— Mandou me chamar?

— Entre e feche a porta, Kankuro. – após o ranger da mesma, continuou — Hoje cedo recebemos isto: um pergaminho da divisão de força – Disse Gaara em tom sério, estendendo o braço para entregar o rolo. Estavam apenas os dois na sala.

— Mas.. se esse rolo está aqui, significa que toda a comitiva.. – os olhos estavam atônitos

— Isso mesmo.

— MAS QUE MALDIÇÃO! — Kankuro deu um soco na mesa, abaixando a cabeça.

— Não foi sua culpa! Não tinha como nós sabermos.

— Você sabe como eu me sinto! Porra, eles tinham família!! E foi eu quem deu a ordem..

— Eu sei, mas eram shinobis também, não se esqueça! Essas coisas acontecem. Agora se acalme, nós vamos vingar essas mortes Kankuro, mas primeiro precisamos saber com quem ou o quê estamos lidando. Ah... E também tire o resto do dia para descansar, você está péssimo. Isso é uma ordem. – Disse se escorando na cadeira. Kankuro devolveu o pergaminho e ele o guardou na gaveta. Gaara suspirou quando ele saiu. Sabia que seu onii-chan se sentia responsável por cada ninja que morria em campo de batalha sob suas ordens, e que desde quando não houve mais contato com a comitiva da missão já pressentia o pior.

Gaara abriu novamente a gaveta e pegou o pergaminho, leu tudo atentamente. Tratava-se de um antigo nukenin da areia que matou metade do conselho no passado e roubado um kinjutsu, o esconderijo dele havia sido descoberto porém todos haviam morrido por isso. Depois de ler o conteúdo, virou a cadeira em direção à janela, o sol já estava se pondo e enquanto assistia aquela bela imagem, um vulto branco entrou na sala pela outra janela. Ela era muito rápida.

— Pensei que não viesse hoje..

— Ahn.. o treino demorou mais do que o necessário. Sentiu minha falta? – Akame estava suja e suada – Bom, eu só vim para ver como o senhor estava e perguntar se você não quer ir comigo na loja de doces mais tarde.

Gaara deu um leve sorriso, quando ela perguntou sobre sentir sua falta. É óbvio que ele havia sentido, mas em vez de responder, deixou ficar subentendido. Como negar algo àquela criatura tão fofamente mortal? E, como negar algo para a única pessoa em toda a vila da areia que o fazia sorrir como uma criança boba. – Ele assentiu.

— Ótimo, então eu vou tomar um banho e mais tarde nos encontramos lá embaixo.

~

Depois de um tempo a moça resolveu aparecer

— Desculpa a demora, mas eu estava em uma briga de vida ou morte com o pente. Eu gosto do meu cabelo, mas as vezes eu gostaria que fosse como o seu pelo simples fato de não ter que pentear...- Gaara ouvia a toda aquela ladainha como música para os ouvidos, observando os trejeitos daquela mulher que talvez sem saber havia ganhado seu coração. — Senhor? Oee..?? – Estalou os dedos despertando Gaara do transe em que estava.

—huun..?

—Você está bem? – Disse se aproximando. Aquela distancia era um pouco perigosa.

— Estou sim. Continue o que estava falando, você dizia que odeia pentear o cabelo.. – Akame voltou a falar e mexer aquelas mãozinhas até que os dois chegaram na loja de doces.

— Akame- san, que surpresa boa! O que a traz aqui? – olhou para o Gaara com menos entusiasmo – Olá, Kazekage sama.. – O moradores da vila respeitavam Gaara, mas não necessariamente gostavam dele. Mesmo depois de ter arriscado a vida tantas e tantas vezes por aquelas pessoas.

— Os seus doces que me trazem aqui – Ela estava sorrindo e seus olhos brilhavam enquanto encaravam as guloseimas atrás do vidro do balcão. Já estava se tornando um hábito as visitas à loja de doces. Depois de escolher o que queriam, cada um saiu com o seu pacote, comendo e andando pela vila. As ruas estavam coloridas, as lojas iluminadas, parecia que a vila ia entrar em ritmo de festa.

— Senhor, por quê estão todos arrumando e enfeitando a vila? – Perguntou enquanto se lambuzava comendo um Donut de chocolate.

— O Ano Novo acontecerá dentro de alguns dias, é por isso. – Qualquer dedo que o kage olhasse tinha glacê. – É uma festa coletiva aqui da vila. Todas as famílias que moram nos domínios do Senhor Feudal virão para cá.

