The War Inside Us
2 Há sempre uma saída?
Roma, Itália — Scuola Internazionale Del Vaticano. Quinta-feira, 8 De Junho De 2095, 10:00am.
Os pingos de chuva batiam na janela. Lá fora, a neblina cobria a cidade. Mesmo assim, homens de terno andavam rápido protegendo-se da chuva com suas pastas executivas, carros circulavam por todos os lados...tudo parecia ter se normalizado.
Ataques terroristas estavam cada vez mais constantes aqui na Europa. E as pessoas, perdendo cada vez mais e mais sua liberdade de viver. Eu era uma delas. Nos últimos dois anos, minha vida tinha se resumido em estudar e frequentar reuniões e entrevistas chatas sobre economia, qualidade de vida, educação e relações internacionais. A superproteção de meu pai me impedia de fazer qualquer outra coisa, a não ser fugir de moto para o litoral; eu sempre ficava de castigo quando voltava para casa.
— Sr. Montanari! — assustei-me com o grito do professor de geografia — Pode responder minha pergunta para a sala?
— Q-qual pergunta?
— Já que lá fora está tão interessante, por quê não vai dar uma volta, e já passa na sala do diretor?
Me irritei, dando um soco na mesa, e saí da sala, meu estresse já tinha chegado no limite.
— Acabei de receber o relatório da sua falta de educação perante o professor. O que está acontecendo, Victor? Você sempre foi um aluno exemplar.— disse sr. Ledwidge, o diretor, enquanto eu me sentava na poltrona que ficava em frente à sua mesa.
— Não consigo me concentrar em nada mais, diretor. Minha vida é muito estressante, ser filho de presidente é a pior coisa do mundo.
— Eu entendo como está se sentindo, sou filho de militar. Você tem que entender, tenho certeza de que seu pai não deixa você “preso” assim porque gosta, ele te ama, e só quer o seu bem.
— Eu sei disso, mas eu não nasci pra ficar trancado, vivendo entre colégio e reuniões sobre assuntos entediantes. Eu, como qualquer pessoa da minha idade, quero ser livre!
— Victor, olhe bem para a situação em que estamos atualmente...liberdade é a última coisa que as pessoas querem agora.
Abaixei a cabeça. Não queria admitir, mas sr. Ledwidge tinha razão, liberdade não era mais cabível às pessoas.
— Quer voltar para a sala?
— Não, aquele professor nanico só piora meu stress.
— Concordo com você, ele é bem difícil de lidar. — disse o diretor, me fazendo dar risada. Sr. Ledwidge era padre, e era diferente de qualquer outro diretor que aquele colégio já havia tido. Ele era brincalhão, atencioso e justo. E dizia que eu, entre tantos alunos do colégio, era o preferido dele.
Desci as escadas, que davam para o pátio. O céu cinza de neblina me acalmou.
— O que faz sozinho por aqui, irmão? — era Mason, se sentando ao meu lado no banco.
— Não consegui aguentar aquele professor de geografia. E você? Não deveria estar na aula de robótica?
— Sim, mas pedi pra ir ao banheiro e não voltarei tão cedo. Aquela aula ‘tava me dando náuseas de tão entediante.
Levantamos e fomos andar pelo colégio. O prédio era enorme, e misturava a arquitetura do império romano à arquitetura moderna, e tinha o nome de minha mãe assinado em seu projeto.
Um homem muito estranho esbarrou-se comigo e Mason; ele estava com uma expressão medonha no olhar, andava observando as pinturas das paredes e usava um sobretudo preto que ia até os pés, e um coturno.
Eu e Mason nos entreolhamos e aceleramos o passo, com intenção de ir avisar ao diretor sobre aquela figura estranha que estava perambulando pelo colégio.
— Victor, se abaixa! — berrou Mason, antes de uma explosão nos arremessar pra frente.
