**1967. Preto e branco. Um velho de jaleco, olheiras profundas, dedo tremendo apontando pra câmera. "O mundo vai mudar", ele diz. "Coisas mágicas."**


Mágico. Bonito eufemismo pra uma agulha no braço.


Eles chamaram de **T-Virus**. Depois de décadas de merda, testes fracassados, cobaias que viraram estatística, finalmente lançaram a versão refinada: **Z-Virus**. 2024. Você não precisa mais ser selecionado. Você paga. Quem tem 5 mil dólares compra a chance de ser especial. Quem não tem... bem, continua sendo NPC na própria vida.


Efeitos colaterais? Claro que tem. Sempre tem. Mas ninguém pergunta sobre isso quando o comercial mostra gente voando.


*(Corte seco. Câmera tremor. Barulho de pneu queimando.)*


**Algum lugar dos EUA. Uma rua qualquer. Dois bandidos num caminhão—roubo, sequestro, tráfico, tanto faz. O que importa é que eles estão correndo. Achando que têm chance.**


Não tinham.


**Powegiry** desce do céu feito um raio de mal gosto medieval. Cabelo preto, vestido, cara de quem leu Shakespeare uma vez e nunca superou. Ela acerta o caminhão com um chute que faria um caminhoneiro pedir divórcio. O veículo para. Os bandidos param de respirar por um segundo.


Aí o chão treme.


Ele pousa. Capa. Collant azul e vermelho. Sorriso ensaiado. Postura de líder de seita.


**Senhor America.**


Os bandidos atiram. Claro que atiram. O que mais eles fariam? Lógica não é o forte de bandido de esquina.


Plink. Plink. Plink. As balas amassam no peito dele igual moeda em cofre. Ele nem pisca. Só vira a cabeça, lazera os olhos—*de leve, ele diz "de leve"* — e queima a perna de um dos caras.


O cara cai. Grita. O outro tenta correr.


Powegiry não deixa. Um soco. O bandido apaga antes de entender o que aconteceu.


*(A multidão explode. Crianças gritam. Pais filman. Um culto em tempo real.)*


— SENHOR AMERICA!


Ele vira. Sorriso suave. Aquele sorriso de político no ano eleitoral.


— POWEGIRY!


Ela nem se mexe. Ela nunca se mexe nessas horas. Ela só... existe. Como uma estátua que resolveu bater em pobre.


— Podem tirar uma selfie comigo? — o garoto perde o fôlego perguntando.


— Claro — Senhor America responde. A voz dele é mel. É acolhedora. É o tipo de voz que faria sua mãe confiar nele.


*(Os garotos se aproximam. Celular erguido. Flash. Sorrisos.)*


A rua inteira aplaude.


**Ninguém pergunta onde o caminhão estava indo. Ninguém pergunta quem eram os bandidos. Ninguém olha pros dois corpos no asfalto, um com a perna chamuscada, outro apagado, e pensa: "Será que eles mereciam?"**


Não.


Eles tão felizes. Têm a selfie.


E essa... essa é a parte mais podre de todas.

(Corte seco)


**O sonho sempre começa igual.**


1967 não. Mais tarde. Anos depois do T-Virus. Quando o Z já era versão de prateleira, vendido como esperança em frasco.


Um garoto. **Nove anos.** Cabelo bagunçado. Olho arregalado. Braço fino preso naquela cadeira que parece de dentista, mas não é. Nunca é.


— Vai ficar tudo bem — o cientista mente. Jaleco branco. Voz macia. O tipo de voz que você ouve antes de algo horrível acontecer.


A agulha entra no pescoço.


O garoto grita.


**Então ele explode.**


Não é metáfora. Não é "ah, brilhou muito". É eletricidade pura, azul, branca, amarela, um curto-circuito no tecido da realidade. Os cientistas caem. Corpos rígidos. Cabelo em pé. Cheiro de queimado que ninguém vai limpar.


O garoto levanta. Trêmulo. **Diferente.**


Anda dois passos.


Cai.


E o corpo dele... muda. Ossos se reajustam. Ombros se curvam. Maxilar afina. Como se a natureza tivesse olhado pra ele e dito: *"Errei, foi mal, vamos refazer."*


*(Corte seco. Despertador apitando. Alto. Insuportável.)*


**2024. Mesmo garoto. Não tão garoto mais.**


**Luck.** Dezoito anos. Cabelo ruivo até o pescoço. Rosto que qualquer passante chamaria de "moça" sem pensar duas vezes. Corpo que não combina com o nome no registro de nascimento.


Ele senta na cama. Quarto bagunçado. Roupa no chão. Copo velho em cima da mesa.


E paredes. Muitas paredes.


**Pôster do Senhor America.** Sorriso perfeito. Braço cruzado. Olhando pra câmera como se você devesse algo a ele.


**Pôster da Powegiry.** Ela não sorri. Ela nunca sorri nos pôsteres. Ela só... observa.


**Pôster dos Seis.** Time dos sonhos. Senhor America no centro. Powegiry na esquerda. Os outros quatro—nomes que todo mundo decora, rostos que estampam camiseta—em formação de ataque. Heróis. Ídolos. Produtos.


Luck desce a escada. Cada degrau range. Ele já sabe o que vai encontrar.


**Pais adotivos na cozinha.**


Não são os pais de verdade. Os de verdade... bem, Luck matou eles. Acidentalmente. Uma crise. Um curto-circuito. Um abraço que virou execução. Aos nove anos. Quando acordou do sonho pela primeira vez.


Na mesa tem cereal. Leite. Suco de laranja. Uma rotina doméstica tão normal que chega a ser doentia.


Os pais adotivos olham pra Luck. Sorrisos ensaiados. Acolhedores. **O mesmo tipo de sorriso que os cientistas usaram antes da agulha.**


— Bom dia, querido — a mãe diz.


Luck não responde.


Ele só olha pra mãos. Pequenas. Delicadas. **Capazes de matar sem tocar.**

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.