Camelot, Bretanha, 614 d.C.

A paisagem emoldurada pela janela da carruagem poderia ser definida como um grande vale em tons outonais de verde, amarelo e vermelho, contornado por um denso bosque e encravado entre duas cadeias de montanhas salpicadas de neve. No meio do vale, um rio de águas escuras serpenteava de uma fenda nas montanhas e desaguava em um lago a beira da vila cinzenta que expelia fumaça preta pelas chaminés. O tempo estava ensolarado, e o sol era um grande círculo amarelo e borrado na superfície de vidro do lago.

Já era a quarta vila que cruzavam. Mas não poderiam simplesmente passar — assim como nas outras vilas — e ignorar a paisagem. Era bom estar de volta ao mundo europeu, apesar de estarem fugindo, era bom estar de volta em casa. Mas havia algo de diferente naquele lugar, algo de peculiar.

Da vila ele avistou o grande castelo, que se erguia imponente e solene, construído sobre o penhasco escarpado de um dos montes do vale, rodeado por altos pinheiros, que já mostravam uma folhagem amarelada característica do outono do norte europeu. Penhasco abaixo o imenso lago produzia um reflexo nítido do castelo em suas águas escuras.

A carruagem balançava conforme passava pela estrada irregular. Os outros quatro estavam numa concentrada conversa, mas ele não prestava atenção ao assunto, queria apenas visualizar a paisagem, admirar seria o correto a se dizer, mas ele não admirava nada a não ser ele mesmo.

Ele percebeu que as pessoas se afastavam da carruagem, como se a própria lepra em pessoa estivesse ali dentro, ou, como se estivessem com medo. Impossível, ele pensou. Aquelas pessoas não sabiam de nada, não poderiam saber. Essa era a razão para terem escolhido este lugar para fugir, para se esconder, para viver.

Já estavam na direção da floresta, na direção de um lugar onde pudessem pernoitar, e se alimentar sem chamar a atenção.

Mas ele não queria ir embora tão depressa. Aquele lugar mexia com ele, a visão daquele castelo o chamava, o puxava como um imã, como se ele precisasse de algo que estivesse lá, como se ele quisesse algo de lá.

Aquilo o intrigava.

Klaus olhou para Elijah e perguntou:

— Que lugar e este que estamos passando neste exato momento? Onde estamos?

— Estamos em Camelot, Klaus. Lar do grande Rei Arthur.

— Ora, e por que ninguém me avisa sobre esta incrível informação? — Klaus abriu aquele já conhecido sorriso, mesmo que o motivo deste não produzisse felicidade alguma — Não podemos simplesmente passar e ignorar que estamos nas terras do tão conhecido Rei Arthur. Devemos dar nossos cumprimentos.

Somos tão importantes quanto ele, Klaus pensou.

— Acredito que não seja uma boa ideia, você sabe o motivo de estarmos aqui — Rebekah lançou um olhar severo e profundo a Klaus — Passarmos despercebidos. Essa e a ideia, não causar alarde. E o mais importante, não chamar a atenção dele.

A mera citação dele provocou grande repulsa em Klaus, ele lançou um olhar duro na direção de Rebekah.

— Ora Rebekah querida, o que a de tão preocupante em apenas cumprimentar nosso novo vizinho? — a palavra saiu como um silvo — Ainda mais sendo um tão importante e grandioso.

Como era de costume, sem esperar por uma resposta dos irmãos, Klaus sinalizou para que o cocheiro parasse a carruagem, e o chamou.

— Mudança de planos, leve-nos até Camelot. — E emendou. — E quando chegarmos em casa, seja lá como for, providencie algumas belas damas para nos acompanhar no jantar.

A carruagem seguiu em direção a pequena estrada íngreme que levava ao castelo. Logo acima altas muralhas de pedra se erguiam e se estendiam a perder de vista, e no meio um grande portão com portas duplas de ferro. Assim que a carruagem chegou aos portões um guarda barrou a passagem e se dirigiu ao cocheiro.

— Quem é, e o que faz aqui?— ele perguntou com rispidez

O cocheiro hipnotizado respondeu prontamente conforme lhe foi ordenado.

— Meus senhores são nobres viajantes que ficariam lisonjeados em transmitir seus cumprimentos ao grande rei Arthur.

