The True Story Of Nat
37 A morte de nós dois.
Notas iniciais
Era hoje! Lobão não iria me escapulir. Já estava tudo planejado. Eu iria segui- lo naquela noite para descobrir o que tanto ele fazia na rua de madrugada que retornava tão debilitado.
Tinha que agir naturalmente. Se ele desconfiasse jamais teria uma nova oportunidade.
— Dia'! — sentei na mesa próximo a dele e havia o banquete de sempre.
— Está bancando o coleguinha agora, porque? E já deixei claro que não quero você perto.
— Bom, nós já havíamos decidido sobre o café da manhã e chegado a conclusão de que você não tem estômago pra tudo isso. Quanto a ser seu coleguinha, já passamos dessa fase. Estamos aqui em uma missão.
Lobão espetou com uma fúria tão grande o pedaço de manga, que ela se despedaçou ainda mais.
— A sua mulher ligou. Parece que a fresca da sua filha vai fazer uma peça essa semana. Avisa pra sua amada Dandara que eu ainda não aprendi a matar por telefone e que ela não precisa se preocupar por enquanto. — ele sorriu ameaçadoramente.
Não iria cair nas provocações dele. Com sorte teria um trunfo nas mãos em poucas horas.
O telefone dele tocou. Fingi não dá atenção mas apurei bem os ouvidos. Reconheci a voz da Nat do outro lado da linha. Saí o mais depressa possível! É demais pra mente de um pai escutar conversas íntimas de sua filha com o namorado, ainda mais sendo ele o seu ex melhor amigo.
Um tempo depois ouvi batidas secas na porta.
— Porque bateu? Não sabia que era tão educado.
— Bati e não foi por educação mas por que quem está pagando isso aqui sou eu e também porque não queria topar com você se trocando! Vamos fazer o que hoje?
— Em relação a investigação? — Lobão assentiu. -— Nada! Pelo menos não agora. Prometi a Bianca que estaria lá na apresentação. Em todo caso acho melhor começarmos a investigar lá agora. O que tinha que dar aqui já deu. Se ao menos você fosse dar uma prensa no velho Rubens!
— Já te disse que aquele velho está caducando! Otário é você que caí nas esparrelas dele! Vamos embora então. A gasolina é sua e eu dirijo.
— Vamos amanhã. O meu cartão ainda não foi liberado pra colocar a gasolina.
Lobão riu com desdém, provavelmente da minha falta de dinheiro.
Mal sabia ele que eu não só tinha o limite do cartão, como dinheiro suficiente pra pagar gasolina de ir e vir duas vezes. Era uma desculpa. Queria só mais uma noite para ver o que ele faria.
O dia se arrastou como se todos os relógios tivessem combinados de andar em câmera lenta.
Comecei a imaginar como eu faria para pega-lo. Lobão não ia até meu quarto pra verificar se eu estava dormindo. Bastava eu fazer muito silêncio e ele iria concluir que eu estava travado no sono. Depois era só apanhar um táxi que eu já deixaria de prontidão, assim que ele saísse pelo elevador, eu pegaria a escada. Não havia muito degraus para descer.
Quando bateu meia- noite e meia, eu desliguei a tv, despi o pijama e coloquei roupas de sair. Eu já havia pedido o jantar e fui atender com roupas de dormir. Ele com certeza iria achar que eu não saíria mais. Me embrulhei nas cobertas até o pescoço e aguardei.
Como um gato pisando macio, vi ele abrindo a porta devagar para não fazer barulho. Levantei pé ante pé, assim que ele bateu a porta eu saí atrás rezando pra ele não me ver.
Ignorando o peito ardendo pelo esforço, desci desembalado as escadarias. Quando cheguei embaixo quase dei de cara com ele saindo do elevador mas Lobão estava tão absorto nos seus pensamentos e com uma certa tristeza no olhar que nem reparou em mim.
Assim que ele entrou no carro, eu já estava no táxi. Joguei umas notas a mais para o motorista pra ele não o perder de vista.
De repente me veio uma sensação terrível. Quanto mais ele dirigia pra longe do hotel, mais eu tinha o pressentimento ruim de que aquele táxi me levaria para um precipício.
Finalmente Lobão foi diminuindo a velocidade mas havia algo estranho.
Eu havia imaginado uma boate cheio de mulheres ou que ele fosse se encontrar com algum barra pesada mas jamais me passou pela mente que ele fosse a um hospital.
