The Sound of Winter
4 III: Juro pelos Deuses, meus e seus.
Notas iniciais
“Juro pelos Deuses, meus e seus.”
III: Marynd.
Muralha/Para lá da Muralha.
Havia muitos destroços e ruínas na Atalaioeste da Ponta, e o lugar tinha cheiro de sal e de mofo, principalmente próximo ao castelo abandonado e destroçado onde estava. Havia deixado o seu projeto de galé – que ironicamente não podia nem ao menos ser chamado de projeto, sendo este apenas um conjunto de madeiras que o Povo Perdido de Skane improvisara para que ela não precisasse nadar até a Muralha, o que certamente não seria algo que Marynd gostaria de ostentar em seu histórico – na Atalaialeste do Mar, lugar por onde cortara sorrateiramente a Muralha até o seu destino.
Mordeu os lábios carnudos quando seus olhos incompatíveis varreram intensamente o local. Sua pose era despreocupada, já que sabia que ninguém ia para aquele lugar mofado, com o corpo encostado em uma das ruínas insignificantes, meio distante e difícil de enxergar. Marynd sabia que logo, logo os patrulheiros que esperava chegariam ali para ter com ela, e só a ideia de vê-los a deixava ansiosa e irritada.
Águias voavam atentas no céu cinzento, este estava sendo banhado pela luz dourada do entardecer. A coisa que mais gostaria de fazer, no momento, era correr dali em direção ao seu destino, sem se importar com os corvos estúpidos, mas nada poderia fazer. Marynd precisava das informações que eles tinham, e eles deviam isso a ela, visto que conseguira dar um leve sumiço no filho legitimo de seu suposto pai, Mance.
Onde estão aqueles corvos bastardos?, pensou irritadiça, o vento frio açoitando os cabelos selvagens e castanhos. Os olhos dela, um azul cinzento e o outro castanho, encontraram-se mesmo ao longe com os cinzentos e frios de “Lorde” Snow. Ao seu lado, Edmund, o Demônio Reed, com os seus quase dois metros de altura e os cabelos loiros e compridos; o rosto levemente arrogante que levava a selvagem a repugná-lo com todas as suas forças.
Desencostou-se da parede quando eles se aproximaram o suficiente para ver a face entediada dela.
— Pensei que eu fosse ter de esperar até amanhã por vocês, meus queridos corvos. — sua voz estava repleta de uma gélida ironia, e Marynd estendeu a mão para pegar o combinado. — Eu quero o meu mapa. E a adaga.
— Você devia ter mais respeito com os seus superiores, selvagem. — Edmund lhe alfinetou, fazendo com que a mesma soltasse um risinho de escárnio.
— O que tem contra mim, doce Senhor? — sua voz estava do mesmo tom de antes, mas com uma pitada a mais de escárnio. Riu da suposta careta que se formou em seu rosto.
— Você é só uma selvagem desprovida de virtudes e...
— O mapa só segue até a Terra do Sempre Inverno, Marynd. — Jon Snow lhe alertou, cortando a provocação de Edmund. Seu o rosto tinha traços sérios e os olhos cobertos de profundas olheiras, mostrando que ele provavelmente passara a noite em claro para procurar o mapa que ela havia exigido. Ver aquilo tornou as coisas um pouco mais divertidas. — Quando chegar é por sua conta.
— Eu sei o que fazer quando estiver lá — disse, com um sorriso de canto em seus lábios carnudos. — Também conheço Para lá da Muralha como a palma da minha mão, mas prefiro prevenir. De qualquer maneira... — formulou um beijo no ar, em direção a Jon. — Espero que quando os Outros chegarem você saiba o que fazer.
— Saberei — pela primeira vez em muito tempo, viu o gélido bastardo de Winterfell sorrir. — Vai seguir por onde? — entregou para ela a adaga de vidro de dragão e o mapa de Para lá da Muralha. Uma careta se formou ao ver como o mesmo era vago.
— Bem... — Marynd murmurou, com os olhos analisando o mapa. — Sei que preciso permanecer sempre a oeste, portanto... Seguirei dos Colminhos de Gelo até os Thenn pelo rumo vago do Guadeleite. Talvez vire a noite no Punho. Ainda não sei. — Jon assentiu e apenas no momento ela olhou para o rosto irritado de Edmund. Concedeu a ele um sorrisinho, guardou o mapa dentro do manto que usava e a adaga em sua bainha, do lado esquerdo de seu torso.
Virou as costas e voltou-se para o pequeno túnel que havia, cortando a Muralha, provavelmente abandonado e criado para algum fim que ela não compreendia. Conseguia ouvir as reclamações do tal Edmund sobre como nunca deviam ter ajudado uma selvagem a ultrapassar a Muralha, sendo prontamente ignorado por Marynd e recebendo como resposta de Jon um riso vazio.
