The Swan Sisters Saga

30 Capítulo 29 - Escuridão


Notas iniciais

Escuridao

Eu estava andando, em algum lugar que desconheço, tentando achar o caminho de volta pra casa. Andando, andando, andando... Passando por lugares que nunca vi, por pessoas que nunca imaginei que existissem... Tudo normal. Sons, passos, risadas, música... Continuei andando... lembro que parecia que eu andava há horas, mas estava tudo bem, não senti cansaço algum.

Recordo-me que depois de tanto tempo pra lá e pra cá, passei por um lugar idêntico a pequena venda do Sr. Waltz em New Orleans. Entrei, mas não era o mercadinho. Era estranho... era como se fosse um salão de festas de prédio, mas muito grande. Comecei a ver flores, muitas delas, e não havia ninguém! Continuei andando, e as flores aumentavam... bem no final do imenso corredor de flores havia um caixão. Era um velório. Eu estava num velório, mas não havia ninguém alem de mim. Mas não senti medo ou pânico... Pela primeira vez, não era ruim.

Continuei meu caminho... olhei para o caixão e passei — não vi quem estava lá e nem por um segundo tive a curiosidade de saber quem estava sendo velado. De repente, quando sai daquele recinto, apareceu uma menina. Jovem, tinha no máximo 16 anos. Magriiiiinha. Pele branca, cabelo liso num tom castanho bem avermelhado embaixo do ombro, bem cortadinho, com franja. Usava uma blusa vermelha de manga cumprida, uma calça jeans bem escura e batom vermelho. A menina colocou a mão na minha frente, estendida, como que se esperando um aperto. Esquivei, mas ela insistiu. Veio atrás e lá estava a mão diante dos meus olhos. Não a apertei. Mas dessa vez perguntei:

- O que é isso??

- Calma – a menina disse tranquilamente, quase feliz — é que agora eu posso apertar a mão dos outros.

- Como assim?

- É que... bem, eu me matei... eu morri, lembra? E eu não podia tocar em ninguém, mas agora eu posso. Eles deixaram. Me dá um abraço?

- Mas... quem é você?

- Oh, Angel! Sou eu! Ivy!!

Eu, sem o menor medo do mundo, abracei a menina. Dei-lhe um abraço muito forte. E então senti algo se completando dentro de mim, parecia algo como amor, mas eu não sabia quem era aquela garota. Jurava que a conhecia de algum lugar, mas não conseguia me lembrar de onde. E esse nome, Ivy... eu nunca tinha ouvido esse nome antes. Eu a soltei e virei meu rosto para olhar para o seu, mas ela já havia sumido, não havia mais ninguém lá. Eu estava sozinha de novo. Eu olhei ao meu redor, nenhuma flor, nenhum caixão dessa vez... e então uma luz forte, como um grande holofote, se acendeu sobre mim. O nada deu lugar a uma pequena casa, aconchegante e antiga. A luz entrou em todos os cantinhos que pareciam não ter sido explorados em muito tempo. Pequenas penugens e nuvens de poeira se encontravam em todo o lugar: móveis, espelhos, escadas, cadeiras, nada parecia escapar da idade.

Nada seria tão encantador se a luz não estivesse presente, ela fazia com que tudo o que eu não havia percebido fosse ainda mais encantador, com toda a idade, com todo o desgaste. E a casa ia, sem fim, por todo mínimo detalhe se iluminando, por toda partícula de poeira em cima de cada móvel, numa descoberta sem fim. Ah, o fim. O fim era com certeza a ultima coisa que parecia passar por minha mente naquele momento. Sempre acreditei que mesmo pensando em todos os começos, nunca conseguiria esquecer-me do fim. Aquele pequeno momento de luz foi como um dia de meditação, tudo o que acabava, começava, explodia e se esquecia em toda aquela imensidão.

O primeiro passo que dei naquela casa me fez mergulhar em uma nova dimensão. Todas as partes do meu corpo, as menores partículas de poeira e as grandiosas partículas de história que se encontravam ali estavam cheias de luz. E ali eu estava só, naquele momento onde nada mais era importante. O resto do mundo tinha ficado lá fora, toda a confusão, toda dor e medo, todas as interrogações e complexidades tinham ficado para trás com a escuridão do mundo. Aquele momento era totalmente intenso onde tudo o que existia, eram os detalhes jamais vividos, a simplicidade iluminada, clara, bem ali na minha frente.

Tudo era luz, eu era luz.

