The True Story Of Nat

35 O aviso de um anjo.


Notas iniciais
Esse capítulo é muito especial.

Já havia me esquecido de como Goiânia era quente no verão. O sol já havia molhado toda a minha camisa e até agora nada. A única coisa que eu e Gael conseguimos foi uma sombra em um banco descascado em uma praça caindo aos pedaços.

— Que inferno! Rodamos a cidade inteira pra merda nenhuma. — bufei de ódio.

— Você achou o que? Que iríamos encontrar tudo em um dia e voltar a tempo de assistir a novela das nove? Acorda! Até porque achei o rapaz da companhia telefônica muito suspeito.

O babaca do Gael tinha razão. O filho do dono da antiga companhia telefônica quase desmaiou quando falamos o nosso nome.

— Você quer dar uma prensa no moleque? — disse já imaginando meus dedos esmagando o pescoço magro do menino.

— Está ficando doido? Ele gritaria tanto que chamaria a atenção da cidade inteira. Até porquê é o pai que é da nossa época.

— Então vamos apertar o pai. Sabe lá o que o maldito está escondendo.

— Vamos ser racionais e agir com cautela. Se levantarmos suspeitas, ninguém vai falar nada pra gente. Me chama de louco mas aí tem coisa. Quem armou essa pra nós dois era barra pesada porque eu nunca vi tanto medo como naquele menino.

Mais uma vez Gael tinha razão. O garoto estava tranquilo com cara de quem fumou uns baseados quando perguntamos sobre a antiga loja, já que a nova era de skates e roupas estranhas. Ele disse com o maior orgulho que havia mudado tudo e que seu pai finalmente acatara sua idéia de se livrar da companhia telefônica.

Quando ele escutou nossos nomes para anotar o recado, vi que ele não só perdeu a voz como entrou em pânico. Rápido como um raio ele se livrou da caneta e do papel dizendo que seu pai havia viajado e que não voltaria por tão cedo.

— Lembra aonde ficava a casa do dono da loja? — Gael balançou a cabeça afirmativamente. — Mais tarde vamos lá. Quero ver se o velho vai está viajando mesmo.

— Primeiro vamos tomar banho e almoçar. Não suporto mais esse calor.

Seguimos até o carro. Enquanto caminhávamos percebi que algumas pessoas nos encaravam e cochichavam. Gael também notou,ele me olhava de forma indagadora.

— Que diabos essa gente olha tanto pra gente, Lobão? Você fez alguma coisa?

— Eu é que sei! Olha, se antes eu tinha dúvida da armação, agora tenho certeza. Alguém fez alguma intriga.

Quando chegamos ao hotel, tomamos um longo banho e comemos como dois animais. A viagem toda estava acabando comigo e a quimioterapia estava destruindo minhas energias. Logo nem mesmo ela faria efeito.

— Vamos? — Gael disse decidido.

— Vamos! — tentei bancar o forte mas o meu corpo pedia cama.

Invejei a saúde de Gael. Sabia que ele estava cansado mas nada se comparava a mim.

Dirigi o mais rápido possível. Confirmando minhas suspeitas o carro do velho dono da companhia estava na porta. Sorri para Gael. Esperaríamos a melhor hora para atacar.

Convenci Gael ficar de olho enquanto eu cochilava. Precisava de uma pausa ou teria outro chilique e eu não me perdoaria se isso acontecesse na frente do imbecil.

— Filho? Acorda! Preciso muito falar com você.

Quando abri os olhos, vi que não estava no carro mas sim em um campo cheio de flores. Me enchi de paz.

Avistei minha mãe ao longe. Era a mesma de quem eu me lembrava. Ainda possuía os mesmos olhos azuis, os cabelos negros até a cintura e o sorriso mais lindo que eu já vi.

Corri o mais depressa que as minhas pernas permitiam. Seus braços estavam abertos. Há anos que não tinha o prazer de abraça-la.

Senti o seu cheiro. Nem mesmo as flores que nos rodeavam eram tão cheirosas quanto minha doce mãe.

— Achei que nunca mais te abraçaria. Eu senti tanto a sua falta mãe. — mal conseguia falar diante a tanta emoção.

Minha mãe se ajoelhou me obrigando a fazer o mesmo.

— Meu filho, me ouça! Há muito tempo eu tento me aproximar para falar contigo mas você nunca permitia.

— Como assim!? Mãe eu jamais te afastaria de mim.

— Seu coração estava tão cheio de dor e ódio que não deixava você me ver. Eu sempre via o seu sofrimento de longe e nada podia fazer mas graças a Deus estamos aqui.