As únicas luzes que banhavam levemente o túnel provinham de tochas com uma luz avermelhada, estranha e tremula. Quando suas mãos rumaram próximas ao fogo, ele pareceu fugir de seus dedos. Diferente dos outros, não era quente. Parecia apenas um fogo imaginário e duradouro para dar luz, e apenas luz. Estranho, pensou confusa. Infelizmente, tudo no Norte era estranho. Principalmente a Muralha. O ar ali era pesado e frio, difícil de respirar. Sou uma selvagem, tenho sangue de gelo. Em um acesso de coragem, seus pés voltaram a funcionar.
O túnel seguia reto, e o gelo incrustado nas paredes de pedra aparentava folhas de uma trepadeira, com fios vertendo de cima para baixo em uma cascata congelada e sem origens. Em alguns lugares o mesmo se derretia, e a água pingava com um eco surdo por todo o local. O chão estava levemente molhado, e a água gelada por vezes entrou-se nas botas de couro velho que usava, o que foi prontamente ignorado por Marynd, que especulava sobre os acontecimentos vindouros.
Os olhos atentos captaram uma figura escura à frente. Quando se adaptou a escuridão esmagadora, notou que aparentava uma criança, vestida com um capuz negro sobre seu corpo. A chama vermelha brilhou intensamente quando o rosto se ergueu para observar o seu.
Deuses, Marynd se assustou, mas não deixou aquilo transparecer mais do que em um franzir de sua testa. O rosto da criança era tão alvo quanto leite e seus olhos, vermelhos como as folhas da Árvore Coração. Por um momento, percebeu que aquilo era exatamente isso: algum tipo de representação dos Deuses Antigos. Ela tirou o capuz negro que cobria sua cabeça e cabelos vermelhos, de aparência quebradiça caíram por seus ombros. Era possível ver como era magricela, mesmo por sob o manto.
— Faz tempo que não vejo ninguém por aqui... — o olhar era sábio, astuto e gélido. Sua palavras eram sonolentas. — Bem... Você pertence ao... — bocejou longamente, o que quase fez com que Marynd também bocejasse. —... Norte?
— Você conhece a resposta. — olhou dentro dos olhos vermelhos, bem fundos, e não viu brilho algum ali. Os deuses têm uma alma?
— Temos mais de... Mais de uma... — ela esfregou os olhos sonolentos. — Diga as palavras, Donzela do Inverno. Diga-as e... Você pode... — por um minuto, Marynd ponderou que a coisinha iria cair e dormir ali mesmo, na sua frente. — Pode passar...
Em um momento de pânico, ela pensou ter esquecido as palavras que a mulher de seus sonhos lhe dissera. Eram difíceis, aparentando vir de um tempo futuro. Mas, quando voltou a olhar para a figura, agora apoiada fatigadamente na parede coberta por gelo, Marynd se lembrou das palavras que conhecera pelo bastardo Jon no dialeto comum, e aprendera tempos depois em seus sonhos:
— Venit Hiems.
— Aestate finem. — respondeu com a voz agora com algo que parecia orgulho e... Alivio? —Passe. Você pertence ao Inverno, criança.
Mais tarde, enquanto seus pés estavam doloridos e o peso de seu arco quase lhe acabava com as costas, Marynd olhou para cima e por mais que a luz da lua estivesse tênue por conta do céu cinzento, viu o Punho, erguendo-se majestosamente por sobre a floresta e deixando uma fina neblina à sua volta. Estava cada vez mais próximo. Isso não queria dizer que próximo era, literalmente, perto.
A neve cobria seu calcanhar e deixava os dedos de seus pés dormentes, mas não havia nada que pudesse fazer. O excesso de branco na paisagem também a incomodava. Apesar de tudo, precisava fazer aquilo, precisava descobrir o que seus pesadelos significavam e ela sabia que a criança da Muralha também entendia isso. Talvez houvesse algo que ela ainda não havia captado, mas certamente conseguiria fazê-lo quando chegasse à Terra do Sempre Inverno. Seria um desafio, principalmente por ser uma terra não-mapeada e inconstante. Tudo o que Marynd teria de fazer era seguir seus próprios instintos e confiar nos seus sonhos. Principalmente isso.
A lua já não estava no meio do céu, e sim inclinada para o oeste, indicando que o ar mais fino e congelante eram por conta da madrugada. Quando o Punho entrou em seu total campo de visão, o maior desejo de Marynd era correr até ele e lhe beijar os pés congelados que ela imaginou ver. Apesar disso, controlou os instintos e observou o local. O vento parecia soprar mais frio ali, mas com o frio ela já estava acostumada desde o primeiro dia de seu nome. A pedra era cinzenta por baixo da pesada camada de neve, e havia muitas irregularidades onde o vento lhe danificara.
Colocando um dos mantos que usava sobre uma superfície escondida e parecida com um buraco na rocha coberta de neve, Marynd deitou-se e abraçou levemente o próprio corpo, sentindo falta de uma fogueira. Não era sensato, porém, acender uma em um local como aquele. Os gatos das sombras estavam em todos os lugares, e enquanto dormia, eles não lhe apeteciam.
Eu vou encontrá-la, Tessa. Juro pelos Deuses, meus e seus, pensou de maneira sombria, antes de seus olhos cederem ao cansaço e a escuridão dos sonhos a engolir por completo.
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