Talvez a sensação de encolhimento das minhas entranhas foi de imaginar Lobão visitando um ente querido em leito de morte nas madrugadas, obviamente sem querer compartilhar aquele sofrimento comigo.
Pedi que o taxista me esperasse. Só queria confirmar quem era a pessoa que Lobão queria confortar naquela situação.
De repente li o nome do hospital e uma pontada fria como gelo despertou no meu coração! Aquele lugar era especializado em pessoas com câncer. Seja lá quem fosse a pessoa que estava passando por aquele sofrimento, merecia toda a atenção de Lobão naquele momento de dor.
Avistei ele a pouca distância. Era melhor esperar. Assim que ele se afastasse perguntaria a atendente aonde ele ia.
Uma mulher bonita estava recepcionando o hospital. Imaginando as piores torturas que Dandara faria comigo se me pegasse dando em cima da funcionária mesmo que pra obter informações preciosas, me aproximei.
— Boa noite! — dei o meu melhor sorriso para não parecer tão suspeito.
— O meu amigo acabou de entrar e deixou o celular comigo. Posso entregar?
A funcionária me deu um sorriso de derreter geleiras e disse em um tom informal que com certeza a profissão não exigia.
— Eu não posso deixar você entrar mas tem que me prometer que não vai dizer a ninguém que foi eu que deixou, caso seja pego.
Pedindo a Deus que jamais deixasse escapar nada daquela situação pra minha esposa, me dirigir pra o saguão da enfermaria.
As tontas fui procurando por ele por toda a parte. O hospital para o meu azar era enorme.
Já perdendo as esperanças, vi um faxineiro ao longe. Se ele não me desse uma boa informação eu iria desistir.
— Boa noite. Estou procurando um amigo. Ele é pouca coisa menor que eu, olhos azuis e — engoli em seco. — se parece comigo, você o viu?
O rapaz me encarou por uns dois minutos. Percebi que ele mordia a língua, como se estivesse travando uma imensa batalha para me dar a informação.
— O senhor já tentou a ala da quimioterapia intensiva aqui do hospital?
— Não! Aonde fica? — se aquele rapaz continuasse me olhando daquele jeito, como se eu fosse um dos moribundos daquele hospital eu iria arrembentá-lo.
— Melhor eu ir com o senhor até lá.
Caminhamos lentamente pelo hospital até a tal ala de quimioterapia.
— Olha, algumas pessoas vem pra cá em segredo, com medo de contar pra família, acha que fazendo isso estão protegendo e que eles vão sofrer menos.
Não estava entendendo o motivo daquela conversa. Será que ele conhecia Lobão e a trajetória com o ente querido com câncer?
— Chegamos. Não sei o que o senhor vai ver aí mas respira fundo! Nessas horas a calma ajuda os pacientes. Eles já estão desesperados o suficiente. Só precisam de compreensão por ter omitido uma dor dessas.
Fiquei completamente desorientado com as palavras do rapaz. Ele conhecia o Lobão, deduzi. Talvez o tivesse visto várias vezes ali, apertando a mão do seu amigo ou amiga, ajudando com palavras de conforto, já que não era possível fazer mais nada.
Fazendo o mínimo de barulho pra não pertubar a paz dos pobres enfermos, adentrei a ala hospitalar.
Era um lugar calmo e extremamente limpo. Percebi que ali era um mini saguão onde havia portas e em cada porta uma janela para o acompanhamento médico.
Nesse ponto, hesitei. Senti uma dor inexplicável, como se algo apertasse meu coração com uma mão de ferro.
Pela primeira vez senti um pânico como se alguém ameaçasse a vida dos meus filhos. Seja lá o que tinha naquelas portas meu corpo inteiro protestava pra eu não ir investigar. Mas eu precisava! Era o meu coração de manteiga. Aquele lugar era triste e sugava a esperança das pessoas. O agouro de morte era porque as pessoas ali infelizmente estavam no fim e o tratamento era uma ajuda.
Tirando fôlego e coragem do fundo da alma, me aproximei da primeira janela e o meu coração picotou. Uma menina com mais ou menos a idade de Karina estava no leito. Dormia com uma profundidade tão intensa, que me parecia morta. Se eu não visse o seu peito subindo e descendo mesmo que com dificuldade, eu teria tido certeza.
