder transformador do amor nos soa risível e clichê em infinitas circunstâncias, entretanto, quando finalmente somos inebriados por tal sentimento, nos enxergamos ali, sob uma nova ótica, prontos e mais do que dispostos a mudar e fazer tudo certo. O antigo Poseidon riria da minha cara, se considerando muito superior e correto, no direito de fazer o que bem entendesse pois, afinal, era seu o poder. Não é à toa que os deuses são imortais: precisamos de milênios para amadurecer...

Concentro-me em minhas ações ao ajeitar a gola da camisa diante do espelho e sinto-me um adolescente vestindo-se para seu primeiro encontro, todo consternado acerca de qual será a opinião dela sobre mim, se a roupa está boa o suficiente, se o cabelo não estará desarrumado demais e uma infinidade de coisas que fazem minha cabeça parecer que vai explodir. Encaro as capinhas de DVD que repousam sobre meu criado mudo e não me decidi ainda se elas soam mais como um ultimato, uma possibilidade ou um desafio, e só a ideia maluca de tentar algo e criar esperanças em relação à Atena, congelando até o último centímetro de minhas entranhas. Eu sou mesmo um acéfalo...

Balanço a cabeça e resolvo lidar com uma situação por vez, já que a iminência do jantar faz com que a divagação sobre os filmes se torne uma questão adiável. Respiro fundo e parto em direção do quarto de Atena e é curioso o quão pouco eu realizava este trajeto pelo Olimpo até pouco tempo atrás e agora já me soa tão comum, os pés conhecendo bem o caminho, como se fora habitual, como se fora simplesmente correto. Entretanto, lá estava eu, indeciso, estacado em frente à sua porta, mal podendo escolher entre manter ou tirar as mãos dos bolsos, mas enfim respirando fundo e decidindo-me por bater timidamente.

Ao me atender, Atena sustinha uma expressão leve e seu corpo todo assim o era, conforme fluíam seus movimentos. Ela era inteira uma ninfa, uma deusa, uma dama. Daquelas que transbordam os olhos de encanto e que mereceriam grandes obras de arte e esculturas, mas nem o mais hábil pintor seria capaz de fazer jus a delicadeza de sua pele ou ao espectro único de cores em seus cabelos.

Conduzi-a silenciosamente até a saleta onde tinha preparado a mesa no melhor estilo Dama e Vagabundo que pude (inspiração mais apropriada entre eu e ela, impossível). Bem no centro, uma cloche tirada não sei de onde, mantinha aquecida uma quiche de coloração dourada aparentando estar deliciosa, cortesia de Perséfone.

—Uau – espantou-se Atena ao se sentar diante de mim – O cheiro está maravilhoso! Devo confessar que esperava algo como nuggets ou batata frita, então definitivamente você me surpreendeu.

—Minha vez de confessar, então, que não sou o cozinheiro responsável – afirmei com certo riso na voz – Eu até tentaria fazer algo, mas com minhas habilidades limitadas você provavelmente interpretaria meu completo fracasso como uma tentativa de te matar.

Sua gargalhada era como a sensação do estourar de bolhas de champanhe no céu da boca: suave, embora inesquecível e, mesmo quando as risadas cessaram, ainda havia um resquício daquela alegria no canto de seus lábios.

—Agradeço pela consideração. É uma grande evolução considerando nosso histórico, não acha?

—Pois é! Não que eu não tenha ficado tentado a provocar aquele velho olhar de desaprovação que você tinha para todas as minhas ações, mas achei melhor não arriscar nossa recente parceria. Tá vendo só, uma semana na sua companhia e você já me transformou num chato!

Atena apenas balançou a cabeça e revirou os olhos diante de minha falsa exasperação, enquanto separava a espátula para cortar uma fatia da quiche.

—A aparência está ótima, mas é realmente seguro?

—Pode confiar. É obra da Perséfone e, não fosse sua doçura e beleza inegável, eu diria com certeza que Hades a sequestrou pelos dotes culinários.

Falar da minha sobrinha me fez recordar seu jeito tão particular de boa ouvinte, de mulher tão menina, que é rainha, mas não poupa esforços em ajudar sem pedir qualquer justificativa. Talvez justamente por ser assim, a antítese perfeita de meu irmão, sempre tão jovem, tão viva, que nem questionei quando, ao me entregar a bandeja ainda quente, Perséfone tenha somente me dirigido um profundo olhar logo antes de um tímido sorriso desabrochar em sua face, ela virar-se e ir embora. Em seu singelo silêncio, acho que, naquele momento, a deusa primaveril compreendia o mundo melhor do que qualquer um.

Chamado de volta para o presente, assisti, então, a deusa da sabedoria, como sempre, muito absorta em seus movimentos, servir um generoso pedaço a mim e depois a si mesma sem deixar cair uma migalha sequer e, os deuses que me perdoem, mas era quase sensual a maneira delicada com a qual ela soprava cada garfada antes de efetivamente leva-la à boca.

O jantar se estendeu por todo o tempo de cada uma das nuances lilases no céu serem substituídas por um azul cobalto muito vívido e, entre o dulçor das uvas no vinho em nossas taças e a enorme profusão de assuntos multiplicados em nossa conversa, jamais imaginei que uma única noite pudesse me fazer tão grato por, enfim, encontrar sentido em estar vivo.

Notas finais
Como diria aquela velha música, let's just kiss and say goodbye... ;) ♥