A coisa tornara-se eu.

Seus hábitos de indiferença e a tendência aos surtos tornaram-me menos que um ser humano, destinado a viver emaranhado entre a miséria e os sentimentos de medo e agonia. O parasita ganhara, e destruía o próprio hospedeiro em seu último ato antes de também partir.

Os últimos dias antes de minha ida foram marcados por memórias.

Por algum motivo, pensei em meu pai. Seu rosto corpulento e o tronco robusto lembraram-me das brigas com a mãe. O passado projetou-se sobre a escuridão que me cercava, e eu vi a mim mesmo, meros dez anos, correndo em direção à mãe. Ela estava agachada próximo ao grande sofá de couro da sala, o rosto entre os braços e as lágrimas escapando descontroladas em meio a gemidos comedidos. A minha versão de dez anos abraçou-a com força, e o seu olhar traduziu genuína surpresa antes de se fechar em um gesto de conforto.

Aquilo me confortou também.

Outras imagens passadas invadiram a escuridão e trouxeram luz à minha mente: meu irmão e eu, ainda crianças, escalando uma das árvores da velha casa de campo do tio Joe, aos berros e risos; meu primeiro arrepio ao sentir os lábios de outra pessoa, em um primeiro beijo; o primeiro Baile de Primavera...

Fatos mais recentes vieram, carregados de luz ofuscante: eu enfrentando meu irmão bêbado para defender a mãe e, em outros fragmentos que inundavam minha memória, lembrei-me de desistir de pular de um prédio ao pensar nela.

Todas aquelas imagens chegaram sob a forma de uma avalanche, e, ao sinal de cada uma delas, eu sentia a coisa em meu interior revirar-se, diminuir, encolher-se em um canto escuro e pouco iluminado pelo esplendor das boas memórias e dos intensos bons tempos. Aquelas não eram apenas memórias, mas modestos fragmentos de mim, juntando-se em formação a um novo e inteiro “eu”. A criatura não só estava com medo delas: parecia surpresa por ainda existirem.

Foi o momento em que eu notei o quão isolada ela parecia de mim. Não era mais como uma das partes de minha alma, tentando tomar o que restava; já não passava de um elemento doentio em uma imensidão de partes saudáveis.

Ela ainda existe, dentro do meu âmago, e ainda trabalha para sorver os bons sentimentos; uma tentativa frequente de recomeçar o seu ciclo de destruição e quebra.

Há um novo eu, entretanto.

Eu espero que ele seja mais forte.

Notas finais
Olá. Se você chegou até aqui, só tenho a agradecer por ter resolvido acompanhar essa narrativa até o fim. Antes de ir, deixe-me dizer algumas últimas coisas: Essa história, na verdade, não foi feita pra leitura pública, por mais que eu possa ter tentado adaptá-la e dar a ela essa roupagem menos íntima. Resolvi postar aqui porque estou encarando o Nyah! como uma forma de "arquivo" das minhas histórias. Essa é sobre um desfecho. Obrigado novamente por terem lido até o final.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!