The Surviver 2
8 Capítulo 7 — Planejando
Notas iniciais
Planejando
AVALIEI MAIS UMA VEZ a roupa nova e ajeitada que eu estava vestindo. Um short branco e uma blusa amarelo-clara, e um par de Oxford bege. Peg estava ao meu lado, remexendo em sua bolsa. Seu longo e ondulado cabelo loiro foi tingido com tinta castanha, e ela usava um leve vestido de verão. Melanie estava loira, vestindo uma daquelas roupas de empresária. Sharon estava morena, e suas habituais roupas rasgadas foram substituídas por uma elegante saia até o joelho e uma camisa. Todos os homens usavam chapéus, ou bonés. Ian vestia um moletom negro grosso, assim como meu pai, uma tentativa de disfarçar os longos músculos adquiridos com anos de obsessão e sobrevivência. Ajeitei meu cardigã bege sobre os ombros e caminhei sorridente até o balcão.
—Bom-dia, Cristais Gelados.
O atendente abriu um sorriso brilhante para mim e se aproximou, apoiando os pulsos na bancada.
—Bom-dia, Bruma. Tudo bem?
—Sim. Eu gostaria de devolver a chave do quarto. —Estendi o chaveiro para ele.
Cristais Gelados ergueu as sobrancelhas.
—Oh, você já vai? Não gostou do hotel? Algo lhe desagradou em sua estadia?
Tentei abrir um sorriso doce.
—Claro que não, Cristais Gelados. Foi tudo ótimo, realmente. Mas preciso ir.
—Para onde vai?
—Eu vou... Eu vou... —Abri o sorriso. —Bem, não sei ao certo. Ainda.
—Bem, boa sorte.
—Obrigada.
Entreguei minha chave com um último sorriso, e saí apressadamente. Pouco a pouco, as outras cinco pessoas se juntaram a mim, na garagem. Além do meu Troller, outro jipe estava a nossa disposição. Enchemos os bagageiros com roupas, disfarces e armas.
—Para Green Valley. —Disse Chris, subindo no carona do Troller e estendendo um mapa sob o painel.
—Por que Green Valley? —Perguntei, sentando no banco do motorista. Meu pai e Melanie sentaram-se nos bancos de trás, e Sharon, Ian e Peg iriam de jipe.
Chris coçou o queixo.
—Bem, é uma dedução. Imaginei que, pela vaga definição de “região”, Jamie possa estar no Pima County, o Condado de Pima. Além de Tucson, as outras três cidades do Condado são: Casas Adobes, Ward 1 e Green Valley.
—Você pretende procurar em todas elas? —Perguntei, franzindo as sobrancelhas e dando ré.
—O que você pretende? —Eu odiava o tom desafiador na voz dele.
Melanie se intrometeu.
—Pode ser nossa única chance. Mas devemos ser rápidos e eficientes. Não há nenhuma certeza nessa sua hipótese, Chris, e não podemos perder tempo.
—Eu sei disso, Melanie. —Chris esfregou o polegar e o indicador na testa. —Mas foi a única coisa que consegui pensar até agora.
—Pode ser o suficiente. —Concordou Melanie.
—E pode não ser. —Acrescentei, e recebi dois olhares agressivos.
Tentei dirigir dentro dos limites permitidos pela lei, mas meu pé insistia em apertar cada vez mais o acelerador. Ao meu lado, Chris divagava o tempo todo sobre o plano, e raramente eu prestava atenção.
—Acho que não vai ser fácil encontrar hotéis suficientes para todos nós. —Ele murmurava enquanto coçava o queixo. —Precisamos nos espalhar o máximo possível e...
—Você está reclamando há quase uma hora. —Interrompi-o, sem tirar os olhos da estrada. —Não consegue calar a boca um minuto sequer?
—Se eu calar a boca, quem é que vai resgatar seu doce Jamie?
—Alguém que faça mais do que só falar. —Cuspi.
Senti que ele me encarava, mas não dei ao trabalho de retribuir o olhar.
—Então... —Percebi que Chris se esforçava para manter um tom de faz ameno. —O que você pretende fazer, Mayfleet?
—Há, sim, motéis suficientes para nós em Green Valley. —Falei. —Os hotéis são mais difíceis, infelizmente. Então, cada um passará somente uma noite em cada motel, como um rodízio.
Chris ficou em silêncio alguns instantes.
—Eu não tinha pensado nisso.
Ergui uma sobrancelha, sabendo que ele estava vendo.
—E como pretende encontrar Jamie? —Ele insistiu.
—Simples. Do mesmo modo que descobri sua localização: Perguntando. São Almas, Chris, elas são puras e ingênuas. Se você souber fazer as perguntas certas, consegue desviar a conversa para o assunto que quiser. Sei que Mel, Sharp e Peg conseguem fazer algo assim. Podemos nos dividir em pares, um homem e uma mulher, e um trio, e rodar a cidade. Temos dois carros, cada um para um lado distante da cidade, enquanto que o casal a pé fica nas redondezas do hotel. Não vai ser fácil, mas...
—É preciso. —Admitiu Chris.
Dei um meio sorriso vitorioso, e estreitei os olhos quando a luz do sol ultrapassou a linha do para-brisa, me cegando. Baixei o quebra-sol e me assustei quando vi meu reflexo – a linha delgada prateada contornando minhas pupilas foi um choque da realidade.
—Você está bem? —Perguntou Chris.
Desviei meus olhos do espelho e foquei na estrada.
—O melhor que consigo estar. —Resmunguei.
Dirigi por mais quarenta e cinco silenciosos minutos até chegar aos arredores de Green Valley. Era uma cidade amigável, com casinhas alinhadas às estradas bem cuidadas e um cenário de montanhas e desertos. Eu já deveria estar farta de desertos, mas ainda os adorava. Nunca cansaria na beleza oculta e misteriosa de um solitário deserto.
