The Story of a Daughter of Hades – The Beginning
6 Enjoy The Silence
Notas iniciais

Tenho o mesmo sonho, o mesmo pesadelo de ontem, não quero descobrir quem é o garoto morto no chão, mas eu preciso preciso preciso preciso.
— Acorda! Arya, acorda! – novamente há alguém me sacudindo pelos ombros para que eu acorde, mas quando abro os olhos é apenas o Nico.
— Hmm? O que é? – digo passando a mão nos olhos.
— Você está bem? Tava falando sozinha e se debatendo enquanto dormia – olho para os lados Haylley está sentada em sua cama, olhando para mim e Dylan está apoiado na minha.
— Ahh sim, eu estou bem. Foi só... foi só um sonho ruim. Que horas são? – ele me olha desconfiado.
— São 3h12min da madrugada. Volta a dormir – ele se levanta, e, ao mesmo tempo, ele e Dylan vão, cada um para sua cama – se precisar da gente, é só chamar.
— Ou começar a falar sozinha – Dylan diz e Nico olha feio pra ele.
— Boa Madrugada – Haylley murmura. E logo todos estão dormindo, menos eu. Demoro a dormir novamente e só percebo que isso aconteceu quando acordo de manhã.
Pego uma muda de roupas no baú e sigo para o banheiro como faço sempre, meus irmãos ainda dormem, mas logo já estarão de pé. Retiro o curativo do ferimento feito três dias atrás, agora é apenas uma cicatriz rosada (mais uma na coleção, aliás), primeira notícia boa do dia: hoje não tem curativo. Tomo um banho quente, faço minha higiene matinal e visto um shorts preto, uma blusa rosada soltinha com alças finas e um salto. Passo minha costumeira maquiagem e coloco um par de óculos escuros já que por alguma razão que desconheço, a luz fluorescente do banheiro está incomodando meus olhos. Ao sair do banheiro passo os dedos pelos meus cabelos soltos, nunca sei se faço algo com eles ou não.
Me sento na minha cama, e pego novamente minha caixinha de madeira, pego o pequeno cavaleiro de madeira e o giro entre os dedos, sorrio. Uma boa e pequena lembrança acompanha esse pequeno objeto:
“ – Você não tem medo da tempestade? – perguntei encolhida observando os raios no céu carregado.
— Não, e você também não deveria. Não vai te fazer mal... – Victor me dizia, ele se sentou mais perto, nesse momento um raio iluminou o céu, o som dele pareceu ter sacudido as janelas, e eu comecei a chorar.
— Ei, não chora, não vou deixar nada te machucar. Olha, eu fiz isso pra você – ele me estendeu o pequeno cavaleiro de madeira e sorriu – meu pai me ensinou a fazer, ele vai te proteger – eu sorri com algumas lágrimas nas bochechas e peguei o bonequinho – eu prometo, vou te proteger da tempestade – olhei para ele ainda sorrindo.
— Até ela acabar?
— Até ela acabar.”
Eu tinha seis anos, era uma criança inocente, não sabia como o mundo poderia ser cruel, como ele derrubava e esmagava facilmente pessoas com sonhos e esperanças. Era isso o que eu era: uma garotinha cheia de sonhos, esperanças e medos que o mundo não hesitou em torturar até que não sobrasse nada além do medo.
Ouço Haylley se mexendo na cama ao lado e guardo minhas coisas, alguns segundos depois ela se senta na cama e olha para mim esfregando os olhos.
— Bom dia Arya... – ele olha para cama dos meninos, mas volta a olhar para mim tão rápido que me surpreendo do seu pescoço não ter quebrado. Ela arregala os olhos – N-Ã-O A-C-R-E-D-I-T-O! Você ta usando uma blusa rosa ou eu estou alucinando?
— Ela não é só rosa –resmungo – e depois, não é porque sou filha de Hades que não posso dar uma variada nas cores que uso – reviro os olhos e ela ri.
— Vou me arrumar.
— Ok, eu vou esperar vocês hoje – digo colocando os óculos apoiados nos meus cabelos e me recostando na cabeceira da minha cama.
Fico brincando com um fio solto da costura do cobertor enquanto meus irmãos se arrumam para o café da manhã. Ao ouvir a concha, me levanto, pego minha espada, a posiciono no meu cinto junto com duas facas de caça e coloco meu grampo/lança no bolso. Hoje o treino é diferente, os filhos dos Três Grandes se juntam para um treino “de poderes”, Quíron dizia que seria bom para evitar conflitos entre nós. Bom, acho que até agora não funcionou.
