– Acha que vai conseguir continuar normalmente na universidade ? – Perguntou Tyler a Caroline curioso enquanto dirigia, quebrando o silêncio. Caroline olhou para ele, e assentiu. Os últimos meses haviam sido difíceis para ambos. Tyler teve de aceitar não só sua volta humana, mas a ajuda de Caroline. Apesar de todas as desavenças e separações, talvez ela fosse a única pessoa por ele, e ele a única pessoa por ela. Tinham decidido ainda não voltar, mas tinham recaídas, aquele tipo de relacionamento que ninguém entendia.

– Não sei. Fico me sentindo mal por não estar o tempo todo com Elena e Stefan, mas me sinto ainda pior por estar lá e não poder ajudar. Talvez eu possa me distrair, afinal, passaram-se seis meses, precisamos retomar pelo menos algo do que ainda tínhamos. – Ela levantou os ombros. Tyler sorriu para ela. E após um longo silêncio, suspirou.

– Obrigado por tudo que tem feito por mim, estaria perdido se não fosse por você. – Ela sorriu tocando seu ombro.

– Estou ansiosa para conhecer a tal Sara. – Caroline mudou o assunto.

– Que Sara ?

– Ligaram da universidade dizendo que temos uma nova colega de quarto chamada Sara...

– Espero que não sejam mais problemas.

Caroline entrou apressada no prédio da Whitmore, junto de sua pequena mala. Seguiu para o quarto, abriu a porta, e avistou uma moça cabelos longos e louros não pôde ver seu rosto pois estava sentada na cama de Bonnie, ou melhor, antiga cama, de costas.

– Olá ? – Perguntou receosa. A linda moça virou-se e surpreendeu Caroline.

– Oi. – Disse em voz trêmula e enxugando as lágrimas. Caroline se aproximou.

– Sara, não é ?

– Sim... você deve ser Caroline. – Ela esboçou um sorriso. Caroline pôde perceber um porta retrato em suas mãos e logo desconfiou de algo, sorrindo sozinha por lembrar do comentário de Tyler no carro sobre “problemas”.

– Está tudo bem ?

– Na medida do possível sim... – Caroline não seria tão direta, mas percebeu tristeza no olhar da garota, e decidiu ajuda-la sem ao menos conhecê-la.

– Olha... sei que não nos conhecemos, mas... sei lá... Você quer conversar... sobre... – Ela direcionou os olhos ao porta retrato, contendo a foto de Sara com um rapaz. – Isso ?

– Me desculpe, não ter chegado como uma colega de quarto muito feliz... de verdade. Eu nunca fui uma pessoa que se abre com estranhos e estou surpresa por estar dizendo isso, mas sim. Eu quero falar. – Caroline sentou ao lado de Sara, e esperou. – Na verdade eu nem sei o que estou fazendo aqui. Acho que estou buscando um pouco de paz. Eu... perdi... alguém. – Disse pausadamente, com a voz ainda mais trêmula. Caroline imediatamente lembrou-se de Bonnie e Damon, e se viu naquela garota há cinco meses atrás.

– Sei como é isso, aliás passei por isso algumas vezes na minha vida... recentemente perdi a minha melhor amiga, ela quem ocupava seu lugar aqui agora... eu a amava muito. Senti demais sua falta, ainda sinto. Mas acho que aprendi algo nessa história... não temos como fugir disso, a dor da perda nos acompanha onde quer que a gente esteja. Temos que aprender a conviver. Somos jovens e a vida continua... – Sara não tirou os olhos do retrato. Caroline não quis questionar quem era e percebeu que ela também não quis falar sobre. Caroline apenas sorriu e levantou. Ela se surpreendeu com ela mesma por aquela atitude, talvez a tempos não era tão gentil com uma garota desconhecida da sua idade que agora preenchia o espaço da falecida melhor amiga.

Ela trocou sua roupa de viagem e se arrumou para sua aula do dia, ainda na presença de Sara.

– Sara... – Quebrou o terrível silêncio. – Você já verificou seus horários ?

– Sim... tenho aula agora, mas não sei se quero... – Caroline estava se sentindo da mesma forma, mas não recuou. Estava disposta a ir.

– Ok... pense bem, talvez recomeçar seja o melhor meio de lidar com isso. – Disse saindo em direção a aula.

