Notas iniciais
No capítulo anterior: Os colonos da escola e o grupo de Hugo unem forças para enfrentarem o inimigo, algo muito pior que os mortos.

Junior passa a maior parte da manhã sentado no chão do ônibus, tomando comprimidos para dor de cabeça, fazendo inventário de tudo aquilo que conseguiram roubar. A luz quente do novo dia se infiltra nas janelas, provocando-lhe uma enxaqueca irritante, mas ele ignora as dores, suspirando com o ódio que circula suas veias como sangue.

Depois de uma noite em claro trocando tiros com militares, Junior está cansado, usando as últimas energias que lhe restaram para se concentrar em fazer o inventário. Sua mente pesa, como se seu cérebro estivesse adormecido, mas as imagens que presenciara durante a noite passada ainda cintilam por trás de seus olhos. Como o tiroteio na garagem que resultou em dois colonos mortos, ou o momento em que o motorista do ônibus decide jogá-lo contra o portão ou o tanque EE-T1 Osório destruindo uma das muralhas. Tudo isso faz Junior querer ainda mais uma cama, e uma boa noite de sono.

Todos os itens dos fugitivos estão dispostos em fileiras organizadas em frente a Junior. Ele vê algumas pilhas de enlatados, sacos de dormir, madeiras, uma bússola rachada, papel higiênico, sabão em pó, algumas panelas arranhadas, dois botijões de gás, pás, uma caixa de ferramentas da garagem, uma cesta com tomates e cenouras recém-colhidas e um engradado de refrigerantes. É muito pouco, ele sabe, ainda faltam água e comida suficiente para todos ali, mas é, de longe, a maior quantia de suprimentos que ele já teve desde o início da praga.

A tosse de Hugo anuncia a chegada do garoto.

– Ainda precisamos de muito! – comenta ele, sentando ao lado de Junior no chão do ônibus escolar – Deixamos um carrinho de supermercado lotado de itens na cantina, desculpa!

– Deve ter tido seus motivos – diz Junior, empilhando algumas latas em conserva – Aliás, nem precisamos de muito! Se racionalizarmos direito, dá para durar uma semana ou duas!

Hugo abre uma lata de coca-cola, toma um gole e oferece a Junior.

– E as nossas armas?! – pergunta Junior, aceitando a lata – Quanto temos de munição?!

– Vejamos... – diz ele, abrindo uma mochila ao seu lado – Temos muitas caixas de bala, umas cinco pistolas, silenciadores diversos, cartuchos para metralhadoras, um facão, três facas de lâmina curta – Ele fecha o zíper da mochila, mas continua contando – Além disso, umas cinco granadas, quatro metralhadoras, dois rifles, a espingarda do Amadeu, nossas pistolas, o rifle novo da Alice e a lança do André.

O motorista do ônibus, um professor de matemática na casa dos cinquenta, chama o nome de Hugo. O garoto termina o último gole da lata e se levanta. Enquanto isso, Junior aproveita para lançar um olhar ao seu redor.

Uma garota, entre os 16 e 17 anos, está sentada logo atrás dele, chorando descaradamente no ombro da melhor amiga. Segundo Gabriel, Albert havia atirado em seu namorado, a poucos metros de distância do ônibus. Perto delas, Alice e Clara continuam a jogar uma tediosa partida de xadrez, enquanto Elizabeth e Amadeu sussurram as regras. Gabriel e Bernardo estão logo depois, ambos num sono profundo e, ao redor deles, os colonos restantes da escola/reino olham apreensivos para a janela. Entre eles, Junior consegue reconhecer Sarah, o doutor que ajudou Gabriel, um jovem guarda das muralhas, e uma mulher, entre os quarenta e os cinquenta anos, ainda usando o avental de cozinha por cima do vestido havaiano desbotado, ressonando tranquila entre o marido e o filho pequeno.

E, além deles, há André. Carrancudo e silencioso desde a fuga.

– Noite difícil, hein?! – diz Junior, após guardar os suprimentos nas mochilas disponíveis.

André lança um olhar penetrante e volta a se fixar no cabo da lança.

– Você não entenderia.

– Tente!

André demora um tempo, abrindo e fechando a boca, como se estivesse decidindo as melhores palavras para usar.

– Sabe, é que eu passei um ano inteiro da minha vida dentro daquelas muralhas – diz ele, por fim – É estranho sair de lá, sabendo que nunca voltarei a ver aqueles corredores.

Junior consegue compreendê-lo. A sensação de perder seu ponto fixo, de vazio, é exatamente igual ao que sentira ao sair do shopping Iguatemi.

