The Walking Dead - Rio de Janeiro
8 Capítulo Oito - Pesadelos Mentais
Clara estava aflita. Júnior e os outros meninos não haviam chegado e o céu já estava negro como carvão. O barulho dos mordedores era espalhado pelo vento e causava pensamentos horrorosos em sua mente. Pensou que talvez não veria seu irmão novamente. Talvez ele estivesse... Não, ele não estava! Tentou voltar à realidade e se concentrar na comida. Aqueles pensamentos tinham que ir embora.
Os outros jantavam em silêncio. Bernardo não falava na ausência do irmão e os outros tinham seus pesadelos mentais para se preocupar. Silas não saía de seu quarto e Amanda levava o prato até ele, por pura pena. Ele nos contou que Jannette tinha câncer e havia sido curada recentemente. O choque da perda fora pesado porque Silas dizia não ter aproveitado a pouca vida que Jannette tinha depois do longo tratamento. Ele se culpava pela a morte.
– E então – Clara tentou puxar conversa – Algum de vocês tem ideia do que causou a morte de Jannette?
Patrick parou de comer para olha-la.
– Muitas – respondeu de boca cheia – Mas nenhuma delas é possível!
Amanda estava encolhida perto de Pedro. Os dois começaram a namorar depois do enterro medíocre que Jannette recebera. Ela não falava muito.
– Ela já podia ter um vírus – sugeriu Amanda – Isso explicaria o início da invasão!
Pedro olhou para os cabelos dourados de Amanda.
– Seria explicador – disse – Mas então todos nós teríamos o vírus também, né?
– Sim – respondeu Júlia, parando de mastigar – Todos nós carregaríamos o vírus no corpo!
Clara olhou para seu corpo imaginando o vírus correndo em suais veias. Sentiu nojo de si mesma.
– Ou então poderia estar no ar – sugeriu Felipe – Poderíamos todos estar respirando o vírus agora.
– Então já estaríamos mortos animal! – retrucou Bruno.
A porta do quarto de Silas se entreabriu e ele saiu mancando do escuro.
– O vírus está na vacina para o câncer – sua voz manifestava certeza.
– Como assim?! – perguntou Clara.
Silas se sentou junto com o grupo.
– Jannette foi uma das primeiras a testar a vacina – contou ele – Desviei rios de dinheiro da escola para pagar o tratamento. Ela não havia sido mordida então, esta é a única explicação plausível.
Houve um silêncio geral que durou alguns minutos.
– Nem todas as pessoas da cidade tinham câncer – falou Pedro – Como é que todos viraram mordedores?
– Não sei – falou Silas – Talvez o vírus se instale nas gengivas. Quando você é mordido o vírus passa para seu corpo e te mata. É um círculo sem fim!
Houve mais um silêncio constrangedor. Desta vez foi quebrado por um chiado alto vindo do aparelho de comunicador furtado de uma delegacia. Bernardo e Pedro pularam de suas almofadas e correram para atender.
– SHII... Alô... SHII... Alguém na escuta?... – era a voz de Hugo.
– Alô – respondeu Pedro – Aqui é o Pedro! Algum problema?!
O resto do grupo se uniu a Pedro.
– Não... SHII... Encontramos dois militares... SHII... Eles vão nos tirar da cidade – respondeu a voz de Hugo.
– Como assim?! – falou Pedro – Onde vocês estão?!
– SHII... Não dá tempo... SHII... Agora... SHII... Encontre-nos no CCBB... SHII... – o aparelho ficou mudo.
– Alguém ouviu algo direito? – falou Clara – Eu só consegui ouvir chiados!
Silas pegou sua pistola.
– Ele disse CCBB – respondeu – Temos que ir para lá!
Clara olhou para ele com surpresa.
– Como assim vamos para lá?! – disse – Nem sabemos o que ouvimos!
Silas demonstrou raiva nos olhos.
