Minha visão estava turva e meus sentidos entorpecidos. Havia dor, mesmo que tão tênue que mal conseguisse senti-la. Havia fraqueza, o que mais me irritava naquele momento. E havia arrependimento, culpa, um peso em meu peito que parecia transcender qualquer sensação física. Pouco conseguia enxergar, manter meus olhos abertos era uma provação. Usui, foi a última coisa que eu vi.

“Vai ficar tudo bem, Ayuzawa” foi a última coisa que ouvi

Quando levantei de sobressalto, a dor veio em seguida, um lampejo que travou todo meu corpo e me fez conter um gemido de dor. A contragosto, voltei a deitar-me, relaxando pouco a pouco os músculos doloridos. Demorou certo tempo até que eu processasse tudo o que minha visão alcançava. Estava em um quarto, não sabia de quem, todavia a julgar pelo cheiro, eu não estava muito longe dos outros; cheirava a sangue puro. Usui. Meu olhar deslizou do ambiente até meu corpo, analisando o que poderia ter acontecido. Havia um gesso em meu braço esquerdo e era dali que as principais fisgadas de dor tinham seu início. Salvo isso, tudo parecia estar normal; parecia. Sentia-me diferente. Tentei mover os dedos da mão esquerda, recebendo pouco sucesso em tal ato, fitei a outra mão, a levantando. Olhei a palma, depois as costas, minhas veias pareciam diferentes, mais grossas talvez. Minha visão e olfato, por mais apurados que tivessem se transformado, ainda eram estranhos para mim, no fim das contas.

Demandou tempo até que eu conseguisse me erguer e, mesmo sentido dores no braço, pernas e costas, me coloquei de pé. Ao dar o primeiro passo, senti vertigem e tive de me encostar a cama novamente. Murmurei um praguejo, o que diabos tinha acontecido com meu corpo? Minha cabeça latejava sempre que tentava lembrar-me dos acontecimentos anteriores. Havia uma vaga lembranças sobre ingerir o sangue do Naraku e de sua transformação horrenda. Era um lobo gigante, grotesco, cujo olhos ainda me causavam arrepios involuntários. O pelo negro era grosso e lembro de tê-lo sentido em meus dedos em dado momento. Todo o resto parecia uma névoa densa em minha mente. Mordi o lábio inferior, frustrada. E novamente me coloquei de pé. As pernas tremeram no início, porém me esforcei.

Primeiro passo, segundo, terceiro. Cada um dado com cautela em demasiado. Quando senti que a vertigem estava mais fraca, pisei mais firmemente, chegando até a porta e saindo dali. Por mais que houvesse um cheiro familiar e aconchegante ali, também me dava uma sensação claustrofóbica, principalmente por não saber como as coisas estavam ou onde, exatamente, eu estava. Nos corredores da enorme casa vi pessoas indo pra lá e pra cá, todas apressadas, alheias a mim; todas vampiras. Não me surpreendeu tal fato, afinal ainda estava imersa naquele mundo.

Ao final do corredor havia uma sacada, era um fim da tarde e o sol perdia sua força para as nuvens pesadas e cinzentas. Por isso pude chegar até a mureta de concreto e olhar o que acontecia para além do que parecia ser uma mansão. No pátio abaixo, mais pessoas, mais correria, mais trabalho. Levavam coisas, traziam, consertavam partes danificadas na propriedade. Nada de sangue, armas ou luta. Então era o fim?

— Até que enfim acordou — virei-me para poder ver o autor daquela voz; sorri de imediato — E o que há com esse vestido? Parece até que saiu de um hospital — debochou

Era um vestido normal, branco, liso, sem adornos ou bordados — algo que eu não vestia antes.

— Eu estava em uma espécie de hospital, não — apontei para o gesso em meu braço

— E eu não posso exigir de você boa vestimenta nessas horas, afinal — deu de ombros — você não se veste bem nem nas ocasiões normais — outra alfinetada vinda de Aoi

Aquilo não me irritou, longe disso. Vê-lo de braços cruzados, bochechas inchadas em uma espécie de birra, além do vestido azul claro bordado era uma visão que muito me alegrou. Ele estava bem, céus, uma preocupação a menos. Não me contive e o abracei, o que o fez congelar por minha reação repentina.

— Fico feliz que esteja bem — disse, sincera

— Eu também quero um abraço! — quando me afastei do menor, logo fui envolvida pelos braços da loira que me apertou como se não me visse em anos — AAAAA! Eu fiquei tão preocupada!