– Passei o mesmo que você – conta Junior – Quando retornei ao Copacabana Palace e não vi ninguém, senti um...

– Peraí! Vocês moraram no Copacabana Palace?! Aquele hotel super famoso e caro!

– Longa história...

Hugo termina sua conversa com o motorista e se acomoda num banco próximo aos dois.

– Preciso lhe contar uma coisa, cara – diz ele para Junior – Algo que vai mudar tudo!

Junior troca olhares com André, apreensivo.

– Conta logo então, porra!

– Meu machado! Eu o vi na cintura do Albert, um pouco antes do tiroteio!

Junior franze as sobrancelhas.

– E isso significa?!

– Significa que Albert estava presente no Iguatemi! Lembro-me dele nas arquibancadas durante a morte do Bruno. Ele deve ter roubado o machado de Zeus antes de invadirmos o local. E, além disso, ele e aquele careca que estava com você foram responsáveis pela queda da ponte Rio — Niterói!

André entra na conversa.

– Isso nos já sabíamos! – diz ele – O governador Silva, ou aquele careca, adorava se gabar por ter feito aquilo. Segundo ele dizia, foi um gesto de proteção, manter a “melhor cidade do Brasil” livre da praga que se expandia ao redor. Além disso, não fomos devidamente apresentados, eu sou André!

André e Hugo apertam as mãos. Isso traz a Junior a lembrança de algo que precisa ser discutido, seriamente.

– Seu apelido é Ned?!

– Foi meu pai que me deu – responde André, lançando um olhar para os pés – O nome dele é Eduardo, por isso fiquei conhecido como “Pequeno Ned”.

Junior sente um aperto no coração. Por um momento, ele recorda do homem na clínica, usando seus últimos momentos para pedir proteção ao seu Ned. O garoto agora sabe, com uma única onda de tristeza, o que realmente aconteceu com o pai de André.

– Olha cara, eu...

O silêncio recai sobre os três à medida que o ônibus sobe o acesso ao viaduto. Uma enorme “cidade de tendas” se espalha silenciosamente pelas quatro pistas, dezenas de ambulâncias e viaturas intercalam o pouco espaço com barracas médicas e caminhões militares. E, além disso, há uma massa compulsiva de mortos. Meia centena de cadáveres reanimados vagueia pelo campo médico com o habitual passo espasmódico, a maioria veste jalecos médicos e fardas militares, como se os antigos médicos e soldados daquele lugar nunca tivessem saído do viaduto.

– Não há como passar – informa o professor de matemática, apertando forte o volante – Há muito deles.

Hugo corre até o fundo do ônibus e retorna trazendo as duas mochilas com todo armamento do grupo. Junior compreende instantaneamente e já leva a mão ao cós da calça. Uma mudança drástica se passa entre os passageiros. As conversas se silenciam, substituídas pela calmaria de uma tropa organizada. Aquelas pessoas sabem o que fazer e o que vem a seguir.

– Os que sabem lutar, venham comigo – diz Hugo calmamente, distribuindo as armas – Poupem as balas, temos poucas!

As portas do ônibus se abrem com o rangido habitual de borracha. Junior salta para a manhã armado apenas com sua pistola e o facão no cinto, pronto para a violência controlada. As pessoas de seu grupo se espalham ao redor dos cadáveres, como se atuassem um verdadeiro plano de combate. Armas são carregadas e facas são desembainhadas. A concentração varre as vozes para longe, como se o mundo inteiro estivesse se concentrando.

O primeiro tiro de Junior explode o coro cabeludo de uma idosa cadavérica. Ele sabe que é melhor poupar balas, mas a adrenalina se apossa de seu corpo. Ele gira o corpo em direção ao próximo, retirando a facão do cinto e cravado-lhe na testa de um médico em decomposição. Sangue e fluido escorrem pela mão de Junior enquanto ele retira a lâmina e corre em direção a um soldado carcomido. Ele dispara com a pistola novamente, lançando um mordedor adolescente para fora do viaduto. O asfalto aos seus pés se enche de corpos e sangue à medida que Junior avança, massacrando todos os cadáveres ao seu redor.

Ao mesmo tempo, outros sobreviventes se espalham pelas pistas do viaduto. Na extremidade mais distante das tendas, Hugo espreme a cabeça de uma senhora, pisando no crânio com força. Atrás da fileira de ambulâncias, Clara derruba mais dois mordedores, batendo um contra o outro e atirando ambos para fora do viaduto. A dez metros de distância, André e Sarah disputam um pequeno torneio, contando suas mortes em voz alta. Numa outra ponta, Gabriel fecha a porta de uma viatura contra o crânio de um policial, explodindo sua cabeça e manchando toda a lataria.

