The True Story Of Nat
38 Eu não queria te fazer sofrer.
Notas iniciais
Lobão não me dava notícias havia três dias e eu já estava ficando preocupada.
Quando deixei que eles partissem naquela missão, o meu coração doeu muito. Sabia que eles iriam voltar ainda mais machucados, não só por investigar o passado mas principalmente porque Lobão iria revelar a terrível verdade sobre a sua doença.
Estava quase me distraindo com os meus próprios pensamentos, quando ouvir os berros da minha irmã do meio com o seu namorado. Aliás os gritos deles ultimamente eram bem comuns, ainda mais na academia. Bianca adorava platéia.
— O grande xis da questão é que você faz questão de manter essa lutadora maldita entre a gente! Porque você foi treina-la? Pedia ao Cobra ou ao Luís, já que eles são da mesma laia.
— Pela milésima vez, Bianca! Eu tenho a OBRIGAÇÃO de treinar todos os alunos. O Mestre me deixou responsável como sempre e não o Luís ou qualquer outro. E quem ponhe a Nat entre nós dois é você, falando dela o dia inteiro.
— Se ela não fosse a sua ex eu não precisava! Eu não fico colocando o João e olha que eu o beijo sempre nas peças mas sei diferenciar.
— Exatamente, Bianca! Você beija o João e eu não posso ter ciumes mas da Nat que já está namorando, você inventa coisas que não existem!
— Será que não existem mesmo? Eu não confio naquela lutadora, nunca vou confiar.
— Ou você não confia em mim? Sinceramente, quando eu e Nat conversamos e eu decidi ficar com você, eu achei que iríamos superar tudo e advinha? Não superamos. O seu ciúmes é tão doentio que eu estou começando a me arrepender.
— O que quer dizer com se arrepender?
Fingindo que tirava as ataduras, tentei distrair os ouvidos pra não ouvir a resposta de Duca.
— Arrependido de ter investido tanto em você. Devia ter ficado com a Nat! Pelo menos nunca me cobrou nada, mesmo sabendo que eu amava você. Ela respeitava nossa história ao contrário de você e acima de tudo, não tinha ciúmes porque havia confiança entre nós.
Houve uma breve pausa terrivelmente dramática, onde com certeza a academia inteira me queimava com os olhos.
— Então volta pra ela! — percebi que finalmente Bianca se rendeu as lágrimas.
— Não posso! Lobão reconquistou o que era pra ser meu.
Duca saiu cuspindo fogo quase derrubando Karina no caminho. Antes que Bianca jogasse o seu veneno em mim, saí o mais rápido possível.
Já estava alcançando o chuveiro, quando Karina abriu a porta com tudo. Pela fúria em seus olhos ela me culparia.
— Bianca e Duca brigaram por sua causa, sabia? Você não tem vergonha não?
— Olha só, quem não tem vergonha é você pra vim até aqui falar o que não sabe! Não tenho culpa se a sua irmã é neurótica. Eu e Lobão estamos juntos e tentando ser felizes. Agora se a sua irmã gosta de manter o meu fantasma vivo no relacionamento dela, não é problema meu! Faz assim, vai treinar e para de focar na vida alheia. Percebi que não está treinando como devia e se eu for selecionada eu vou pra cima de você com tudo! Cansei de bancar a irmã legal. Agora saí da minha frente!
Decida a tomar banho em casa. Me peguei sentindo um ódio tão grande, que queria botar fogo naquela academia com tudo dentro. Mesmo longe do Duca eles não me largavam em paz!
E por falar em Duca, ele estava sentado na praça com a cabeça baixa. Engolindo toda a pena que eu sentia dele e me aproximei com a fúria de um leão. Já estava farta daquilo.
— Eu não aguento mais ser hostilizada por sua causa! — disse enfiando o dedo em seu peito. — Já não basta o inferno que você fez na minha vida? Agora eu sou obrigada a escutar discussão da sua namorada e pior ainda, a Karina agora resolveu vir também tirar satisfação.
Há essa altura a praça inteira parou pra olhar a briga, inclusive alguns alunos da Ribalta e da academia que já estavam saindo da aula.
— Nat, eu sinto muito! Eu não queria te expôr mas eu não menti! Estou arrependido de ter ficado com a Bianca. Se eu pudesse voltar atrás...
Meu coração deu um pulo involuntário. Duca queria voltar. Ele queria ser meu! Mas na minha cabeça uma vozinha disse não. Eu tinha prometido uma chance a Lobão e Duca era um amor incerto.
— Devia ter pensado nisso! Eu era sua e você quis a Bianca! Eu e Lobão estamos bem e não quero terminar com ele.
Aquilo era verdade! Desde que Lobão partira eu inesperadamente havia sentido a sua falta.
— Mas você não o ama! Nat me dá uma chance? Só uma... Sei que ainda gosta de mim, por favor?
Se eu estava surpresa, nada se comparava o pessoal que assistia a tudo. A Ruiva amiga da Bianca estava branca feito cera, Karina estava completamente desnorteada e Cobra olhava pra mim e Duca como se estivesse acompanhando uma partida de tênis.