Miyazono berrava feito criança e tudo o que eu fiz foi rir e retribuir o abraço, da maneira que eu pude, afinal ela me apertava como se eu fosse um urso de pelúcia.

— Ora, Miyazono, se recomponha! — Aoi a repreendeu

A loira se afastou um pouco, segurando meus ombros: — Sério eu — ela pôs a mão sobre minha testa, quase como se tentasse ver se estava tudo bem comigo — Pensei que não acordaria nunca

— Nunca…? — olhei para ela, confusa — Quanto tempo eu estive desacordada?

— Três dias — outra voz se fez presente e, nesse momento, Miyazono me largou, se afastando um pouco.

Eu não a conhecia direito, sabia seu nome, Sayuki. Uma mulher bonita, os olhos deixavam claro o sangue em suas veias e havia algo de hipnótico nela. Mesmo com o contato intenso que tinha com Usei e Aoi, outros dois puro sangue, aquela mulher era de uma áurea intimidadora. Se ainda fosse humana, de certo prenderia a respiração.

— Você deveria ter morrido — aquelas palavras me causaram um arrepio na espinha e, mesmo que fossem duras, eu não desviei meu olhar, tão pouco baixei minha cabeça — Duas vezes. A primeira por ingerir o sangue do Naruko e a segunda — apontou para meu braço — E por duas vezes você ficou viva

Miyazono parecia apreensiva, mais do que eu, Aoi mantinha um meio sorriso nos lábios. Sayuki deu mais um passo à frente:

— Você foi imprudente, não mais do que o Takumi, mais ainda sim — bufou — Mas — deu uma leve pausa — Você foi de grande importância nessa guerra. — ela fez uma reverência e a loira ao meu lado parecia estar vendo um fantasma — Tem minha gratidão e meu reconhecimento, Ayuzawa Misaki

Arregalei os olhos, em pura descrença. Miyazono agarrou meu braço, me balançando por um momento.

— Eu… — a realidade é que eu não sabia exatamente o que dizer, então fui o mais espontânea possível — Desculpe pelo trabalho que dei — quando Sayuki se ergue, tinha um sorriso nos lábios

— Você é exatamente como ele disse — aquilo me fez corar um pouco — Espero poder conhecê-la melhor em tempos de paz

Eu concordei com um aceno e ela se despediu, dando um abraço longo em Aoi. Pela forma como falaram era óbvio que se conheciam há muito. Quando a puro sangue nos deixou, Miyazono voltou a me puxar por meu braço bom:

— Ela se curvou! — suas mãos balançaram em clara ansiedade — Ela se curvou pra você! Misaki do céu!

— O que têm isso? — olhei confusa

— Francamente, sem tato algum de etiqueta — Aoi interviu — e nem de hierarquia. O esperado de você

A loira logo complementou: — É uma honra, não… uma fudendo honra, ter a reverência de um puro sangue — voltou a balançar as mãos — Aliás, ter a gratidão de um!

Ainda parecia tudo muito confuso, talvez fosse por isso que acabei rindo. Estava meio nervosa, meio perdida. De início desconfortável, mas as palavras daquela mulher ficaram gravadas na minha memória.

— Só falta você, Aoi-chan, agradecer a Misaki — a loira provocou com um sorriso brincalhão

— Espere sentada — cruzou os braços

E então logo meu sorriso morreu e uma lembrança me puxou para a realidade. Um dos motivos de tudo ter se iniciado:

— Suzuna! — olhei para a loira — Minha irmã, onde ela está? Está bem? Ela-

— Está bem sim, foi pra casa há um tempo — Aoi se pronunciou — Aquele tal de — pensou por um momento — Hinata, né? Ele a levou

— Eu preciso ir pra casa — mesmo com o peso na consciência, eu precisava daquilo

Precisava ver minha irmã, ele entenderia.

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Foi uma longa conversa com minha mãe até convencê-la de que não estava escondendo nada. De que estava tudo bem e que aquilo no meu braço era só uma contusão no trabalho, por tentar carregar muitas caixas. A parte de eu me esforçar muito e me ferir no trabalho, bom, essa ela acreditou facilmente. Ela sabia que eu era assim, no fim das contas, porém ainda foi bem doloroso manter aquela mentira para ela. Dizer que estava tudo bem. Quando me vi a sós com Suzuna, sentada à porta de casa, me sentei ao seu lado.

