Notas iniciais
Para Paulie, com carinho ♡ Espero que o final de semana seja bom e que a historinha seja uma boa distração.

Os preparativos vinham acontecendo há sete dias e Jinora tinha honrado os passos pré-estabelecidos com a serenidade de quem havia esperado por isso durante todos os anos de sua curta existência. Naquele último dia, no entanto, uma pequena e tocante contravenção promovida por sua mãe fez com que a data ganhasse contornos especiais: com seu jeito doce, mas firme, Pema pediu para que a acólita de ar entregasse a ela a a tesoura e a bandeja com outros utensílios que estava segurando. A senhora muito idosa se curvou em uma saudação, antes de realizar o pedido e deixar o recinto, conferindo privacidade para mãe e filha.

Em silêncio, Pema cobriu o busto e os ombros de Jinora com um tecido leve. À frente, um espelho grande emoldurado por pequenas inscrições e símbolos advindos dos antigos templos de ar refletia a cena: sentada, a menina tinha um ar calmo e confiante. A mãe, em pé, logo atrás, lavava o cabelo de sua primogênita, deixando os dedos se demorarem um pouco mais nos fios castanhos e lisos.

Apenas o barulho da água a escorrer se fazia ouvir a princípio. Sem sequer perceber, Pema começou a cantarolar uma antiga canção de ninar. Jinora fechou os olhos e sorriu, sentindo-se num tal estado de paz de espírito que não havia nenhum traço ou qualquer sombra de dúvida em sua mente a respeito do dia ou da vida que tinha pela frente.

Depois de secar os cabelos dela, Pema a encarou pelo espelho e Jinora sinalizou com os olhos sorridentes que estava pronta. Enquanto as mechas de cabelo caiam suavemente por todos os lados à medida que a mão destra e hábil de Pema passeava com a tesoura mecha por mecha, Jinora encarava, maravilhada, a sua figura no espelho, descobrindo que era como olhar para os retratos muitos antigos de seu avô.

Quando Pema finalizou o trabalho com a tesoura e a navalha, ela depositou as duas mãos nos ombros da filha, beijando-lhe a cabeça lustrosa.

— Sei que você está contando os minutos para conseguir suas tatuagens, querida.

Jinora abriu um sorriso tímido em concordância.

— Mas deixe-me só lhe dizer uma coisa antes que saia daqui para o próximo passo. É muito importante.

— Sim, mamãe.

— Eu gostaria que você soubesse que não tem que carregar um legado, porque a sua existência já é o legado, Jinora. – murmurou, antes de receber um abraço apertado da menina.

Dali há poucas horas, Jinora seria uma Mestre de Ar. As tatuagens recém feitas brilhariam frescas em sua cabeça e o cheiro de sândalo dos muitos incensos invadiriam suas narinas. Algo na forma que a fumaça densa se dissiparia aos poucos depois de sua unção faria ela vislumbrar por um nano segundo a figura translucida de Aang e se perguntar para sempre se seria possível que fosse alguma forma de manifestação dele, estando Korra ali ao lado. Mais do que isso – mais do que todos os passos ritualísticos, e toda a cerimônia que estaria por vir, no entanto, a lembrança mais vivida que Jinora carregaria daquela data seria para sempre a do abraço, ainda recheado do eco das palavras libertadoras da mãe.