– Escuta aqui! O CCBB foi o último lugar onde viram aquela desgraçada daquela médica. Tenho que honrar Jannette e mata-la pessoalmente! Quem não quiser ir pode sair por aquela porta. Boa sorte!
Pedro se adiantou.
– Quem é você para decidir o nosso destino?! – gritou ele – Você perdeu seu direito quando abandonou seus alunos e fugiu daquela escola!
– PELO AMOR DE DEUS! – gritou Silas – O MUNDO ACABOU! NÃO CONSIGO TOMAR CONTA DE MIM MESMO!NÃO POSSO PÔR O MUNDO INTEIRO NAS COSTAS!
O silêncio que se seguiu durou pouco. Os mordedores das redondezas escutaram os gritos e começaram a avançar lentamente para a portaria. Os mais próximos formaram uma pequena multidão e trombaram contra a porta de madeira. Ela não ia durar muito.
– Parabéns seu idiota! – berrou Pedro – Agora vamos todos morrer!
Silas carregou sua pistola e virou-se para a bolsa de armas.
– Vamos ter que sair daqui – disse – Quem souber atirar mire na cabeça! Não vamos durar muito tempo. Quem não sabe pegue uma mochila e encha de suprimentos!
Os outros começaram a correr pelo apartamento. O barulho dos mordedores ficava mais intenso à medida que a multidão ia crescendo.
– Não temos por aonde ir! – disse Pedro – Aquela é a única saída!
Silas jogou uma arma para ele.
– Há uma garagem nos fundos. Provavelmente meu carro deve estar lá! Prepare-se para atirar garoto!
A porta foi arrancada das dobradiças e o caos se espalhou pelo prédio. Os corredores estavam escuros e os alunos tiveram que seguir correndo, guiados pelo som dos tiros de Silas. Pedro atirou algumas vezes e segurou na mão de Amanda. Ela parecia confiante e acertou dois deles com apenas um tiro. Logo atrás dela vinham Clara e Bernardo, os dois ofegando com o peso das mochilas. Bruno, Patrick, Felipe e Júlia não estavam à vista. O único indício era o som dos tiros que explodiam pelo prédio.
– Por aqui! – berrou Silas em algum ponto no fim do corredor – Vamos!
A porta da garagem se abriu iluminando o corredor com uma fraca luz lunar. Felipe atirava contra a multidão enquanto Bruno estava agachado junto a um corpo no chão. A luz iluminou o rosto do defunto e Pedro sentiu um horrível arrepio ao ver Patrick morto. Seu pescoço jorrava sangue.
– Vamos lá cara! – gritava Felipe – Você não pode fazer nada por ele!
Clara largou Bernardo nas mãos de Amanda e correu para Bruno. Ele chorava no peito do irmão e forçou o corpo quando Clara tentou levantá-lo.
– Não, não – chorou ele – Me deixem aqui! Deixe-me aqui com ele!
Clara forçou o braço e puxou-o para fora. A dor superou sua força e ele se deixou levar, soluçando pelo nome do irmão que jamais ouvira o som da suam voz novamente. Felipe seguiu os dois e fechou a porta com força. Ela se abriu novamente e uma enxurrada de mordedores avançou para o grupo. Clara, Felipe e Bruno fecharam os olhos esperando o pior, mas escutaram o som de tiros prolongados. Amanda saíra do carro e atirava na multidão, protegendo os outros dos mortos.
– Saiam daqui! – gritou ela – Fujam!
Clara agradeceu com um olhar e correu para o carro, ofegante por causa de Bruno. Felipe entrou atrás dela e fechou a porta. Silas pisou fundo no acelerador e arrebentou o portão de madeira, fazendo chover estilhaços no capô.
– Você está maluco?! – berrou Pedro – Falta a Amanda?!
Silas freou o carro e se virou para a garagem. A única coisa que se via era uma multidão de mordedores aproveitando o jantar, que havia morrido protegendo os amigos.
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