Notas iniciais
Bom dia, boa tarde ou boa noite!!! Hahaha, é muito bom ter você de volta ❤

— Vejam crianças! Ela é ainda mais bonita pessoalmente!!

A senhora Howard me elogia disparadamente, durante o que se parecem intermináveis sessões de abraços de urso. Minha expressão constrangida não parece inibi-la nem um pouco no quesito elogios; e, no fundo, confesso que gosto bastante disso. O senhor Howard, por outro lado, vai apanhar minhas malas, acompanhado pelo enteado, e me garante que eles não precisam de ajuda, mesmo com toda a minha insistência para contribuir. Caminhamos tranquilamente até o carro, enquanto trocamos pequenas informações sobre o nosso dia.

Um Honda Odyssey nos esperava, estacionado próximo ao aeroporto. Rio internamente olhando para o automóvel que sempre imaginei que eles fossem ter – um carro tamanho família, daqueles que cabem até umas 8 pessoas dentro. Conforme o trajeto segue, eles vão fazendo perguntas sobre mim, das quais eu me esforço ao máximo para conseguir responder certinho. Graças as viagens que fiz com os meus pais, o meu inglês não está nada mal, embora eu tenha que pedir para que eles repitam certas coisas mais devagar. A família Howard é daquelas que falam muito rápido e alto. Acho graça da diferença entre eles e os meus pais, mas acabo me identificando logo de cara. Esse é um grupo que, com certeza, sabe acolher e enturmar as pessoas como ninguém.

— Você vai amar Glendale! E a gente, é claro. Com certeza ela vai amar a gente, né?! — Penelope, a filha mais nova – da minha idade –, está frenética e não para de falar nem por um minuto. Admiro-a em segredo por irradiar tanto entusiasmo assim.
— Talvez, Penny...se você calar a boca, pra variar! Vai acabar assuntando a garota desse jeito.

O carro explode em risadas, incluindo as da própria Penelope. Mas um segundo depois ela já dispara soquinhos no braço do irmão, fingindo ter ficado irritada com o seu comentário. O trajeto todo é assim, alegre e descontraído. A casa deles não deve ser muito longe do aeroporto, já que fazemos a viagem em uns 15 minutos. Quando enfim estacionamos, todos eles descem do carro empolgados, mas eu não consigo me mexer; estou encantada. Meus olhos brilham ao avistar a pequena mansão em minha frente. Talvez eu esteja exagerando um pouco, mas a casa é realmente incrível. Se parece ainda maior e mais bonita do que me lembrava pelas fotos.

— Venha, Bel! Você vai poder escolher um quarto só seu!! — Penny chama, me arrastando para fora do carro.
— Ou você pode dormir comigo, se quiser.

Alfred – o garoto loiro e de porte atlético –, dispara, dando uma piscadinha para mim. Sua mão o estapeia sem dó por conta disso, mas não antes de me garantir – pelo menos, umas cinco vezes – de que se trata apenas de uma brincadeira. Eu só consigo dar risada, mas tenho certeza de que coro com o convite.

Assim que entro pela porta, sou surpreendida por um banner enorme com um "seja bem-vinda" escrito em português e letras douradas. Sorrio instantaneamente com o gesto de carinho. Que gentileza a deles, terem se preocupado em traduzir a frase para mim. Dou mais um abraço em cada um, e sei que ficaria ali por muito mais tempo – em looping de agradecimentos –, se não fosse por Penny, que me arrasta mais uma vez, agora a caminho do segundo andar.

O espaço é bem amplo; se concentra em uma pequena sala de estar (daquelas em que você se senta apenas para tomar um chá nos dias entediantes), e ao seu redor, várias portas largas e brancas por entre os corredores. Deduzo comigo mesma que devem ser todos os quartos da casa. Ela me mostra dois deles, que ainda não estão sendo ocupados, porém não sinto como se realmente tivesse uma escolha a ser feita, já que ela deixa sua inclinação pelo quarto vizinho ao dela transparecer de uma forma bem clara e proposital. 5 minutos depois, minhas malas já se encontram no cômodo.