— Arya – Nico me chama e olho para ele – tenta não reproduzir a catástrofe que foi nosso último treino com os filhos de Zeus ok?
— Não te prometo nada – digo e dou um sorrisinho, ele ergue as sobrancelhas – brincadeira, sabe que eu tento não sabe?
— Eu não sei de nada – ele olha pro meu cinto, depois volta a olhar para o meu rosto – Eu acho melhor eu já ir arranjando um kit de primeiros socorros... – Reviro os olhos.
— Deixa de ser besta, e vocês dois? Vamos tomar café da manhã ou não?
— Alguém tá muito apressadinha hoje, hein? Relaxa, Princesa das Trevas, a comida não vai sair correndo – Dylan diz e muda de assunto – Porque tá de óculos escuros?
— Sei lá, a luz tá me incomodando hoje.
— Faz parte da transição de vampira dela – Haylley sussurra e os dois começam a rir.
— Eu ouvi isso Hay, não tem graça, vamos logo – digo puxando os dois. Nico vem logo atrás, rindo deles. Reviro os olhos e coloco os óculos quando chegamos às escadas.
— Dylan – chamo e ele olha para mim – o que tem a dizer sobre a garota de quem você não tirava os olhos ontem? – Haylley prende o riso.
— N-nada – ele gagueja e cora – não tava olhando pra ninguém.
— Uhum. Tá. Ele tava de olho na Alice, filha de Poseidon – diz Nico, colocando a mão no ombro de Dylan – e você nem estava sendo discreto – ele acrescenta com uma risada, rio também.
— Deve ter assustado ela – Haylley diz com um sorriso travesso.
— Ela nem viu – Dylan diz cruzando os braços como uma criança birrenta.
— Então você admite – digo com um sorrisinho, enquanto entramos no Pavilhão do Refeitório. Olho para ele de canto e rio – perdeu o direito de falar de mim.
Ele resmunga algo e sentamos para o café da manhã. Pego um pedaço de torta de amora e um muffin de blueberry, vou até o braseiro e jogo o muffin, quando volto a mesa pego um copo e penso em milk shake de morango, Haylley olha paro o meu copo.
— Sério? Milk Shake? No café da manhã? – ergo as sobrancelhas e bebo um pouco do conteúdo do copo.
— E por que não? – dou um sorriso de canto, ela dá de ombros.
— Touché.
Continuamos o café da manhã em silêncio, percebo os olhares furtivos que Dylan lança em direção à garota de Poseidon, eu a olho rapidamente, parece ser gentil, ela ri junto dos seus irmãos de alguma gracinha que Percy está fazendo com a comida. Balanço a cabeça, primeiro Haylley, agora Dylan, quanto tempo falta para Nico estar olhando para alguém com essa intensidade? Olho para ele, seu olhar vazio está fixo em algum ponto do horizonte. É, acho que vai demorar um pouco.
Quando terminamos de comer seguimos para a arena, esse treino é o único que respeito no meu horário. Ao chegar lá vemos que os filhos de Zeus já estão se preparando (novidade), até a pequena Amber, que está no chão brincando com um unicórnio de pano... bem, o que vale é a intenção. Um pouco depois de nós chegarmos, os filhos de Poseidon chegam junto com Quíron.
Todos nós começamos o treino com controle de poderes. Nós filhos de Hades podemos fazer varias coisas como: viajar pelas sombras, convocar soldados esqueletos, manipular a escuridão, manipular objetos preciosos que estão debaixo da terra e o mais complicado, o olhar de penitência*(esse não podemos nem treinar, já que é o olhar da morte, literalmente). São muitos poderes, e até onde se sabe, nenhum filho de Hades já conseguiu controle sobre todos eles, por exemplo: eu sou muito boa manipulando a escuridão e convocando soldados esqueletos, Nico é o melhor com viagens nas sombras e, como eu, convocando esqueletos, Dylan é o único de nós que manipula objetos preciosos, e Haylley...bom, ela ainda não desenvolveu completamente o poder em que é melhor. Todos nós podemos executar qualquer um desses poderes, mas os que não somos tão bons puxam uma carga energética muito maior que a necessária e isso nos esgota bastante. Tipo, quando faço minhas viagens nas sombras.