O guarda após pensar por um momento permitiu a entrada da carruagem. Os portões se abriram para um amplo pátio de pedra rodeado por altos muros e torres. Em um dos lados do pátio, uma enorme escadaria levava para portas duplas de carvalho.

O guarda se aproximou cautelosamente da pequena janela da carruagem.

— A quem devo me dirigir?

— A mim. Sou Klaus, e estes são meus irmãos: Finn, Elijah, Kol e Rebekah. Estamos de passagem e gostaríamos apenas de transmitir nossos cumprimentos ao grande rei Arthur. — um sorriso se abriu na face de Klaus — Não poderíamos simplesmente ir embora e perder a oportunidade de conhecê-lo.

O guarda pareceu ponderar o pedido e respondeu.

— Por favor, peço-lhes que esperem. Irei verificar se será possível a visita— O guarda se dirigiu a escadaria, mas antes de prosseguir se virou e perguntou — Como devo nomeá-los?

O sorriso de Klaus se abriu mais ainda, revelando dentes brancos e alinhados, e caninos estranhamente pontudos.

— Somos filhos de um grande mercador e fazendeiro inglês — O que era de certo modo verdade, apesar de o pai deles não ter feito riqueza de modo justo.

— Qual o nome de seu pai? — o guardar disse após pensar um pouco — O grande rei pode até conhecê-lo, ele preza pela amizade para com seus súditos.

O sorriso sumiu do rosto de Klaus, ele detestava ter de falar daquele homem, o mero citar de seu nome poderia enfurecê-lo.

— Não creio ser possível, nosso pai já se encontra em estado avançado de velhice, e a muito não convive com mais ninguém a não ser a família — Klaus gostaria que aquilo fosse verdade, e ansiava que fosse possível.

O guarda retornou a subir a escadaria e adentrou as portas de carvalho, fechando-as atrás de si. Os cinco ficaram esperando no pátio, a vista de outros guardas que estavam na muralha que circundava o pátio. Após alguns longos minutos o guarda retornou, e permitiu que os cinco entrassem.

As portas de carvalho levavam a um salão de pé direto elevado e teto abobadado. Nas laterais janelas com vitrais em iluminuras coloridas, e grandes colunas trabalhadas que ladeavam o salão. No fundo havia um trono dourado de espaldar alto e trabalhado. O guarda os deixou no salão vazio e seguiu por uma pequena porta lateral. Os reflexos coloridos das iluminuras dos vitrais brincavam no chão de madeira do salão e nas roupas escuras dos irmãos.

Passado um tempo o guarda retornou com um homem de meia-idade, mas robusto. Vestia uma túnica bege com um cinto afivelado, botas de couro e uma longa capa vermelha. Tinha cabelos muito pretos e ondulados que batiam nos ombros, e uma barba espessa que já começava a mostrar sinais grisalhos. Sobre as rugas do rosto olhos azuis brilhavam.

— A que devo esta visita? — Arthur sorriu amigavelmente para os cinco estranhos que estavam no salão de seu castelo.

— Somos apenas viajantes, Alteza — a última palavra saiu com um estalido. Klaus a contra gosto se curvou, seguidos pelos outros quatro.

— Mas posso saber quem são? — Arthur lançou um olhar rápido para Rebekah. Era difícil não olhar para ela, com aqueles cabelos loiros e sorriso aparentemente cativante.

A moça pareceu ficar envergonhada e desviou o olhar.

— Como disse a sua guarda, meu senhor, somos nobres viajantes. E após muitas viagens mundo afora, resolvemos voltar a nossa terra natal.

— Vocês são aqui da Bretanha?

— Somos das terras geladas do norte da Grã-Bretanha. — Klaus respondeu prontamente.

— Você disse que são nobres. De qual casa?

Um tremor de raiva percorreu o corpo de Klaus, ele já estava farto de tantas perguntas. Ele cerrou os punhos e se controlou.

— Nossa família descende de alguns povos celtas e escoceses. Somos os Mikaelson.

Finn, Elijah, Kol e Rebekah arquejaram ao ver o irmão dizer o nome que juraram nunca mais pronunciar. Um nome que assim como outras coisas tinha ficado num passado remoto vivido no Novo Mundo. Elijah deu um passo à frente, e se pôs ao lado de Klaus, ele não poderia deixar a mania de grandeza típica do irmão por tudo a perder.