Apesar de todo o entusiasmo e da calorosa recepção, eles parecem saber certinho o momento de dar um pouco de espaço. Me deixam sozinha em meu novo quarto, assim que entregam todas as bagagens. Agradeço mentalmente pela privacidade. Me jogo na cama confortavelmente e pego o celular para ligar para a minha mãe.

Alô, mãe?
Oi, filhota! Que bom que ligou, já estava ficando preocupada. — Dei risada.
Eu te mandei mensagens o dia todo, mãe!
O que posso dizer? Esse "lance" de ser mãe não é nada fácil, viu? Você vai descobrir algum dia. — Rimos juntas dessa vez.

Conversar com a dona Maitê é sempre muito reconfortante para mim. Ficamos ali por uns 20 minutos, falando sobre cada mínimo detalhe do intercâmbio até agora e jogando um pouco de conversa fora também. Me sinto feliz pela satisfação que ela demonstra ao ouvir tudo o que eu tenho para dizer sobre a minha host family. O meu pai deve estar trabalhando, já que ela não comenta quase nada sobre ele e nem cogita a possibilidade de passar o telefone para nós conversarmos. Mando um beijo para ele e nós nos despedimos, com a saudade batendo no peito quase que imediatamente.

Um banho quente e relaxante será o próximo passo para o dia de hoje. Pego uma toalha dentro da mala, uma muda de roupas e a minha necessaire preparada para banhos. Pelo que Penelope me disse, todos eles têm banheiros em seus quartos; eu, por outro lado, terei que utilizar o que fica no final do corredor, juntamente com a outra intercambista. Não achei ruim. É mais do que o suficiente para nós duas; até porque, há ainda outro banheiro para as visitas, no andar de baixo.

Caminho, cantarolando uma música que está martelando na cabeça. Assim que abro a porta do banheiro, porém, a melodia sussurrada abri espaço para um grito alto e agudo. O meu susto é tão grande que deixo tudo o que eu estava segurando cair no chão. Na minha frente, um garoto alto, cheio de tatuagens e totalmente molhado, se apressa em se cobrir com uma toalha, embora não haja qualquer resquício de constrangimento em seu rosto; se eu olhar bem, sou até capaz de enxergar certo divertimento nele.

Ouço passos apressados vindo das escadas e, em um ímpeto de vergonha, tranco a porta. O que eles pensariam de mim se me vissem no banheiro com alguém seminu?

— Belgica? — Phil confere, preocupado.
— Está tudo bem aí? — é a vez de sua filha perguntar.

Não sei o que fazer. Tapo a boca do estranho com as mãos, e posso ver o tamanho do esforço que ele faz para não rir. Gotas geladas do seu cabelo encharcado caem entre nós, e eu enfim reparo no quão próximos estamos; sinto minhas bochechas esquentarem na hora.

— Sim, claro! Me desculpem. Tomei um susto com a água gelada.

Minto, inventando uma desculpa completamente esfarrapada. Os dois esperam alguns segundos e então caem na gargalhada. Ao que se parece, não é a primeira vez que um incidente como este acontece. Penelope me passa algumas instruções pela porta de como esquentar a água e finalmente tornam a descer para o primeiro andar. Respiro aliviada. Porém, somente a tempo de me lembrar de que não estou sozinha para o banho.

— Sabe... — o garoto coloca os braços ao redor de mim na parede — se queria tanto assim me ver sem roupa, era só ter pedido. Eu poderia imaginar formas bem mais divertidas do que essa.

E então pisca para mim. Nunca, em toda a minha vida, eu me senti tão envergonhada assim; e ele parece saber exatamente disso. Fico me perguntando qual deve ser o seu nome, e quem e quão próximo da família ele é, mas não tenho coragem de perguntar no momento. O garoto sai do banheiro dando risada da minha cara sem nem ao menos disfarçar, e por fim, antes de entrar em um dos quartos, me encara com um sorrisinho presunçoso no rosto.

Talvez o intercâmbio não seja do jeito que eu imaginei afinal.

Notas finais
Favoritem e comentem os capítulos, se estiverem gostando ❤