– Boa Tarde, Whitmore ! – Exclamou a nova professora. Caroline não havia visto ela antes. Era muito bonita e jovem, por esse motivo chamou atenção de todos, com belos olhos verdes, cabelos castanhos e um corpo escultural. – Meu nome é Serena James, sou a nova professora de Anatomia Médica A. – A turma logo mudou a expressão, Caroline, não estava tão preocupada. Desde que virara vampira, a anatomia humana tem feito parte do seu dia-a-dia, portanto, aquilo já não a assustava. Serena andou de um lado para o outro, sorrindo pela reação dos alunos. – Acreditem, sou médica legista e ainda sim, a anatomia humana ainda me é um pouco esquisita, sempre descubro algo novo, mas com o tempo nos acostumamos com ela, afinal veremos nesta disciplina tudo aquilo que existe dentro de nós. Nossas aulas serão em grande parte, no laboratório. – Talvez os alunos tivessem se sentido mais confortáveis, estavam hipnotizados, não só homens, mas as mulheres também. Serena sabia atrair atenção dos alunos, no seu andar, no seus gestos e até na rouquidão da sua voz, leve e cantada. Caroline se interessou. Ela se alimentava de sangue, sabia que era um ser sobrenatural porém por viver em meio a tanta destruição, mutilações, esquartejamentos, alguma coisa ali poderia lhe ser útil. E assim decidiu que se empenharia na disciplina.

A professora Serena explicou o que seria estudado na disciplina e o tempo de aula se foi. Os alunos que no início eram desconfiados, agora estavam animados. Ela era carismática e divertida.

Enquanto a sala se esvaziava, Caroline se aproximou de Serena, para se apresentar:

– Oi... meu nome é Caroline. E gostaria de lhe dizer que sua aula foi incrível...– Disse sorrindo. Serena lhe retribuiu o sorriso, pausando o recolhimento do seu material.

– Olá Caroline, fico feliz que tenha gostado. Talvez este não seja o melhor lado da medicina, mas está entre o que é essencial.

– Posso lhe perguntar o que a fez se apaixonar por este lado da medicina ? A legista ?

– Percebi que de início também se apaixonou... – Disse sorrindo. – Eu estava pensando em tomar um café. Por trás da minha paixão existe uma longa história... você me acompanha ?

– Mas é claro ! – Disse empolgada.

A professora Serena era uma inspiração. Uma pessoa incrivelmente comunicativa, simpática e humilde. Não hesitou em responder questões de uma aluna acompanhada de um café. E Caroline admirou-a por isso, e por um segundo desejou um dia ser como ela.

– Não sei... acho que sou apaixonada por isso há tempos e não sabia. Minha mãe é delegada em Mystic Falls. Convivi por muito tempo com situações que envolviam médicos legistas... – Disse pensando não só na mãe, mas nas experiências próprias.

– Na verdade minha paixão veio daí. Meu pai também tem uma ligação, ele era um importante médico legista da américa do norte, seu nome era William James. E desde menina eu acompanhava seu trabalho, em poucas palavras reconhecer corpos no pior estado. – Ela sorriu. – E a região tem tido muitos casos ultimamente, principalmente ataque animal. Isso tem facilitado meu trabalho. – Caroline assentiu, sabendo bem ela que nem sempre se tratava de ataque animal. Mas apreciou a inocência de Serena, podia ter uma conversa com uma humana sem problema algum. Ela não era uma pesquisadora obsessiva, ou uma bruxa disfarçada, era apenas um ser humano, como ela costumava ser.

– E o que houve com o seu pai ? – Ela mudou de assunto eliminando o pensamento.

– Bom, ele faleceu quando eu entrei na universidade... mal pôde me ver formada. Ainda estou trabalhando nisso...

– O que quer dizer ?

– Alguém o matou. Meu primeiro reconhecimento foi do meu próprio pai. Ele foi carbonizado. Acho que nada depois dessa cena me deixaria abalada, fazem quinze anos, e ainda não encontramos seu assassino, me sinto fraca, acho que perdi minhas forças, mas prometi não desistir, e não fiz ainda. Mas enfim... – Caroline assentiu.

– Perdi minha melhor amiga, há seis meses. As vezes me sinto impotente também, juro que poderia ter feito algo para evitar e não fiz, e esse sentimento me corrói todos os dias.

– Como foi que ela morreu ? – Perguntou Serena. Caroline recuou. Como responderia aquela pergunta ? Disse a primeira coisa que lhe veio a cabeça.

– Um acidente. – Disse se arrependendo logo em seguida. Serena percebeu a incerteza em seu rosto. – De carro.

– Que triste. Eu sinto muito. – Ela disse, antes de olhar seu relógio. – Bom, Caroline, obrigada pelo seu interesse, preciso ir embora tenho um compromisso daqui uma hora com a minha equipe de trabalho. Apareça sempre que puder, fico feliz em conhecer alunos interessados como você.

– Eu que lhe agradeço. Foi importante para mim, vai me servir de inspiração. – Ela sorriu, deu-lhe um suave abraço e se afastou. Caroline torceu um pouco o pescoço admirando a bela professora, pensando no que havia dito sobre seu pai. Pensou no caso não desvendado e acendeu dentro de si uma curiosidade que há tempos não sentia. Quem mataria um médico legista, carbonizado ? Pensou. E ali vagou em seus pensamentos.