Na segunda porta estava uma criança, tinha uns três anos e os pais estavam brincando com o bebê. A mãe alisava o seus cabelos loiros e eu a via jogando fora os bolos de cabelo que saía em suas mãos.
Pensei em Miguel e me rendi as lágrimas. O meu filho tão saudável e os pais de outra criança ali, sem saber se o filho tão pequeno sobreviveria aquela doença tão maldita.
Quando me aproximei da terceira janela, uma dor tão medonha e avassaladora rasgou meu peito ao meio. Prostrado em cima da cama não estava o ente querido de Lobão mas sim ele próprio.
Respirando como se meus pulmões estivessem entrado em erupção e tomado por um instinto gigantesco de proteção, entrei porta a dentro.
Um líquido verde horrível estava ligado a sua veia. Havia um recipiente ao lado da cama, provavelmente para aparar o vômito. Ele parecia ter desencarnado. Olhos fundos e estava pálido como se ja fosse um cadáver.
Apanhei as suas mãos e coloquei entre as minhas. Eu não queria acreditar, não podia! Lobão se mexeu com um gemido abafado mas não abriu os olhos.
Eu queria gritar! Era mentira! Era pura armação! Aquele líquido devia ser gelatina derretida ou uma droga qualquer! Mas porque eu sentia uma dor tão grande? Porque ele me parecia tão vulnerável?
Senti uma mão no meu ombro. Era Mauro, o médico do Lobão.
Colocando o dedo nos lábios, para que eu fizesse silencio, ele me conduziu para fora da ala.
— Diz pra mim que é mentira! Que ele te pagou uma fortuna pra armar isso tudo e que você aceitou! — eu tremia tanto que era como se estivesse nú em um iceberg.
— Gael, eu sinto tanto! — os olhos dele estavam marejados de lágrimas. — Eu queria dizer que é mentira, que ele armou pra conquistar a Nat mas se eu te dissesse isso, seria eu que estaria mentindo. Pedi tanto a ele para contar a todos mas ele se negou e me proibiu de falar.
— Tem cura não tem? Tratamento? Ele pode operar, não é?
Mauro balançava a cabeça negativamente.
— O câncer dele é no cérebro. Sinto muito Gael mas não há chances dele sobreviver a uma cirurgia dessas.
Senti uma pontada no peito. A minha cabeça girava e tudo escureceu.
Acordei em um leito. Percebi que havia algo no meu braço. Uma mulher baixa e mais velha que eu ajeitava cuidadosamente os meus travesseiros.
— Como está se sentindo? — ela me lançou um sorriso amável.
Foi como se despertasse de um pesadelo pra cair em outro pior. Voltei a chorar. Cada batida do meu coração doía e cada vez que eu respirava, o meu peito desencadeava em um tormento sem fim.
— Fica calmo. Sei que é difícil mas ele vai precisar do seu apoio. Mauro me disse que ele não tem família. Só a namorada e dois alunos.
Minha filha! Era por isso que ela voltou a namorar com ele mas porque ela não me contou? Não disse que eu iria perdê-lo para sempre? Cléo e Luís? Sofreriam também a morte do seu amado Mestre.
— Lobão já saiu? — disse tentando me recompor.
— Não Ele ainda... Nesse estágio, a quimioterapia é mais forte.
Ela desviou o olhar.
Sem esperar por mais nada, arranquei o soro e saltei da cama.
— Calma, Gael! A sua pressão subiu demais. É melhor ficar aqui até amanhã...
A frase dela se perdeu, eu já não a ouvia mais. Saí porta a fora querendo respirar, porque os meus pulmões já não queriam mais trabalhar.
O taxista por puro milagre, ainda esperava. Entrei no táxi e pedi que ele me deixasse no hotel.
Chorava copiosamente. Ainda tremia e a dor no peito eu sabia que jamais iria passar.
Entreguei as notas sem esperar troco. Fui direto ao meu quarto e caí embaixo do chuveiro tentando lavar toda a dor que sentia.
Era três da manhã. Lobão chegaria a qualquer momento. De repente uma fúria sem igual se igualou com a minha dor.
Ouvi o barulho na porta. Ele passou como um raio direto pra o banheiro. Ao contrário de ficar só ouvindo, decidi esperar ele sair sentado na poltrona do seu quarto.
Quando Lobão saiu, achei que ele fosse desmaiar. Não pelo tratamento mas por me ver ali, o encarando com olhos inchados e cheios de ódio.