Levantamos zonzos e surdos com o barulho da explosão, e nos escondemos na sala de materiais de faxina que ficava escondida abaixo da escadaria principal. O barulho de tiros, gritos e explosões que foi se estendendo pelo prédio era aterrorizante.
Os tiros pararam, e entre os gritos de desespero no andar de cima, ouvia-se o barulho do atrito da sola do coturno com o chão, parecia que o homem estava andando pelo corredor, observando, procurando.
Mason se encolheu em um canto; tremia e suava, tampando a própria boca para não fazer qualquer ruído, pois, por mais baixo que fosse o ruído, nos custaria a vida.
Eu também tremia e suava frio, olhando pela fresta da porta entreaberta e rezando para aquele homem de sobretudo não notar nossa presença.
Uma explosão no andar de cima chamou a atenção do homem, fazendo-o subir as escadas.
Saímos da sala, e tiramos os sapatos para não fazermos barulho. Fomos em direção à sala do sr. Ledwidge e o encontramos caído no chão, com três buracos de bala no peito e sussurrando sua última oração, segurando um crucifixo prateado em sua mão ensanguentada.
Outra explosão, dessa vez no terceiro andar.
— Brad. — sussurrou Mason, olhando para cima.
— Temos que pegá-lo.
— Não, Victor, é muito arriscado.
— Mason, é o seu irmão. Ele pode estar em apuros. Vamos pegá-lo.
Subimos pela escada de emergência, que ficava atrás de uma porta à frente da sala do diretor.
Vidros estilhaçados, buracos de bala por todos os lados, corpos...aquilo tudo parecia um pesadelo. Ouvimos um choro baixinho em meio ao silêncio mortal daquele lugar, e era Brad, escondido abaixo da mesa da professora. Ele estava pálido, e seu nariz sangrava.
— Bradley, graças a Deus te encontramos. — Mason abraçou-o forte. — você não está bem, te feriram?
— N...não. — disse o garoto, quase sem forças para responder.
— Temos que ir antes que ele volte. — eu disse, antes de Mason pegar seu irmão caçula no colo e sairmos correndo.
De repente, barulho de sirenes e helicópteros cercaram o prédio do colégio. Por uma das janelas enormes do terceiro andar, vimos policiais armados e protegidos até os dentes meterem os pés nas portas da entrada principal; com suas armas apontadas para frente, e seus sentidos em alerta.
Em segundos, três policiais chegaram no terceiro andar. O do meio apontou seu rifle para minha cabeça.
— Não, idiota! São alunos, e um deles é filho do presidente. Se matá-lo, pode dar adeus à sua cabeça. — disse o policial que estava à direita, batendo a mão em sua arma.
Chegaram mais perto.
— Perdoe-o, sr. Montanari. Ele não é daqui da Itália, e ainda está em treinamento. — disse o sargento.
— Sem problemas, só nos tire daqui. — respondi, com uma expressão rígida.
— Os outros sobreviventes provavelmente estão no abrigo, no porão do prédio. Vão vocês dois, eu cuido dos três aqui. E estejam sempre alerta. — ordenou o sargento. Seu uniforme estampava, no lado esquerdo do peito, o sobrenome Vicenza.
Descemos as escadas, protegidos pelos 1,90m do sargento, que andava logo atrás de mim, Mason e Bradley.
Enquanto descíamos rapidamente as escadas, Brad tossiu, e uma mancha de sangue surgiu em sua mão. Senti um aperto no coração, meu amor por aquele garotinho extrovertido era muito grande, e não suportaria se alguma coisa ruim acontecesse com ele.
Chegando à entrada principal, o homem vestido de sobretudo apareceu. Pegou Brad pelo pescoço e encostou o cano de sua arma nos cabelos cor de mel do garoto, que arregalou os olhos, tomado pelo pânico de estar à beira da morte.
— Estou aqui à procura de Victor Montanari. E é melhor que ele apareça, ou os funcionários desse colégio terão um bom trabalho para limpar os miolos desse garoto espalhados pelo chão.