Enquanto faço soldados esqueletos saírem do chão e serem sugados pelas sombras, observo os outros treinando. Os filhos de Poseidon geram pequenos tremores no chão e manipulam a água de uma pequena fonte que foi posta ali para eles e os filhos de Zeus, geram pequenos tornados de tempestade e fazem o céu relampear.
Depois de um tempo nesse treino, Quíron nos chamou e disse que queria que formássemos duplas de combate corpo a corpo, e que de preferência não escolhêssemos nossos irmãos, reviro os olhos “Claro, vamos começar a terceira guerra mundial, porque não?”. Analiso os semideuses na arena: três filhos de Poseidon: Alice, Percy e Emmett, três filhos de Zeus: David, Tyler e Amber e eu e os meus irmãos. Alguém vai ficar sem dupla, já que, na minha opinião, seria pedir muito que uma criança segure uma espada.
Percebo que Tyler está me encarando “maravilha, desde quando ele é um stalker?”.
— Aí Blackwell, qual é a dos óculos escuros? – ele diz do outro lado da arena se dirigindo a mim, fazendo com que todos parem o que estão fazendo para ver minha reação, esse pessoal adora uma briga, santo Hades.
— Estou tendo um ótimo dia e não queria ter que olhar para a sua cara sem um filtro – digo cruzando os braços.
— Outch! Turn down for what! — diz Dylan, reviro os olhos.
Tyler me encara, pronto para revidar, quando Quíron, pergunta se não vamos continuar o treino. Todos vão logo arranjando um par. Haylley precisa de um tempo descansando, já que havia tentando várias viagens na sombra então ela e Amber não treinarão agora. Dylan não perde tempo em chamar Alice para a luta, ela sorri e aceita. Emmett e David começam a lutar. Nico e Percy formam outra dupla, fazendo com que eu tenha que lutar com o Tyler.
Maravilha.
Simplesmente ótimo.
Vou acabar com ele.
Puxo minha espada do cinto e me posiciono, Tyler vem para minha frente com um sorrisinho cínico.
— Preparado para perder? – giro a espada.
— Porque você sempre acha que vou perder? – ele me responde com outra pergunta e reviro os olhos.
— Por que eu não perco, essa tarefa é sua — sua expressão se fecha e ele ataca.
Bloqueio com a parte chata da lâmina, empurrando a lâmina dele contra ele, giro a espada fazendo com que Tyler se afaste. Então ele avança na minha direção e faz um arco com a espada como se quisesse arrancar minha cabeça ou algo assim. Não penso duas vezes: assim que noto a sombra que há na sua frente mergulho nela, e volto a emergir atrás de Tyler, chuto a base da sua coluna com o joelho, uso isso como distração, enquanto ele cai de joelhos (e ainda de costas para mim), pego a sua espada e posiciono a minha no seu pescoço.
— E eu estava certa... mais uma vez— digo, tirando minha espada do seu pescoço – devia desistir logo.
— Nunca! – ele diz se levantando e se virando para mim.
Reviro os olhos mais uma vez e me viro me dirigindo à saída da arena.
— Onde você vai? – ouço Tyler perguntar, paro onde estou, mas não me viro.
— Não é da sua conta – digo seca.
— Arya... – ouço Nico dizer, como se quisesse me fazer a mesma pergunta.
— Não vou sair do acampamento.
Continuo andando, e sigo para a praia. Me sento em uma das dunas de areia. E fico lá pensando. O sol está um pouco forte, mas não me importo. Esfrego a pedra negra do meu colar entre meu polegar e o indicador, suspiro. Algo está me incomodando, mas não consigo definir o que é, e isso está me deixando louca.
— O que está fazendo? – ouço alguém dizer atrás de mim, me viro, mas sei que não preciso: reconheço sua voz em qualquer lugar.
— Dando um tempo. E você? – Eu o encaro – Deveria estar treinando, a menos que queira continuar perdendo – pisco e dou um sorrisinho seco. Ele se senta ao meu lado.
— Então... – ele ignora meu último comentário, e encara meu braço direito que está apoiado no meu joelho – não sabia que tinha uma tatuagem.
Olho para o meu braço, faz quase um ano que eu a tenho, fiz depois de ter terminado de ler (pela segunda vez) A Tempestade, de William Shakespeare. Por algum motivo a frase “O inferno está vazio, todos os demônios estão aqui” tinha deixado uma boa impressão em mim. Literalmente.