— Ah... parece divertido – disse enquanto abocanhava mais um pedaço do Donut, e estava com o nariz sujo de chocolate. – Senhor, por que as pessoas daqui te tratam diferente? Eu sinto que elas são frias contigo..

— É que, bom... no passado eu dei motivos para elas não gostarem de mim.. – E começou a narrar sua trajetória como jinchuurik e sua saga com Shukaku.

— Jinchuu.. o quê? – Akame estava com a boca cheia e suja com uma mistura de chocolate com açúcar. Gaara se divertia com a espontaneidade dela.

— Jinchuurik Akame, jinchuurik – Ele riu alto quando viu o estado da companheira. – Eu não entendo como você consegue se sujar tanto. Você parece uma criança comendo esses doces.

— Ser criança é tão melhor do que ser adulto.. a vida adulta não tem a menor graça.. – os dois riram até que pararam perto de uma loja de fogos de artifício.

Ele olhou para aquela boca toda suja, e limpou parte do açúcar que estava ali. Quando pousou um dos dedos sobre o lábio pequeno delineando o contorno, ela fechou os olhos deliciando-se naquele carinho. Em seguida, pôde sentir o hálito quente do rapaz aproximar-se do seu rosto e os lábios de ambos se tocarem levemente, quase concretizando o que os dois queriam...

... quando de repente foram interrompidos por uma caixa de fogos ensandecida que estava estourando e jogando os fogos para todo lado. O pavio de um deles acendeu por causa de uma tomada velha que estava perto.

Aquela foi uma noite feliz, apesar do não beijo. Passaram o resto do caminho reparando nos preparativos de festa e conversando. Os doces já haviam acabado. Quando chegaram no corredor dos quartos se despediram e Akame seguiu pela direita e Gaara pela esquerda. Ambos os quartos eram no fundo do corredor. Seguiram, pensando um no outro. Precisando um do outro.

Como sempre, Akame não conseguiu dormir mais do que umas 4h e se levantou. Aquele tanto de açúcar à noite somado aos pesadelos a deixaram mais agitada do que o normal. Resolveu sair para tomar um ar e caminhou até a arena de treinamento onde encontrou Gaara sozinho sentado no chão frio, encostado em uma pilastra, olhando para a Lua. Ele não a havia notado ali.

Ela parou por um instante e ficou olhando aquela figura que agora fazia parte do seu cotidiano. O vento balançava os fios de cabelo vermelho deixando a tatuagem na testa à vista e tinha também aqueles olhos verdes penetrantes, que carregavam uma aura de mistério e selvageria. Ela se aproximou lhe tocando o ombro.

— Não conseguiu dormir? – E sentou-se ao lado dele

— Não, minha cabeça está muito inquieta. E você?

— Também não.

— São os pesadelos ainda? -Ela assentiu. Os dois ficaram por um tempo sentados ali, em silêncio, olhando para a lua e as folhas das palmeiras dançarem ao som do vento.

— Senhor, eu.. – Ele a interrompeu.

—Akame, me chame de Gaara. – estava olhando para ela — eu não sou o seu senhor, você é livre aqui – e virou o rosto novamente. Ele continuou

— Lembra quando você me perguntou se eu não me cansava de ser o Kazekage? Então... eu menti. Na verdade, eu estou muito cansado.. – Akame percebeu que aquele era o momento dele e apenas o ouviu — ..me sinto um animal preso aqui. Não tenho privacidade suficiente, nem tempo pra mim, nem liberdade. Eu vivo pra esse trabalho. Não que eu não goste, não me entenda mal, mas preciso de um tempo de descanso e as obrigações não me permitem esse luxo.

Depois de uns minutos ele completou:

— Obrigada por estar aqui, Akame e também por não me julgar por causa do meu passado – Ele suspirou.

— E por que eu te julgaria? Pelo menos você tem um para se lembrar. Eu não sei de onde vim, tem um louco qualquer me perseguindo e vai saber o que eu fiz para provocar isso. Todos nós temos do que se envergonhar Gaara. – Disse com voz terna. Ela olhou em seus olhos e encostou a cabeça em seu ombro se aninhando ali, enquanto ele subia o braço pelas costas dela repousando a mão sobre seu ombro, em um abraço.

Eles não perceberam, mas enquanto estavam ali, um dos conselheiros observava tudo escondido nas sombras, com um olhar de reprovação.

— Gaara, Gaara, sua hora vai chegar..