— Me desculpe — disse, sentindo um aperto em meu peito, mesmo que ali nada batesse — Eu te pus nesse perigo. Eu… Eu te envolvi nisso, mesmo que você não tivesse nada a ver — fechei minha mão destra em um punho — E no fim das contas não fui eu quem te tirou de lá

— Não precisa se desculpar, nee-san — seu tom era o de sempre, simplório e calmo, um leve sorriso moldou seu lábios

Mas mesmo que ela dissesse que estava tudo bem e que ela estivesse escapado sem nenhum arranhão, ainda sim. Ainda era minha culpa. Eu a abracei, mais forte que pude me atrever e eu pude sentir seu coração, os batimentos eram calmos; Suzuna estava serena. Ao contraste de mim, que sentia-me a ponto de chorar. Foi por pouco que tudo teve um desfecho que não foi uma tragédia anunciada.

— Nee-san, não precisa ficar tão preocupada — eu me afastei, ela ainda tinha aquele sorriso tímido, quase imperceptível — Eu estou bem

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Aoi

Adiei aquela visita o máximo que me atrevi. No fim, era necessário. Antes me sentia estranho e incomodado, por isso não me atrevi a ir até ali. Queria me redimir, queria que estivesse tudo bem antes que eu chegasse até ali. E agora eu sentia que estava bem. A dor e a saudade ainda existiam, sua intensidade havia se modificado, todavia era uma ferida que não teria cura. Eu me acostumei a dor, não a superei de fato — e não iria. Os túmulos a minha frente, os nomes entalhados nas lápides. Meu olhar se perdeu no nome da minha tia e meus olhos lacrimejaram; mais uma vez. Não trajava vestido ou peruca, não me adornei de brincos, pulseiras ou maquiagem. Havia apenas um rosto limpo, um garoto que poderia se passar por um adolescente normal, para qualquer um que me visse de longe.

Um pequeno gesto de respeito para ela, uma última vez, que insistia em dizer que eu era mais bonito daquela forma.

— Você provavelmente me elogiaria ao me ver vestido assim — comentei enquanto deixava uma rosa sobre seu túmulo, havia feito o mesmo com os outros

Era amargo pensar que o tempo havia levado de mim pessoas importantes. Um pedaço de mim a ser levado para terra junto com aqueles nomes.

— Eu.. sinto sua falta — limpei uma lágrima que escorria — Mas eu estou bem, então… — dei um sorriso trêmulo — Então espero que esteja orgulhosa de mim

Senti a mão de Sayuki em meu ombro. O vento gélido foi um uivo rouco naquele lugar, quase como se o vento trouxesse palavras. Tolice a minha. Por fim fiz uma reverência, seguido por Sayuki. Mesmo que um pedaço de mim estivesse ali, enterrado, também havia um pedaço dela em meu coração. E isso era suficiente para me aquecer naquele momento.

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Miyazono

A noite estava gelada e coberta de nuvens. Para mim um tempo agradável. Mesmo que tivesse um ar melancólico ali. Estava sentada em um banco de pedra, em um parque longe da mansão de Usui, ou do Aoi, ou de tudo. Estava pensando, ordenando minha mente, meus sentimentos. Tanta coisa havia acontecido, tantas demandas para lidar, pouco tempo para beber e esquecer dos infortúnios. Encarar a realidade sóbria demandava um tempo para espairecer, ou sentia-me a ponto de perder um parafuso; mais um. Sabia que Usui não precisaria de mim naquele momento, então me permiti um tempo. Tão logo os problemas vieram ter comigo, e o cheiro me dizia que era o mais delicioso dos problemas.

Ele se sentou ao meu lado, apesar da camisa social e da calça de corte fino, ele parecia casual. Ou o mais casual que ele conseguia ser naquele momento.

— Estive te procurando — ele admitiu e eu não contive um sorriso — Preciso de uma companhia para desfrutar um bom vinho

— Ora, eu sei que deve haver alguém mais interessante pra isso — provoquei

— Não mais que você — seu tom sério me fez hesitar

Gerard era um sangue puro, influente, de família nobre e, ao contrário de Takumi, ele era o herdeiro em primeira instância. Seria inaceitável para o conselho que ele se envolvesse, de forma séria, com alguém que não fosse de uma linhagem pura. Ou que ao menos não fosse um nobre. Aquelas palavras me fizeram pensar, por um momento, se ele não estaria levando aquilo muito a sério. Não que isso fosse ruim para mim, céus, eu.. não sabia exatamente do quanto eu gostava dele, mas era certo, queria o pra mim. Poderia ser perfeitamente um desejo insaciável por seu sangue, ou a luxúria de ter para mim um puro sangue, poderiam ser tantas coisas, algumas que iam de oposto a proposta de um amor simples. Não era como Misaki, não parecia ser digna daquela confiança:

