The Soul
2 Dois - Terra Branca
Quando acordei não sentia mais dor alguma, a única dor que sentia era a dor da perda, por perde-lo mais uma vez. Ver o corpo de Jack possuído por um alienígena trouxe de volta a dor que eu tentei soterrar em meu coração.
Será que ele havia me levado até um Buscador? Estou morta? Eu vou morrer? Algum parasita vai ser colocado em meu corpo?
— Não tente fugir Zoey. Você está a salvo. Não tem nenhum buscador por perto.
Abri rapidamente meus olhos, eu estava deitada em uma cama, ele estava no canto, o mais longe do quarto.
— Eu não quero machucá-la Zoey, não tenha medo. Eu... É que... Me de uma chance! – disse ele, a pessoa que um dia foi meu namorado Jack.
Não dei ouvidos a ele, pulei para fora da cama, olhei para uma porta entre aberta, corri para ela, por sorte a chave estava na fechadura, me tranquei no banheiro.
Eu precisava ver minha imagem no espelho. Prendi a respiração e fui para frente do espelho. Nenhum olho brilhando, nem um arranhão. Minha mão foi até a parte de trás do pescoço, nada. Soltei a respiração. Eu estava bem, e o que era melhor, nenhum alienígena estava dentro de mim. Eu não estava sentindo dor nenhuma, olhei para o meu corpo e tudo parecia estar no lugar, sem nenhum hematoma.
— Zoey... – a voz hesitante de Jack veio por trás da porta trancada – Não fuja, você está a salvo aqui, não tem nenhum buscador por perto. – repetiu – Zoey, eu não quero te perder.
Abri a janela do banheiro, por sorte ela dava em uma floresta, pulei para fora e logo reconheci do caminho, então corri por esse caminho de volta a casa da arvore.
Talvez uma parte de mim desejasse que ele me encontre.
Fiz todo o caminho até a casa da arvore com medo de estar sendo seguida por algum Buscador. Subi as escadas e me sentei em um canto, esperando meu fim. Ouvi passos lá fora cerca de uma hora depois, então começou a arranhar a porta, fiquei apavorada, o sangue pulsava forte em meu corpo. Só me acalmei quando ouvi um latido. Estava tão apavorada que nem pude pensar direito, é claro que humanos não arranhão uma porta daquele jeito. E aquele latido, era de um cachorro, mas não de um simples cachorro, o meu cachorro. Abri a porta e Tedy pulou em minhas pernas feito um louco.
— Tedy! – ele era um Lulu da Pomerânia, com um pelo marrom claro, ele era pequeno e fofo. – Senti tanto a sua falta Tedy! – peguei ele em meu colo e logo ele começou a me lamber toda.
— Pensei que você ia gostar de vê-lo. – disse Jack.
Olhei para baixo e vi Jack prado segurando uma coleira azul. Ele estava tão lindo.
— Por que você não pode me deixar em paz? – perguntei, meio grossa.
— Porque você não quer que eu te deixe em paz. Conheço você.
— Não. Jack me conhece e não você.
— Eu...Tenho acesso as memórias de Jack. Me desculpe.
— Qual seu nome?
— Jack.
— Não, esse é o nome do meu namorado, qual o seu nome.
— Nesse planeta meu nome é Jack, mas no planeta anterior eu me chamava Terra Branca.
— Porque você veio até aqui, Terra Branca?
— Só vim lhe trazer comida e roupas. — Ele largou uma mochila no chão – Você vai encontrar cobertores e um travesseiro na casa. Tem um rio aqui perto, mas você já sabe, mas caso você queira tomar banho em uma banheira de verdade, sabe onde fica minha casa, lá você pode encontrar uma cama confortável. Você está segura, eu não contarei a ninguém sobre você. – ele se virou e começou a partir.
— Terra Branca! – chamei antes que ele desaparece-se de vista.
— Sim Zoey?
— Obrigada.
Observei Terra Branca partir. Ele não era mal. Se ele realmente fosse mal já teria chamado os Buscadores enquanto eu estava desacordada. Pelo jeito que estou, sem nenhum arranhão, ele é um Curandeiro. Desci para pegar a mochila, dentro dela tinha as minhas coisas, as que estavam na mochila velha e rasgada que uso desde a “invasão”, tinha uma garrafa de água, um pote de sopa que ainda estava quente e morangos, é claro que ele sabe que eu adoro morangos. Encontrei ainda na mochila, sabonete, shampoo, uma toalha e um pacote de ração para Tedy.
— Viu Tedy, ele lembrou de você... E de mim.
Peguei a mochila e fui tomar um banho no rio, a água estava gelada mas já estava acostumada a isso. Não existe um chuveiro 5 estrelas na floresta para uma fugitiva de Aliens. Terra Branca me disse que eu poderia usar o chuveiro dele... Não. Não quero ver ele nunca mais, por mais que ele tenha me ajudado ele tirou meu Jack de mim, e isso é imperdoável. Tedy se jogou na água junto comigo, era tão bom ter ele de volta, me fazia lembrar de minha família, dos momentos com Jack, das caricias, dos beijos, de tudo.
Esse foi o melhor jantar de toda a minha vida. Faz muito tempo que não como uma sopa, quentinha, deliciosa e com queijo ralado. Mas a melhor parte foi os morangos. Logo depois que terminei de comer, me deitei no colchão com Tedy, fiquei ouvindo os barulhos que vinham de fora, eu ainda esperava alguém surgir pela porta e me levar a força e inserirem aquilo que matou tudo o que eu mais amo dentro mim.