E o que mais me impressionava era o fato de que a luz não me cegava não me fazia espremer os olhos com força, como fazia na forte luz do sol nos dias de verão na praia de La Push. Todas as luzes que me cegavam e incomodavam não estavam mais ali.

Acostumei meus olhos e então reconheci a velha cadeira de balanço ao lado da imensa janela. Aquela era minha cadeira, a cadeira que Esme escolheu para mim, a cadeira de ninar onde eu faria Nate dormir... e aquela era a minha casa, a casa que eu queria passar o resto da minha vida. Não, não o resto da minha vida — eu não podia fazer planos tão longos, eu nem sabia se ainda estava viva ou se isso era somente um sonho, eu não sabia se um dia voltaria a ver Jake, Bella ou qualquer outra pessoa que eu tanto amava — aquela era a casa que queria passar meu tempo. Que faria meus dias de luz.

Um cansaço repentino tomou conta de mim e eu me esforcei para alcançar a velha cadeira que eu nunca tinha usado e que agora parecia tão desgastada. Eu me sentei e olhei para meus braços, eles estavam vazios. Meu bebê não estava comigo, meu bebê... meu pequeno Nate. Eu quis chorar, mas não tinha mais lagrimas e nem forças, então tudo que consegui fazer foi fechar meus olhos com força e torcer para que quando eu os abrisse novamente tudo estaria diferente, tudo teria voltado ao normal.

Abri os olhos e olhei incrédula. Bem na minha frente, eu vi meu pai. Nathan estava a poucos metros de mim. Ele estava de costas, mas era ele, eu tinha certeza. Eu chamei, mas ele não respondeu. Eu gritei e então percebi um leve movimento. Nathan se virou para mim lentamente. A primeira coisa que notei foi seu sorriso, meu pai sorria largamente para mim e então eu percebi que já havia me esquecido de quão lindo era o seu sorriso — aquele sorriso que aparecia para mim todas as manhãs dos meus primeiros dezessete anos de vida, aquele sorriso que esculpia o orgulho no rosto de Nathan toda vez que eu conseguia estacionar nossa velha camionete sem nenhum acidente grave.

Os olhos de Nathan estavam cheios de lagrimas — apesar do largo sorriso em sua boca – eles me encaravam com carinho. Ele então baixou levemente sua cabeça em direção aos seus braços, eles estavam dobrados, como se segurassem alguma coisa. Eu segui seu olhar. Um pequeno bebê dormia nos braços de Nathan. Meu Nate? – eu tentei perguntar, mas não achei minha voz. Eu estendi meus braços, como se pedisse o bebê para Nathan, mas a nova expressão de seu rosto me paralisou. Nathan me olhava horrorizado agora. De repente senti que estava nua na frente do meu pai. Ele olhava pasmo para o meu corpo. Senti vergonha por isso. Segui seu olhar novamente. Foi quando me vi. Eu estava com sangue escorrendo por entre minhas pernas. Senti algo escorrendo de meu nariz e ouvidos, instintivamente toquei. Olhei para minhas mãos. Era sangue! Senti gosto de sangue em minha boca e cuspi. Eu estava me esvaindo em sangue. Tentei gritar, mas foi em vão. Forcei mais um grito de desespero e um jorro de sangue saiu por minha garganta...

Eu não sabia o que aquilo significava, o pânico congelou todo meu corpo. Eu não movia um músculo sequer. Sentia um cheiro de sal ao meu redor. Não conseguia identificar ao certo o cheiro das outras coisas. Mas o cheiro ocre de sangue era tão forte quanto o salubre sabor que eu sentia na garganta ao respirar. Eu me deixei cair da cadeira e ajoelhada, senti minhas pernas começarem a ficar dormentes no chão frio. Mas não me movi. Nem mesmo minha respiração era audível. Mas meus olhos estavam dilatados em grandes círculos de pânico. A dor latejante agora não só queimava, mas parecia molhada, se espalhara por todo meu corpo. Ardente e úmida. Eu tentei me lembrar das minhas pernas que antes me incomodavam. Mas a dor na lateral esquerda do meu pescoço ocupava toda e qualquer parte de minha mente. Percebi que não mais sentia as minhas pernas. E minhas mãos estavam frias. Talvez não tenha realmente tentado. Mas não conseguiu movê-las. Apoiadas no mármore como raízes.

Uma gota correu meu pescoço em chamas e caiu sobre a mão esquerda. A sensação foi de que a gota era pura lava chamejante e por um momento a dor do meu pescoço tocasse a minha mão. Talvez suor, pensei. Mas uma gota escarlate repousava queimando onde escorrera. Meu próprio sangue. Minha mão em chamas então se moveu, tocou meu pescoço onde mais queimava. E a umidade sentida até então foi justificada pela textura distinta. O sangue jorrara onde as chamas recendiam.