— Você não me respondeu – comento – porque me seguiu?
— Eu... humm... queria falar com você – ele pigarreia e olha ao redor, estreito os olhos.
— Sobre? – ainda estou desconfiada, esse é o tipo de coisa que eu nunca esperaria dele: ele vir aqui querendo conversar pacificamente... comigo.
— Você... tá com o Derek, o-ou algo assim? – ele pergunta, parece bastante nervoso, não para de mexer as mãos e de olhar ao redor, até que seus olhos param em mim e percebo que eu deveria responder.
— Porque quer saber? – ele parece ficar levemente pálido – Tyler, o que você tem haver com isso?
— Só responde a pergunta – ele vira o rosto e encara o mar.
— Não – me vejo dizendo – somos amigos – ele parece aliviado – Porque você...? – Ele me interrompe.
— Por nada, eu... só queria saber mesmo – ele me olha de novo – vai voltar pro treino?
— Acho melhor não – me levanto – tenho algumas coisas pra resolver.
E essa, senhoras e senhores, foi a primeira e, provavelmente a última conversa civilizada que eu teria com Tyler por um bom tempo.
Ando sem rumo pelo acampamento, por fim decido ir para a floresta. A verdade é que eu disse para o Tyler que tinha coisas para resolver só para me livrar dele. Às vezes na maior parte do tempo eu gosto de ficar sozinha depois de uma luta, e ficar conversando sobre coisas sem sentido não é exatamente a definição de sozinha.
Me sento sob uma árvore e fico lá, pensando em nada específico. Várias coisas aparecem e somem com a mesma rapidez nos meus pensamentos. Tudo é uma bagunça. Eu não consigo me concentrar. Como se fossem sussurros, os pensamentos se misturam uns com os outros, como se quisessem me confundir, como se quisessem me enganar.
Balanço a cabeça. É por isso que eu não descanso.
Sempre sozinha. Sempre ocupada para desocupar a mente.
Ouço ao longe a concha soar anunciando o almoço. Encontro meus irmãos no pavilhão do refeitório. E fico feliz quando eles não insistem que eu converse.
Depois disso, vou para a aula de canoagem com eles, mas é algo meio inútil, já que nem eu nem meus irmãos nos sentimos confortáveis, não importa se aquilo é apenas um lago. Depois do que parecem horas, volto para o Chalé 13, mesmo sendo meio de tarde e o sol estar alto no céu, o chalé está escuro, e o fogo grego verde nas tochas presas à parede de mármore negro parece deixar tudo com um clima tenso e sombrio.
Sento na minha cama e busco na minha cômoda, na última gaveta, um pequeno livro, com capa de couro e páginas grossas e amareladas, eu o folheio rapidamente. A letra pequena e tremida mostra a dificuldade que eu tive para escrevê-lo. Paro em uma página aleatória.
“ Não sei que dia é hoje.
Só sei que já escureceu, minha mãe deve vir a qualquer momento. Ela sempre me visita pela noite. Eu só posso te ver quando escurece, minha querida, são as regras. É o que ela diz. Queria não ter que te deixar sozinha. É o que ela deve pensar em dizer. Queria conversar mais com ela, que ela ficasse mais comigo, que ela me tirasse daqui, que ela não estivesse morta.
Mas acredito que ninguém nunca se importou com o que eu quero, para realmente pensar em me ajudar. Nada pode me salvar agora.
O corte profundo em meu braço lateja, sinto o sangue fluir dele à medida que me esforço para escrever. Quase me acostumei à dor. Eles não o costuraram e nem o higienizaram. Uma nova experiência, disseram. Talvez você não morra, penso ter ouvido um deles dizer.
Mas a verdade é que a morte seria a minha salvação.
A salvação que sei que eles não irão me oferecer.
A salvação que eles vão tirar de mim a todo custo.”
Eu conheço cada parágrafo, cada linha, cada palavra, cada vírgula desse livro de cabeça. As palavras estão gravadas na minha mente, todas elas. Como se fossem um lembrete, como se nada do que eu fizesse poderia me dar a chance de esquecer, a chance de não me incomodar, a chance de não sofrer.
Acordo com a voz de Haylley me chamando. Quando foi que eu dormi? Abro os olhos lentamente.
— O que foi? – digo me sentando, meu diário antigo está no meu colo.