Minhas pernas bambearam. Hesitei um pouco, mas eu não podia deixar a vida de Brad nas mãos daquele assassino nojento. Retomei minha coragem, e saí de um dos furgões das Forças Armadas, que estava estacionado em meio àquela bagunça de policiais, curiosos e imprensa na portaria do colégio.
— Estou aqui. Deixe-o em paz. — eu disse, surgindo por entre as armas apontadas para eles.
Brad correu quando foi solto, e o cano gelado da arma sendo encostado na parte de trás de minha cabeça me fez engolir a seco.
— Austin Montanari. quero ele aqui, agora. E é melhor vocês não tentarem atirar em mim, esse garoto bonito aqui dará um belo escudo. — deu dois tapinhas nas minhas costas.
Depois de alguns agonizantes minutos, que mais pareceram horas, meu pai chegou.
— Deixe meu filho ir, é a mim que você quer. — disse meu pai, aproximando-se.
— Não. Quero vocês dois. — disse o homem, friamente.
— Deixe-o ir. — repetiu meu pai, com sua postura de líder.
— Só quando tiver sua cabeça servida em uma bandeja.
— Agora. — meu pai chegou mais perto, e pude ouvir aquele pequeno estalo na arma, que me fez estremesser completamente.
— Mais um passo, e…
— ...os miolos dele serão espalhados pelo chão. Isso não me assusta, é previsível demais, e clichê demais. Tente algo mais intimidador da próxima vez.
Eu senti o homem pôr o dedo no gatilho, e fechei os olhos. O barulho do tiro me deixou surdo, e fiquei esperando sentir a bala rasgando minha massa cinzenta.
Ao invés disso, o corpo do homem foi arremessado para trás, com um tiro certeiro bem no meio da testa.
Minhas pernas, já bambas de medo, me fizeram cair de joelhos. Perdi meus sentidos por um instante, mas recuperei-me, quase rapidamente.
— ‘Tá tudo bem com você, filho?
— Agora, sim. Só preciso de ar. — arranquei a gravata e desabotoei a camisa. Sempre achei totalmente desnecessário um uniforme escolar tão fresco quanto aquele.
Me sentei no banco de trás do carro, precisava recuperar o fôlego e absorver tudo o que tinha acontecido nas últimas duas horas. Os gritos das pessoas, os tiros, sr. Ledwidge estirado no chão com buracos de bala no peito...tudo aquilo não saía da minha cabeça. Quem era aquele homem? Por quê havia feito aquilo? O que queria comigo e meu pai? Se era só com nós dois, por quê ele fez uma chacina, destruindo o colégio e matando dezenas de pessoas inocentes? Essas perguntas ecoavam na minha mente, todas sem resposta.
Ao meu lado, havia uma pasta preta. Um aviso “documento do governo, ultra confidencial.” a estampava na frente. Dentro dela, um microchip."Uma pasta pra guardar um microchip? Acho que esqueceram que estamos em 2095." Pensei.
Hesitei muito em guardar o microchip para ver o que continha lá dentro de tão “confidencial”, mas fiquei tão curioso que decidi checar ali dentro do carro mesmo, enquanto meu pai dava entrevistas à imprensa.
Inseri o microchip no meu smartphone, que projetou uma tela maior, e começou a ler os arquivos.
Gênesis, era o título do arquivo. O nome bíblico fez subir-me um arrepio inexplicável.
No arquivo continha um relatório da Organização Científica Mundial (OCM), com fotos de pessoas com feridas horríveis espalhadas pelo corpo, vídeos gravados por câmeras de segurança de pessoas com essas feridas se debatendo e berrando monstruosamente em macas de hospital; e todas elas sangravam pelos olhos. Abaixo, continha um texto dizendo que as pesquisas para a cura do vírus estavam de mal a pior, e que uma convenção seria organizada no Brasil para que discutissem sobre o problema.
