Notas iniciais
No capítulo anterior: Hugo, Gabriel e Bernardo vasculham um engarrafamento em busca de água, mas uma multidão de mortos os cercam primeiro.

Clara acordou cedo naquele dia, sentindo o coração cavalgar por seu peito.

Ela permanece deitada na cama – o tom rosado do amanhecer começava a colorir a tenda da barraca – com Junior dormindo pesadamente ao seu lado. Os dois têm dividido uma barraca desde que perderam a outra durante o ataque no cume do morro. Até agora, ela e o irmão agem de forma estranha. Quase mecânica. Não há risos e nem piadas. Os dias quentes eles passam caminhando e as noites passam em silêncio. Mas Clara sabe o motivo de tão afastamento. Junior quer encontrar o filho do homem – o tal “Ned” – e protegê-lo. Clara sempre revira os olhos quando pensa nas atitudes heróicas do irmão. O pobre menino pode estar morto, e mesmo se estivesse vivo, seria provavelmente impossível encontrá-lo. Os dois brigaram quando Clara mostrou-lhe estes fatos.

O Sol finalmente ilumina de forma simplória a barraca, servindo como um alarme silencioso para Clara. Ela se desenrola cuidadosamente da coberta para não acordar o irmão. Os estoques de comida dos dois estão zerados. Junior culpa Clara pela falta de comida, não verbalmente, mas ela consegue sentir a frieza com que ele a olha.

Clara se levanta e sai engatinhando da barraca.

O acampamento do dois está sitiado no terraço de um prédio comercial no meio do Rio de Janeiro. Daquele ponto, Clara consegue visualizar os desenhos complexos que as ruas da cidade formam entre si. Centenas de prédios comerciais estão espalhadas pelo horizonte, silenciosos e abandonados. E ainda, conseguem observar a cúpula rachada da igreja da Candelária e a torre relógio da Estação Central do Brasil.

Por algum motivo, Clara recorda-se da sua mãe ao observar a paisagem. Quase conseguia vê-la apoiada na varanda da casa onde moravam, cantarolando uma música desconhecida. Por um momento, Clara até se esqueceu do irmão roncando na barraca. As lágrimas quentes arderam seus olhos e escorreram por suas bochechas. Havia um vazio que a preenchia desde o início do apocalipse. Ela nunca conseguiria se perdoar por não voltar para casa e procurar a mãe.

Clara quase não recordava do motivo. Após a explosão daquilo tudo, os alunos da escola onde estudava foram proibidos de saírem do perímetro da propriedade. Logo depois várias coisas aconteceram numa velocidade estonteante. A queda das grades da escola, o grande confronto na quadra externa, a fuga no ônibus, a ponte Rio-Niterói. O que Clara sentia agora era culpa. Nunca voltara até em casa para procurar a mãe. Concentrou-se em acreditar que havia morrido.

– Chega disso! – diz ela para as lágrimas – Temos coisas piores para se preocupar!

Suas roupas estão dobradas num canto apertado da mochila de viagem. Clara troca o pijama de flanela – uma das poucas coisas que tinha do Copacabana Palace – e veste a habitual calça jeans com camisa branca. Ela amarra o cabelo desgrenhado num rabo de cavalo improvisado e cobre com o boné camuflado. Antes de sair, ela prende a faca no cinto e recolhe o rifle de caça que roubaram de uma delegacia saqueada.

O Sol da manhã agora já esquenta o topo do prédio e provoca uma onda de estresse em Clara. Sempre odiou o calor. Detestava ficar melada e suada e principalmente passar o Natal desse jeito. Ela engole um palavrão para a claridade do dia e se senta na borda do terraço para fazer uma vigília.

Nenhum mordedor perambula pelas ruas. Alguns carros estão espalhados tanto pela calçada quanto pelo asfalto. Um caminhão do correio está quase inteiramente enfiado na fachada do prédio vizinho ao de Clara. O resto da rua segue igual, uma infinidade de prédios velhos com vitrines estilhaçadas e paredes pichadas. O silêncio e a paz começam a bambear as pálpebras de Clara. O sono da noite mal dormida a atinge de tão forma que sua cabeça despenca para um dos lados a cada dois minutos. Ela desiste de continuar a vigília e se move em direção à barraca.

É neste mesmo instante que Clara vê o animal.

