Querido diário, eu sei que pensei em voltar no tempo e salvar minha mãe. Eu ainda vou fazer, mas decidi escrever antes e também deixar uma carta para meu pai. Eu não sei como funciona e o que acontecerá. Posso sumir daqui para sempre. Posso trazer minha mãe para cá, mas isso afetaria a realidade dela e provavelmente a nossa também.
AAAAAAGH! MINHA CABEÇA VAI EXPLODIR, PORRA!

São milhares de possibilidades. E tem algo que eu não entendi. O meu poder de voltar no tempo não é só na minha realidade, na minha Terra. Tudo que aconteceu aqui, aconteceu o contrário em outro lugar? Então isso cria realidades pra todos esses fatos?

PUTA QUE PARIU. prefiro a morte.

Isso se eu não tiver feito todos nós nunca mais envelhecermos e a morte estiver puta comigo.

Mas voltando ao fato principal de hoje. Erik.

Que homem gostoso, céus.

Aquele sorriso, aquela boca. O rosto bem marcado e aqueles olhos... Verdes iguais montanhas.

Tá, isso não foi beeem um elogio, mas você entendeu.

A̶c̶h̶o̶ ̶q̶u̶e̶ ̶e̶s̶t̶o̶u̶ ̶a̶p̶a̶i̶x̶o̶n̶a̶d̶a̶

Não. Esquece isso. Jamais. Depois do que fizeram, eu jurei não me apaixonar mais. E vou manter isso.

Agora vou escrever a carta do meu pai. Nunca se sabe, pode ser que eu nunca mais volte para cá.

Querido pai, desde já peço perdão.

Você sempre foi o melhor pai do mundo, mas eu sempre fui a pior filha. Desde que a mamãe morreu, me afastei de você e não dei justificava. Achei que precisava de tempo e acabou que esse tempo durou dez anos.

Sinto falta das nossas idas no cinema. Do churrasco fim de semana. Dos bolos de chocolate.

Isso tudo vai voltar, eu garanto. Te amo demais, pai.

Com amor, Sam.

Dobrei a carta e fui até a sala, onde ele está dormindo. Coloquei a carta na mesa de centro e dei um beijo em sua testa.

— Desculpa, pai...

Fechei meus olhos e estiquei a mão para frente, desejando voltar no dia em que minha mãe morreu.

Tudo estava embaçado. Era se como fosse uma lembrança tão antiga que o próprio tempo desejava apagar.

— Mamãe!! – uma criança gritava enquanto descia as escadas.

Era eu. Tão pequena e tão feliz.

— Feliz aniversário, mamãe. – eu entregava um cartão. – Eu te amo!

— Obrigada, minha princesa. – ela me abraçou. – eu também te amo.

Mamãe estava igual ao que eu me lembrava. Os cabelos loiros presos em um coque e seu vestido azul de cetim.

— Onde nós vamos hoje? – perguntei eufórica.

— No cinema. – ela disse e eu, sem ser a do passado, repeti. – Vou buscar seu pai, e já volto aqui. Fica quietinha, okay?

Eu acenei com a cabeça e fui ligar a televisão. Minha mãe estava discando um número no telefone.

Se ela sair por aquela porta, ela vai morrer.

Um desespero tomou conta de mim. Então fui até meu antigo eu e sussurrei.

Não deixe a mamãe sair. É perigoso lá fora.

Meu eu criança procurava a voz e então voltou-se para a mamãe.

— Mamãe! Não vai, por favor! Fica comigo.

— Samantha, meu amor...O que foi? Preciso buscar seu pai...

— Ele pode voltar sozinho! Fica aqui. – eu chorava.

— Está bem! Está bem! Se acalma. Não vou a lugar nenhum. – ela se abaixou para secar minhas lágrimas e então tudo ficou branco.

Acordei no meu quarto. Parecia o mesmo, mas algo estava diferente. Levantei correndo da cama e caí no chão no processo.

— Sam? Está tudo bem?

Mamãe!

Fui correndo em direção a sua voz. Era tão doce, mas havia uma certa tristeza no fundo e eu não sabia o por quê.

— Mãe? – parei na porta do seu quarto.

Ela estava deitada na cama. Tão magra e fraca. Parecia doente.

— Mãe... – me aproximei devagar. – O que houve?