Ele se arrastou até a cadeira mais próxima em silêncio. Talvez arquetando uma boa mentira.
— Sabe da onde eu estou vindo? — disse me controlando ao máximo.
— Não. E não me interessa. Não sei se você percebeu mas eu não estou bem. Comi...
— Como você pôde!? — nem esperei ele terminar a desculpa esfarrapada. — Que sangue ruim é esse que corre em suas veias que é capaz de esconder de mim uma coisa dessas!?
Lobão lutava para se manter passível.
— Não sei que tipo de droga você andou usando mas é melhor parar por aí...
Quando ele se levantou, perdi a paciência! Ignorando totalmente sua doença, o arremessei na cama com toda a força. Apesar de está fraco, Lobão reagiu bem e me deu um soco, porém estava debilitado demais pra me derrubar.
— Está maluco!? Quer me matar?
Eu ri sem emoção.
— Você já vai morrer não é!? — disse perdendo o controle e me rendendo novamente as lágrimas. — Há quanto tempo você e Nat vem me enganando com essa palhaçada de gastrite, enquanto você está com um tumor no cérebro sem cura?
Lobão engoliu em seco. Ficou mais branco se é que ainda era possível.
— Quem te contou!? — ele perguntou com um fio de voz.
— Ninguém me disse, eu vi! Te segui hoje. Eu já vinha desconfiando. Você sempre vomitava horrores todas as noites que eu pude ver e tomando vários remédios ao dia. Andava fraco, sonolento e agora ligando os pontos, você e Nat voltaram, Cléo chorando desesperada no dia que fui no seu apertamento e falando que iria ficar até o fim e você não podendo cuidar da sua namorada após o acidente.
Como não percebi isso antes? Você morrendo e mesmo assim o seu orgulho era maior.
— Você fala como se importasse. Como se eu ainda fosse seu irmão. Quantas vezes você quis que eu morresse? Pois bem, suas preces foram atendidas! Vou morrer e como tenho só mais três meses, vou te deixar em paz pra sempre em breve!
— Três meses!? Você ia morrer sem me dizer nada? Iria ter essa coragem? Só me permitiria saber no dia do seu enterro? Nunca na minha vida eu desejei a sua morte! Sempre quis que você pagasse por seus erros mas assim? Não! Eu não sou esse monstro. Em hipótese alguma quis que isso acontecesse. Você me conhece! Sabe que nunca pensei que perderia você.
— Mas vai perder. Pra falar a verdade só vim nessa viagem porque a Nat me pediu. Insistiu que eu te contasse e que você poderia... Ela queria que eu contasse e eu iria fazer a vontade dela. Só a sua filha, Cléo e Luís que me importa nessa história toda! Não queria você e nem ninguém rindo da minha desgraça!
Ele sentou na cama evitando me encarar secando o sangue escorrendo do seu nariz, porém eu não me lembrava de ter lhe agredido.
— Olha pra mim, agora! — eu tremia compulsivamente.
Lentamente e respirando fundo para juntar coragem, ele me encarou diretamente nos olhos.
— Você me atingiu de todas as formas possíveis. Usou a minha filha pra me infligir dor e fez de tudo pra me ferir. — eu já estava cansado. Lágrimas dolorosas invadiam minha face. — Mas nada me fez sentir tanta dor, tanta ânsia de morrer, como saber que meu melhor amigo me escondeu uma coisa dessas! E o que é pior, achar que eu iria rir disso. Quando foi que você se esqueceu de quem eu sou? Quando você quase morreu em Goiânia, eu implorei a Deus pra ele não te levasse e me deixasse sozinho.
Respirei fundo tentando me acalmar.
— Se a idéia era me derrubar, parabéns! Você conseguiu! Nenhum sofrimento pra mim será maior que a sua perda. Nenhuma da suas vinganças jamais me atingiu tanto quanto que essa! Eu estou no chão. Seu inimigo foi nocauteado. O seu maior trunfo era você mesmo. O meu calcanhar de Aquiles sempre foi você!
Saí rumando em direção a porta do meu quarto sem ouvi a resposta dele. Porém, eu não precisava! No momento em que me virei pra olha-lo, lágrimas desesperadas riscavam o seu rosto e o sangue do seu nariz escorria vivo até a sua camisa.
Estávamos os dois jogados no tatame sem força para lutar. Havíamos derrotado um ao outro. Não restava mais nada a fazer. Os dois irmãos havia morrido.
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