— Eu ainda te amo muito mas não significa que queira voltar pra você! Lobão estragou a minha vida mas faz de tudo pra consertar. Ele me ama de verdade apesar de tudo, aceitou cada traição e muda por mim todos os dias. E você? O que fez por mim? Hoje você e Bianca estão enfrentando uma crise mas que garantias eu tenho que você está disposto a me amar?
— A única garantia que posso te dar no momento é isso...
Sem me dar tempo pra nada, Duca me beijou. Tentei me soltar mas o meu coração não deixou! Cada parte do meu corpo queimava como se eu estivesse sendo consumida por chamas invisíveis. O dragão adormecido no meu peito rugia.
Quando finalmente minha razão falou mais alto, o empurrei com força. Não podia me deixar levar daquele jeito. O que eu Duca tivemos foi lindo mas foi só na minha cabeça.
Eu ia dizer isso quando percebi que ninguém estava olhando pra nós dois, aliás nem mesmo ele estava olhando pra mim mas para algo que estava mais ao longe.
Assim que virei senti o chão fugir dos meus pés.
Lobão estava parado ao lado da porta do carro de Gael e pelos olhos vermelhos e a expressão homicida ele com certeza presenciou o beijo que jamais deveria ter acontecido.
Corri o mais depressa que pude, gritei o nome dele mas em vão. Lobão adentrou no primeiro táxi que parou pra ele.
Voltei desnorteada ignorando Gael e Duca que tentavam me fazer voltar. Subi na minha moto e o segui desesperada! Não podia perdê-lo!
Podia parecer loucura mas a última coisa na face da terra que eu queria era magoa-lo de novo. Havia algo na expressão dele que arrebentou o meu coração.
Cheguei no apartamento e nem esperei o porteiro me anunciar. Subi as escadas desembalada e esmurrei a porta. Ele precisava me ouvir, eu tinha que explicar.
Mas ele não respondia, por mais que eu implorasse não obtive resposta.
Meia hora depois, sentada no chão exausta de tanto bater, comecei a estranhar o silêncio dele. Lobão nunca foi do tipo de ver uma traição e ficar por isso mesmo.
Desci as escadas e ameacei o porteiro de todas as formas possíveis pra que ele abrisse a porta. Quando finalmente ele decidiu me ajudar e adentramos o apartamento, vi uma das cenas mais horríveis da minha vida.
Lobão estava desmaiado no chão coberto de sangue. O seu nariz e boca estavam empapados e ele estava branco feito cera.
Desesperada chamei a ambulância, enquanto o porteiro tentava estancar o sangue que não parava. Quando o socorro chegou, eles tiveram que reanima-lo.
Agarrando a minha fé, pedi a Deus que não deixasse ele morrer sem me perdoar, até que depois de três tentativas, o seu coração voltou a bater.
Tremendo dos pés a cabeça, o acompanhei na ambulância. Quando chegamos, eles o levaram para dentro enquanto Mauro tentou me acalmar e pediu que eu chamasse alguém pra ficar comigo.
Sem pensar, liguei para Cobra. Ele não me negaria ajuda, eu tinha certeza.
Uns quarenta minutos depois, não só ele mas quase toda a família veio até a mim. Gael, Dandara, Cobra e João estavam presentes. Tentei pensar em uma desculpa mas meu pai foi categórico com um já sei de tudo.
Quanto tempo ficamos abraçados em orações eu não fazia idéia, quando Mauro retornou com uma cara de velório.
— Ele está vivo! — soltamos o ar dos pulmões, aliviados. — Mas o estado dele piorou muito! Ele passou por algum choque?
Não tive forças pra responder.
— Em todo caso... —disse Mauro notando meu constrangimento. — Lobão está em um estágio muito perigoso e ele pode nos deixar a qualquer momento. Não vou enganar vocês. Ele está morrendo e tem pouco tempo.
Sentei no sofá da recepção a procura de apoio. Não podia perdê-lo assim, não podia.
— Ele está estabilizado e reagindo bem e se ele continuar assim, talvez em uma semana ele tenha alta. Porém infelizmente, depois dessa hemorragia cerebral, ele vai ficar com alguma sequela.
— Que tipo de sequela? — Gael perguntou desesperado.
— Esquecimentos, perda de reflexo ou até mesmo, cegueira.
Comecei a chorar desesperada. Cobra me abraçou, tentando dar consolo, enquanto Dandara tentava sustentar Gael.
— Posso ficar com ele? Por favor! Eu deixo ele descansar, eu juro!
— Infelizmente não posso! Lobão não quer ver ninguém. — Mauro colocou a mão no meu ombro, tentando me consolar. — Dê um tempo a ele. Uma hora Lobão vai voltar pra casa e com certeza vai precisar dos seus cuidados. Mas se você quiser, posso te deixar vê-lo pelo vidro.
Assentindo, segui Mauro até o quarto em que Lobão descansava de todo o sofrimento que lhe causei.
Chorando em desespero, jurei para Deus que nunca mais iria traí-lo e que não iria abandona-lo até que a morte finalmente o tirasse de mim, para todo o sempre.
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