— O mesmo de sempre, querida. Não estou melhor.

— Como assim, mãe? Você está doente? – lágrimas rolavam pelo meu rosto.

— Você é sempre avoada, mas estou te achando estranha hoje. Você sabe que estou doente.

Meus olhos se arregalaram.

— Desculpa, mãe. Eu acho que não acordei direito. – sequei as lágrimas e peguei sua mão.

— Você está atrasada pra aula. Tem dinheiro na escrivaninha lá em baixo, pegue e coma algo na escola. Hoje eu não aguento me levantar.

— Certo... – perdi o rumo poe alguns segundos. – Eu te amo, mãe. – beijei sua testa.

— Também te amo.

Desci a escada e fui na mesinha. Quando a abri, além dos vinte dólares, achei vários papeis de hospitais.

O que é isso?

Peguei todos e me sentei no sofá.

"Paciente: Katherine Smith.
Idade: 38 anos.
Diagnóstico: A paciente sofre de uma depressão profunda, desencadeada após a morte do marido."

Meu pai....Morreu?

"A paciente só tem demonstrado sinais de piora desde então. Seu peso diminuiu drasticamente..."

Soltei a ficha no sofá. Não aguentava ler aquilo. Eu ter salvo minha mãe, fez com que meu pai morresse e minha mãe ficasse doente.

As outras fichas eram dos laudos feitos por minha mãe ao longo dos anos e como essa doença a matava lentamente. A última folha era do atestado de óbito do meu pai.

"Causa da morte: acidente de trânsito."

Tão comum. Tão clichê. Mas isso aconteceu e levou meu pai. Eu estava tão desesperada para salvar minha mãe, que o sacrifiquei como um bode expiatório.

Uma culpa tão grande tomou conta de mim, que comecei a chorar desesperadamente.

— Eu te avisei.

Abri os olhos e procurei aquela voz destetavelmente maravilhosa.

— O quê você tá fazendo aqui? – perguntei enquanto saía do sofá.

— Senti essa anormalidade do tempo se formando e vim ver. Eu sabia que você estava mexendo no tempo, mas não sabia que era desse jeito.

— Como assim, Erik? – eu estava brava e perdida.

— Você salvou sua mãe. Okay. Mas isso ocasionou a morte do seu pai e inúmeras outras mudanças.

— Como a doença da minha mãe?

— Exatamente.

— Eu só queria uma família feliz...– me abracei e desabei de novo.

Erik veio em minha direção e me abraçou tão forte, que seria possível quebrar meus ossos.

— Sei sua dor, Samantha. – ele segurou meus ombros e olhou firme nos meus olhos. – Mas mexer com o espaço tempo é perigoso. Tem noção da bolha de anormalidades que você criou?

Fiz que não com a cabeça.

— Sei que ama sua mãe. Mas preciso ser sincero. – ele hesitou.

— Fala logo. Nada pode ser pior que isso.

— Em nenhuma realidade sua mãe está viva. Em uma outra, você morreu junto com ela. Na outra, você morreu com seu pai. Na outra, vocês três.

— Mas e a que eu morri com meu pai?

Ele suspirou, olhou para o chão e disse:

— Ela se suicidou.

Comecei a chorar novamente e ele me abraçou forte outra vez.

— E a Amanda? Ela existe aqui ou...

— Ela existe, mas não é a mesma que você conhece.

Suspirei e sequei o rosto.

— Me tira daqui.

Ele concordou com a cabeça.

— Coloca isso antes. – ele me deu um aparelho parecido com o dele.

Coloquei no meu pulso e ele ligou o dele. Uma luz azul começou a sair e formar um portal.

— Me dá a mão. Pode ser estranho na primeira vez.

Obedeci e nós entramos naquele portal. Se eu falar que doía, é mentira, mas era bem desconfortável. Parece quando você bate o joelho em alguma quina e fica tocando o roxo depois.

Quando saímos, me senti absurdamente tonta.

— Fecha os olhos por um momento.

Eu ouvia aqueles barulhos estranhos e frenéticos. Rajadas de ar passavam por mim e aliviavam a tontura que eu sentia.

— Pode abrir.

Era um lugar fantasioso, como nos filmes De volta para o futuro. Carros voavam acima de nós e os prédios eram tão altos, que não sabia a altura.

— Bem-vinda à Terra 718.