Com meus olhos vidrados na tela, não consegui ver quando meu pai se aproximava do carro.
— O que está fazendo? — perguntou ele, me assustando. Travei quando o vi.
— Victor, o que eu te disse sobre se envolver com assuntos governamentais?
— E-eu…Pai, é que...
— Não se justifique. Como posso saber se posso confiar em você?
Abaixei a cabeça e não respondi.
— Fredo, leve-nos para casa. — disse ele, ao motorista.
— Sim, senhor.
Tirei o microchip do smartphone e devolvi a ele.
— Sua curiosidade...é o que sempre te traz mais problemas. — disse meu pai, depois de guardar o microchip na pasta novamente.
Cheguei em casa. Minha mãe andava pela sala, ansiosa, quando entrei. Talvez estivesse esperando por novas notícias.
— Filho! Graças aos céus, fiquei muito assustada quando vi as notícias. — disse, me abraçando forte.
— Estou bem, mãe. Foi só um susto, não se preocupe. Agora preciso descansar, obviamente não foi um dia bom. — disse, dando um beijo em sua testa, franzida pela preocupação, e subi as escadas, sem coragem de olhar nos olhos de meu pai.
Tranquei a porta do quarto e me joguei na cama.
— Tocar música.
—Abrindo playlist.
Ao som de The Beatles, afundei minha cabeça no travesseiro. Queria me convencer de que aquele dia tinha sido meramente um sonho.
Batidas na porta do quarto misturadas ao som da guitarra de Jimi Hendrix me acordaram.Desliguei a música e atendi a porta.
— Preciso falar com você, filho.
— Sinceramente, pai, eu não preciso de mais broncas.
Fui fechando a porta, e ele a segurou com a mão.
— Não vou te dar bronca alguma, filho. Só quero conversar.
Deixei-o entrar e me sentei na cama.
— Sobre o que você viu…
— Por quê estava escondendo isso de todo mundo? — perguntei friamente, interrompendo-o.
— Questão de segurança, filho. Quero que estudem uma cura antes de divulgá-la para a população. Para que, quando divulgar, já passe a segurança para o povo de que há uma cura. Mas, como você viu, as pesquisas estão indo de mal a pior.
— Pai, as pessoas estão ficando doentes, e estão sendo internadas sem saber o que têm! Nem os médicos sabem! Como vão ser tratadas?
— Eu sei! Eu sei. E pela primeira vez, eu não sei o que fazer. Todas as soluções que encontro parecem piorar o problema.
Ele passou a mão nos cabelos levemente grisalhos, e abaixou a cabeça. Não tinha ido conversar para “resolver a situação” entre nós dois, ele tinha ido até lá para desabafar comigo. Me senti honrado.
Cheguei mais perto dele, e coloquei a mão em seu ombro.
— Pai, se tem uma coisa que você me ensinou, é que há sempre uma saída. E vamos encontrá-la juntos.
Ele ficou calado por um instante.
— Eu sempre te protegi do mundo. Sempre achei que poderia te privar disso tudo, filho.Nunca quis que você sofresse tudo o que sofri quando tinha sua idade. Mas eu errei. Está na hora de você conhecer a vida como ela é, pois foi isso que me fez ser o homem que sou hoje. Victor, eu não vou mais te proteger como protegia, você agora é livre.
As palavras de meu pai fizeram descer lágrimas por meu rosto. Como fui tão idiota de achar tão ruim que meu pai me protegesse? Ele só queria que eu não sofresse o que ele sofreu. Mas, enfim, eu poderia fazer o que sempre quis fazer: enxergar a vida além das janelas de meu quarto.
Meu pai deu-me um beijo na testa, como sempre fez, e fechou a porta. Deitei a cabeça no travesseiro, olhando para o teto. Eu queria apagar aquele dia da minha mente, mas tinha certeza que tinha sido o último dia “normal” da minha vida.
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