Junior se aproxima do último cadáver. A mulher estala os dentes podres e avança em passos lentos. Bile e baba preta escorrem de sua boca. Os olhos esbranquiçados se fixam nos azuis do menino. Um gemido de fome escapa por entre os lábios rachados do cadáver, enquanto ela estende os braços mordidos para o tecido humano que se aproxima.

O barulho de seu crânio rachando e quase como um bloco de gelo se partindo.

O ataque – agora reduzido a apenas corpos espalhados – dura apenas dois minutos.

– Essa foi rápida, hein! – diz Sarah, apoiando-se na mureta do viaduto – Como foi para vocês?

Junior considera realmente falar a verdade. Suas mãos doem, sua cabeça está ardendo de dor e ele fede a sangue. Ele odeia fazer aquilo. Pode parecer legal, sair por aí matando cadáveres reanimados num frenesi louco como os filmes americanos, mas a verdade é que tudo é bem chato. No final, você tem calos nos dedos e sangue por toda a parte.

– Clara e Junior! – chama Hugo, comportando-se como o líder – Vocês dois, verifiquem as barracas e os veículos, quero tudo o que pudermos coletar dentro daquele ônibus. André, você faz a guarda. Sarah, verifique os outros.

Os quatro se espalham em direção as suas determinadas funções. Junior acha muito irritante alguém gritando ordens, mas compreende que precisa ser feito. E Hugo nem sempre é assim, mandão. Parece que há duas versões dele. O amigo de Junior, aquele que sobreviveu tudo aquilo, e Hugo, o líder.

Ele começa a vasculhar as barracas mais próximas, e o destino parece jogar a seu favor. Dentro de uma, Junior consegue o remédio para sua enxaqueca, caixas de primeiros-socorros e uma cesta repleta de latas em conserva. Tudo aquilo ali parece uma base feita especialmente para resistir à praga, com medicamentos e comida. Hugo ajuda-o a recolher os pertences e colocá-los em segurança no interior do ônibus, enquanto Clara vasculha os caminhões militares e retorna com sacolas repletas de armas.

– Maninha, você conseguiu – diz Junior, sorrindo – Vai fazer um estrago daqueles!

Clara sorri. A primeira vez que sorri em dias.

Pela a segunda vez naquele dia, um alerta termina as conversas do grupo. André solta um berro, — “Veículos a vista!” – espalhando o grupo em várias direções. Clara corre em direção ao ônibus enquanto Hugo e Junior se colocam atrás de uma viatura, com as armas em mãos.

– Talvez sejam pacíficos – murmura Junior – Talvez precisem de ajuda!

– Talvez, mas...

Uma chuva de tiros interrompe os dois. As janelas do ônibus são quebradas e os carros ao redor são preenchidos com buracos de bala. A mulher de avental solta um grito e seu filho pequeno começa a chorar. Hugo tenta se aproximar do ônibus, mas o atirador misterioso nota a presença dos dois e começa a disparar contra a viatura.

– Militares! – grita a voz de André – Eles nos seguiram!

Hugo solta um urro de raiva e começa a remexer na mochila de armas.

– Os desgraçados nos seguiram... – grita Junior – Albert deve ser realmente um cara osso duro!

Hugo arranca uma pequena cápsula oval da mochila.

– Ele é – diz ele, retirando o pino – Mas nós somos mais!

A granada e lançada por cima do ônibus, transformando-se em um único ponto preto no céu claro. Junior e Hugo contam silenciosamente os segundos. Os tiros cessam e uma voz masculina grita por cuidado, mas e tarde demais.

A explosão sacode o viaduto, quebrando janelas e chamando a atenção dos mordedores próximos. Junior fica surdo, mas ele começa a correr em direção ao ônibus assim que os tiros inimigos cessam. Lá ao longe, num dos acessos ao viaduto, ele consegue visualizar um enorme caminhão de carga em movimento.

– Anda, anda, anda! – grita Hugo ao entrar no ônibus – Eles estão nos seguindo!

O motorista pisa com força no acelerador, arrancando com o ônibus escolar e jogando os passageiros para trás. Junior se segura nas paredes por um triz, enquanto André tomba com força no chão sujo. O ônibus avança em alta velocidade para o acampamento médico, atropelando tendas e destruindo macas. O caminhão de carga se aproxima, se chocando contra o ônibus de propósito. Os tiros retornam, atingindo as janelas e provocando gritos.

– O quê eu faço?! O quê eu faço?! – grita o professor de matemática, pisando mais forte no acelerador.

– Dirija em ziguezague! – grita Junior, caindo num dos bancos.

– Para onde?!

– Apenas dirija, merda!