Eu estava aturdida. Era tudo tão incrível. Pessoas entravam em portais e outras saíam.

Uau.

— Uau mesmo. Mas depois você olha tudo. Temos que ir.

Erik puxou minha mão e eu despertei rapidamente.

— Pra onde estamos indo? – perguntei enquanto corríamos.

— Eu moro, digamos que na área menos chique. Mas não é horrível, te garanto.

Essa área menos chique não era horrível de fato, mas não era possível compará-la com a cena futurista que eu havia visto antes.

Fomos para um beco e ele puxou uma escada que dava acesso a vários andares de uma escada de metal.

— Em qual andar você mora? – perguntei enquanto ele me dava a mão para que eu subisse.

— Estamos perto.

E estavamos mesmo. Subimos três lances e ele abriu uma porta de vidro.

— Bem-vinda à minha casa.

Era pequena. A "cozinha" era uma pia, geladeira e fogão que ficava embaixo de um andar de madeira. Nesse andar de madeira, havia camas, pelo que vi, e uma escada lateral que dava acesso. O resto do lugar era cheio de mesas com aparelhos tecnológicos desmontados.

— Você mora com alguém? – perguntei enquanto ele trancava a porta.

Ele coçou a cabeça e olhou para o chão.

— É...Bem...

Antes que ele pudesse responder, uma gritaria eclodiu vindo da porta do lado da cozinha.

— Você é retardado, Jay! Onde já se viu, colocar nanotecnologia com...

Eles pararam assim que entraram no cômodo. Era uma menina, de aproximadamente doze anos, acompanhada de outro menino da mesma idade.

— Eri, quem é ela? – o menino perguntou, ele usava um óculos de aviador de lentes azuis na cabeça.

— Minha amiga. – Erik respondeu e eu dei um aceno tímido.

— Então é por causa dela que você anda viajando tanto... – a menina deu um sorriso malicioso, eu corei na hora e Erik colocou a mão na cabeça.

— Ashley – ele apontou para a menina. – E Jay. Essa é a Samantha.

— Podem me chamar de Sam. É um prazer conhecer vocês.

— Bonita sua namorada, Eri. – a menina disse maliciosamente.

— Ashley! Ela é minha amiga! — Erik gritou.

— De qualquer forma. Você é bonita e é um prazer te conhecer também. – ela se aproximou e estendeu a mão, eu apertei.

O menino, Jay, limitou-se apenas a dar um sorriso tímido.

— Eri, ela é de outra Terra! – Ashley se afastou abruptamente. – Isso vai meter a gente em perigo!

— É melhor do que deixar ela ficar voltando no tempo e quebrando as leis! – ele gritou.

— Ei...Parem de gritar... – Jay disse baixinho, mas ambos ouviram e pararam na hora.

— Desculpa, Jay. Não quis...fazer isso. – Erik disse. – Ela vai ficar conosco, Ash. Goste você ou não. Mas acho bom você gostar, pois não quero ver você a tratando com grosseria.

A menina fechou a cara e saiu batendo o pé. A porta fez um estrondo.

— Sinta-se à vontade. – ele disse.

— Obrigada.

Perto da escada havia um sofá verde, Jay estava sentado lá. Eu me sentei perto dele.

— Ash não é sempre assim. Ela só tem medo de que nos descubram. – ele disse baixinho.

— Tudo certo. Não é fácil chegar em casa e ver alguém estranho. Ainda mais alguém estranho de outra Terra. – brinquei e ele riu.

Ele possuía os mesmo olhos verdes de Erik e Ashley. Mas, diferente dos de Erik, que possuíam um calor feroz, os dele eram cheios de inocência. E o cabelo loiro ampliava isso.

— Você é irmão gêmeo da Ashley? – perguntei tentando quebrar o gelo.

— Sim. – ele parecia querer adicionar mais coisas na fala, mas não o fez.

Erik estava sentado em uma mesa, perto da porta de vidro e parecia concentrado no que fazia.

— Jay, vai tomar um banho. – ele disse sem se virar.

O irmão o escutou de imediato e foi em direção a um corredor que havia na porta perto da cozinha.

— Ele gostou de você. – ele disse.

— Espero que sim. Já sua irmã...

— Ela também, te garanto. – ele soldava algo e de vez em quando assoprava.

— O que você está fazendo? – perguntei.