Não posso demorar, por isso me ouça com toda a atenção.

— Quero ouvir sua voz,mãe! Não importa o que seja.

— Meu amor, todo o sofrimento tem uma razão. Fizeram uma maldade muito grande com você e com o Gael. Invejaram a amizade dos dois e tiraram proveito da dor de vocês.
Você precisa perdoar todos eles meu filho ou não encontrará a paz. Por isso você sofreu tanto. É a vida testando sua força e o seu coração.

Por mais que eu ouvia, não entendia o que minha mãe queria dizer.

— Eu não compreendo, o que o sofrimento que eu passei com o Gael tem haver com a minha morte?

— Está tudo ligado. A sua relação com a Nat, a paternidade da Karina e até mesmo o Miguel. Aos poucos você verá tudo.

— Mãe, eu não tenho tempo pra ver nada disso. Vou morrer a qualquer momento e eu só estou aqui pela Nat.

Minha mãe balançava a cabeça negativamente.

— Não. Você está aqui pelo Gael. O seu coração clama pela amizade dele. A Nat é só uma desculpa. A sua alma está despedaçada e você está lutando pela vida por ele. Não quer partir e deixá-lo sofrendo. Pedi a Deus que pudesse buscá-lo para tirá-lo desse sofrimento mas ele não permitiu.
Deus está te dando uma chance para ficar comigo um dia mas para isso é preciso que perdoe seus inimigos.

— Não sei se eu consigo, mãe! O seu filho não é mais o mesmo. Não consigo ser aquela pessoa boa novamente.

— O Gael vai te ajudar. Não fique longe dele, meu filho! Ele será a sua luz. O seu caminho até mim.

A voz da minha mãe foi ficando longe e sua mão foi sumindo das minhas. Entrei em pânico! Queria ir com ela e sair daquela vida desgraçada. Eu queria a paz!

Comecei a gritar por ela. Senti as mãos de alguém me sacudindo. Ouvia a voz da minha mãe ficando cada vez mais longe a medida que a voz de Gael ficava mais forte.

— Lobão! Ei, o que foi!? Respira!

Estava mais afoito que nunca. Minha mãe estava diante dos meus olhos mas havia sido um sonho. Mesmo assim era tão real, que ainda sentia o cheiro e as mãos dela.

— Nada! Foi só um sonho.

— Foi com a Dona Amélia? Você gritava por ela.

Gael parecia preocupado. As palavras da minha mãe martelavam minha mente.

— Esquece isso! Cadê o velho? Ele deu o ar da graça?

— Sim! Ele acabou de chegar em casa. Fui te acordar quando você começou a gritar a pleno pulmões.

— Você atrapalhou meu sonho! Aliás você só presta pra isso. Pra atrapalhar a vida alheia.

Gael não me respondeu. Talvez chocado com a minha atitude.

Saí do carro sem dar explicação a ele. Me aproximei da casa enquanto Gael me seguia sorrateiro. Me lembrei de quando roubamos o bolo de cenoura do lanche, o que nos rendeu uma semana de castigo.

Toquei a campainha umas duas vezes. Vi a silhueta de uma mulher vindo nos atender.

Quando a mulher abriu a porta quase derrubou a travessa de salada de frutas que segurava. Ela tentou bater a porta mas perdendo a paciência forcei a entrada e quase derrubei a mulher.

Gael beliscou a minha costela me reprimindo e eu devolvi pisando dolorosamente no seu pé.

Quando invadimos a sala, o ex dono da companhia telefônica tentou correr mas Gael era rápido. Prendeu o homem em um mata leão em um piscar de olhos.

— Lembra da gente? Costumávamos usar sua linha telefônica pra ligar pra nossas namoradas, tudo bem?

O homem tentava a todo custo se soltar mas Gael era forte. Ele não se safaria fácil.

O moleque que gostava de maconha estava de fones e tão absorto no video game que nem notara a nossa chegada.

Agarrei o braço da mulher que ainda teimava em segurar a travessa e a joguei de forma violenta no sofá. Gael me lançou um olhar de morte. Talvez com medo de que eu a machucasse.

— O negócio vai funcionar assim: Conta tudo e não chama a polícia que eu e Gael vamos embora e você vai comer a salada de frutas que sua amada esposa preparou com todo o amor. Caso você decida não colaborar, o Gael vai apertar mais ainda esse golpe e a ultima coisa que você vai ver é o seu filho e a sua mulher sendo espancados até eu cansar.