— Sabe que não podemos — comentou, deixando o fim da frase morrer

— Eu não ligo — sentiu a mão dele deslizar sobre a sua e, como uma adolescente boba, corei com tal gesto — Eu quero você

O olhei, os olhos arregalados em descrença. O calor que senti por aquelas palavras era carnal, ainda que de certo modo eu sentisse algo mais emotivo, algo que me fez sorrir e tomar seus lábios sem pensar nas consequências. Tinha ido tão longe para manter minha mente limpa, mas lá estava Gerard, abarrotando-me de pensamentos, expectativas, desejos. E mesmo que tudo aquilo implicasse vários problemas no futuro, tudo se resumiu aquele beijo e, bom, o que viesse depois seria deliciosos da mesma forma.

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Hinata

Não pude negar, nem por minuto, o quão feliz fiquei ao receber uma mensagem de Suzuna, pedindo para nos encontrarmos. Era noite, não mais do que nove horas, estava frio, não pra mim, claro. O cheiro de terra molhada era agradável e me fazia relaxar. Estávamos em um parquinho, próximo a casa dela. Eu sentado em um dos bancos do balanço e ela em outro. Suzuna balançava os pés lentamente enquanto eu me remexia inquieto na pequena cadeira.

— Você parece que ainda está preocupado — ela comentou

— É — sorri meio sem jeito — Bom, Gerard-sama dizendo que não há riscos dele estar vivo — suspirei — Ainda tenho certo medo de haver seguidores dele por aí

Eu devo ter feito uma expressão bem fechado, pois quando Suzuna deu um peteleco em minha testa, eu desfiz os vincos em minha testa. Ela parecia tranquilo, até mesmo exalava um ar de felicidade.

— Você e a nee-san se preocupam demais — ela concluiu

— Misaki? Como ela está? — não pude conter a animação ao proferir aquelas palavras

— Ela está bem, deve estar dormindo agora — Suzuna olhou para o céu, a brisa da noite moveu levemente seus cabelos

Vê-la daquela forma deu um certo aperto no meu coração. Ora, um erro meu e o pior poderia ter acontecido. Franzi os lábios, mesmo que ela dissesse que aquilo era uma preocupação em demasiado, ainda sim era incômodo e eu não conseguia simplesmente ignorar.

— Você… parece que não tem medo — comentei

Pude ouvir um suspiro, mesmo que tênue, vindo dela:

— Eu tive, muito — os dedos dela deslizaram pelas correntes do balanço — Mas eu soube que estaria tudo bem quando te vi. Então… mesmo que venham outros atrás de mim — ela hesitou por um momento, mas completou com o mesmo ar simplório de sempre — Eu sei que posso contar com você

Senti meu rosto ferver e não contive um sorriso. Por um momento até senti meus olhos arderem. Era uma felicidade tão delicada, tão preciosa, que eu não queria que acabasse. Nunca. E foi assim que me levantei em um sobressalto:

— Eu irei te proteger, Suzuna — fechei a mão em um punho, convicto em minhas palavras — É uma promessa!

Ela sorriu. O sorriso mais lindo do mundo. E eu definitivamente o protegeria.

////

Misaki

Olhar aquilo no espelho era incômodo e, por isso, me vesti. A pele ainda molhada, os cabelos ainda pingando. Nunca foi do tipo vaidosa e, no fim das contas, não havia um incômodo estético no que eu via. Apenas as lembranças atreladas aquilo me torturavam verdadeiramente. Agora eu podia lembrar perfeitamente. Os dentes do meio lobo meio homem a se fechar no meu braço. O grito do Usui, sangue por todos os lados, os caninos a atravessar minha pele, minha carne, minhas forças. Sayuki não foi dramática ao dizer que eu, por pouco, não morri. Perdi sangue em demasia e por um triz não havia perdido meu braço. Foi reflexo minha reação de cravar as unhas nos olhos dele. O máximo que consegui fazer, me debati, lutei, me soltei. E conforme a adrenalina ia se dissipando, a dor crescia.