— Como viu, meu grande rei, somos de uma família desconhecida aos outros. Somos os únicos descendentes. De certo, o senhor não irá conhecer. Não e mesmo, meu irmão? — Elijah lançou um olhar áspero a Klaus.

— E claro irmão — Klaus concordou com resignação.

As portas de carvalho se abriram e um homem pequeno e desengonçado entrou. Trazia uma grande bolsa às costas e seguiu em direção ao rei, ignorando os visitantes, e após fazer uma breve reverência disse:

— Meu rei, trago notícias das terras a oeste.

Uma sombra de preocupação percorreu o semblante de Arthur, e por um momento ele pareceu preocupado e desconfortável.

— Por favor, queiram me perdoar. Meras questões territoriais. Fiquem a vontade — ele se interrompeu, pensou um pouco e se dirigiu ao guarda — Gregor, leve nossas visitas até o terraço e sirva-lhes uma bebida. Daqui a pouco irei até eles.

O guarda assentiu e fez um sinal para que o seguisse, indicando a porta lateral do salão. Klaus lançou um rápido olhar para Arthur, que se dirigia a outra porta junto do mensageiro, e seguiu junto dos irmãos o guarda.

*****

O terraço se estendia sobre um balcão suspendido em um dos lados do castelo. Dele dava para ter uma ampla visão da paisagem de outono tendo como fundo o crepúsculo, uma bola dourada que descia as montanhas brancas de neve. No céu já apareciam algumas estrelas, que brilhavam timidamente aqui e ali. No vale em contraste com as cabanas e os chalés cinzentos da pequena vila, luzes amarelas pontilhavam das janelas, as chaminés ainda soltando fumaça preta e densa.

Tudo estava anormalmente quieto, não se ouvia qualquer barulho, nenhum pio sequer. Nem mesmo o vento soprava nos pinheiros altos que se apinhavam na encosta, como se nada chegasse ao castelo, como se ele estivesse alheio aquele ambiente.

Uma mesa no centro do terraço estava abarrotada de travessas de prata reluzentes recheadas com todo tipo de comida. Dentro de garrafas do mais fino e transparente cristal, o líquido roxo e vermelho como sangue do vinho brilhava refletindo o sol se pondo. Mesmo as frutas tendo cores tão reluzentes, o aroma dos assados ser tentador; a visão da mesa que poderia saciar uma vila inteira não surtiu qualquer efeito nos cinco irmãos, nem sequer produziu alguma expressão em suas faces pálidas.

O guarda os deixou no salão deu meia volta e seguiu corredor adentro. Elijah se aproximou de Klaus que estava fitando o pôr do sol, encostado na amurada do terraço.

— Agora que estamos sozinhos, você pode explicar o que estava pensando quando quase pôs tudo a perder Klaus.

Klaus lançou a Elijah um sorriso despreocupado.

— Ora irmão, não há o que temer. Todos vocês sabem que somos muito mais poderosos que aquele pobre homem. Não viram como ele está cansado, abatido. Tal poder não é digno dele. Por isso ele não está sozinho.

— O que você quer dizer com isso? — Kol perguntou enquanto pegava uma garrafa e se servia com uma taça de vinho.

— Eu não faria isso se fosse você, meu irmão — Klaus respondeu quando Kol levou a taça aos lábios.

— Por quê? Posso saber? — Kol respondeu cético ainda segurando a taça.

— Por que está enfeitiçado. Mais precisamente envenenado. O vinho e todo o resto. Pelo cheiro diria que é uma combinação de verbena, madressilva e papoula. E sim, afeta também a nós. Não chega a matar, mas enlouquece — Ao ver a expressão de espanto no rosto dos irmãos, emendou — Ao que me parece, temos uma bruxa aqui.

Assim que terminou de falar, uma mulher saiu das sombras. Era alta, esbelta e tinha a pele muito branca, como papel, não fosse pelo sangue que pulsava e calor que irradiava, Klaus poderia pensar que ela não era humana.

Usava um vestido longo e branco com detalhes de estrelas azuis desenhados nos punhos e na gola. No pescoço um colar de ouro onde pendia uma pedra irregular, branca e lisa como pingente. Longos cachos loiro-avermelhados caiam sobre seus ombros e se estendiam as suas costas e no rosto tinha uma expressão de surpresa e irritação.

Ela se aproximou e perguntou num tom arrogante:

— Como você sabe disso?