— Um rastreador pra você.

— O quê? Pra quê?

Ele parou, tirou um aparelho do olho se voltou para mim.

— Não posso te dizer tudo de imediato. Mas é pra sua segurança, confie em mim.

Confiar. Na última vez que confiei em alguém, espalharam fotos minhas pela escola. Era uma decisão difícil, mas eu sabia que Erik não era um babaca.

— Certo.

— Vou te dar umas roupas. São minhas, mas devem servir. – ele subiu as escadas e voltou com uma pilha. – Depois de Jay, você pode ir tomar um banho se quiser.

Concordei com a cabeça.

Ashley voltou alguns minutos depois e me olhou com cara feia. Jay saiu do banheiro e eu dei graças a Deus por isso.

O banheiro era simples. Havia uma pia, privada e uma banheira com ducha. Optei pela última. Quando retirei a roupa e entrei, dei um grito.

O quê foi? – perguntou a voz abafada de Erik.

— Vocês não tem água quente? Como conseguem? A água falta cair em cubos de gelo!

Os três riram.

— Acostume-se, princesa. – gritou Ashley em tom provocativo.

Tomei o banho mais rápido da minha vida. Eu não ficava três segundos embaixo da água.

Depois de suportar aquela tortura, fui me vestir. As roupas ficaram meio folgada, mas serviram. Deixei meu cabelo solto e prendi uma mecha lateral com a presilha de borboleta.

Me lembro do dia que eu ganhei ela da mamãe. Uma semana depois ela estava morta.

Afastei isso da mente e saí do banheiro. Quando cheguei na sala-quarto-cozinha, havia cerca de cinco pessoas. Todos olharam para mim.

— Então é ela? – disse um menino de cabelos castanhos, um pouco mais velho que Jay.

— Bonita né? Namorada do Erik. – provocou Ashley.

— Para com isso, Ashley. – Erik repreendeu.

— Você tá metendo a gente numa furada sem volta, Erik. – disse um homem, creio que da mesma idade de Erik.

Ele estava apoiado na bancada da cozinha. Seus olhos azuis estavam cravados em mim, o que era desconfortável.

— Yano, ela não vai ser problema, já falei nem sei quantas vezes. – Erik parecia cansado.

— Como você chama? – Yano perguntou.

— Samantha. – falei com a voz vacilando.

— Qual terra?

— 610. – eu não o encarava.

— Qual o motivo de estar aqui?

Eu não respondi. Eu não sabia o que responder. Procurei ajuda em Erik mas ele parecia esperar uma resposta de mim.

— E-eu não sei...

— Você não sabe? – ele se aproximou. – Sabe quem é John Carter?

Neguei com a cabeça.

Ele pegou meu braço e me levou até a porta de vidro. Erik levantou e estava disposto a interferir.

— Tá vendo aquele homem? – ele apontou para um telão ao longe que brilhava com o rosto de um homem de cinquenta anos e uma frase motivacional. – Ele destruiu nossas vidas e nos trata como ratos no esgoto. Você trabalha pra ele?

— Não...

Ele me chacoalhou e gritou.

— Você trabalha pra aquele homem?

— Yano, chega! – Erik gritou e segurou no braço dele.

Yano me soltou e voltou para o mesmo lugar de antes.

— Sinto muito por isso. – Erik disse. – Depois te explico.

Concordei com a cabeça.

— Ela não conhece ele. – Erik disse. – Agora cada um pra sua casa. Tenho mais o que fazer.

Yano me olhou feio antes de sair. Erik bateu a porta da frente e voltou.

— Ashley! Que droga você tem na cabeça? – ele falou sem aumentar o tom de voz.

— Só queria ter certeza.

— E trazendo o Yano? Ele poderia ter jogado ela da janela!

— Mas não o fez! Não me culpe!

Erik colocou a mão na cabeça e fez sinal para o banheiro.

— Já pro banho.

Ela foi batendo o pé e em seguida a porta.

— Desculpa por isso. Ele te machucou? Eu deveria ter impedido...

— Não, tá tudo bem. É sério.

— Não fique com uma má impressão do grupo por causa da Ash ou do Yano. Somos uma família e fazemos o possível pra sobreviver.

— Quando você estiver pronto pra me contar, eu vou ouvir.

Ele sorriu.

Notas finais
O que acharam?