Como eu previa a mulher começou a se desesperar. Chorava e implorava que o marido contasse tudo. Com o escândalo, o moleque acabou escutando mas ao invés de correr ele simplesmente ficou grudado na cadeira do computador com uma cara mais apavorada do que hoje de manhã.

— Vai falar ou não vai!? — Gael apertava mais ainda o pescoço do pobre velho.

— Eu conto! Eu conto! — sua voz falhava a cada palavra.

Gael froxou o golpe mas nada que fizesse o homem conseguir fugir.

— Eu recebi uma grana alta. O suficiente pra abrir a loja de skates e mudar de vida. Não me pergunte quem foi, eu juro pelo meu filho e minha esposa que eu não sei quem me deu o dinheiro, porque foi um moleque de recados que me passou a proposta. A pessoa só me disse que eu só tinha que bloquear ligações só isso.

Olhei para o Gael, que por sua vez apertou novamente o golpe. Ele também queria mais respostas.

— Se você não contar tintim por tintim... — grudei nos cabelos da mulher. O homem e o moleque do baseado entraram em pânico.

— Pelo amor de Deus, se acalma! Eu vou dizer tudo o que sei. Só não machuque minha esposa!

Gael me olhava com súplica. Larguei a mulher novamente que abraçou o filhola chorava demais.

— Eu bloqueei as ligações do Rio de Janeiro para sua casa e foi só isso. O Gael ligava e eu não passava as ligações. A mesma coisa eu fazia com você. Um amigo meu no Rio de janeiro fez a mesma coisa também.

Assim vocês nunca manteriam contato. Rachamos o dinheiro e ele abriu um pet shop já eu abri a minha loja.

Gael me olhava incrédulo. Nem mesmo ele acreditava no tamanho da sacanagem que fizeram com a gente.

Perdendo minha paciência, grudei o moleque pela camisa. Ele tentou gritar mas lhe meti um tapa em seu rosto. Gael me gritou fazendo voltar a razão. Aquele não era o foco.

— Seu filho de uma mãe! Por que diabos você nunca desfez o mal entendido!?

— Juro pela alma do meu filho que eu tentei! Liguei para meu amigo e ele me ajudou a encontrar vocês mas quando eu fui ao seu encontro em sua loja para irmos aonde vocês estavam, o encontrei cravado de balas. Ele estava morto!

Nem mesmo Gael aguentou a pose de mal. Ele largou o homem e sentou no sofá. Aquela era a certeza. Estávamos mexendo com gente perigosa.

— Morto!? — disse aquela palavra como se cuspisse marimbondo.

— Só tive noção da onde havia me metido quando enterrei meu amigo. Alguém descobriu que contariamos tudo. Aquilo foi queima de arquivo! Em pânico voltei para Goiânia. Cuidei da minha loja e deixei minha esposa e meu filho de sobreaviso. Se alguém viesse atrás dessa história negariamos até a morte. Então vocês apareceram hoje na loja e meu filho me avisou agora a pouco. Já estava programando a fuga.

O homem parecia desesperado. Seja lá quem matou o amigo dele estava disposto a tudo para que o segredo jamais fosse descoberto.

— Algumas pessoas da cidade sabem o que meu marido fez. — a esposa do ex dono de companhia telefônica disse em um fio de voz. —Elas foram tão ameaçadas quanto nós, pois seus filhos também trabalharam na companhia. Eu quase morri quando soube que você foi para casa recentemente. Achei que viria aqui mais cedo ou mais tarde.

— Não se preocupe! Eu e Lobão vamos embora e nunca mais vocês irão nos ver novamente.

Gael me indicou a porta com a cabeça. Estava fervendo de ódio mas eu entendi. Os pobres coitados caíram em uma armadilha e só se deram conta tarde demais.

Antes de saírmos o homem segurou meu braço.

— Se puder, me perdoe! Juro que eu achei que era uma coisa sem importância. Um golpe idiota ou um trote para irmãos. Nunca me passou pela mente que faria tanto mal aos dois. Vi vocês crescerem e me sinto um lixo de ser humano. Só peço mais uma coisa: tomem muito cuidado! Essa pessoa que fez tamanha maldade não têm escrúpulos e é capaz das piores crueldades, se protejam!

Entrei no carro evitando olhar Gael. Ele nunca havia me deixado. Armaram contra nós dois mas quem? Quem foi o desgraçado que acabou desse jeito comigo?

Um ódio foi crescendo dentro de mim como um veneno perigoso. De repente me veio as palavras da minha mãe: eu precisava perdoar mas como? Como eu perdoaria o monstro que destruiu a minha vida?

Notas finais
A mãe do Lobão é a coisa mais linda.