O gavião está pousado em seu ninho, no capô de um Fiesta amassado. Graças aos deuses, pensa Clara. Não é seu tipo de alimento preferido, mas era alguma coisa. Se pudesse acertá-lo dali, teriam um jantar completo para aquela noite. Mas a distância entre ela e o pássaro era muito grande. Clara voltou até a barraca e retirou o silenciador do rifle. A mira estava um pouco torta e nem um pouco precisa, mas ela precisava tentar.

Com um único tiro, Clara acerta o animal e derruba o gavião do Fiesta.

Clara reprimi um grito de felicidade e volta para o interior da barraca. Junior ainda está dormindo pesadamente, mas ela tenta acordá-lo mesmo assim.

– Me deixa dormir, Clara! – diz ele, sonolento.

Clara abre o cantil de água e derrama um pouco sobre o irmão. Junior levanta assustado e raivoso ao mesmo tempo.

– O quê foi?! – diz ele chateado – Não se pode nem dormir mais?!

– Só quero avisá-lo que vou descer até a rua – conta ela- Consegui acertar um gavião pro jantar.

Junior troca expressão rapidamente. A cara de sono logo se anima com a notícia de comida, mas se contrai quando descobre que é um gavião.

– Eca! – diz ele, saindo da barraca com a irmã – Será que é saboroso esse treco?!

Clara põe o rifle nos ombros e se aproxima das escadas de acesso.

– Não faço ideia!- diz ela, descendo rapidamente os degraus – Mas, se está assim tão enojado, sobra mais para mim.

A última coisa que Clara escuta antes de desaparecer é seu irmão praguejando e reclamando de fome.

Os corredores estão escuros e repletos de destroços. Num dos andares, Clara reconhece o corpo do mordedor que ela abateu, amassando seu crânio contra as portas do elevador. Nos andares mais baixos, ela relembra das manchas de sangue no piso que provocou derrubando outros mortos-vivos. As escadas parecem nunca acabar. O círculo infinito de degraus começa a deixá-la tonta. Quando finalmente termina, Clara sente-se quase abençoada pelo Sol.

Infelizmente, a benção não dura muito tempo. Outra pessoa já se aproveita do gavião.

O mordedor é um macho adulto vestido como carteiro. Seu rosto morto está enfiado na barriga do pássaro, apreciando a presa. Sangue e bile escorrem por seus lábios toda vez que ele levanta a cabeça.

Clara solta um palavrão baixo. Iam passar fome mais um dia. Junior ia se tornar frio mais uma vez.

Os dois olhos esbranquiçados e leitosos do mordedor se viram para Clara. Ele larga o corpo do gavião no chão e se levanta aos poucos em direção à nova presa. Sangue e vômito estão espalhados por suas vestes. Metade de sua bochecha esquerda se foi, dando a Clara uma visão nem um pouco privilegiada do interior de sua boca. Os dentes estão arreganhados e a mandíbula estala de fome. Uma crosta de sangue e penas está espalhada pela camisa esfarrapada. Clara retira a faca do bolso e se mantém apreensiva. O mordedor fica agora a poucos metros de distância. Ela já consegue sentir seu cheiro, uma combinação de fezes, vômito e sangue.

Antes que qualquer um dos dois pudesse se mexer, o ex-carteiro é atingido no crânio por um tiro e cai feiamente no chão, molhando o asfalto com sangue e fluidos cerebrais negros.

Clara retira os olhos do corpo estendido na sua frente para agradecer o irmão pelo tiro. Mas Junior não está em lugar nenhum do terraço.

Ela mal percebe a chegada do atirador misterioso e seu grupo.

– Desgraçado! – grita uma voz masculina – Estávamos caçando aquele pássaro há dias!

Clara se abaixa com cuidado e se esconde atrás de um carro próximo.

Risadas ecoam pelas ruas.

– Deixe para lá, cara – diz outra voz, um pouco mais jovem – Já verificamos esta área toda. Se formos agora, conseguimos pegar o jantar coletivo.

Junior surge através da escuridão da escadaria com a arma em mãos. Antes que pudesse realizar uma besteira, Clara puxa o irmão pela camisa, forçando-o a se abaixar junto a ela.

– Esperem um pouco!- diz a primeira voz – Acho que vi alguma coisa se mexendo atrás daquele carro ali!

O silêncio reina só por alguns segundos. Clara ouve passos se aproximarem do local onde está escondida.

– Deve ter sido apenas sua imaginação!- conclui uma terceira voz, feminina.

Antes que o os outros homens pudessem responder, Junior aponta a arma para o grupo.

– ESTAMOS ARMADOS E SABEMOS USÁ-LAS! SAIAM DAQUI AGORA!