Meu corpo inteiro tremeu brevemente, senti como se cada gota de sangue em meu corpo tivesse sido drenada. Somente para perceber que havia sido um erro ter se movido. Agora um vento que antes não se sentia parecia transitar pela casa. A brisa foi tornando-se intensa enquanto esfriava. Porém outra coisa a distraíra de repente. O rosto então deixou de arder. Repentinamente. Como se uma torrente de água fria me fosse derramada. Apagando as chamas e a dor. Deixado somente o frio. Intensificado pelo vento que açoitava como chibatadas. Olhei ao redor. A casa estava completamente fechada. Nathan e o bebê haviam sumido. Porém a ventania como se vinda de um oceano bem a minha frente, não, um oceano em todas as direções, continuava. Intensificando-se. A dor que a queimara parecia ter sido transferida para o peito. A pulsação acelerada

Na escuridão imaculada não haviam olhos. Não sei bem quanto tempo, mas fiquei ali totalmente paralisada por um longo período. Pensei ter desmaiado. Mas senti os joelhos no mármore. E aos poucos foi sentindo o resto do corpo. Sem mover-me sequer um centímetro. Minha pulsação fervente pelo medo acelerou ainda mais. E por milésimos de segundo, as batidas do meu coração eram o único som que eu podia ouvir.

Até que um pequeno ponto de luz em meio a toda aquela escuridão chamou minha atenção. Eu tentei fixar meu olhar e focalizar. Tinha mais alguém ali no escuro comigo. Parecia uma mulher. Ela virou um pouco o seu rosto e eu pude reconhecer seu perfil. Era o meu perfil. Então só podia ser Bella. Sim, era minha irmã. E foi quando eu gritei. Eu gritei com todas as minha forças, mas Bella não me ouviu, parecia entretida com outra coisa. Bella olhava maravilhada para um pequeno balaio a sua frente, ela estendeu o braço direito e tentou alcançar alguma coisa dentro do balaio. Em resposta, duas pequeninas mãos precederam um rostinho angelical – doces olhos amendoados e cabelinhos encaracolados da cor de bronze emolduravam o rosto daquele pequeno anjo que sorria para minha irmã. E então outra criança se levantou e também espiou pela borda do balaio. Um menininho dessa vez, um pouco maior. Seus cabelos tinham a mesma cor, mas desalinhados e rebeldes ao invés de cachos. Sua pela corada no mesmo tom e pequenos olhos tão atentos quanto aos da menina.

Eu instintivamente sorri de volta. E gritei “Renesmee!!! E.J.!!!!”. Renesmee me ouviu, seus olhinhos focaram em mim. E.J. seguiu o olhar de sua irmã e sorriu para mim, seus pequenos braços pediram por mim. Finalmente consegui a atenção de Bella, que lançou um olhar aflito em minha direção. Eu notei seus lábios se movendo, chamando por mim, mas sua voz não chegava. Bella levantou seus braços e lagrimas escorriam por seu rosto enquanto sua voz perseverava em minha direção, sem nenhum êxito.

Eu tentei me levantar, mas a dor não me permitiu mover sequer um músculo. Todo o que eu podia fazer era gritar, chamar por Bella, como ela chamava por mim. Eu juntei tudo que ainda existia em mim e meus braços se elevaram como num reflexo a necessidade que eu sentia de estar próxima de minha irmã, de tudo que ainda restava de minha família. Eu estiquei meus braços e senti o sangue jorrar ainda mais rápido da imensa ferida aberta em meu pescoço. Isso já não me importava mais. Tudo que eu precisava era de minha irmã. Meus dedos esticados imploravam por Bella.

E então eu senti uma mão fria responder a minha suplica.

Eu abri meus olhos e reconheci o rosto de Bella. Mas ela estava diferente. Sua pele reluzia na luz, como se pequenos diamantes estivessem incrustados em todo seu corpo. Seus olhos estavam vermelhos como sangue e suas mãos duras como pedra. Mas era Bella.

- Minha Bells... – eu disse aos prantos.

- Minha Angie! – sua voz soava como sinos e entoaram a calma em mim.

Bella passou suas mãos por meus cabelos e eu aninhei meu rosto em seu colo gélido de mármore.

E no escuro, ficamos ali... eu e minha irmã. Juntas. Sozinhas no escuro.