— Jantar – ela diz – os meninos foram direto para o refeitório – ela olha para o meu diário – o que é isso?
— Isso... não é nada que... – tento escondê-lo, mas ela o pega antes que eu tenha a chance.
Ela o folheia.
— Que língua é essa? – ela me encara – O que é isso?
— Nada importante – digo tirando das mãos dela – é sério – guardo-o de volta na última gaveta – vamos jantar?
— Claro – ela concorda, mas seus olhos estão fixos na gaveta onde guardei o pequeno livro.
Seguimos para o pavilhão do refeitório, e nos sentamos com os meninos.
— Ai está ela! Tava boa a soneca Arya? – Dylan pergunta, reviro os olhos para a pergunta, mas consigo sorrir.
Como sempre dormir foi perturbador.
— Ela tava lendo umas coisas estranhas, quando caiu no sono... em outra língua – Haylley relata para os garotos – porque não diz o que estava escrito? – ela volta a olhar para mim.
— Por que não é nada importante – flashes do que foi narrado naquelas páginas começam a piscar na frente dos meus olhos.
— O que era aquele livro?
— Nada, não era nada.
— Então por que tava lendo? – ela ergue uma sobrancelha e beberica seu refrigerante.
— Por que eu... eu não sei.
— Você está mentindo – ela está ficando irritada, vejo uma ruga se formar na sua testa, ela larga o garfo – Porque sempre mente pra a gente?
— Não estou mentindo – essas perguntas estão começando a me incomodar.
— Sim. Você está! – ela grita – E não é a primeira vez! Somos seus irmãos droga! Não dá pra ter um pouco de confiança?
A sua gritaria começa a chamar atenção dos outros campistas.
— Haylley, não é que eu não confie... – eu murmuro tentando manter a calma, mas a dor do passado me vem com tanta vivacidade que é como se tudo estivesse acontecendo agora.
Sei que vou perder o controle.
— Então o que é? – Haylley está em pé
— Haylley... – ouço Nico repreende-la.
— Pare com isso, está chamando atenção – ouço Dylan dizer, pela primeira vez sério.
— Não! – ela vocifera pra eles e se vira para mim – e então? O que é?
— Pare – eu digo, e quando vejo já estou de pé também – você não quer fazer isso.
— Quem é você pra me dizer o que fazer? – ela pega sua adaga – Me responde!
— Haylley – digo mais alto, minhas mãos tremem – pare!
— Me responde!
— Não! – grito, e tudo que eu continha até o momento, explode.
Rachaduras aparecem por todo o piso. As sombras começam a se mover com rapidez por todo pavilhão. E quando me dou conta estou com o joelho, na barriga de Haylley e com minha espada no seu pescoço. Seus olhos estão arregalados.
Volto a mim, quando vejo uma lágrima traçar seu caminho no rosto da minha irmã.
Largo a espada e me levanto, me afasto de Haylley. Filhos de Apolo saem da multidão que nos assistia para ajudá-la.
Dylan e Nico ficam ao seu lado.
— Haylley, me desculpe – olho para minhas mãos. O terror me sufoca, o horror está lá me vendo sofrer e aprecia isso – eu não queria, não queria... eu não...
E então não há mais oxigênio suficiente.
Me viro e saio correndo, para o único lugar onde nenhum campista iria me procurar. Se algum estivesse disposto a fazer isso. Adentro a floresta, não ligo se encontrar um monstro, não ligo se ele tentar me matar, ele pode fazer isso. Eu iria agradecer. Iria agradecer eternamente.
Caio em algum lugar, em alguma clareira, soluços irrompem de mim, abraço minhas pernas. E fico assim. Até me sentir velha o suficiente, para me perguntar o porquê de o mundo não ter se livrado de mim ainda.
Porque me fazer sofrer? Será que já não sobrevivi à dor suficiente?
Acabei de atacar minha irmã. Eu nunca nunca nunca quis atacá-la.
Ela só estava preocupada comigo.
Ela só queria confiança.
Agora ela me odeia.
Agora ela tem medo de mim.
Suas perguntas ficaram sem respostas, como as minhas ficaram sem respostas durante toda a minha vida.
O silêncio. A única coisa que me foi dada além da dor. Apenas o silêncio. E depois de tanto tempo escutando-o, aprendi que as palavras são outra forma de torturar, de causar dor. Aprendi que fico melhor sem elas.
Aprendi a apreciar o silêncio.
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