NOVA YORK, EUA — EMPIRE STATE BUILDING. 25 DE OUTUBRO DE 2071, 4:35PM.

Já faz exatamente sete meses que a guerra acabou. Meu país ainda está em ruínas, passamos por duas guerras mundiais em um curto período de tempo, perdemos as duas, para o Reino Unido. Maldito país! Muitos não acreditam nessa nossa rivalidade tão forte, até porquê no passado já fomos colônia deles.

A tensão começou quando os alemães se revoltaram depois que Ioan Lockington, um famoso advogado afro-americano que lutava em prol dos direitos humanos, tomou posse da presidência da Alemanha. Ioan era filho adotivo de Charles Berlepsch, seu antecessor, e herdou a presidência quando seu pai veio à falecer. Revoltados, os alemães organizaram uma violenta manifestação, assassinaram Ioan, colocaram outro líder no poder, e, com isso, atacaram países africanos e bairros afro-americanos nas nossas capitais. Meu pai, ainda presidente na época, não deixou barato e revidou, atacando a sede do governo alemão, e matando centenas de pessoas.

Enquanto isso, uma explosão em uma plataforma de petróleo de uma exportadora petrolífera americana em Liverpool, Reino Unido, matou dezenas de trabalhadores, deixando vazar milhares de litros de óleo no mar, e matando dezenas de espécies subaquáticas. Semanas depois, pessoas começaram a ser contaminadas por esse petróleo, por terem ingerido frutos do mar também contaminados. O resultado foi uma das maiores catástrofes ambientais da história do Reino Unido, e mais um inimigo para os Estados Unidos. Vários ataques foram acontecendo, até que, um ano depois, a Terceira Guerra Mundial foi iniciada; EUA, China, França, Arábia Saudita, Iraque e Síria de um lado; Reino Unido, Itália, Japão, Alemanha, Portugal e Canadá, do outro. Entretanto, o Círculo Europeu acabou se virando contra a Alemanha, depois que souberam da história macabra por trás do assassinato de Ioan Lockington, que, até então, os líderes do país esconderam do mundo, dizendo que ele havia se matado por conta da pressão de ser um presidente e da dor após a morte do pai. A Alemanha saiu completamente destruída e sem aliados.

A guerra acabou com a vitória do Círculo Europeu, e os EUA endividado e abalado, assim como seus aliados.

Nove anos depois, já no meu mandato, uma empresa multinacional de importação e exportação japonesa alegou termos atacado um de seus navios, causando uma leve revolta no governo japonês, que “contra-atacou”, sequestrando e assassinando minha irmã mais nova, que estava estudando no Japão. Não deixei barato e mandei minhas forças armadas atacarem a sede da tal empresa.

Algumas semanas depois, o filho mais velho de Ferdinando Montanari, até então ex-presidente da Itália, foi assassinado misteriosamente. O rapaz havia se tornado presidente há pouco tempo, e causou uma polêmica muito grande por ser o primeiro presidente homossexual da história. Um árabe e um americano foram presos, suspeitos do assassinato; receberam pena de morte, e sua execução foi transmitida em televisores do mundo inteiro, por uma emissora de televisão brasileira. Por conta disso, os árabes se revoltaram e atacaram a sede da emissora, metade dos soldados árabes morreram nesse ataque.

Para completar, espiões ingleses foram presos aqui; o governo inglês justificou dizendo que queria provar para o mundo o quão nosso governo era corrupto. Como resposta, mandei torturarem e executarem os dois, o que também foi transmitido mundialmente.

Isso tudo desencadeou a guerra mais sanguinária e devastadora de todas as guerras, a Quarta Guerra Mundial.

Nessa, o Brasil entrou como aliado da Itália e Reino Unido, México entrou como nosso aliado e Portugal mudou de lado, mas saiu junto com a França no meio da guerra, e acabou nos enfraquecendo. Reino Unido e seus aliados venceram novamente, o México agora não passa de um deserto radioativo e meu país foi jogado em um buraco que fica cada vez mais fundo.

Agora, o inglês é a língua global oficial, e a Europa é o centro da economia mundial. O Brasil, se tornou um dos países mais ricos e um forte aliado do Reino Unido.

Olho para a janela e só vejo tristeza; os japoneses destruíram quatro das nossas capitais com suas bombas. Estamos fracos e falidos, sem dinheiro para restaurar tudo, estou fazendo o possível, mas não me restou quase nada, a não ser ódio e sede de vingança.
— Sr. Mitchell, está atrasado para a reunião. — ouço a voz de minha secretária. Esqueci a droga da porta aberta de novo.
— Já estou indo, Lily.
— Estão te esperando, melhor se apressar.
— Acabei de dizer que já estou indo, não ouviu? Saia daqui. — respondi, grosseiramente.