Clara abre a bolsa de armas e distribui as mais pesadas. Junior recolhe uma metralhadora e cartuchos extras, e começa a disparar contra o caminhão que os segue, atingindo a lataria e trincando o para-brisa.

– Alguma ideia?! – pergunta ele para Hugo.

– Nenhuma!

O caminhão se emparelha com o ônibus, empurrando-o para o lado, fazendo voar faíscas do atrito entre os dois. Os tiros continuam a ressoar pelas paredes e a velocidade aumenta. Junior, num relance, consegue observar o velocímetro ultrapassar os 100km/h. As coisas ficam tensas. O caminhão continua investindo, jogando o ônibus cada vez mais para fora do viaduto. Junior olha para baixo, dezenas de prédios e casas passam como um borrão, e ele começa a temer por sua vida.

Como mágica, seu medo se torna realidade.

O ônibus estala perigosamente e se lança em direção ao vazio. Por um momento, eles permanecem andando, como se o veículo voasse em direção ao céu azul. Mas, na fração de segundos seguinte, eles começam a cair. Tudo começa a girar rapidamente nos olhos de Junior. Ele sente sua cabeça se chocar contra as lâmpadas do teto, e no instante seguinte ele esbarra nos bancos. O ar sai de seus pulmões. Os poucos segundos de queda se arrastam numa eternidade, apenas girando, girando e girando.

E então, tudo termina. O ônibus aterrissa com um grotesco barulho infernal. Junior cai estatelado no teto, quebrando outra lâmpada com as costas. Seu rosto está pegajoso de sangue e toda a sua coluna parece estar perfurada por cacos de vidro. Ele ouve a voz de sua irmã gritar seu nome, mas ele nem tentar responder. Tudo dói, tudo dói demais.

Junior levanta a cabeça e abre os olhos. Os passageiros estão espalhados pelos restos do ônibus, gritando desesperados. Alguns bancos despencaram e o conteúdo das mochilas está espalhado pelo teto. Ele lança um olhar para o motorista, mas o que ele consegue ver é o cadáver do professor de matemática, largado como uma pilha de trapos.

– Precisamos sair daqui logo! – diz a voz de Hugo, dolorida – O ônibus pode explodir a qualquer minuto!

Junior se levanta com dificuldade, sentindo todas as dores imagináveis. O grupo recolhe os suprimentos espalhados pelo chão e sai pelo buraco onde antes ficava a janela dos fundos. Pelo o que ele pode contar, apenas o professor morreu. Anda estão vivos sua irmã, Hugo e André, Alice e Sarah, Gabriel e Bernardo, Amadeu e Elizabeth, as duas amigas desconhecidas, o guarda das muralhas e a mulher de avental, com o marido e o filho pequeno. Todos parecem bastante lesionados, mas vivos. Ele suspira milagrosamente e lança um olhar para o viaduto acima.

Nada.

– E agora?! – pergunta Amadeu, usando a esposa como apoio – Estamos perdidos, sem veículo, no meio da cidade!

– Fiquem calmos! – diz a voz de Hugo, o líder – Temos comida e água, isso é o que importa! Podemos achar um apartamento desses para passar a noite, não deve ser muito difícil!

Um grito e um gemido terminam a frase. O cadáver reanimado do professor salta do ônibus e avança em direção ao pescoço de Junior. O garoto se retrai com o ataque, sentindo o bafo arrepiar-lhe a nuca. Porém, os dentes nunca chegam.

– Mas que...

Uma flecha zune em direção ao grupo, acertando o mordedor entre os olhos. O ex-professor de matemática desaba contra o asfalto quente, espalhando uma poça de sangue.

Junior segue com os olhos a trajetória da flecha e percebe a aproximação de uma figura humana a poucos metros de distância. Ela veste calça jeans e um moletom com capuz que cobre seu rosto. Um arco e uma aljava completam sua visão.

– Ei, você! – grita Junior, apertando o gatilho da pistola – Identifique-se!

O resto do grupo repara no estranho. Alguns gritos e suspiros assustados se espalham.

– Não me reconhecem?! – responde o encapuzado, uma garota – Eu ouvi a voz do Hugo e...

– Como você me conhece?! – pergunta Hugo, apontando sua arma para a arqueira encapuzada – Quem é você?!

– Uma velha amiga – e então, ela retira o capuz.

Uma massa de cabelos negros cai pelos ombros da arqueira, revelando um rosto familiar. Hugo solta um arquejo e Bernardo grita de felicidade. Junior mal consegue se controlar, depois de todo esse tempo. A única coisa que ele consegue fazer é suspirar e dizer:

– Júlia!

Notas finais
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