Estacionei próximo a um posto de gasolina ermo e desci do Troller, esticando as pernas.
—Então? —Perguntei. —Para onde vamos, e como nos dividiremos?
—Ian e Peg ficarão juntos. —Disse Mel rapidamente. Não tardei em concordar.
—Eu fico com Ashley. —Disse meu pai e Sharon em coro.
—Talvez eu fique melhor sozinha. —Discordei.
Chris e Melanie se entreolharam. Ela deu de ombros. Ele continuou com a mesma expressão de mosca morta de sempre, com as sobrancelhas tensas sobre os olhos.
—Bem. —Quebrei o silêncio. —Vamos nos dividir da seguinte forma: Mel e Chris vão à direção noroeste da cidade, e digam que são... Corretores. Ian e Peg procurarão na parte sudeste, e não falem com ninguém se não for necessário. Sharp e Charles ficarão no centro-sul, e eu tentarei encontrar o máximo de motéis possíveis.
Todos assentiram, exceto, obviamente, Chris.
—Não será suspeito se você procurar por tantos estabelecimentos de uma só vez?
—Apenas se houver Buscadores, já como eles têm menos ignorância que o restante... Senão, é só criar uma boa história.
—Você parece ser uma boa criadora de histórias. —Ele resmungou.
—Se você veio para reclamar e me contradizer, sugiro que volte as cavernas e deixe isso com quem realmente se importe com Jamie.
As palavras saíram rápido demais da minha boca, e não tive tempo de ponderar o quão mal me fariam. O nome de Jamie, dito em voz alta por mim mesma, fez com que toda a minha pele se arrepiasse e meu coração acelerasse. Minha boca ficou seca e meus olhos úmidos. Eu conseguia esconder meus sentimentos, deixa-los longe das minhas expressões, mas meu corpo não. Qualquer sinal de sofrimento era visível para os observadores.
—Vamos logo, Melanie. —Resmungou Chris, agarrando a chave do Troller da minha mão e embarcando sem olhar para trás. Melanie me encarou e apertou os lábios.
—Tome cuidado. —Ela disse.
—Eu sempre tomo. E vê se tenta ficar bem. —Resmunguei de volta.
Mel me olhou por mais alguns segundos e embarcou. O último olhar dela confirmou: ela percebera como eu estava. Teria que tomar mais cuidado com minhas reações insensatas perto de Melanie. Ninguém poderia saber o quão vulnerável eu estava.
Sacudi as mãos para aliviar a tensão e as fechei em punhos apertados, escondendo-os nos bolsos da calça. Virei a primeira esquina que vi e nem me dei ao trabalho de ver se os outros tomavam seus caminhos.
Três dias. Três malditos dias nessa amaldiçoada cidade e nada. Absurda e absolutamente nada.
Eu estava no meu terceiro quarto de motel, esperando meu pai e Sharon voltarem com suas “notícias”, e não parava de socar a cama, os travesseiros, a parede. Minha raiva acumulada estava jorrando, e ou eu gritava, ou socava tudo que via pela frente. Optei pela segunda opção, a mais silenciosa.
Estava no meio de uma seção de excomunhões e socos com o travesseiro quando escutei murros na porta.
—O que é? —Gritei, e me arrependi. Se fosse um funcionário do hotel, se assustaria, suspeitaria, chamaria Buscadores e Confortadores.
Mas era só Ian, que colocou a cabeça para dentro do cômodo.
—Acho que tenho uma notícia que vai acabar com seu mau-humor. —Ele sorriu.
—O que é? —Repeti, sentindo o gosto amargo da raiva na minha voz.
—Uma Alma recém-chegada acabou de adquirir um imóvel de Ward 1.
Precisei de um segundo para assimilar a informação. Quando o fiz, agarrei minha mochila pesada, pendurei-a no ombro e praticamente esgacei a porta.
—Então o que estamos esperando? Arrumem suas coisas, quero todos no estacionamento em cinco minutos ou cabeças vão rolar.
Ian ficou sorrindo, e franzi as sobrancelhas para ele.
—Que cara de idiota é essa?
—Gosto de ver você tão determinada.
—Eu sempre sou determinada, docinho.
—Vá mais devagar! —Reclamou meu pai.
Nem dei ouvidos, e apertei ainda mais o acelerador, fazendo a velocidade subir para 104 km/h onde o limite era de 70.
—Ashley! —Rezingou Chris.
—Devagar! —Gritou Melanie.
—Calem a boca. —Respondi.
Acelerei ainda mais, irritando todos, principalmente Sharon. Ela se pendurou no encosto do meu banco e tentou tomar a direção.
—Saia daqui, Sharp!
— Você vai acabar matando todos nós se não parar essa porcaria de carro!
Dei uma cotovelada no ombro dela, empurrando Sharp para os bancos de trás novamente, e diminui a velocidade para 80 km/h.
—Mais devagar! —Reclamaram.
—Não abusem da sorte. Mais uma reclamação e coloco essa coisa pra correr a 100 km/h! Eu sei como apagar uns Buscadores, se necessário.
Ouvi meu pai bufar.
—Ashley, estamos quase chegando. Você não precisa ser tão ansiosa.
—É de Jamie que estamos falando, pai. —Rosnei enquanto virava uma curva abruptamente. —Eu sei que você não o conhecia muito bem, e sei que não ia com a cara dele, mas... Ele é...
Minha voz travou na garganta, e meus olhos arregalaram enquanto eu encarava o retrovisor.
—É melhor ajeitar as lentes, pessoas.
Um grupo de Buscadores se aproximava.
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