Clara segue o irmão e aponta o rifle para o trio de pessoas que acaba de tomar um belo susto.

O primeiro homem, possivelmente o responsável pela morte do ex-carteiro, é um careca adulto, entre os quarenta e cinquenta anos. Ele carrega uma metralhadora pesada nas mãos. Seus outros dois companheiros são adolescentes da mesma idade de Clara. A menina está à direita do careca e o menino, à esquerda. Os dois carregam pistolas nas mãos e espadas nos cintos. O mais estranho para Clara é que o rosto do careca lhe é familiar, talvez seja um antigo ator famoso ou um político corrupto.

– Eu não pensaria nisso se fosse você! Somos três contra um! Agora abaixe a arma e avance!

Clara teve que agir.

– Um?! Temos dois rifles apontados para você e suas crianças – grita Clara, sorrindo consigo mesma ao ver a expressão dos adolescente ao serem chamados de crianças – Dêem a volta e retornem! Talvez até consigam pegar o jantar coletivo.

O menino dá um passo à frente. Seus cabelos negros formam um pequena cortina ao redor do rosto sardento.

– Não viemos aqui causar problemas! Não somos perigosos – ele coloca a arma no chão – Viu? Somos pacíficos.

Clara tinha sua cota de “pessoas pacíficas”.

Ela e o irmão saíram de trás do carro e se aproximaram dos três reféns. O careca e a menina ficaram relutantes em entregar as armas, mas acabaram cedendo sob a pressão dos rifles apontados para seus peitos. Clara apanhou as três armas e as depositou no mesmo capô onde antes vivia um gavião.

– Olha, podemos sair daqui sem problemas – disse ela – Faremos uma troca, eu devolvo as armas e vocês nos dão suprimentos médicos e comida.

O menino de cabelos negros deu um sorriso e entregou a Clara sua mochila.

– Tem tudo ai – disse ele – Latas, garrafas de água, tomates frescos e alguns comprimidos. Não é muito, mas é tudo que temos. Juro!

Clara abriu a mochila e quase teve um ataque. Tudo o que o garoto dissera era verdade. Junior trocou olhares com a irmã e devolveu as armas para os estranhos, ainda receoso.

Clara e o menino trocaram apertos de mão.

– Por falar nisso, se me permite perguntar – disse ele – Como sobreviveram tanto tempo?!

– Estávamos em um grupo maior – contou Clara, xingando-se por dentro – Mas acabamos nos separando. Estávamos sem comida quando vocês apareceram.

Os três estranhos trocaram olhares.

– Sabe, moramos em um local seguro que acolhe sobreviventes – disse ele – Estão convidados a se juntarem a nós, se quiserem.

Clara trocou olhares com o irmão.

– Dê-me apenas um minuto – disse ela, e então puxou o irmão para um canto.

Junior parecia decidido a ficar.

– Não gosto deles – foi sua primeira frase – Não confio neles. Não podemos nos arriscar, Clara!

– Eu sei o quanto é arriscado! – disse ela, aos murmúrios – Mas você viu a mochila dele! Tomates frescos! Devem ter uma cama para nós e plantações!

Junior ainda não estava decidido,

– Faremos o seguinte, se insiste – contou ela – Passaremos dois dias lá! Precisamos recuperar as energias! Se após estes dois dias você ainda quiser ir embora, irei sem reclamar.

Junior concordou com um aceno.

– Ótimo! – disse ela – Vou dizer a eles que topamos. Suba até o terraço e traga as malas.

O Sol já estava na metade do céu quando finamente eles partiram. O menino e o careca seguiam na frente como batedores, enquanto a menina, que se apresentou como Alice, caminhava atrás com Junior e Clara. Alguma coisa ainda pairava no ar. A sensação de conhecer o rosto do careca crescia a cada hora para Clara. Quando perguntou sobre o passado dele para Alice, a menina soltou uma risada fraca.

– Ator famoso? Não! – disse ela, rindo – Este é o nosso antigo governador! Foi ele que derrubou a ponte Rio-Niterói para proteger a cidade! É considerado um herói pelo pessoal!

Clara e Junior tocaram olhares significativos. Ela até tentou não perceber que os nós dos dedos dele estavam brancos de tanto apertar o punho da faca.

Notas finais
No próximo capítulo: O grupo de Gabriel enfrenta uma perigosa batalha contra os mordedores. No meio do confronto, uma possível salvação surge para eles. Os caminhos se entrelaçam novamente.