Acordei de manhã com barulhos de passos. O coração parou.
— Terra Branca? – falei rouca de medo de ser um Buscador.
— Posso entrar? – era a voz de Jack por trás da porta.
— Pode. Meu Deus, você me matou de susto!
— Desculpe. – disse ele – Trousse o café da manhã.
— Obrigada. – ele colocou a comida na mesa.
— Está um pouco fria, é bom comer logo depois de pronto.
— Obrigada. – não queria olhar em seus olhos, então fiquei brincando com os pelos de Tedy, observei com o canto do olho ele andar até a porta e hesitar.
— Zoey, se você quiser ficar lá em casa... Por um tempo. É mais seguro lá... E confortável. – não respondi – Não lhe farei nenhum mal, queria que você acreditasse em mim.
E então ele se foi.
Durante uma semana Jack me levava comida três vezes ao dia, e a cada dia ele me surpreendia sabendo cada gosto meu. Tedy ficava feliz toda vez que o via, isso é porque ele não sebe que aquele não era Jack, mas sim Terra Branca, o monstro alienígena. Todas as noites eu penso se estou sendo muito dura com Terra Branca, às vezes eu trato ele tão mal e mesmo assim ele continua cuidando de mim. Uma pergunta ficou em minha mente a semana inteira, por que terra branca não me entregou aos Buscadores? Eu já vi as almas entregarem os parceiros humanos dos seus corpos para inserirem uma Alma nele. Se é que esses monstros devem ser chamados de Almas. Se eles são tão bons, honestos e tudo aquilo, por que invadem planetas e “roubam” seus habitantes?
— Eu trousse um livro pra você. – disse Terra Branca, trazendo meu jantar.
— Obrigada.
— Você gosta dos livros de Stephenie Meyer, então trousse Amanhecer para você. Tenho muitos livros em casa, se você quiser ir escolher um.
— Tá.
— Não se preocupe Zoey, você está segura comigo. – repetiu ele, a frase que ele dizia todas as noites.
E aquela foi a primeira noite que eu dormi tranqüila, porque Terra Branca estaria cuidando de mim.
O sol nasceu. Respirei profundamente. Olhei para o relógio que Terra Branca me trouxe há alguns dias, em cinco minutos ele estaria aqui. Três. Dois. Um.
— Bom dia Zoey. – disse ele exibindo um sorriso.
— Terra Branca, não sorria assim.
— Eu sei. Mas... – ele ficou magoado e sem palavras.
— O que tem hoje?
— Panquecas. – ele deixou na mesa junto com uma garrafa de suco.
— Valeu.
— Você sabe que pode ir para minha casa a hora que você quiser. – não respondi – Não consigo dormir a noite, fico preocupado se algum Buscador a encontrar.
— E por que você se importaria se me pagassem e colocassem um alienígena em mim?
— Porque não seria mais a Zoey. – não falei nada, então ele entendeu que eu não queria mais conversar.
Comi minhas panquecas sem pressa, pensando em como eu ia fazer uma coisa sem ser vista por Terra Branca, ou pior ainda, sem ser pega por algumas Almas enxeridas. Tratei Tedy e o deixei na casa da Árvore, desci as escadas. Eu ainda lembro do caminho como se fosse ontem, graças a invasão eu tenho uma boa memória, se não tenho moro. Cheguei perto da casa, observei, Terra Branca estava lavando a louça, coisa que Jack não fazia, observei ele, e assim fiquei a manhã toda, observando, só me toquei que tinha que ir quando Terra Branca começou a preparar o almoço. Corri de volta para a cabana ele chegou 15 minutos depois.
— Olá Zoey. – não disse oi, como de costume, ele deixou a comida na mesa e ficou me olhando.
— O que foi? – perguntei.
— Não vai perguntar o que tem hoje? – merda, esqueci que pergunto todo dia, por que perguntaria hoje se sei que ele fez bife com arroz e salada?
— Tenho que mudar a rotina um pouco. Obrigada pela comida, Terra Branca.
— Por que você me chama de Terra Branca? Eu deixei esse nome para trás.
— Porque você não é o Jack, então não o chamarei de Jack, seu nome para mim é Terra Branca.
— Eu queria que você parasse de sentir ódio de mim. Não tenho culpa se nasci assim, Zoey.
— Não vou me desculpar, e muito menos parar de sentir ódio de você e de sua espécie. O que eu mais queria era que vocês nunca tivessem vindo para o meu planeta. Jack e minha família eram tudo pra mim, e vocês tiraram tudo de mim! Inclusive meus amigos! Sabe o quanto eu sinto falta deles? – deixei escapar uma lágrima.
— Sinto muito, Zoey. Sinto muito mesmo. – com o polegar ele pegou minha lágrima, olhei em seus olhos, e ele nos meus, perdi a noção do tempo, era isso que Jack causava em mim, perda de sentido. Ele colocou sua mão de leve sobre a minha e sussurrou: — Sinto muito Zoey, eu queria poder trazer eles de volta. – tirei minha mão debaixo da mão dele.
Terra Branca entendeu que devia ir quando abracei minhas pernas e comecei a chorar, antes dele partir pude ver que seus olhos estavam cheios d’água.
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