The Things We Do
1 For Love
Jaime tem apenas três memórias fortes sobre sua época como cavaleiro da Guarda Real de Aerys II. O resto, são apenas cópias daquelas memórias.
Ele se lembra das horas em que teve de ficar fitando a parede a sua frente, lutando mentalmente para não invadir o quarto em que seu Rei estuprava a Rainha ou qualquer uma de suas aias. De quando se atracava com Cersei em algum quarto, com metade de sua mente no ato em si, e outra parte preocupado se alguém abriria a porta ou daria falta dele.
E também lembrava-se de cada grito de Aerys quando arranhava-se no trono de ferro. Ele focava seus olhos verdes do homem enlouquecido, desejando arduamente que alguma espada se desprendesse de alguma forma e abrisse seu peito, o matando. Quando era obrigado a ficar de prontidão no quarto do Rei, ele delirava com sonhos em que entraria no quarto, e enfiaria sua espada tanto em Aerys como em Rhaella, acabando com o sofrimento da pobre mulher.
Sentia enjoo e entendia porque os outros cavaleiros sempre davam um jeito de não ter de ficar ali, ouvindo os gemidos de dor, as preces, os pedidos em vão para que Aerys a deixasse em paz.
As coisas que faço por amor, as coisas que faço...
Ele gostava de sua importância, mas não queria de fato estar ali. Gostava da ideia de ser o herdeiro de Rochedo Casterly, por mais que Lysa Tully não fosse tão bonita quanto Cersei, ele conseguia se imaginar como o próximo Lorde Lannister... Mas sua irmã era tão mais geniosa que ele, seria estúpido se não a ouvisse. E cruel, deixar sua irmã sozinha em Porto Real...
Entretanto, quando seu pai renunciou o cargo e novamente ele fora separado de Cersei, sentiu que iria enlouquecer. Passou noites fitando a própria espada, fantasiando e arquitetando a própria fuga, por mais que não tivesse coragem de o fazê-lo. Assistiu e absorveu em silêncio toda a expansão da loucura de Aerys, todos os inocentes que matara. E quando ele pediu a cabeça de Tywin, Jaime assentiu com um sorriso.
Matou o piromante que iria tocar fogo em Porto Real, e voltou para matá-lo. Não sentia prazer em matar, mas sentiu algo próximo a um orgasmo quando enfiou sua espada no peito de Aerys, sentindo a vida deixar seu corpo. Queria que ele sentisse todo o sofrimento que causou e Rhaella e todos ao seu redor.
As coisas que faço...
O termo Regicida lhe incomodou apenas por algumas semanas, até entender que ninguém conhecia Aerys como ele conhecia. Ninguém ia se deitar parecendo ouvir os choros de Rhaella, ninguém conseguia sentir o cheiro do sangue do Targaryen toda vez que se cortava no maldito trono, ninguém sentia seu cheiro podre de loucura, ninguém ouvia sua voz esganiçada e gélida, ninguém se lembrava de seus olhos e da falta de sanidade deles. Ninguém, apenas ele.
Assistiu o casamento da única mulher que amou em sua vida, em silêncio. Talvez ela um dia chegasse a amar o novo Rei, Jaime nunca saberia, teria que assistir. Ela lhe sussurra promessas e planos, mas Jaime fora corrompido por Aerys. Não consegue mais ouvir Cersei com a inocência de antes, pondera mais os seus atos, leva mais tempo para aceitar suas verdades.
Mas ainda é o tolo apaixonado que faz tudo pela senhora que nunca poderá ter.
As coisas que faço por amor...
No futuro, fariam histórias em seu nome: Jaime, o Inconsequente. Jaime, a Mula Apaixonada. Jaime e a Guerra pela Boceta de Cersei. Ele não sentia nenhum medo em particular da morte, mas ele se preocupa com sua irmã. Porque tudo gira ao redor dela. Ele dedicou sua vida a ela, por mais que ela não tenha feito o mesmo. Ela é mesquinha e egoísta e no fim do dia Jaime é apenas mais uma peça de seu tabuleiro.
As coisas que Jaime faz por amor serão vistas como atos de crueldade, inconsequência, vaidade, vingança... O mundo nunca vai saber seus motivos, apenas sua lista de crime. Ele consegue viver com isso, não pode apagar o passado, mas pode mudar seu futuro. E quando fizerem músicas sobre ele, falariam sobre sua alma corrompida.
Mas terminariam falando em como ele limpou sua honra.
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