Também me lembrei dos segundos antes de desmaiar, e do sangue do Usui em meus lábios, me dando forças o suficiente para manter minha vida. Fui para o quarto, estava apenas de blusa de manga e uma calcinha. Vestir-me com um gesso era trabalhoso. Estava tão imersa em pensamento que tomei um susto gigantesco ao ouvir batidas no vidro da janela. Ora, meu quarto era no segundo andar e, quando eu vi, Usui estava do lado de fora da janela. O susto foi tamanho que por um momento me esqueci da pouca roupa que cobria-me. Abri a janela o encarando:

— Você é maluco ou o que? — contive minha voz para não chamar a atenção da minha mãe ou irmã

— Não vai me convidar para entrar? — Usui provocou, mas tão logo adentrou pela janela

O cúmulo do abuso foi ele, além de ter dado uma boa olhada em todo meu quarto, ainda se sentar em minha cama. Cruzei os braços, estreitando meu olhar. Tudo bem, eu estava feliz por vê-lo, e eu nem precisava perguntar se ele estava bem, dada a postura largada e habitual de sempre, ele estava; um alívio. Ele me olhou e, quando percebi que me analisava de cima a baixo, parando um bom tempo a olhar minhas coxas, lembrei do estado que me encontrava. Corei no mesmo instante e correria para colocar alguma calça, todavia ele me puxou, trazendo-me para próximo de si.

— Vestida desse jeito, estava me esperando, Ayuzawa? — ele provocou

— Não seja idiota — gaguejei, mesmo que já não lutasse para me afastar

Sentia falta dele, isso incluía seus toques. E até mesmo suas provocações. E mesmo que eu não admitisse, queria estar ali, em seus braços. Usui encostou o queixo em meu colo, era acolhedor. Mesmo hesitante, baixei minha guarda, levando uma das mãos aos cabelos dele e movendo os dedos timidamente pelos fios. Ele se aproximou mais e eu jurei que me beijaria, porém me assustei com as mãos dele a deslizarem por baixo da minha blusa. Eu pensei em resistir, mas aqueles olhos, vidrados nos meus, anularam minhas forças; não tive reação alguma. O tecido foi deslizado por meus braços e caiu ao chão. Os dedos dele tocaram minha clavícula e desceram lentamente. Até que eu tremi.

Levei as mãos na fútil esperança de esconder aquela marca horrível. Ele não me deixou escondê-la e, uma vez que afastou minhas mãos dali, a fitou. O indicador e o médio tocaram a pele roxa, a marca acima do meu seio esquerdo. Dali podia-se ver as veias do meu corpo, algumas, num tom escuro que saiam da marca arroxeada.

— O sangue dele — murmurou Usui — Ainda está em você — franziu os lábios — Lóris queria fazer uma cirurgia, mas… não tínhamos certeza se isso funcionaria de fato.

Encarei por um momento aquela marca. Então ali não se tratava de uma contusão ou ferida. Era o sangue de Naraku, entranhado, preso, vívido em mim. Por isso me incomodava tanto, por isso era como se eu ainda sentisse aqueles dentes em minha pele.

— O sangue te deu forças, mas também atrasou seu processo de cura — ele concluiu, os dedos dele afagavam minhas costas lentamente

— Então não tem jeito de tirar? — ele negou — E o que poderia ter me matado, me salvou? — ri da ironia latente que aquilo tinha

— Me desculpe por- eu o abracei.

Não me importei com nossos corpos nos colando, não me importei de estar apenas de calcinha ou de estar tão próxima a ele. Eu queria isso. Eu desejava por isso. As mãos capturaram minha cintura e meus lábios foram tomados. Sentei-me em seu colo, sentindo o sabor de sua língua e sua pele a roçar na minha. Era uma fome implacável, era uma necessidade absurda. E apenas ele poderia saciar. Quando afastamos os lábios ele segurou minha nuca, me guiando até seu pescoço. Ali eu teria o desejo e a fome tão bem atrelados que podiam ser um único sentimento. Cravei minhas presas em sua pele, senti seu sabor, minha garganta clamou por mais. Era como se eu estivesse em jejum por anos, como se eu estivesse desprovida de qualquer líquido por séculos. O sabor em meus lábios sublime e viciante. Quando desfiz a mordida, murmurei contra sua pele, o carmesim em meus lábios escorria com gana.

— Eu amo você — não pensei, apenas disse essas palavras

E quando olhos nos olhos dele, vi o meu desejo, o meu amor, refletido em seus orbes. Ele me beijou, um leve selar de lábios:

— Eu também te amo, Misaki.

Mesmo que a eternidade ainda fosse um conceito abstrato demais para que eu pudesse assimilar a minha própria vida, eu já o tinha em mente. Era a eternidade que eu desejava para estar ao lado dele, para viver com ele, para desejá-lo. Ele, apenas ele, poderia matar minha sede. Apenas ele tinha meu amor, meu corpo, minha alma.

Eu o amo e aquilo era o que importava. E a única certeza que tinha da eternidade a minha frente.

Notas finais
Se alguém ainda estiver ai, obrigada. E desculpe.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!