Adentrei aquela sala de reuniões com uma cara melhor, sabendo que ali dentro seria planejado o regresso dos Estados Unidos à liderança na economia mundial.
— Boa tarde, meus amigos. Desculpem-me o pequeno atraso, estava organizando minhas idéias. — disse, me sentando na cadeira principal. — Pensei muito, cheguei na conclusão que devemos deixar a Europa fragilizada para conseguirmos destruí-la.
— De um jeito sorrateiro, mas devastador. — continuou Shen Yeung, presidente chinês.

A reunião durou o resto da tarde, colocamos no papel tudo o que podíamos fazer para tirar o poder deles, fiquei sabendo que temos o apoio de Portugal e da França, países europeus, mas que também têm uma certa rivalidade com seus países vizinhos. Vamos destruir o Reino Unido, o Japão e quem entrar no caminho.

Entrei no elevador e desci, querendo um fondue de queijo, um vinho, uma boa música e as bolhas da minha banheira de hidromassagem.
— Boa noite, Presidente. — disse meu motorista, quando entrei no carro.
— Boa noite, Andreas. — respondi.
— Vai voltar para Washington ainda hoje?
— Não, vou ficar por aqui mesmo, dirija até meu apartamento.
— É pra já. — Andreas estava com o rosto um pouco tampado pelo chapéu, achei estranho. Ele só usava o chapéu em ocasiões importantes.

O silêncio da cidade me fez cochilar. Acordei assustado, depois de um sonho rápido, e terrível. Andreas dirigia por um caminho completamente desconhecido.
— Tem certeza de que está no caminho certo?
— Caminho alternativo. Ou o senhor quer ficar horas preso em um engarrafamento?

"Relaxa, Oliver." Pensava comigo.

O celular toca, Wendy.

— Oi, amor, como foi a reunião? — disse ela, com sua voz sempre doce.
— Oi, meu anjo. Foi ótima, logo tudo vai se estabilizar.
— Que bom.
— E como está nossa Sky?
— Dormindo, sonhando com o papai.

Sorri.

— Também estou com saudades, mas não vou poder voltar para Washington ainda hoje, está tarde, e o tempo não está para vôos.
— Que pena, amor. O jantar está maravilhoso, as empregadas dessa Casa Branca estão me deixando mal acostumada.
— Que continue assim, quero que você e Sky tenham a melhor vida possível, mesmo com esse período difícil que estamos enfrentando.
— Posso te pedir um favor? Só...não quero mais ter babás. Quero poder cuidar da nossa filha, quero ser uma mãe de verdade.
— Tudo bem, amor. Como quiser.
— Vou desligar, Sky acabou de acordar chorando, deve estar com fome.
— Dê um beijo nela por mim, amo vocês duas.
— Também te amamos, muito.

Desliguei e guardei o celular no bolso de dentro do paletó.

Olhei para o retrovisor, e Andreas estava me olhando, com um olhar fechado. Aquele não era Andreas, e um gelo correu pela minha espinha quando percebi isso.

Ele parou o carro na beira de uma autoestrada, virou-se, tirou o chapéu de motorista e apontou uma arma para mim.
— Desça do carro.

Engoli a seco e obedeci, ele me virou de costas, e senti uma pancada em minha nuca. Zonzo, a última coisa que vi foi o porta-malas do carro sendo fechado.
— Não precisava ter sido tão radical, era só pra trazê-lo até aqui, não queremos inimizade, seu idiota!
— E vocês, por um acaso, me disseram isso? Só me disseram para trazê-lo, não COMO trazê-lo.
— Ele está acordando, cale a boca. — sussurravam dois rapazes com coletes de couro enquanto eu acordava.
— O-o que v-vocês querem de mim?
— Oliver Mitchell, que prazer conhecê-lo. — um homem mais velho que os dois outros rapazes entrou na sala. Do jeito que os dois abaixaram as cabeças e saíram, presumi que era o chefe deles.

Minhas vistas desembaralharam, então consegui reconhecê-lo. Tony DiMarco, chefe da Hell Angels, máfia mais perigosa e poderosa do mundo.
— Não precisa se apresentar, já sei quem é você, só me diga o que querem de mim.
— Digamos que estou por dentro de seus planos, presidente, e quero me juntar à você.
— O que tem para me oferecer?
— Um “exército”, e armamento o suficiente para destruir a Europa inteira.
— E qual o motivo que está te levando a querer se juntar à mim?
— Briga de família. Algumas desavenças minhas com a família Montanari precisam ser resolvidas.

A proposta de DiMarco não era nem um pouco recusável. Ter um exército à minha disposição o tempo todo era indispensável.
— Está dentro. Só não queira tentar me passar a perna, você não sabe do que sou capaz.

Ele não respondeu, só deu um sorriso de lado e apertou minha mão.

— Agora, se não for incômodo, quero pedir que me levem para casa, e que devolvam meu motorista.
— Providenciaremos outro motorista para o senhor, presidente. — disse um dos capangas de DiMarco.
— Tanto faz, só quero minha hidromassagem. Essa, provavelmente, será a minha última noite de descanso.